25 de agosto de 2014

Lendas de Portugal, vol. 2


Gentil Marques
Lendas de Portugal, vol. 2 (1963)

Segundo volume desta recolha de lendas populares, dedicado este às Lendas Heróicas. O excerto citado pertence à Lenda das Chaves do Castelo de Coimbra. Esta lenda passa-se após o termo do reinado de D. Sancho II, na sequência da guerra civil de 1245-47, que o opôs ao seu irmão e sucessor D. Afonso III. D. Sancho II, após tentativa de reforço da centralização monárquica do poder, foi vítima de uma conspiração destinada a depô-lo que contou com a cumplicidade do clero e do papado, que o excomungou e ostracizou. O rei deposto morreu no ano seguinte no seu exílio de Toledo, que serve de cenário a esta cena final.

Vendo-o, D. Gil Martins ergueu-se.
– Grande honra tenho em receber-vos!
Martim de Freitas pareceu não ligar ao cumprimento e perguntou em tom grave:
– El-rei D. Sancho II é morto?
Baixando a cabeça, o fidalgo confirmou.
– Sim... é morto. Que Deus tenha a sua alma em descanso!
– Vistes o seu corpo sem vida?
– Deus reservou-me mais esse desgosto!
– Pois quero eu vê-lo também.
D. Gil Martins elevou a estatura num gesto de surpresa.
– Que dizeis, D. Martim de Freitas?
Solene, o visitante confirmou:
– O que acabais de ouvir, senhor. Quero vê-lo e desempenhar-me da minha última missão.
– É assim tão urgente e... necessário?
– Sim. Trago comigo as chaves do castelo de Coimbra. Preciso que el-rei me desobrigue do meu juramento antes que o rei Afonso tome conta delas.
De olhos abertos num espanto, D. Gil Martins olhava o visitante, perguntando a si próprio se o prolongado cerco a que D. Martim de Freitas se sujeitara não dera cabo do seu entendimento. Mas logo o fidalgo, que parecia ter adivinhado as conjecturas do seu interlocutor, pôs ponto final nessas mudas interrogações.
– Senhor, creio que fui bem explícito. O que peço é justo e não pode ser-me negado!
Lá fora, a chuva miúda, impertinente, punha lama nos caminhos. E a tarde morria, com a pressa de quem não tem nem deixa saudades.
O dia que nasceu depois daquele em que Martim de Freitas chegara a Toledo não era menos triste. A chuva deixara por momentos de cair mas o vento viera substituí-la. Um vento gritante, que punha arrepios nas almas inquietas.
No cemitério, um pequeno grupo olhava com ar de assombro, e por vezes entre as lágrimas, a figura altiva de D. Martim de Freitas, agora ajoelhado junto da sepultura do que fora seu rei e rei de Portugal. O corpo estava exposto. O fidalgo português curvou-se e, entre as mãos cruzadas sobre o peito do defunto, depôs as chaves do castelo de Coimbra. Beijou-lhe as pontas dos dedos. Depois ergueu-se e falou:
– Meu rei e senhor! Enquanto vivestes, sofri pela vossa causa as maiores privações, dissimulando sempre, para dar conforto e ânimo aos meus companheiros. E assim eles continuaram no castelo que é vosso e continuaram honradamente aguentando por vós. Cumpri o meu juramento de lealdade, Senhor! Porém, agora que sois morto e não posso já entregar-vos a cidade, quero ao menos fazer-vos a entrega destas chaves para que, desobrigando-me vós, eu possa apresentá-las a vosso irmão, o conde D. Afonso, como renúncia vossa e não como triunfo de suas armas!...
Fez-se um pesado silêncio após estas palavras, cadenciadas, solenes. Havia emoção em todos os rostos desses homens habituados às agruras da guerra. Depois, silenciosamente ainda, as chaves do castelo de Coimbra foram retiradas das mãos do rei morto e a sua sepultura fechada para sempre.
Assim ficava encerrado, também, um feito de lealdade que jamais as chuvas, o vento, o pó ou a lama dos caminhos poderão destruir, apesar do esforço do tempo!

Li anteriormente:
Lendas de Portugal, vol. 1 (1962)

23 de agosto de 2014

The Moon Is A Harsh Mistress

Robert A. Heinlein
The Moon Is A Harsh Mistress (1966)

Traduzido em português com o título Revolta na Lua (porquê mudar para um título tão árido quando o original é tão evocativo?), este livro do ciclo Future History, ao qual me tenho dedicado recentemente, trata da sublevação que levou à independência de Luna, até então uma simples colónia das Nações Federadas da Terra.
Partindo do pressuposto de um computador tão expandido e melhorado nas suas capacidades que, um dia, se torna auto-consciente, com a sua capacidade de análise e previsão alerta para um futuro negro que ameaça a colónia lunar a curto prazo, a menos que toda a sua gestão seja radicalmente modificada. É essa luta, desde a constituição de uma rede clandestina e adopção de tácticas subversivas, passando pela revolução e guerra da independência, até ao reconhecimento da soberania, que constitui a narrativa desta obra, vencedora do Prémio Hugo em 1967.
O referido pressuposto continua um tema actual; muitos se têm questionado se o contínuo acréscimo de computadores à rede, onde cada um deles equivale a um neurónio, eventualmente poderá levar à auto-consciência da própria internet...

One man demanded to know why, since we paid no taxes, we colonists thought we had a right to run things our own way? After all, those colonies had been established by Federated Nations—by some of them. It had been terribly expensive. Earth had paid all bills—and now you colonists enjoy benefits and pay not one dime of taxes. Was that fair?
I wanted to tell him to blow it. But Prof had again made me take a tranquilizer and had required me to swot that endless list of answers to trick questions. "Lets take that one at a time," I said. "First, what is it you want us to pay taxes for? Tell me what I get and perhaps I'll buy it. No, put it this way. Do you pay taxes?"
"Certainly I do! And so should you."
"And what do you get for your taxes?"
"Huh? Taxes pay for government."
I said, "Excuse me, I'm ignorant. I've lived my whole life in Luna, I don't know much about your government. Can you feed it to me in small pieces? What do you get for your money?"
They all got interested and anything this aggressive little choom missed, others supplied. I kept a list. When they stopped, I read it back: "Free hospitals—aren't any in Luna. Medical insurance—we have that but apparently not what you mean by it. If a person wants insurance, he goes to a bookie and works b-Out a bet. You can hedge anything, for a price. I don't hedge my health, I'm healthy. Or was till I came here. We have a public library, one Carnegie Foundation started with a few book films. It gets along by charging fees. Public roads. I suppose that would be our tubes. But they are no more free than air is free. Sorry, you have free air here, don't you? I mean our tubes were built by companies who put up money and are downright nasty about expecting it back and then some. Public schools. There are schools in all warrens and I never heard of them turning away pupils, so I guess they are 'public.' But they pay well, too, because anyone in Luna who knows something useful and is willing to teach it charges all the traffic will bear."
I went on: "Let's see what else—Social security. I'm not sure what that is but whatever it is, we don't have it. Pensions. You can buy a pension. Most people don't; most families are large and old people, say a hundred and up, either fiddle along at something they like, or sit and watch video. Or sleep. They sleep a lot, after say a hundred and twenty."
[...] I looked at list. "I'll lump the rest of this together by saying we don't have any of it in Luna, so I can't see any reason to pay taxes for it. On that other point, sir, surely you know that the initial cost of the colonies has long since been repaid several times over through grain shipments alone? We are being bled white of our most essential resources... and not even being paid an open-market price. That's why the Lunar Authority is being stubborn; they intend to go on bleeding us. The idea that Luna has been an expense to Terra and the investment must be recovered is a lie invented by the Authority to excuse their treating us as slaves. The truth is that Luna has not cost Terra one dime this century—and the original investment has long since been paid back."

Li anteriormente:
Stranger in a Strange Land (1961)
O Homem que Vendeu a Lua (1951)
Revolta em 2100 (1953)

7 de agosto de 2014

Aparição

Vergílio Ferreira
Aparição (1959)

Narrado na primeira pessoa por Alberto Soares, um professor colocado em Évora - provavelmente um alter-ego do autor, também ele professor -, Aparição é uma ruminação existencialista sobre as suas dúvidas pessoais. Como comenta uma outra personagem, quando o narrador compra uma casa isolada - esse é o sítio ideal para ele: "Está isolado, pode meditar em sossego sobre o espantoso milagre de estar vivo e o incrível absurdo da morte."

Saí enfim para a noite, Chico saiu comigo. E, enquanto subíamos a rua, falou-me de si, falou-me de Évora. Estava ali há cinco anos, era engenheiro, trabalhava na Direcção dos Monumentos. Évora era uma cidade absurda, reaccionária, empanturrada de ignorância e de soberba. Em Évora – tinham-lhe dito um dia – não se podia ter mais do que a quarta classe nem menos que 300 porcos.
– Qualquer iniciativa cultural é logo abafada de desprezo e de banha.
O peso da Idade Média enegrecia ainda as almas, e os mouros também. Ter meia dúzia de amantes era para aqueles sultões um sinal de abundância. E havia damas que durante anos não saíam à rua, ou saíam apenas pela Semana Santa. Muitas casas tinham jardins. Pois visse eu se os descobria. Cercavam-nos de muros altos como a toda a sua vida. Criar relações em Évora era um milagre. Tudo ali tinha muralhas: a sociabilidade, os jardins e, enfim, a própria cidade. Mas de vez em quando aquela gente ia a Lisboa. E então era vê-la desabafar: casinos, teatros, ceias. Depois recolhiam ao mosteiro. Havia damas que nunca se viam na rua. Vira-as ele, Chico, fumando e bebendo no Estoril. Évora era a Quaresma e Lisboa o Carnaval. Ora bem, ele, Chico, e alguns amigos não desistiam de importunar a embófia gorda daqueles senhores. Falhara em tempos o Círculo de Cultura Musical. Falhara o Cinema Clássico. Mas iam atacar outra vez. Agora, com uma série de conferências na Harmonia. Poderia eu colaborar?
Vagueámos pela cidade morta, de arcadas desertas.
Disse enfim ao caloroso homem:
– Ignoro tudo de Évora. Mas sinto que você exagera. Por ora sei apenas que é uma cidade fantástica. E quanto às conferências, decerto estou pronto a colaborar.

Li anteriormente:
Manhã Submersa (1954)

4 de agosto de 2014

Lendas de Portugal, vol. 1

Gentil Marques
Lendas de Portugal, vol. 1 (1962)

O primeiro de cinco volumes de recolha de lendas populares portuguesas, recontadas por Gentil Marques numa linguagem simples e acessível. O primeiro tomo é dedicado às Lendas dos Nomes das Terras. O excerto que se segue pertence à Lenda do Bom Jardim dos Coelhos, relativa ao solar de Sergude, em Felgueiras.

Estremeceu. Um suspiro fundo fê-lo voltar a cabeça. Parecia ter ouvido soluçar baixinho. Talvez fosse o ruído das árvores, receosas da noite invernal que não tardaria. Andou uns passos mais e entrou na clareira florida que ficava ao cimo da álea dos lilases. E o seu coração quase parou. Uma dama envolta num véu espesso e cinzento parecia chorar, encostada a uma frondosa árvore. Gonçalo aproximou-se mais. Ela parecia não dar pela presença do jovem. Ele falou-lhe num tom de delicada surpresa:
– Senhora! Em que pode servir-vos o meu braço?
A dama levantou a cabeça. Sem pressas. Altivamente. E logo a baixou de novo, num gesto súbito. Gonçalo não pôde ver-lhe a expressão do rosto com nitidez. Mas a sua voz, estranhamente em surdina, chegou aos seus ouvidos:
– Deixai-me só, jovem fidalgo! Preciso descansar.
Ele porém insistiu, levado pela surpresa de ver no seu solar uma dama desconhecida:
– Perdoai, mas... gostaria de saber como chegastes até aqui.
– Andando... como vós!...
– Sois visita da nossa casa?
– Conheço-vos há muito!
– E poderei saber quem sois?
A dama do véu cinzento silenciou um breve instante, mas respondeu por fim:
– Dir-vos-ei apenas que alguém do vosso sangue muito mal me causou!
Gonçalo Coelho mostrou-se ainda mais surpreendido:
– Alguém do meu sangue? E quem?
A dama não respondeu. Ao longe soou uma gargalhada fresca. Ruído de vozes denunciavam a presença distante de um grupo turbulento.
Como que numa desculpa, o jovem fidalgo olhou o local donde partira a gargalhada e disse apenas:
– Brincam e riem sem preocupações...
Voltou a dama a falar, sentenciosamente:
– A jovem que ora ri, talvez chore dentro de pouco tempo!
Gonçalo elucidou:
– A jovem a quem vos referis, senhora, é minha prima-irmã, D. Leonor de Alvim.
Houve um ligeiro assentimento de cabeça da parte da dama velada:
– Eu sei. E com ela passar-se-á algo de misterioso... depois de casar...
– Sabeis então que Leonor vai casar com Vasco Gonçalves Barroso?
– Sim... mas enviuvará ainda donzela.
A surpresa subiu ao auge na expressão de Gonçalo Coelho.
– Que dizeis? Não pertence ao passado nem ao presente tal acontecimento!
A dama pareceu sorrir.
– Mas pertence a um futuro muito próximo.
– Como o sabeis?
– É fácil para quem vê o mundo como eu o vejo... mesmo através deste meu véu espesso...
Então Gonçalo, num impulso instintivo, avançou até junto da dama desconhecida. Mas não lhe tocou. Pediu apenas:
– Senhora! Dizei-me quem sois e porque estais aqui!
Ela não respondeu. Ergueu o busto e pareceu absorta na contemplação da paisagem. A aragem corria fresca, fazendo bater a ramagem das árvores. Gonçalo tentou quebrar o mutismo em que a sua interlocutora parecia querer refugiar-se.
– Decerto não ignorais que estais no solar da família de Pêro Coelho...
A dama fez com a cabeça um sinal afirmativo e declarou:
– Venho aqui todos os anos neste dia.
Depois houve uma pausa. E logo uma pergunta lenta:
– Sabeis que dia é hoje?
– Se o sei! Sete de Janeiro...
A desconhecida interrompeu com um gesto a palavra de Gonçalo.
– Não vale a pena ficardes preso a dolorosas recordações. Calai então o dia de hoje. Ide folgar com vossos irmãos e primas, senhor fidalgo! Ide, Gonçalo Pires Coelho, e deixai-me só!
Gonçalo inclinou-se com galhardia.
– Senhora! De modo algum devo esquecer que estais no solar dos Coelhos. Melhor direi, como dizia o senhor meu pai, no «Bom Jardim dos Coelhos»...
– Calai-vos, por favor... Hoje é um mau jardim... Será sempre um mau jardim, no dia de hoje!
A voz dele revestiu-se de espanto sincero.
– Não vos compreendo, senhora! Pretendo apenas receber-vos como mandam as regras da fidalguia.
A misteriosa dama voltou a suspirar. Pareceu de novo interessada pela paisagem. Mas, voltando-se de repente para o jovem Gonçalo, pediu com voz ansiosa:
– Se querei, de facto, fazer-me grande mercê, deixai-me só até ao fim deste dia. Não consenti que mais alguém venha perturbar o meu repouso. Fazei cientes disto a todos desta casa: uma vez em cada ano, durante as horas do sol-posto, virei aqui. E peço-vos por tudo: que ninguém ouse perturbar esta minha visita. Ninguém... sob pena de grandes desgraças! Sob pena mesmo do vosso solar deixar de ser um Bom Jardim e transformar-se, para sempre, num Mau Jardim...
Gonçalo olhou com assombro a dama velada.
– Que estranhas as vossas palavras, senhora! Poderei, ao menos, saber quem sois?
Numa voz repassada de sofrimento, a dama desconhecida declarou:
– Pois já que o desejais saber, senhor fidalgo... chamo-me Inês!
Um arrepio forte percorreu o corpo de Gonçalo Pires Coelho. Olhou melhor a singular figura, como a querer descobri-la através dos seus véus espessos, e pareceu-lhe encontrar traços de um rosto que vira em alguns retratos.
Inês! – pensava ele, na turbulenta confusão do seu espírito... – Seria possível? Estaria em presença de uma alma penada? Para ele, seu pai nunca fora um assassino e sim um fervoroso adorador da sua pátria, que supusera em perigo. Seu pai era recto e bom para com os outros! Se tinha insistido na morte de Inês de Castro, fora apenas para salvar dos Castelhanos o seu querido Portugal, por quem tantos heróis se tinham batido. Mas Inês, decerto, não pensaria assim. E seria mesmo Inês? Apavorado, Gonçalo Coelho fez uma longa vénia e retrocedeu sem mais olhar para trás, deixando a dama sozinha...

2 de agosto de 2014

Stranger In A Strange Land



Robert A. Heinlein
Stranger In A Strange Land (1961)

Stranger In A Strange Land (Um Estranho Numa Terra Estranha) foi várias vezes traduzido em português: pelo menos três vezes no Brasil e duas em Portugal (em 1975 na Colecção Argonauta da Livros do Brasil, e em 1981 pela Europa-América). Estas traduções seguem a versão publicada em 1961, mas, após a morte de Heinlein, foi recuperado o manuscrito original, bastante mais extenso, e que tinha sido reduzido, a pedido do editor de 220 mil para 160 mil palavras. A partir de 1991 foram publicadas as versões integrais desse texto, patrocinadas por Virginia Heinlein, viúva do escritor. Perante isto fiz questão de ler o original inglês, apesar de me obrigar a um esforço extra, mesmo sabendo que, na opinião dos críticos, o trabalho de edição (feito pelo próprio autor, recorde-se) não deixara de fora nada de importante, susceptível de abalar ou desvirtuar a estrutura da obra.
Stranger In A Strange Land, vencedor do Prémio Hugo em 1962, é a obra mais conceituada de Heinlein, uma das referências principais do universo FC, e, pelos finais dessa década tornar-se-ia numa das bíblias do movimento hippy pelas suas ideias iconoclastas, pela oposição aos poderes instituídos, pela apologia do amor livre e em grupo, bem como pela veiculação de um tipo de misticismo que então calava fundo.
Livro polémico desde a primeira edição, Stranger In A Strange Land, conta a história de Michael Smith, um humano nascido e criado em Marte, isolado de outros seres humanos mas em contacto com uma civilização avançada, e das suas dificuldades de integração uma vez trazido de regresso à Terra. Através de Jubal Harshaw, escritor e advogado - e a personagem mais elaborada e aprofundada do livro - somos levados por diálogos e digressões acerca de política, sociologia, arte e, sobretudo, religião. Um livro enorme... não apenas pela sua extensão.

"[...] three pieces of sculpture in an hour is more than enough— usually I don't let myself look at more than one in a day."
"Suits. I feel as if I had had three quick drinks on an empty stomach. Jubal, why isn't there stuff like this around where a person can see it?"
"Because the world has gone nutty and contemporary art always paints the spirit of its times. Rodin did his major work in the tail end of the nineteenth century and Hans Christian Andersen antedated him by only a few years. Rodin died early in the twentieth century, about the time the world started flipping its lid... and art along with it.
"Rodin's successors noted the amazing things he had done with light and shadow and mass and composition—whether you see it or not—and they copied that much. Oh, how they copied it! And extended it. What they failed to see was that every major work of the master told a story and laid bare the human heart. Instead, they got involved with 'design' and became contemptuous of any painting or sculpture that told a story—sneering, they dubbed such work 'literary'—a dirty word. They went all out for abstractions, not deigning to paint or carve anything that resembled the human world."
Jubal shrugged. "Abstract design is all right—for wall paper or linoleum. But art is the process of evoking pity and terror, which is not abstract at all but very human. What the self-styled modern artists are doing is a sort of unemotional pseudo-intellectual masturbation... whereas creative art is more like intercourse, in which the artist must seduce—render emotional—his audience, each time. These laddies who won't deign to do that—and perhaps can't—of course lost the public. If they hadn't lobbied for endless subsidies, they would have starved or been forced to go to work long ago. Because the ordinary bloke will not voluntarily pay for 'art' that leaves him unmoved—if he does pay for it, the money has to be conned out of him, by taxes or such."

Li anteriormente:
O Homem que Vendeu a Lua (1951)
Revolta em 2100 (1953)
Os Filhos de Matusalém (1958)

1 de xullo de 2014

A Insustentável Leveza do Ser

Milan Kundera
A Insustentável Leveza do Ser (1984)

A condição de exilado político de Milan Kundera, a Primavera de Praga, e as reflexões sobre a situação da sua Checoslováquia natal para lá da Cortina de Ferro, são temas comuns aos três livros que dele li, tal como a particularidade de todos seguirem uma estrutura de divisão em sete partes. Em A Insustentável Leveza do Ser, originalmente editado em França sob o título L'Insoutenable Légèreté de l'Être, entrecruzam-se as histórias de Tomas, Tereza, Franz e Sabina (os nomes simples das personagens principais, outros há que não têm nome, ou são referidos por uma inicial) entremeadas de política, filosofia e sexo, em percursos espirais que integram factos já referidos noutro lado, tecendo assim uma narrativa em avanços e recuos, que ganha consistência à medida que se desenrola.
Este tipo de argumento (s)existencialista, já me agradou mais do que actualmente, o que não significa que não tenha lido esta obra com prazer. Do livro retenho sobretudo a sua Sexta Parte, nomeadamente nos primeiros pontos sobre as implicações teológicas e filosóficas da merda, e logo depois com uma explanação do kitsch como ideal estético; impagável!

Os crimes do Império Russo foram sempre perpetrados ao abrigo de uma discreta penumbra. Tanto da deportação de meio milhão de lituanos e da morte de centenas de milhares de polacos, como da liquidação dos tártaros da Crimeia não restaram provas fotográficas nenhumas, ficando tais acontecimentos gravados apenas na memória como algo de indemonstrável que, mais cedo ou mais tarde, se faria passar como uma mistificação. A invasão da Checoslováquia em 1968 foi, pelo contrário, fotografada, filmada e arrumada nos arquivos do mundo inteiro.
Os fotógrafos e operadores de câmara checos souberam aproveitar a oportunidade que se lhes oferecia de fazer a única coisa que ainda podia ser feita: preservar para o futuro longínquo a imagem da violação. Tereza passou esses sete dias na rua a fotografar soldados e oficiais russos nas mais diversas situações, todas comprometedoras. Os russos foram apanhados desprevenidos. Tinham recebido instruções precisas quanto à atitude a adoptar no caso de serem atacados com armas ou com pedras, mas ninguém lhes indicara como reagir perante a objectiva de uma máquina fotográfica.
Gastou centenas de negativos a tirar fotografias. Deu mais ou menos metade dos rolos a jornalistas estrangeiros (as fronteiras continuavam abertas, os jornalistas estrangeiros estavam sempre a chegar, pelo menos para uma curta estada quase só de ida e volta, e aceitavam reconhecidamente o menor documento). Muitas das fotografias de Tereza apareceram no estrangeiro, nos mais variados jornais: eram fotografias de tanques, de punhos ameaçadores, de prédios destruídos, de mortos cobertos com bandeiras tricolores, de jovens a andar de moto a toda a velocidade à volta dos carros de assalto, agitando grandes paus com bandeiras checas na ponta, e de rapariguinhas muito novas com mini-saias incrivelmente curtas que provocavam os infelizes soldados russos sexualmente esfaimados, beijando, sob os seus narizes, o primeiro desconhecido que passasse. A invasão russa, voltamos a insistir, não foi apenas uma tragédia; foi também uma festa do ódio cuja estranha euforia nunca ninguém poderá compreender.

Li anteriormente:
A Brincadeira (1967)
O Livro do Riso e do Esquecimento (1979)

25 de xuño de 2014

Um Gosto e Seis Vinténs


W. Somerset Maugham
Um Gosto e Seis Vinténs (1919)

O narrador, um jovem com pretensões a escritor que se move em círculos artístico-literários, dá-nos a conhecer a história de Charles Strickland, um corretor londrino já entrado nos quarentas que, inopinadamente, decide abandonar a mulher e os filhos adolescentes para se mudar para Paris, em busca da sua realização como pintor, apesar de nada fazer supor o seu interesse pela arte. O narrador segue no seu encalço, a pedido da Sra. Strickland, para o fazer mudar de ideias; do seu contacto com Strickland, que mal conhecera enquanto frequentara a sua casa de Londres, e das suas peripécias em Paris e, posteriormente, através das descrições de terceiros, da sua passagem por Marselha e, finalmente, pela sua vida no Taiti, constrói-se o argumento de Um Gosto e Seis Vinténs (The Moon and Sixpence). A descrição de Strickland e da sua pintura foi sem dúvida inspirada na personalidade de Paul Gaugin; mas, curiosamente, na relação de Dirk Stroeve e sua mulher Blanche - duas personagens secundárias que emolduram o episódio parisiense - voltamos a encontrar o tipo de ligação doentia e humilhante que serviu de tema a Servidão Humana.

– Stroeve – disse eu.
Ele teve um ligeiro sobressalto, e então sorriu, mas o sorriso era triste.
– Por que está andando dessa maneira? – perguntei jovialmente.
– Faz muito tempo que não vinha ao Louvre. Resolvi vir e dar uma olhada para ver se havia algo de novo.
– Mas você falou que devia terminar um quadro esta semana.
– Strickland está pintando no meu estúdio.
– E daí?
– Fui eu que sugeri isso. Ainda não está forte o suficiente para voltar para o lugar dele. Achei que nós dois podíamos pintar juntos. Tem vários artistas no Quartier que dividem o estúdio. Achei que seria divertido. Sempre achei que seria agradável ter alguém com quem conversar quando se está cansado de trabalhar.
Disse isso lentamente, destacando frase por frase com um silêncio estranho, e mantinha os olhos tolos fixos nos meus. Estavam cheios de lágrimas.
– Acho que não entendi – disse eu.
– Strickland não sabe trabalhar com mais ninguém no estúdio.
– Ora, porra, é o seu estúdio. Isso é problema dele.
Ele me olhou tristemente. Seus lábios tremiam.
– O que aconteceu? – perguntei asperamente.
Ele hesitou e ficou vermelho. Olhou, infeliz, para um dos quadros da parede.
– Não me deixou continuar a pintar. Mandou-me sair.
– Mas por que você não o mandou pró inferno?
– Ele me empurrou pra fora. Eu não podia lutar com ele. Jogou meu chapéu atrás de mim e fechou a porta.
Apesar de furioso com Strickland e indignado comigo mesmo, eu tinha vontade de rir, pois Dirk Stroeve estava uma figura muito ridícula.
– Mas o que disse sua mulher?
– Ela saiu para fazer compras.
– Ele vai deixá-la entrar?
– Não sei.
Olhei para Stroeve, perplexo. Ele estava parado à minha frente como um colegial repreendido pelo professor.
– Quer que eu bote Strickland pra fora pra você? – perguntei.
Ele deu um pulo, e seu rosto brilhante ficou muito vermelho.
– Não. É melhor você não fazer nada.
Bateu a cabeça e saiu dali. Estava claro que por alguma razão ele não queria discutir o assunto. Não entendi.

Li anteriormente:
Servidão Humana (1915)

19 de xuño de 2014

O Homem que Vendeu a Lua


Robert A. Heinlein
O Homem que Vendeu a Lua (1951)

Escrito em 1949 e publicado dois anos depois, The Man Who Sold the Moon, que faz também parte do ciclo Future History, passa-se nos anos setenta e narra a história de Delos D. Harriman, um rico e inovador homem de negócios que investe tudo quanto tem, arrastando consigo alguns sócios renitentes, no sonho de fazer a primeira viagem à Lua.
Espelho da sua época, este livro transpira a confiança inabalável dos estado-unidenses na superioridade da sua cultura, na inevitabilidade de um futuro moldado à sua vontade, na certeza absoluta de quem sabe que está do lado certo da História. A vontade ao serviço de uma ideia, neste livro, fez-me lembrar o Da Terra à Lua, de Jules Verne, que li há 35 anos. Mas, em vez da motivação técnica e científica novecentista que movia os associados do Gun Club, aqui a ideia é mesmo fazer dinheiro, muito dinheiro.
De resto é o mesmo afã na resolução dos problemas técnicos, o mesmo espírito de pioneirismo de alguém que pretende fazer História. Curiosamente, sendo este um livro de FC, a narrativa centra-se no antes e no depois: a viagem à Lua propriamente dita, e o seu regresso, dão-se num par de curtos parágrafos. O ponto de interesse são todos os imbróglios legais, direitos, concessões, contratos, fontes de financiamento, impasses, oportunidades, manipulações e golpadas, descritos num ritmo vertiginoso e arrebatador.

Kamens apareceu, mas apenas quando lhe pareceu conveniente. Uns minutos mais tarde, Harriman explicava-lhe a sua ideia de reclamar direitos sobre a Lua, antes de lá pôr os pés.
— Para além dessas empresas testa-de-ferro — prosseguiu —, precisamos de uma agência que possa receber contribuições sem ter de admitir ter qualquer interesse financeiro da parte do contribuidor. Uma coisa assim como a National Geographic Society.
Kamens abanou a cabeça.
— Não se pode comprar a National Geographic Society.
— Raios partam, mas quem disse que a íamos comprar? Montamos uma nossa.
— Era isso que eu ia dizer.
— Ainda bem. Da forma como vejo isto, precisamos de pelo menos uma empresa isenta de impostos, não-lucrativa, dirigida pelas pessoas certas; e nós manteremos o controlo dos votos, evidentemente. Provavelmente, precisaremos de mais do que uma; montá-las-emos à medida que formos precisando. E precisaremos de ter pelo menos uma empresa normal, não isenta de impostos... Mas que não mostrará lucros até estarmos prontos para isso. A ideia é deixar que a empresa não-lucrativa tenha todo o prestígio e toda a publicidade... enquanto a outra recebe todos os lucros, se e quando houver. Fazemos girar o património entre empresas, sempre por razões perfeitamente válidas, de forma a que as empresas não-lucrativas paguem as despesas enquanto avançamos. Agora que penso nisso, será melhor termos pelo menos duas empresas normais, para que possamos deixar uma delas ir à falência, se isso for necessário para sacudir a água do capote. Isto é o esboço em geral. Deita mãos à obra e trata de que seja tudo legal, se não te importas.
Kamens respondeu:
— Sabes, Delos... Seria tudo muito mais honesto se simplesmente o fizesses de caçadeira em punho.
— Um advogado a falar-me de honestidade! Deixa lá, Saul... Não vou mesmo ludibriar ninguém, na verdade...
— Hum...
— ...E vou apenas fazer uma viagem à Lua. Será isso que toda a gente irá pagar; e será isso que terão. Agora trata de tudo para que seja tudo legal, vá, sê um bom rapaz.
— Faz-me lembrar qualquer coisa que o advogado do Vanderbilt mais velho disse ao velhote em circunstâncias semelhantes: «Está tão bonito tal como está! Porquê estragar tudo tornando-o legal?». Mas tudo bem, irmão pirata, eu trato de armar a tua ratoeira. Mais alguma coisa?

Li anteriormente:
Revolta em 2100 (1953)
Os Filhos de Matusalém (1958)
O Dia Depois de Amanhã (1949)

16 de xuño de 2014

La Aventura del Tocador de Señoras


Eduardo Mendoza
La Aventura del Tocador de Señoras (2001)

La Aventura del Tocador de Señoras (A Aventura do Cabeleireiro de Senhoras) é a terceira novela protagonizada pelo detective anónimo, seguindo-se a O Mistério da Cripta Assombrada e O Labirinto das Azeitonas. Passada em meados dos anos 90 (e aproveitando, de passagem, para fazer uma crítica mordaz ao aparente desenvolvimento material de Barcelona), muitos anos depois das duas primeiras histórias, reencontramos o nosso herói no momento em que é expulso do manicómio, dado como curado às pressas, tal como todos os outros residentes, uma vez que o edifício vai ser demolido para dar lugar a um centro comercial e blocos para habitação. Depois de encontrar um emprego como cabeleireiro, inicia-se a sua nova aventura.
Ao longo da história reencontramos os velhos conhecidos doutor Sugrañes, Cándida e o comissário Flores, a quem o tempo proporcionou grandes mudanças, ao contrário do herói, a quem não notamos grandes alterações, reconhecendo-lhe alguns dos habituais tiques, e outras novas preferências. Com uma linha de pensamento inteligente, um discurso de pendor erudito, o herói faz-nos pensar muitas vezes onde se traçará a linha que divide a sanidade da insanidade. Como ele afirma em determinado ponto «Quem não teve, como eu, o privilégio de passar uma boa parte da sua vida num manicómio, talvez ignore esta grande verdade: todos os que ali estão encerrados apercebem-se claramente da loucura dos outros, mas nenhum da própria.»

Cañuto era un hombre de mediana edad, tirando a viejo. En los años 70 (de nuestra era) había robado varios bancos. No bancos de sentarse, sino oficinas bancarias. Operaba solo, con una media en la cabeza y la otra en el bolsillo (por si acaso), una pistola de juguete y una bomba de verdad. Él decía que era una bomba atómica. A tanto no llegaba, pero de todas formas le daban el dinero sin rechistar. Cuando el robo había sido perpetrado, Cañuto se quitaba la media, pronunciaba unas palabras adecuadas a la ocasión y se iba caminando por la acera. Lo curioso es que tardaron mucho en capturarlo. En su modesta vivienda encontraron la totalidad del dinero robado. No se había gastado ni una peseta y vivía de la caridad pública. Cuando finalmente lo llevaron a juicio, la galopante inflación de aquellos años convulsos había reducido el monto de sus fechorías a una cifra irrisoria. El abogado defensor de Cañuto mostró al tribunal una entrada de cine cuyo precio superaba lo que en tiempos de Cañuto había sido una fortuna. Lo habrían absuelto y puesto de nuevo en la calle si Cañuto no se hubiera empeñado en decir que sus atracos formaban parte de un plan mundial para sembrar el caos, y del cual él, Cañuto, era sólo la punta del iceberg, a la que, por otra parte, se empeñaba en llamar la punta del nabo. Por no saber qué pena imponerle, lo enviaron al manicomio, donde gozaba de justa fama de hombre metódico, riguroso, muy versado en cuestiones bursátiles, y donde yo lo conocí y traté.

Li anteriormente:
El Laberinto de las Aceitunas (1982)
El Misterio de la Cripta Embrujada (1979)
Tres Vidas de Santos (2009)

24 de maio de 2014

A Ilha



Aldous Huxley
A Ilha (1962)

Chegado à ilha de Pala após um naufrágio, Will Farnaby – um jornalista que "nunca aceita o sim como resposta" –, descobre aos poucos uma sociedade isolada que, graças à aliança visionária de um rajá budista nativo e de um expatriado escocês ali arribado um século antes, colocou em marcha uma experiência de engenharia social que frutificou de forma espectacular, "aproveitando o melhor dos dois mundos para criarem o melhor de todos os mundos." Como contraponto ao Admirável Mundo Novo, onde se mostrava um pesadelo distópico, ditatorial, de completa alienação, A Ilha é o seu oposto, a descrição minuciosa de uma quase paradisíaca utopia tropical, nas vésperas de submergir perante os poderosos interesses multinacionais que cobiçam o petróleo existente nas imediações.

— Manter as crianças vivas, tratar os doentes, evitar que os detritos invadam o fornecimento da água são coisas intrinsecamente boas, não há a menor dúvida! Mas aonde conduzem todas essas boas coisas? O resultado é o aumento do número das misérias humanas; é a civilização exposta ao perigo. E esta é a espécie de brincadeira cósmica com que Deus parece realmente se deleitar! — Will dirigiu aos jovens um de seus sorrisos ferozes e agressivos.
— Deus nada tem a ver com isto — retrucou Ranga — e a brincadeira não é cósmica; foi inteiramente elaborada pelo homem. Essas coisas não são como a lei da gravidade ou a segunda lei da termodinâmica. Elas não têm de acontecer. Somente ocorrem se as pessoas são bastante estúpidas para permitirem. Aqui em Pala não o permitimos e, por isso, não brincaram conosco. Há quase um século temos bom sistema sanitário e, apesar disso, não temos excesso de população, não temos miséria e não estamos sob uma ditadura. A razão de tudo isso é muito simples: escolhemos um modo de proceder que é sensato e realista.
— Como conseguiram escolher? — perguntou Will.
— As pessoas a quem cabia decidir foram inteligentes no momento oportuno — disse Ranga. — Mas temos de admitir que a sorte nos ajudou muito. De um modo geral, Pala tem tido uma sorte fora do comum. Em primeiro lugar, pelo fato de nunca ter sido uma colônia. Rendang possui uma baía magnífica. Isso lhes trouxe uma invasão árabe, na Idade Média. Como nós não temos uma baía, os árabes nos deixaram em paz. Continuamos budistas, xivaítas ou simples agnósticos de tantrik.
— Você é um agnóstico de tantrik? — perguntou Will.
— Com um «toque» de mahayana — especificou Ranga. — Mas, voltando à história de Rendang... Depois dos árabes, vieram os portugueses. Em Pala, sem a baía, nada de portugueses. Conseqüentemente, não houve minorias católicas nem a tola blasfêmia que diz ser a vontade de Deus que manda as pessoas se reproduzirem até o grau da miséria subumana. Finalmente, não houve resistência organizada ao controle da natalidade. Essa não foi nossa única bênção. Após duzentos e vinte anos de domínio português, Ceilão e Rendang passaram a ser dominados pelos holandeses e, depois, pelos ingleses. Escapamos de ambas as infestações. Sem os holandeses ou ingleses, não surgiram os plantadores, o trabalho braçal, colheitas pagas à vista e destinadas à exportação. Não houve a exaustão sistemática do nosso solo, não houve uísque, calvinismo, sífilis ou administradores estrangeiros. Permitiram-nos seguir nosso próprio caminho e tomar a responsabilidade de nossos próprios negócios.
— Não há dúvida! Vocês tiveram sorte!

Li anteriormente:
As Portas da Percepção / Céu e Inferno (1954 / 1956)
Admirável Mundo Novo (1932)

12 de maio de 2014

Revolta em 2100


Robert A. Heinlein
Revolta em 2100 (1953)

Revolt in 2100 é composto de uma novela, If This Goes On... (Se Isto Continuar) e dois contos, Coventry e Misfit (O Desajustado), os três originalmente publicados na Astounding Science Fiction entre 1939 e 1940, e pertencentes ao ciclo Future History. Se Isto Continuar (à qual pertence o excerto abaixo apresentado), passa-se na época referida em Os Filhos de Matusalém como «o Interregno dos Profetas», uma tirania teocrática e isolacionista estabelecida nos Estados Unidos; narra, na primeira pessoa, a história de John Lyle, um jovem soldado pertencente à própria guarda pretoriana do Profeta, que, por causa de um amor ilegal, se vê arrastado para a clandestinidade e para a maçonaria, e consequentemente para o combate à ordem que até então aceitava sem questionar.
Coventry, também várias vezes referenciado em Os Filhos de Matusalém, é uma extensa reserva cercada por uma barreira intransponível, onde são largados à sua sorte os associais e criminosos que optam por recusar um tratamento de reajuste psicológico. Coventry descreve a condenação e o desterro de David MacKinnon nesse território, dando simultaneamente uma visão da organização social aí praticada, da importância das relações de poder e de amizade, e da luta pela sobrevivência nessa terra de vida dura.
Em O Desajustado é-nos apresentada a personagem de Andrew Jackson Libby, que desempenha um papel importante Os Filhos de Matusalém, bem como noutros contos de Future History, senhor de uma extraordinária capacidade de cálculo mental, e aqui descrito como «um desses talentos selvagens que aparecem uma vez na vida outra na morte». O Desajustado narra o seu baptismo de espaço, integrado numa missão que tem como objectivo capturar um asteróide, para, depois das necessárias escavações e construções, o transformar numa base a ser colocada entre as órbitas da Terra e Marte.

— Claro que não pretendemos levar ninguém à vingança, pois esta ainda pertence a Deus. Nunca mandaria você contra o Inquisidor porque pudesse estar tentado a alegrar-se pessoalmente com isso. Não usamos a tentação do pecado como isca. O que fazemos, o que estamos fazendo é engajar homens numa operação militar calculada, numa guerra já iniciada. Um homem-chave, às vezes, vale mais do que um regimento; pegamo-lo e matamo-lo. O bispo de uma diocese pode ser tal homem; já o de um outro Estado pode ser apenas um incompetente, sustentado pelo sistema. Matamos o primeiro, deixamos o segundo onde está. Gradativamente, estamos eliminando seus melhores cérebros. Agora — inclinou-se em minha direção — quer um emprego para agarrar esses homens-chave? É um trabalho muito importante.
Pareceu-me que, nesse negócio, sempre havia alguém querendo me fazer encarar os fatos, ao invés de me deixar fugir dos mais desagradáveis, como a maioria das pessoas consegue fazer durante a vida toda. Será que eu teria estômago para essa atribuição? Será que eu podia recusá-la, uma vez que Mestre Peter tinha insinuado que pelo menos os assassinos eram voluntários? Recusá-la e tentar ignorar do fundo do meu coração o que estava acontecendo e como eu estava desculpando tudo?
Mestre Peter tinha razão; o homem que compra carne é irmão do açougueiro. O problema era melindroso, mas não moral... como o homem que é favorável à pena de morte mas que pessoalmente é «bom» demais para preparar o nó da corda ou brandir o machado. Como a pessoa que encara a guerra como inevitável, ou mesmo em certas circunstâncias como moral, mas evita o serviço militar por não gostar de matar.
Emocionalmente infantis, eticamente retardados — a mão esquerda tem de saber o que a direita faz e o coração é responsável por ambas.

Li anteriormente:
Os Filhos de Matusalém (1958)
O Dia Depois de Amanhã (1949)
O Gato que Atravessava as Paredes (1985)

3 de maio de 2014

Amor de Perdição

Camilo Castelo Branco
Amor de Perdição (1862)

É a obra mais conhecida de Camilo Castelo Branco, várias vezes adaptada ao cinema, e, talvez, o mais perfeito exemplo do romantismo na literatura portuguesa. Inspirado por factos reais sucedidos no seio da sua família e, certamente, pela própria experiência pessoal - o autor escreveu a novela na mesma cadeia por onde faz passar um dos protagonistas -, Amor de Perdição é uma variação sobre o tema de Romeu e Julieta: o amor contrariado de Simão Botelho e Teresa Albuquerque, rumo a um desfecho funesto. Julgar que a previsibilidade do enredo retira o prazer da leitura, seria, no entanto, um erro. A escrita viva de Camilo Castelo Branco e os frequentes episódios paralelos (a maledicência das monjas, quando Teresa é enviada para o convento de Viseu, é hilariante), aligeiram o trágico desenrolar da narrativa.

O académico, porém, com os seus entusiasmos, era incomparavelmente muito mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de tragédia. As recordações esporeavam-no a façanhas novas, e naquele tempo a academia dava azo a elas. A mocidade estudiosa, em grande parte, simpatizava com as balbuciantes teorias da liberdade, mais por pressentimento, que por estudo. Os apóstolos da Revolução Francesa não tinham podido fazer reboar o trovão dos seus clamores neste canto do mundo; mas os livros dos enciclopedistas, as fontes onde a geração seguinte bebera a peçonha que saiu do sangue de noventa e três, não eram de todo ignorados. As doutrinas da regeneração social pela guilhotina tinham alguns tímidos sectários em Portugal, e esses de ver é que deviam pertencer à geração nova. Além de que o rancor à Inglaterra lavrava nas entranhas das classes manufactureiras, e o desprender-se do jugo aviltador de estranhos, apertado, desde o princípio do século anterior, com as sogas de ruinosos e pérfidos tratados, estava no ânimo de muitos e bons portugueses que se queriam antes aliançados com a França. Estes eram os pensadores reflexivos; os sectários da academia, porém, exprimiam mais a paixão da novidade que as doutrinas do raciocínio.

Li anteriormente:
A Queda dum Anjo (1866)

1 de maio de 2014

Os Filhos de Matusalém

Robert A. Heinlein
Os Filhos de Matusalém (1958)

O conto Methuselah's Children foi publicado em fascículos em 1941, na revista Astounding Science Fiction, e expandido para a dimensão de novela em 1958. Aqui se introduz a personagem de Lazarus Long, nascido em 1912, que reaparecerá noutras novelas e também nos contos que foram reunidos sob o título Future History.
A Fundação Howard, criada em 1874 e operando discretamente, conseguiu expandir consideravelmente a longevidade humana pela promoção da selecção genética. Em 2136, onze anos depois da exposição pública da experiência, as Famílias Howard, totalizando então cerca de cem mil indivíduos, são alvo de uma onda crescente de discriminação e perseguição, devido à crença geral que o resultado obtido se deve não apenas à genética, mas a um "segredo" tecnológico que eles guardam apenas para si. A situação torna-se tão explosiva que as Famílias Howard se vêm levadas a um êxodo precipitado, a bordo de uma nave recém-construída, na procura de um nova Terra, onde possam viver em paz. Mas o que encontram está longe de ser satisfatório...

— Hum... Andy, quando é que lá chegamos?
Libby encolheu os ombros com desespero. — Não tenho nenhum enquadramento de referência. Que é o tempo sem uma referência de espaço?
Tempo e espaço, inseparáveis e unos... Libby ficou a pensar no assunto muito depois de os outros terem saído. Na verdade, ele tinha o enquadramento da própria nave e por isso havia necessariamente um tempo da nave. Os relógios da nave tiquetaqueavam ou zumbiam ou moviam-se simplesmente; as pessoas tinham fome, alimentavam-se, cansavam-se, descansavam. Os radioactivos deterioravam-se, os processos físico-químicos avançavam para estados de maior entropia, a própria consciência de Libby tinha a percepção da duração.
Mas o pano de fundo das estrelas, contra o qual todas as funções de tempo da história do homem tinham sido medidas, desaparecera. Tanto quanto os seus olhos ou qualquer instrumento da nave lhe podiam dizer, tinham perdido a relação com o resto do universo.
Que universo?
Não havia universo. Desaparecera.
Estariam em movimento? Pode haver movimento quando não há nada para ultrapassar?
Contudo, o falso peso conseguido pela rotação da nave persistia. Rotação em relação a quê?, pensou Libby. Seria que o espaço possuía uma textura verdadeira, absoluta, não relacional própria, como a que fora postulada para o de há muito abandonado éter que as experiências clássicas de Michelson-Morley não tinham conseguido detectar? Não, mais que isso — cuja própria possibilidade de existência tinham negado?
Lá por isso, também tinham negado a possibilidade de uma velocidade superior à da luz. Teria a nave realmente passado a velocidade da luz? Não seria mais provável que ela fosse um caixão, tendo fantasmas por passageiros, dirigindo-se para lugar nenhum em tempo nenhum?

Li anteriormente:
O Dia Depois de Amanhã (1949)
O Gato que Atravessava as Paredes (1985)
Cidadão da Galáxia (1957)

27 de abril de 2014

La Invención de Morel


Adolfo Bioy Casares
La Invención de Morel (1940)

Narrado na primeira pessoa por um condenado a prisão perpétua que procurou refúgio numa pequena ilha isolada e mal afamada - abandonada anos antes mas onde persistem as construções em perfeito estado (o chamado museu, a capela e outras edificações subsidiárias, e, até, energia eléctrica) -, a sua paz é perturbada pela chegada de um grupo de intrusos, que o forçam a ocultar-se. Vigiando-os à distância, acaba por apaixonar-se por Faustine, uma das mulheres do grupo. Aproximando-se dela e falando-lhe, ela ignora-o completamente, tal como as outras pessoas do grupo, quando as circunstâncias o forçam a denunciar a sua presença. Entretanto, ele vê no céu dois sois e duas luas, enquanto vai dando conta da duplicação de outros objectos e situações... Quanto a Morel, um dos intrusos (e como sugere Jorge Luis Borges no prefácio), não terá sido por acaso que o seu nome ressoa o de um outro inventor, numa outra ilha: o Doutor Moreau.

Entre los ruidos, empecé a oír fragmentos de una melodía concisa, muy remota... Dejé de oírla y pensé que había sido como esas figuras que, según Leonardo, aparecen cuando miramos un rato las manchas de humedad. Volvió la música y yo estuve con los ojos nublados, complacido por su armonía, convulso antes de aterrorizarme del todo. Después de un rato fui a la ventana. El agua, blanca en el vidrio, sin brillo, profundamente oscura en el aire, apenas dejaba ver... Tuve una sorpresa tan grande que no me importó asomarme por la puerta abierta.
Aquí viven los héroes del snobismo (o los pensionistas de un manicomio abandonado). Sin espectadores –o soy el público previsto desde el comienzo–, para ser originales cruzan el límite de incomodidad soportable, desafían la muerte. Esto es verídico, no es una invención de mi rencor... Sacaron el fonógrafo que está en el cuarto verde, contiguo al salón del acuario, y, mujeres y hombres, sentados en bancos o en el pasto, conversaban, oían música y bailaban en medio de una tempestad de agua y viento que amenazaba arrancar todos los árboles.

25 de abril de 2014

A Morte de Ivan Ilitch


Leon Tolstoi
A Morte de Ivan Ilitch (1886)


Ivan Ilitch, um homem com uma carreira profissional de sucesso e uma família burguesa perfeitamente integrada na sociedade, confronta-se com a sua própria mortalidade e o efeito que a sua morte, prematura e prenunciada, produz em todos quantos o rodeiam.
Nesta edição incluem-se ainda os contos Senhores e Servos (1895), A Terra de que Precisa um Homem (1886), O Prisioneiro do Cáucaso (1872) e Deus vê a Verdade, mas Custa a Revelar (1872).

O que mais fazia Ivan Ilitch sofrer era a mentira, aquela mentira aceita por todos, não sabia por quê, de que ele se encontrava apenas doente e não moribundo, e que seria suficiente repousar e seguir à risca o tratamento para arribar.
E, no entanto, sabia perfeitamente que, por mais coisas que fizesse, tudo seria inútil e os sofrimentos se prolongariam, ainda mais cruéis, até a morte. E a mentira o atormentava pelo fato de não quererem admitir uma coisa que todos viam claramente, inclusive ele e, descaradamente mentindo, o obrigassem a participar daquela farsa. Aquela mentira, que lhe era pregada nas portas da morte, aquela mentira que rebaixava o solene e terrível desenlace ao nível das suas visitas, das suas cortinas, do esturjão que comera no jantar, era horrivelmente dolorosa para Ivan Ilitch. E, coisa estranha, quando eles à sua volta começavam com tais fingimentos, mil vezes teve vontade de desmascará-los: «Chega de embustes! Vocês sabem, tão bem quanto eu, que estou morrendo! Não quero mais ouvir mentiras!» Mas nunca teve ânimo de fazê-lo.

Li anteriormente:
Guerra e Paz (1869)
Ana Karenina (1878)
Polikuchka, o Enforcado (1863)

21 de abril de 2014

A Ilha do Dia Antes

Umberto Eco
A Ilha do Dia Antes (1994)

Pela voz de um narrador que acedeu aos escritos de Roberto de La Grive, um fidalgo italiano do séc. XVII, ficamos a saber do seu naufrágio e salvamento, após subir a bordo de um outro navio, ancorado e abandonado ao largo de uma ilha nos antípodas. O primeiro terço do livro relata a adolescência de Roberto e a sua experiência no cerco de Casale durante a Guerra dos 30 Anos, bem como as peripécias que depois o levaram à sua situação actual, algures no Pacífico à vista do meridiano 180. Depois do ajuste ao presente narrativo, a história prossegue, guiada sempre pela escrita de Roberto - dedicada à Senhora, Lilia, por quem se apaixonou em Paris - e pelo Romance dentro do Romance (dentro do Romance) com as façanhas de Ferrante, o seu imaginado irmão e némesis negra, como antagonista e rival.
Passado num mundo em transição entre o pensamento medieval e as novas concepções originadas pelos Descobrimentos, o livro explora a aventura do conhecimento humano, em diálogos e reflexões que se debruçam sobre questões intemporais, enquadradas pelos horizontes científicos e metafísicos de há 350 anos.

– Então na verdade não acreditais em Deus?
– Não vejo na natureza nenhum motivo para isso. Nem sou o único. Estrabão diz que os Galicianos não tinham nenhuma noção de um ser superior. Quando os missionários tiveram de falar de Deus aos indígenas das índias Ocidentais, conta-nos Acosta (que no entanto era jesuíta), tiveram de usar a palavra espanhola Dios. Não acreditareis, mas na sua língua não existia nenhum termo adequado. Se a ideia de Deus não é conhecida na natureza, deve portanto tratar-se de uma invenção humana... Mas não me olheis como se eu não tivesse sãos princípios e não fosse um fiel servidor do meu rei. Um verdadeiro filósofo não pretende de modo algum subverter a ordem natural das coisas. Aceita-a. Só pretende que o deixem cultivar os pensamentos que consolam uma alma forte. Para os outros, é uma sorte que existam papas e bispos para reter as multidões da revolta e do crime. A ordem do Estado exige uma uniformidade do comportamento, a religião é necessária ao povo e o sábio deve sacrificar parte da sua independência para que a sociedade se mantenha firme. Quanto a mim, creio que sou um homem probo: sou fiel aos amigos, não minto senão quando faço uma declaração de amor, amo o saber e, pelo que dizem, faço bons versos. Por isso as damas consideram-me galante. Queria escrever romances, que estão muito na moda, mas penso em muitos deles e não me atrevo a escrever nenhum...

Li anteriormente:
O Pêndulo de Foucault (1988)
O Nome da Rosa (1980)

9 de abril de 2014

Merlín y Familia


Álvaro Cunqueiro
Merlín y Familia (1955)

Organizado como um livro de contos (o original galego intitula-se Merlín e familia i outras historias), a primeira parte do livro é passada na segunda metade do século XVIII, em Miranda, algures na Galiza. Pela casa de Merlín passam as mais diversas personagens, vindas de terras distantes, em busca da resolução das suas tribulações com o sobrenatural. Assim, demónios, gnomos, sereias, encantamentos, magias e outras singularidades conexas fazem, com toda naturalidade, parte do quotidiano desta gente, tal como ele é visto pelos olhos de Felipe de Amanda, o jovem pajem do mago.
Na segunda e terceira partes, decorridas anos depois (embora o tempo não seja aqui propriamente linear), já com Merlín ausente, encontramos Felipe a trabalhar como barqueiro em Pacios, no caminho de Santiago, onde ouve as histórias dos viajantes que ali passam, continuando os prodígios e os acontecimentos bizarros. Entre estas histórias há uma versão de Paulo e Virgínia, bem como o relato da vida de Merlín, prévia à sua chegada a Miranda, excluindo a sua passagem pela corte do Rei Artur porque, como se explica, isso consta dos livros de História que se lêem nas escolas.

Creo que no comí aquel día, de tan vagante y temeroso como andaba, y la señora Marcelina me quería sonsacar, y yo callaba, o sacaba otra conversa.
En limpiar el horno, soltar una hora los perros en el soto por culpa de un zorro que nos venía a las gallinas, y echarle un remiendo de latón a una zueca pasó la tarde, y hubo de merienda migas de manteca con huevos, y en anocheciendo, como tenía ordenado, me fui a presentar a don Merlín, que estaba vestido de cazador.
– El encanto que tiene doña Simona –me explicó mi amo–, es de los que se hacen la noche de San Juan, y solamente duran un año; son embrujos pequeños, casi siempre puestos por demonios fornicadores. El demonio que la embrujó ha de volver esta noche, que es tan sonada en el mundo, y ya tengo todo preparado para cazarlo en su intento y azuzarlo por la fraga abajo.
– ¿Y no lo podríamos matar? –pregunté yo, echándomelas de valiente.
– Tanto da, que hasta el fin del mundo, el número de demonios ha de ser siempre el mismo.

Li anteriormente:
Las Crónicas del Sochantre (1956)

28 de marzo de 2014

Os Náufragos do Selene


Arthur C. Clarke
Os Náufragos do Selene (1961)

De Arthur C. Clarke já li mais de uma dúzia de livros. Em todos eles há uma contenção e uma sobriedade que fizeram deste autor um dos meus favoritos, na área da FC. Alguns têm como cenário a Lua. Escritos antes das missões Apollo, descrevem alguns exotismos locais, como, no caso presente, um mar de poeira cujas características são descritas como nem sólidas nem líquidas, com todas as desvantagens de ambos os estados, mas sem nenhuma das vantagens. Curiosa, também, a avaliação do fenómeno OVNI (além de "O Fim da Infância", não me recordo de outro livro de Clarke onde apareça um ser extraterrestre): neste futuro próximo é um tema obscuro, ignorado e ultrapassado, que Clarke localiza nos anos 50 do séc. XX e associa ao sentimento religioso, território de teorias da conspiração e de maníacos.

Todo astronauta acreditava que mais cedo ou mais tarde a raça humana encontraria inteligências vindas de outro lugar. Tal encontro ainda poderia estar muito distante, mas os hipotéticos "extraterrenos" já eram parte da mitologia do espaço e recebiam a culpa de tudo o que não tivesse explicação.
É fácil acreditar neles quando alguém se encontra com um grupo de companheiros em um mundo estranho e hostil, onde as próprias rochas e o ar (se houver ar) são totalmente exóticos. Aí nada pode ser considerado absurdo e a experiência de mil gerações, nascidas na Terra, pode ser inútil. Da mesma forma que o homem primitivo povoara o desconhecido ao seu redor com deuses e espíritos, assim o Homo astronauticus olhava por sobre o ombro, quando pousava em cada novo mundo, perguntando-se quem ou o quê já não estaria por lá. Durante alguns breves séculos o Homem se imaginara senhor do Universo; e essas esperanças e temores primitivos, sepultados em seu subconsciente, estavam agora mais fortes que nunca – e com boa dose de razão enquanto olhava a face brilhante dos céus e pensava nos poderes que estariam à espreita por lá.

Li anteriormente:
Luz da Terra (1955)
Expedição à Terra (1953)
O Outro Lado do Céu (1958)

22 de marzo de 2014

Cala a Minha Boca Com a Tua

Pedro Paixão
A Noiva Judia (1992)
Viver Todos os Dias Cansa (1995)
Nos Teus Braços Morreríamos (1998)
Cala a Minha Boca Com a Tua (2002)


De Pedro Paixão li estes quatro livros de rajada, o que é mais fácil do que possa parecer, pois cada um deles se lê em três horas, ou menos. Os três primeiros reli-os, doze anos depois, e, mais do que antes, os seus curtos textos pareceram-me o equivalente literário do que na astronomia se designa um buraco negro: um ponto de massa infinita e forte atracção gravitacional, do qual nem a luz escapa. O mais recente do lote li-o pela primeira vez, e é um pouco diferente: em vez de um alinhamento de dezenas de pequenos textos, agrupa cinco contos. Nas teorias astronómicas (para continuar com a analogia) também se fala da possibilidade de evaporação de um buraco negro, e aqui esse negrume esmagador está aqui mais diluído. O primeiro excerto é de Nos Teus Braços Morreríamos; o segundo de Cala a Minha Boca Com a Tua.

Já andei meses de cabeça perdida. Já houve um tempo em que me feria fundo a beleza de um corpo. Passei muitas noites sem querer dormir e muitos dias sem querer ver o que estava à minha frente. Vivi com mulheres. Traí e fui traído. Tive um pai e uma mãe como toda a gente, que morreram muito longe de mim. Conheci situações adversas mais vezes do que o bom sucesso. Estive doente e curei-me. Desejei viver e morrer com intensidades tamanhas que certamente por isso se anularam. Conheci o entusiasmo que abate as paredes e o desespero que tudo afoga no escuro. Tudo isso acabou. Tudo isso foi há muito tempo, numa outra espécie de vida. Hoje estou morto. Ninguém espera de mim o que quer que seja, nem saberia encontrar o lugar onde estou. E eu não tenho outra ambição que não seja a de prolongar por algum tempo esta situação privilegiada em que se espreita para o rio da vida com interesse e lucidez acrescidos porque já não se é parte interessada. Nasci em 1923 e ainda não fui enterrado.

O pai tem muitas perguntas para fazer sobre esta cidade enquanto o filho de treze anos, mais alto que todos nós, permanece calado com os olhos abertos por detrás de uns redondos óculos. Fico a saber que nada sei sobre esta cidade e que o senhor simpático viaja civilizadamente com o filho de comboio pelo nosso país. Vive em Nuremberga onde é dono de uma pequena agência imobiliária e alimenta a esperança de se tornar pintor para sempre. Nasceu a meio da guerra que destruiu a Europa e só lê autores franceses, de preferência. Quer saber de que vivemos. Digo-lhe que de dinheiro emprestado. Quer saber o que fazemos. Cito-lhe que depois da Índia descoberta ficámos sem emprego. Quer saber porque somos tão melancólicos e eu insisto que não, que no fundo até somos alegres, que a vida é que é triste e não temos culpa disso. Pergunta-me por uma revolução de rosas. Digo-lhe que se antes sentia nojo agora tenho muitas vezes náusea. Trocamos cartões e prometemos rever-nos no infinito.

18 de marzo de 2014

Contos Completos

Edgar Allan Poe
Contos Completos (1832-1849)

68 contos de Edgar Allan Poe, que representam quase toda a sua obra completa em prosa (completam-na três ou quatro curtos ensaios e o romance Gordon Pym). Mostram também o seu humor e versatilidade, para além da faceta mais conhecida do horror e do fantástico. O excerto que se segue é do conto O Sistema do Doutor Abreu e do Professor Pena.

Seguiu-se um espetáculo da mais terrível confusão. Com grande espanto meu, o Sr Maillard lançou-se para debaixo do aparador. Havia esperado de sua parte mais decisão. Os membros da orquestra que durante os últimos quinze minutos pareciam demasiado bêbados para executar a sua tarefa, ergueram-se todos imediatamente, pegando dos instrumentos, e, trepando em cima de sua mesa, atacaram, num só tom, o Yankee Doodle, que tocaram, se não com harmonia, pelo menos com uma energia sobre-humana, durante todo o tempo do tumulto.
Entretanto, para cima da principal mesa de jantar, entre as garrafas e copos, pulou o homem que com tanta dificuldade fora impedido de pular para cima dela antes. Logo que se instalou comodamente, começou um discurso que, sem dúvida, teria achado excelente, se pudesse ter sido ouvido. No mesmo momento, o homem que tinha predileção pelos piões se pôs a girar pela sala, com imensa energia, e com os braços estendidos em ângulo reto com o corpo, de modo que tinha o ar completo dum verdadeiro pião, derrubando qualquer corpo que acontecia estar em seu caminho. E então, ouvindo também um inacreditável estouro e espumejar de champanha, descobri, afinal, que provinham da pessoa que, durante o jantar, desempenhara o papel de garrafa de tão delicada bebida. E depois, novamente, o homem-rã coaxava como se a salvação de sua alma dependesse de cada nota que emitia. E, no meio de tudo isto, o contínuo zurrar dum jumento a tudo dominava. Quanto à minha velha amiga, Madame Joyeuse fazer chorar o seu aspecto de terrível perplexidade. Tudo quanto fazia era ficar a um canto, junto da lareira, e cantar o mais alto que podia: «Có-coró-cóóó!»

Li anteriormente:
As Aventuras de Arthur Gordon Pym (1837)

16 de xaneiro de 2014

Servidão Humana



W. Somerset Maugham
Servidão Humana (1915)

É a minha estreia na obra de Somerset Maugham, pelo seu título mais conhecido. Cheio de referências à pintura e à literatura, descreve uma autêntica descida aos infernos da alma, na pessoa de Philip Carey, e a forma como ele, conscientemente, toma as decisões que sabe serem erradas. Vi também, pouco depois, Of Human Bondage, de John Cromwell, filme de 1936, com Leslie Howard e Bette Davis (foi nomeada para um Oscar por este seu desempenho). Sem pôr em causa os méritos dos actores, a adaptação é uma desilusão (adaptar um livro de quase 600 páginas a um filme que não chega a uma hora e meia é uma tarefa ingrata e uma batalha perdida à partida); retalha completamente o livro e mal assoma a profundidade das personagens.

Philip reuniu forças para receber Mildred, sem dar o menor sinal do que sentia. Teve o impulso de cair de joelhos, tomar-lhe as mãos e implorar-lhe que não partisse; mas sabia não haver meio de dissuadi-la. Contaria a Griffiths o que ele dissera e a maneira como se portara. Teve vergonha.
– Então, que me dizes da viagem? – perguntou jovialmente.
– Estamos prontos. Harry está lá fora. Disse-lhe que tu não querias vê-lo e por isso não lhe apareceste. Mas quer saber se pode entrar só por um minuto, para dizer adeus.
– Não. Não desejo vê-lo – respondeu Philip.
Compreendia que a Mildred pouco importava que ele falasse ou não com Griffiths. Agora que estava ali, queria que ela se fosse depressa.
– Olha, aqui tens as cinco libras. Gostaria agora que te fosses.
Ela pegou na nota e agradeceu. Voltou-se para sair.
– Quando voltas? – perguntou ele.
– Ah... segunda-feira. Harry precisa de ir para casa da família.
Philip sabia que o que ia dizer era humilhante, mas estava acabrunhado pelo ciúme e pelo desejo.
– Então, ver-te-ei na volta, não?
Não pôde evitar que a sua voz tomasse um tom de súplica.
– Naturalmente. Avisar-te-ei logo que volte.
Apertaram-se as mãos. Por entre as cortinas da janela, viu Mildred saltar para o trem estacionado diante da porta. Este pôs-se em movimento. Philip atirou-se para cima da cama e escondeu o rosto nas mãos. Sentiu que as lágrimas lhe vinham aos olhos e teve raiva a si próprio; cerrou as mãos e inteiriçou o corpo para se conter; mas não conseguiu e grandes soluços de dor irromperam-lhe do peito.