16 de xuño de 2014

La Aventura del Tocador de Señoras


Eduardo Mendoza
La Aventura del Tocador de Señoras (2001)

La Aventura del Tocador de Señoras (A Aventura do Cabeleireiro de Senhoras) é a terceira novela protagonizada pelo detective anónimo, seguindo-se a O Mistério da Cripta Assombrada e O Labirinto das Azeitonas. Passada em meados dos anos 90 (e aproveitando, de passagem, para fazer uma crítica mordaz ao aparente desenvolvimento material de Barcelona), muitos anos depois das duas primeiras histórias, reencontramos o nosso herói no momento em que é expulso do manicómio, dado como curado às pressas, tal como todos os outros residentes, uma vez que o edifício vai ser demolido para dar lugar a um centro comercial e blocos para habitação. Depois de encontrar um emprego como cabeleireiro, inicia-se a sua nova aventura.
Ao longo da história reencontramos os velhos conhecidos doutor Sugrañes, Cándida e o comissário Flores, a quem o tempo proporcionou grandes mudanças, ao contrário do herói, a quem não notamos grandes alterações, reconhecendo-lhe alguns dos habituais tiques, e outras novas preferências. Com uma linha de pensamento inteligente, um discurso de pendor erudito, o herói faz-nos pensar muitas vezes onde se traçará a linha que divide a sanidade da insanidade. Como ele afirma em determinado ponto «Quem não teve, como eu, o privilégio de passar uma boa parte da sua vida num manicómio, talvez ignore esta grande verdade: todos os que ali estão encerrados apercebem-se claramente da loucura dos outros, mas nenhum da própria.»

Cañuto era un hombre de mediana edad, tirando a viejo. En los años 70 (de nuestra era) había robado varios bancos. No bancos de sentarse, sino oficinas bancarias. Operaba solo, con una media en la cabeza y la otra en el bolsillo (por si acaso), una pistola de juguete y una bomba de verdad. Él decía que era una bomba atómica. A tanto no llegaba, pero de todas formas le daban el dinero sin rechistar. Cuando el robo había sido perpetrado, Cañuto se quitaba la media, pronunciaba unas palabras adecuadas a la ocasión y se iba caminando por la acera. Lo curioso es que tardaron mucho en capturarlo. En su modesta vivienda encontraron la totalidad del dinero robado. No se había gastado ni una peseta y vivía de la caridad pública. Cuando finalmente lo llevaron a juicio, la galopante inflación de aquellos años convulsos había reducido el monto de sus fechorías a una cifra irrisoria. El abogado defensor de Cañuto mostró al tribunal una entrada de cine cuyo precio superaba lo que en tiempos de Cañuto había sido una fortuna. Lo habrían absuelto y puesto de nuevo en la calle si Cañuto no se hubiera empeñado en decir que sus atracos formaban parte de un plan mundial para sembrar el caos, y del cual él, Cañuto, era sólo la punta del iceberg, a la que, por otra parte, se empeñaba en llamar la punta del nabo. Por no saber qué pena imponerle, lo enviaron al manicomio, donde gozaba de justa fama de hombre metódico, riguroso, muy versado en cuestiones bursátiles, y donde yo lo conocí y traté.

Li anteriormente:
El Laberinto de las Aceitunas (1982)
El Misterio de la Cripta Embrujada (1979)
Tres Vidas de Santos (2009)

24 de maio de 2014

A Ilha



Aldous Huxley
A Ilha (1962)

Chegado à ilha de Pala após um naufrágio, Will Farnaby – um jornalista que "nunca aceita o sim como resposta" –, descobre aos poucos uma sociedade isolada que, graças à aliança visionária de um rajá budista nativo e de um expatriado escocês ali arribado um século antes, colocou em marcha uma experiência de engenharia social que frutificou de forma espectacular, "aproveitando o melhor dos dois mundos para criarem o melhor de todos os mundos." Como contraponto ao Admirável Mundo Novo, onde se mostrava um pesadelo distópico, ditatorial, de completa alienação, A Ilha é o seu oposto, a descrição minuciosa de uma quase paradisíaca utopia tropical, nas vésperas de submergir perante os poderosos interesses multinacionais que cobiçam o petróleo existente nas imediações.

— Manter as crianças vivas, tratar os doentes, evitar que os detritos invadam o fornecimento da água são coisas intrinsecamente boas, não há a menor dúvida! Mas aonde conduzem todas essas boas coisas? O resultado é o aumento do número das misérias humanas; é a civilização exposta ao perigo. E esta é a espécie de brincadeira cósmica com que Deus parece realmente se deleitar! — Will dirigiu aos jovens um de seus sorrisos ferozes e agressivos.
— Deus nada tem a ver com isto — retrucou Ranga — e a brincadeira não é cósmica; foi inteiramente elaborada pelo homem. Essas coisas não são como a lei da gravidade ou a segunda lei da termodinâmica. Elas não têm de acontecer. Somente ocorrem se as pessoas são bastante estúpidas para permitirem. Aqui em Pala não o permitimos e, por isso, não brincaram conosco. Há quase um século temos bom sistema sanitário e, apesar disso, não temos excesso de população, não temos miséria e não estamos sob uma ditadura. A razão de tudo isso é muito simples: escolhemos um modo de proceder que é sensato e realista.
— Como conseguiram escolher? — perguntou Will.
— As pessoas a quem cabia decidir foram inteligentes no momento oportuno — disse Ranga. — Mas temos de admitir que a sorte nos ajudou muito. De um modo geral, Pala tem tido uma sorte fora do comum. Em primeiro lugar, pelo fato de nunca ter sido uma colônia. Rendang possui uma baía magnífica. Isso lhes trouxe uma invasão árabe, na Idade Média. Como nós não temos uma baía, os árabes nos deixaram em paz. Continuamos budistas, xivaítas ou simples agnósticos de tantrik.
— Você é um agnóstico de tantrik? — perguntou Will.
— Com um «toque» de mahayana — especificou Ranga. — Mas, voltando à história de Rendang... Depois dos árabes, vieram os portugueses. Em Pala, sem a baía, nada de portugueses. Conseqüentemente, não houve minorias católicas nem a tola blasfêmia que diz ser a vontade de Deus que manda as pessoas se reproduzirem até o grau da miséria subumana. Finalmente, não houve resistência organizada ao controle da natalidade. Essa não foi nossa única bênção. Após duzentos e vinte anos de domínio português, Ceilão e Rendang passaram a ser dominados pelos holandeses e, depois, pelos ingleses. Escapamos de ambas as infestações. Sem os holandeses ou ingleses, não surgiram os plantadores, o trabalho braçal, colheitas pagas à vista e destinadas à exportação. Não houve a exaustão sistemática do nosso solo, não houve uísque, calvinismo, sífilis ou administradores estrangeiros. Permitiram-nos seguir nosso próprio caminho e tomar a responsabilidade de nossos próprios negócios.
— Não há dúvida! Vocês tiveram sorte!

Li anteriormente:
As Portas da Percepção / Céu e Inferno (1954 / 1956)
Admirável Mundo Novo (1932)

12 de maio de 2014

Revolta em 2100


Robert A. Heinlein
Revolta em 2100 (1953)

Revolt in 2100 é composto de uma novela, If This Goes On... (Se Isto Continuar) e dois contos, Coventry e Misfit (O Desajustado), os três originalmente publicados na Astounding Science Fiction entre 1939 e 1940, e pertencentes ao ciclo Future History. Se Isto Continuar (à qual pertence o excerto abaixo apresentado), passa-se na época referida em Os Filhos de Matusalém como «o Interregno dos Profetas», uma tirania teocrática e isolacionista estabelecida nos Estados Unidos; narra, na primeira pessoa, a história de John Lyle, um jovem soldado pertencente à própria guarda pretoriana do Profeta, que, por causa de um amor ilegal, se vê arrastado para a clandestinidade e para a maçonaria, e consequentemente para o combate à ordem que até então aceitava sem questionar.
Coventry, também várias vezes referenciado em Os Filhos de Matusalém, é uma extensa reserva cercada por uma barreira intransponível, onde são largados à sua sorte os associais e criminosos que optam por recusar um tratamento de reajuste psicológico. Coventry descreve a condenação e o desterro de David MacKinnon nesse território, dando simultaneamente uma visão da organização social aí praticada, da importância das relações de poder e de amizade, e da luta pela sobrevivência nessa terra de vida dura.
Em O Desajustado é-nos apresentada a personagem de Andrew Jackson Libby, que desempenha um papel importante Os Filhos de Matusalém, bem como noutros contos de Future History, senhor de uma extraordinária capacidade de cálculo mental, e aqui descrito como «um desses talentos selvagens que aparecem uma vez na vida outra na morte». O Desajustado narra o seu baptismo de espaço, integrado numa missão que tem como objectivo capturar um asteróide, para, depois das necessárias escavações e construções, o transformar numa base a ser colocada entre as órbitas da Terra e Marte.

— Claro que não pretendemos levar ninguém à vingança, pois esta ainda pertence a Deus. Nunca mandaria você contra o Inquisidor porque pudesse estar tentado a alegrar-se pessoalmente com isso. Não usamos a tentação do pecado como isca. O que fazemos, o que estamos fazendo é engajar homens numa operação militar calculada, numa guerra já iniciada. Um homem-chave, às vezes, vale mais do que um regimento; pegamo-lo e matamo-lo. O bispo de uma diocese pode ser tal homem; já o de um outro Estado pode ser apenas um incompetente, sustentado pelo sistema. Matamos o primeiro, deixamos o segundo onde está. Gradativamente, estamos eliminando seus melhores cérebros. Agora — inclinou-se em minha direção — quer um emprego para agarrar esses homens-chave? É um trabalho muito importante.
Pareceu-me que, nesse negócio, sempre havia alguém querendo me fazer encarar os fatos, ao invés de me deixar fugir dos mais desagradáveis, como a maioria das pessoas consegue fazer durante a vida toda. Será que eu teria estômago para essa atribuição? Será que eu podia recusá-la, uma vez que Mestre Peter tinha insinuado que pelo menos os assassinos eram voluntários? Recusá-la e tentar ignorar do fundo do meu coração o que estava acontecendo e como eu estava desculpando tudo?
Mestre Peter tinha razão; o homem que compra carne é irmão do açougueiro. O problema era melindroso, mas não moral... como o homem que é favorável à pena de morte mas que pessoalmente é «bom» demais para preparar o nó da corda ou brandir o machado. Como a pessoa que encara a guerra como inevitável, ou mesmo em certas circunstâncias como moral, mas evita o serviço militar por não gostar de matar.
Emocionalmente infantis, eticamente retardados — a mão esquerda tem de saber o que a direita faz e o coração é responsável por ambas.

Li anteriormente:
Os Filhos de Matusalém (1958)
O Dia Depois de Amanhã (1949)
O Gato que Atravessava as Paredes (1985)

3 de maio de 2014

Amor de Perdição

Camilo Castelo Branco
Amor de Perdição (1862)

É a obra mais conhecida de Camilo Castelo Branco, várias vezes adaptada ao cinema, e, talvez, o mais perfeito exemplo do romantismo na literatura portuguesa. Inspirado por factos reais sucedidos no seio da sua família e, certamente, pela própria experiência pessoal - o autor escreveu a novela na mesma cadeia por onde faz passar um dos protagonistas -, Amor de Perdição é uma variação sobre o tema de Romeu e Julieta: o amor contrariado de Simão Botelho e Teresa Albuquerque, rumo a um desfecho funesto. Julgar que a previsibilidade do enredo retira o prazer da leitura, seria, no entanto, um erro. A escrita viva de Camilo Castelo Branco e os frequentes episódios paralelos (a maledicência das monjas, quando Teresa é enviada para o convento de Viseu, é hilariante), aligeiram o trágico desenrolar da narrativa.

O académico, porém, com os seus entusiasmos, era incomparavelmente muito mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de tragédia. As recordações esporeavam-no a façanhas novas, e naquele tempo a academia dava azo a elas. A mocidade estudiosa, em grande parte, simpatizava com as balbuciantes teorias da liberdade, mais por pressentimento, que por estudo. Os apóstolos da Revolução Francesa não tinham podido fazer reboar o trovão dos seus clamores neste canto do mundo; mas os livros dos enciclopedistas, as fontes onde a geração seguinte bebera a peçonha que saiu do sangue de noventa e três, não eram de todo ignorados. As doutrinas da regeneração social pela guilhotina tinham alguns tímidos sectários em Portugal, e esses de ver é que deviam pertencer à geração nova. Além de que o rancor à Inglaterra lavrava nas entranhas das classes manufactureiras, e o desprender-se do jugo aviltador de estranhos, apertado, desde o princípio do século anterior, com as sogas de ruinosos e pérfidos tratados, estava no ânimo de muitos e bons portugueses que se queriam antes aliançados com a França. Estes eram os pensadores reflexivos; os sectários da academia, porém, exprimiam mais a paixão da novidade que as doutrinas do raciocínio.

Li anteriormente:
A Queda dum Anjo (1866)

1 de maio de 2014

Os Filhos de Matusalém

Robert A. Heinlein
Os Filhos de Matusalém (1958)

O conto Methuselah's Children foi publicado em fascículos em 1941, na revista Astounding Science Fiction, e expandido para a dimensão de novela em 1958. Aqui se introduz a personagem de Lazarus Long, nascido em 1912, que reaparecerá noutras novelas e também nos contos que foram reunidos sob o título Future History.
A Fundação Howard, criada em 1874 e operando discretamente, conseguiu expandir consideravelmente a longevidade humana pela promoção da selecção genética. Em 2136, onze anos depois da exposição pública da experiência, as Famílias Howard, totalizando então cerca de cem mil indivíduos, são alvo de uma onda crescente de discriminação e perseguição, devido à crença geral que o resultado obtido se deve não apenas à genética, mas a um "segredo" tecnológico que eles guardam apenas para si. A situação torna-se tão explosiva que as Famílias Howard se vêm levadas a um êxodo precipitado, a bordo de uma nave recém-construída, na procura de um nova Terra, onde possam viver em paz. Mas o que encontram está longe de ser satisfatório...

— Hum... Andy, quando é que lá chegamos?
Libby encolheu os ombros com desespero. — Não tenho nenhum enquadramento de referência. Que é o tempo sem uma referência de espaço?
Tempo e espaço, inseparáveis e unos... Libby ficou a pensar no assunto muito depois de os outros terem saído. Na verdade, ele tinha o enquadramento da própria nave e por isso havia necessariamente um tempo da nave. Os relógios da nave tiquetaqueavam ou zumbiam ou moviam-se simplesmente; as pessoas tinham fome, alimentavam-se, cansavam-se, descansavam. Os radioactivos deterioravam-se, os processos físico-químicos avançavam para estados de maior entropia, a própria consciência de Libby tinha a percepção da duração.
Mas o pano de fundo das estrelas, contra o qual todas as funções de tempo da história do homem tinham sido medidas, desaparecera. Tanto quanto os seus olhos ou qualquer instrumento da nave lhe podiam dizer, tinham perdido a relação com o resto do universo.
Que universo?
Não havia universo. Desaparecera.
Estariam em movimento? Pode haver movimento quando não há nada para ultrapassar?
Contudo, o falso peso conseguido pela rotação da nave persistia. Rotação em relação a quê?, pensou Libby. Seria que o espaço possuía uma textura verdadeira, absoluta, não relacional própria, como a que fora postulada para o de há muito abandonado éter que as experiências clássicas de Michelson-Morley não tinham conseguido detectar? Não, mais que isso — cuja própria possibilidade de existência tinham negado?
Lá por isso, também tinham negado a possibilidade de uma velocidade superior à da luz. Teria a nave realmente passado a velocidade da luz? Não seria mais provável que ela fosse um caixão, tendo fantasmas por passageiros, dirigindo-se para lugar nenhum em tempo nenhum?

Li anteriormente:
O Dia Depois de Amanhã (1949)
O Gato que Atravessava as Paredes (1985)
Cidadão da Galáxia (1957)

27 de abril de 2014

La Invención de Morel


Adolfo Bioy Casares
La Invención de Morel (1940)

Narrado na primeira pessoa por um condenado a prisão perpétua que procurou refúgio numa pequena ilha isolada e mal afamada - abandonada anos antes mas onde persistem as construções em perfeito estado (o chamado museu, a capela e outras edificações subsidiárias, e, até, energia eléctrica) -, a sua paz é perturbada pela chegada de um grupo de intrusos, que o forçam a ocultar-se. Vigiando-os à distância, acaba por apaixonar-se por Faustine, uma das mulheres do grupo. Aproximando-se dela e falando-lhe, ela ignora-o completamente, tal como as outras pessoas do grupo, quando as circunstâncias o forçam a denunciar a sua presença. Entretanto, ele vê no céu dois sois e duas luas, enquanto vai dando conta da duplicação de outros objectos e situações... Quanto a Morel, um dos intrusos (e como sugere Jorge Luis Borges no prefácio), não terá sido por acaso que o seu nome ressoa o de um outro inventor, numa outra ilha: o Doutor Moreau.

Entre los ruidos, empecé a oír fragmentos de una melodía concisa, muy remota... Dejé de oírla y pensé que había sido como esas figuras que, según Leonardo, aparecen cuando miramos un rato las manchas de humedad. Volvió la música y yo estuve con los ojos nublados, complacido por su armonía, convulso antes de aterrorizarme del todo. Después de un rato fui a la ventana. El agua, blanca en el vidrio, sin brillo, profundamente oscura en el aire, apenas dejaba ver... Tuve una sorpresa tan grande que no me importó asomarme por la puerta abierta.
Aquí viven los héroes del snobismo (o los pensionistas de un manicomio abandonado). Sin espectadores –o soy el público previsto desde el comienzo–, para ser originales cruzan el límite de incomodidad soportable, desafían la muerte. Esto es verídico, no es una invención de mi rencor... Sacaron el fonógrafo que está en el cuarto verde, contiguo al salón del acuario, y, mujeres y hombres, sentados en bancos o en el pasto, conversaban, oían música y bailaban en medio de una tempestad de agua y viento que amenazaba arrancar todos los árboles.

25 de abril de 2014

A Morte de Ivan Ilitch


Leon Tolstoi
A Morte de Ivan Ilitch (1886)


Ivan Ilitch, um homem com uma carreira profissional de sucesso e uma família burguesa perfeitamente integrada na sociedade, confronta-se com a sua própria mortalidade e o efeito que a sua morte, prematura e prenunciada, produz em todos quantos o rodeiam.
Nesta edição incluem-se ainda os contos Senhores e Servos (1895), A Terra de que Precisa um Homem (1886), O Prisioneiro do Cáucaso (1872) e Deus vê a Verdade, mas Custa a Revelar (1872).

O que mais fazia Ivan Ilitch sofrer era a mentira, aquela mentira aceita por todos, não sabia por quê, de que ele se encontrava apenas doente e não moribundo, e que seria suficiente repousar e seguir à risca o tratamento para arribar.
E, no entanto, sabia perfeitamente que, por mais coisas que fizesse, tudo seria inútil e os sofrimentos se prolongariam, ainda mais cruéis, até a morte. E a mentira o atormentava pelo fato de não quererem admitir uma coisa que todos viam claramente, inclusive ele e, descaradamente mentindo, o obrigassem a participar daquela farsa. Aquela mentira, que lhe era pregada nas portas da morte, aquela mentira que rebaixava o solene e terrível desenlace ao nível das suas visitas, das suas cortinas, do esturjão que comera no jantar, era horrivelmente dolorosa para Ivan Ilitch. E, coisa estranha, quando eles à sua volta começavam com tais fingimentos, mil vezes teve vontade de desmascará-los: «Chega de embustes! Vocês sabem, tão bem quanto eu, que estou morrendo! Não quero mais ouvir mentiras!» Mas nunca teve ânimo de fazê-lo.

Li anteriormente:
Guerra e Paz (1869)
Ana Karenina (1878)
Polikuchka, o Enforcado (1863)

21 de abril de 2014

A Ilha do Dia Antes

Umberto Eco
A Ilha do Dia Antes (1994)

Pela voz de um narrador que acedeu aos escritos de Roberto de La Grive, um fidalgo italiano do séc. XVII, ficamos a saber do seu naufrágio e salvamento, após subir a bordo de um outro navio, ancorado e abandonado ao largo de uma ilha nos antípodas. O primeiro terço do livro relata a adolescência de Roberto e a sua experiência no cerco de Casale durante a Guerra dos 30 Anos, bem como as peripécias que depois o levaram à sua situação actual, algures no Pacífico à vista do meridiano 180. Depois do ajuste ao presente narrativo, a história prossegue, guiada sempre pela escrita de Roberto - dedicada à Senhora, Lilia, por quem se apaixonou em Paris - e pelo Romance dentro do Romance (dentro do Romance) com as façanhas de Ferrante, o seu imaginado irmão e némesis negra, como antagonista e rival.
Passado num mundo em transição entre o pensamento medieval e as novas concepções originadas pelos Descobrimentos, o livro explora a aventura do conhecimento humano, em diálogos e reflexões que se debruçam sobre questões intemporais, enquadradas pelos horizontes científicos e metafísicos de há 350 anos.

– Então na verdade não acreditais em Deus?
– Não vejo na natureza nenhum motivo para isso. Nem sou o único. Estrabão diz que os Galicianos não tinham nenhuma noção de um ser superior. Quando os missionários tiveram de falar de Deus aos indígenas das índias Ocidentais, conta-nos Acosta (que no entanto era jesuíta), tiveram de usar a palavra espanhola Dios. Não acreditareis, mas na sua língua não existia nenhum termo adequado. Se a ideia de Deus não é conhecida na natureza, deve portanto tratar-se de uma invenção humana... Mas não me olheis como se eu não tivesse sãos princípios e não fosse um fiel servidor do meu rei. Um verdadeiro filósofo não pretende de modo algum subverter a ordem natural das coisas. Aceita-a. Só pretende que o deixem cultivar os pensamentos que consolam uma alma forte. Para os outros, é uma sorte que existam papas e bispos para reter as multidões da revolta e do crime. A ordem do Estado exige uma uniformidade do comportamento, a religião é necessária ao povo e o sábio deve sacrificar parte da sua independência para que a sociedade se mantenha firme. Quanto a mim, creio que sou um homem probo: sou fiel aos amigos, não minto senão quando faço uma declaração de amor, amo o saber e, pelo que dizem, faço bons versos. Por isso as damas consideram-me galante. Queria escrever romances, que estão muito na moda, mas penso em muitos deles e não me atrevo a escrever nenhum...

Li anteriormente:
O Pêndulo de Foucault (1988)
O Nome da Rosa (1980)

9 de abril de 2014

Merlín y Familia


Álvaro Cunqueiro
Merlín y Familia (1955)

Organizado como um livro de contos (o original galego intitula-se Merlín e familia i outras historias), a primeira parte do livro é passada na segunda metade do século XVIII, em Miranda, algures na Galiza. Pela casa de Merlín passam as mais diversas personagens, vindas de terras distantes, em busca da resolução das suas tribulações com o sobrenatural. Assim, demónios, gnomos, sereias, encantamentos, magias e outras singularidades conexas fazem, com toda naturalidade, parte do quotidiano desta gente, tal como ele é visto pelos olhos de Felipe de Amanda, o jovem pajem do mago.
Na segunda e terceira partes, decorridas anos depois (embora o tempo não seja aqui propriamente linear), já com Merlín ausente, encontramos Felipe a trabalhar como barqueiro em Pacios, no caminho de Santiago, onde ouve as histórias dos viajantes que ali passam, continuando os prodígios e os acontecimentos bizarros. Entre estas histórias há uma versão de Paulo e Virgínia, bem como o relato da vida de Merlín, prévia à sua chegada a Miranda, excluindo a sua passagem pela corte do Rei Artur porque, como se explica, isso consta dos livros de História que se lêem nas escolas.

Creo que no comí aquel día, de tan vagante y temeroso como andaba, y la señora Marcelina me quería sonsacar, y yo callaba, o sacaba otra conversa.
En limpiar el horno, soltar una hora los perros en el soto por culpa de un zorro que nos venía a las gallinas, y echarle un remiendo de latón a una zueca pasó la tarde, y hubo de merienda migas de manteca con huevos, y en anocheciendo, como tenía ordenado, me fui a presentar a don Merlín, que estaba vestido de cazador.
– El encanto que tiene doña Simona –me explicó mi amo–, es de los que se hacen la noche de San Juan, y solamente duran un año; son embrujos pequeños, casi siempre puestos por demonios fornicadores. El demonio que la embrujó ha de volver esta noche, que es tan sonada en el mundo, y ya tengo todo preparado para cazarlo en su intento y azuzarlo por la fraga abajo.
– ¿Y no lo podríamos matar? –pregunté yo, echándomelas de valiente.
– Tanto da, que hasta el fin del mundo, el número de demonios ha de ser siempre el mismo.

Li anteriormente:
Las Crónicas del Sochantre (1956)

28 de marzo de 2014

Os Náufragos do Selene


Arthur C. Clarke
Os Náufragos do Selene (1961)

De Arthur C. Clarke já li mais de uma dúzia de livros. Em todos eles há uma contenção e uma sobriedade que fizeram deste autor um dos meus favoritos, na área da FC. Alguns têm como cenário a Lua. Escritos antes das missões Apollo, descrevem alguns exotismos locais, como, no caso presente, um mar de poeira cujas características são descritas como nem sólidas nem líquidas, com todas as desvantagens de ambos os estados, mas sem nenhuma das vantagens. Curiosa, também, a avaliação do fenómeno OVNI (além de "O Fim da Infância", não me recordo de outro livro de Clarke onde apareça um ser extraterrestre): neste futuro próximo é um tema obscuro, ignorado e ultrapassado, que Clarke localiza nos anos 50 do séc. XX e associa ao sentimento religioso, território de teorias da conspiração e de maníacos.

Todo astronauta acreditava que mais cedo ou mais tarde a raça humana encontraria inteligências vindas de outro lugar. Tal encontro ainda poderia estar muito distante, mas os hipotéticos "extraterrenos" já eram parte da mitologia do espaço e recebiam a culpa de tudo o que não tivesse explicação.
É fácil acreditar neles quando alguém se encontra com um grupo de companheiros em um mundo estranho e hostil, onde as próprias rochas e o ar (se houver ar) são totalmente exóticos. Aí nada pode ser considerado absurdo e a experiência de mil gerações, nascidas na Terra, pode ser inútil. Da mesma forma que o homem primitivo povoara o desconhecido ao seu redor com deuses e espíritos, assim o Homo astronauticus olhava por sobre o ombro, quando pousava em cada novo mundo, perguntando-se quem ou o quê já não estaria por lá. Durante alguns breves séculos o Homem se imaginara senhor do Universo; e essas esperanças e temores primitivos, sepultados em seu subconsciente, estavam agora mais fortes que nunca – e com boa dose de razão enquanto olhava a face brilhante dos céus e pensava nos poderes que estariam à espreita por lá.

Li anteriormente:
Luz da Terra (1955)
Expedição à Terra (1953)
O Outro Lado do Céu (1958)

22 de marzo de 2014

Cala a Minha Boca Com a Tua

Pedro Paixão
A Noiva Judia (1992)
Viver Todos os Dias Cansa (1995)
Nos Teus Braços Morreríamos (1998)
Cala a Minha Boca Com a Tua (2002)


De Pedro Paixão li estes quatro livros de rajada, o que é mais fácil do que possa parecer, pois cada um deles se lê em três horas, ou menos. Os três primeiros reli-os, doze anos depois, e, mais do que antes, os seus curtos textos pareceram-me o equivalente literário do que na astronomia se designa um buraco negro: um ponto de massa infinita e forte atracção gravitacional, do qual nem a luz escapa. O mais recente do lote li-o pela primeira vez, e é um pouco diferente: em vez de um alinhamento de dezenas de pequenos textos, agrupa cinco contos. Nas teorias astronómicas (para continuar com a analogia) também se fala da possibilidade de evaporação de um buraco negro, e aqui esse negrume esmagador está aqui mais diluído. O primeiro excerto é de Nos Teus Braços Morreríamos; o segundo de Cala a Minha Boca Com a Tua.

Já andei meses de cabeça perdida. Já houve um tempo em que me feria fundo a beleza de um corpo. Passei muitas noites sem querer dormir e muitos dias sem querer ver o que estava à minha frente. Vivi com mulheres. Traí e fui traído. Tive um pai e uma mãe como toda a gente, que morreram muito longe de mim. Conheci situações adversas mais vezes do que o bom sucesso. Estive doente e curei-me. Desejei viver e morrer com intensidades tamanhas que certamente por isso se anularam. Conheci o entusiasmo que abate as paredes e o desespero que tudo afoga no escuro. Tudo isso acabou. Tudo isso foi há muito tempo, numa outra espécie de vida. Hoje estou morto. Ninguém espera de mim o que quer que seja, nem saberia encontrar o lugar onde estou. E eu não tenho outra ambição que não seja a de prolongar por algum tempo esta situação privilegiada em que se espreita para o rio da vida com interesse e lucidez acrescidos porque já não se é parte interessada. Nasci em 1923 e ainda não fui enterrado.

O pai tem muitas perguntas para fazer sobre esta cidade enquanto o filho de treze anos, mais alto que todos nós, permanece calado com os olhos abertos por detrás de uns redondos óculos. Fico a saber que nada sei sobre esta cidade e que o senhor simpático viaja civilizadamente com o filho de comboio pelo nosso país. Vive em Nuremberga onde é dono de uma pequena agência imobiliária e alimenta a esperança de se tornar pintor para sempre. Nasceu a meio da guerra que destruiu a Europa e só lê autores franceses, de preferência. Quer saber de que vivemos. Digo-lhe que de dinheiro emprestado. Quer saber o que fazemos. Cito-lhe que depois da Índia descoberta ficámos sem emprego. Quer saber porque somos tão melancólicos e eu insisto que não, que no fundo até somos alegres, que a vida é que é triste e não temos culpa disso. Pergunta-me por uma revolução de rosas. Digo-lhe que se antes sentia nojo agora tenho muitas vezes náusea. Trocamos cartões e prometemos rever-nos no infinito.

18 de marzo de 2014

Contos Completos

Edgar Allan Poe
Contos Completos (1832-1849)

68 contos de Edgar Allan Poe, que representam quase toda a sua obra completa em prosa (completam-na três ou quatro curtos ensaios e o romance Gordon Pym). Mostram também o seu humor e versatilidade, para além da faceta mais conhecida do horror e do fantástico. O excerto que se segue é do conto O Sistema do Doutor Abreu e do Professor Pena.

Seguiu-se um espetáculo da mais terrível confusão. Com grande espanto meu, o Sr Maillard lançou-se para debaixo do aparador. Havia esperado de sua parte mais decisão. Os membros da orquestra que durante os últimos quinze minutos pareciam demasiado bêbados para executar a sua tarefa, ergueram-se todos imediatamente, pegando dos instrumentos, e, trepando em cima de sua mesa, atacaram, num só tom, o Yankee Doodle, que tocaram, se não com harmonia, pelo menos com uma energia sobre-humana, durante todo o tempo do tumulto.
Entretanto, para cima da principal mesa de jantar, entre as garrafas e copos, pulou o homem que com tanta dificuldade fora impedido de pular para cima dela antes. Logo que se instalou comodamente, começou um discurso que, sem dúvida, teria achado excelente, se pudesse ter sido ouvido. No mesmo momento, o homem que tinha predileção pelos piões se pôs a girar pela sala, com imensa energia, e com os braços estendidos em ângulo reto com o corpo, de modo que tinha o ar completo dum verdadeiro pião, derrubando qualquer corpo que acontecia estar em seu caminho. E então, ouvindo também um inacreditável estouro e espumejar de champanha, descobri, afinal, que provinham da pessoa que, durante o jantar, desempenhara o papel de garrafa de tão delicada bebida. E depois, novamente, o homem-rã coaxava como se a salvação de sua alma dependesse de cada nota que emitia. E, no meio de tudo isto, o contínuo zurrar dum jumento a tudo dominava. Quanto à minha velha amiga, Madame Joyeuse fazer chorar o seu aspecto de terrível perplexidade. Tudo quanto fazia era ficar a um canto, junto da lareira, e cantar o mais alto que podia: «Có-coró-cóóó!»

Li anteriormente:
As Aventuras de Arthur Gordon Pym (1837)

16 de xaneiro de 2014

Servidão Humana



W. Somerset Maugham
Servidão Humana (1915)

É a minha estreia na obra de Somerset Maugham, pelo seu título mais conhecido. Cheio de referências à pintura e à literatura, descreve uma autêntica descida aos infernos da alma, na pessoa de Philip Carey, e a forma como ele, conscientemente, toma as decisões que sabe serem erradas. Vi também, pouco depois, Of Human Bondage, de John Cromwell, filme de 1936, com Leslie Howard e Bette Davis (foi nomeada para um Oscar por este seu desempenho). Sem pôr em causa os méritos dos actores, a adaptação é uma desilusão (adaptar um livro de quase 600 páginas a um filme que não chega a uma hora e meia é uma tarefa ingrata e uma batalha perdida à partida); retalha completamente o livro e mal assoma a profundidade das personagens.

Philip reuniu forças para receber Mildred, sem dar o menor sinal do que sentia. Teve o impulso de cair de joelhos, tomar-lhe as mãos e implorar-lhe que não partisse; mas sabia não haver meio de dissuadi-la. Contaria a Griffiths o que ele dissera e a maneira como se portara. Teve vergonha.
– Então, que me dizes da viagem? – perguntou jovialmente.
– Estamos prontos. Harry está lá fora. Disse-lhe que tu não querias vê-lo e por isso não lhe apareceste. Mas quer saber se pode entrar só por um minuto, para dizer adeus.
– Não. Não desejo vê-lo – respondeu Philip.
Compreendia que a Mildred pouco importava que ele falasse ou não com Griffiths. Agora que estava ali, queria que ela se fosse depressa.
– Olha, aqui tens as cinco libras. Gostaria agora que te fosses.
Ela pegou na nota e agradeceu. Voltou-se para sair.
– Quando voltas? – perguntou ele.
– Ah... segunda-feira. Harry precisa de ir para casa da família.
Philip sabia que o que ia dizer era humilhante, mas estava acabrunhado pelo ciúme e pelo desejo.
– Então, ver-te-ei na volta, não?
Não pôde evitar que a sua voz tomasse um tom de súplica.
– Naturalmente. Avisar-te-ei logo que volte.
Apertaram-se as mãos. Por entre as cortinas da janela, viu Mildred saltar para o trem estacionado diante da porta. Este pôs-se em movimento. Philip atirou-se para cima da cama e escondeu o rosto nas mãos. Sentiu que as lágrimas lhe vinham aos olhos e teve raiva a si próprio; cerrou as mãos e inteiriçou o corpo para se conter; mas não conseguiu e grandes soluços de dor irromperam-lhe do peito.

5 de xaneiro de 2014

Patagonia Express


Luis Sepúlveda
Patagonia Express (1995)

Livro de viagens em vários pontos da América do Sul, que não apenas a Patagónia, de cariz autobiográfico. Se é só a realidade, esta ultrapassa a ficção; ou, para usar um conhecido provérbio italiano, se não é verdade, é bem contado...

Mientras la cocinera calentaba una cacerola con leche, el tipo me observó de arriba abajo y, al hacerlo, sonreía de una manera bastante cínica.
– Ver para creer –dijo soltando una carcajada.
– ¿Le parezco divertido?
– Para ser sincero, me parece mucho más que eso; me parece pendejo.
– Párele, compadre. Yo no lo conozco y usted me insulta. ¿Puedo saber por qué?
– No le digas nada, José. No te metas en líos –aconsejó la cocinera.
– ¡Carajo! Alguien tiene que decírselo.
– Decirme, ¿qué?
Entonces el tipo se incorporó, caminó hasta la puerta, y desde allí me hizo señas para que lo siguiera. Sin salir del estupor miré a la cocinera.
– Vaya con él, patrón. Parece mentira, pero usted no sabe nada de lo que pasa.
Salimos a la fría noche del páramo. Con otro gesto el tipo me indicó que íbamos a la caballeriza. Una vez ahí, me ofreció asiento en un cajón y me alargó una botella.
– Échese un trago. Creo que lo necesita.
Bebí. Sentí que me destrozaba las tripas. Aquello era "puro", el alcohol más fuerte que sueltan los trapiches. Tosí mientras el tipo me daba golpecitos en la espalda.
– Perdone que lo tratara de pendejo, amigo. Es que se lo merece.
– Conforme. ¿Tiene un cigarrillo para pasar el veneno?
De un bolsillo de la camisa sacó dos cigarros largos, me ofreció uno, y al darme fuego me miró a los ojos como se mira a un imbécil.
– Bueno, desembuche de una vez.
– Lo están cebando, amigo. Como a un puerco.
– No le entiendo una palabra.
– ¡Ay, señor, ten piedad de los pendejos! Lo están cebando, amigo, pero no para llevarlo al matadero. Lo van a casar.

Li anteriormente:
Nombre de Torero (1994)
Un Viejo que Leía Novelas de Amor (1989)

2 de xaneiro de 2014

Los Funerales de la Mamá Grande


Gabriel García Márquez
Los Funerales de la Mamá Grande (1962)


Depois de reler, desta vez na versão original, La Mala Hora (Horas Más) e El Coronel no Tiene Quien le Escriba (Ninguém Escreve ao Coronel), prossegui com este Los Funerales de la Mamá Grande (Os Funerais da Mamã Grande). Os três livros partilham personagens, locais e acontecimentos e formam como que uma espécie de prólogo aos Cem Anos de Solidão.

El gran día era venido. En las calles congestionadas de ruletas, fritangas y mesas de lotería, y hombres con culebras enrolladas en el cuello que pregonaban el bálsamo definitivo para curar la erisipela y asegurar la vida eterna; en la placita abigarrada donde las muchedumbres habían colgado sus toldos y desenrollado sus petates, apuestos ballesteros despejaron el paso a la autoridad. Allí estaban, en espera del momento supremo, las lavanderas del San Jorge, los pescadores de perla del Cabo de Vela, los atarrayeros de Ciénega, los camaroneros de Tasajera, los brujos de la Mojana, los salineros de Manaure, los acordeoneros de Valledupar, los chalanes de Ayapel, los papayeros de San Pelayo, los mamadores de gallo de La Cueva, los improvisadores de las Sabanas de Bolívar, los camajanes de Rebolo, los bogas del Magdalena, los tinterillos de Mompox, además de los que se enumeran al principio de esta crónica, y muchos otros. Hasta los veteranos del coronel Aureliano Buendía –el duque de Marlborough a la cabeza, con su atuendo de pieles y uñas y dientes de tigre– se sobrepusieron a su rencor centenario por la Mamá Grande y los de su especie, y vinieron a los funerales, para solicitar del presidente de la república el pago de las pensiones de guerra que esperaban desde hacía sesenta años.

Li anteriormente:
El Coronel no Tiene Quien le Escriba (1961)
La Mala Hora (1962)
La Hojarasca (1955)