Jorge Luis Borges
Ficciones (1944/1956)
A minha edição de A Costa das Sirtes, de Julien Graq, tem na contracapa um pequeno texto de Vergílio Ferreira onde, a propósito desse excelente livro faz a distinção entre fantástico realista e realismo fantástico; “o primeiro apenas escolhe para seu campo de operações a própria fantasia”, diz, enquanto o segundo “se fixa rigorosamente no real, mas, em dado momento oscila nos seus contornos e nos leva a darmo-nos conta de que já não estamos nos limites de relações conhecidas e estáveis”. Estas palavras poderiam aplicar-se igualmente à escrita de Jorge Luis Borges, no que, até agora, li dele. Com meticulosas referências bibliográficas, frequentemente sobre livros e escritores inexistentes, enreda o leitor num terreno movediço onde se instala a dúvida sobre a localização da fronteira que divide a realidade factual e a surrealidade (hoje fácil e instantaneamente cartografável, graças aos motores de busca).
Este Ficciones (Ficções na tradução portuguesa), tal como outras obras de Borges, conheceu várias versões até à sua edição definitiva. A primeira parte intitula-se El jardín de senderos que se bifurcan, e foi publicada sob esse mesmo nome em 1941. Em 1944, Borges agregou-lhe a segunda parte, Artificios, (com um segundo prólogo), e assim se estabeleceu, na sua primeira forma, Ficciones. Em 1956, acrescentou os três contos finais, ampliou o segundo prólogo, e a obra assumiu a sua versão definitiva.
No primeiro prólogo, Borges declara que um “desvario laborioso e empobrecedor é o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”, como outros já fizeram, explica. Sendo “mais razoável, mais inepto, mais preguiçoso, preferi a escrita de notas sobre livros imaginários”. Borges brinca com a justificação, mas o seu engenho na escrita de contos, de que Ficciones é exemplo, é verdadeiramente inultrapassável.
Ciego a las culpas, el destino puede ser despiadado con las mínimas distracciones. Dahlmann había conseguido, esa tarde, un ejemplar descabalado de Las mil y una noches, de Weil; ávido de examinar ese hallazgo, no esperó que bajara el ascensor y subió con apuro las escaleras; algo en la oscuridad le rozó la frente: ¿un murciélago, un pájaro? En la cara de la mujer que le abrió la puerta vio grabado el horror, y la mano que se pasó por la frente salió roja de sangre. La arista de un batiente recién pintado que alguien se olvidó de cerrar le había hecho esa herida. Dahlmann logró dormir, pero a la madrugada estaba despierto y desde aquella hora el sabor de todas las cosas fue atroz. La fiebre lo gastó y las ilustraciones de Las mil y una noches sirvieron para decorar pesadillas. Amigos y parientes lo visitaban y con exagerada sonrisa le repetían que lo hallaban muy bien. Dahlmann los oía con una especie de débil estupor y le maravillaba que no supieran que estaba en el infierno. Ocho días pasaron, como ocho siglos. Una tarde, el médico habitual se presentó con un médico nuevo y lo condujeron a un sanatorio de la calle Ecuador, porque era indispensable sacarle una radiografía. Dahlmann, en el coche de plaza que los llevó, pensó que en una habitación que no fuera la suya podría, al fin, dormir. Se sintió feliz y conversador; en cuanto llegó, lo desvistieron, le raparon la cabeza, lo sujetaron con metales a una camilla, lo iluminaron hasta la ceguera y el vértigo, lo auscultaron y un hombre enmascarado le clavó una aguja en el brazo. Se despertó con náuseas, vendado, en una celda que tenía algo de pozo y, en los días y noches que siguieron a la operación, pudo entender que apenas había estado, hasta entonces, en un arrabal del infierno. El hielo no dejaba en su boca el menor rastro de frescura. En esos días, Dahlmann minuciosamente se odió; odió su identidad, sus necesidades corporales, su humillación, la barba que le erizaba la cara. Sufrió con estoicismo las curaciones, que eran muy dolorosas, pero cuando el cirujano le dijo que había estado a punto de morir de una septicemia, Dahlmann se echó a llorar, condolido de su destino. Las miserias físicas y la incesante previsión de las malas noches no le habían dejado pensar en algo tan abstracto como la muerte.
Li anteriormente:
El Aleph (1949/1952)
Historia Universal de la Infamia (1935/1974)
15 de setembro de 2015
9 de agosto de 2015
Regresso ao Admirável Mundo Novo
Aldous Huxley
Regresso ao Admirável Mundo Novo
(1959)
Regresso ao Admirável Mundo Novo
(Brave New World Revisited, no título original) é uma
compilação de ensaios publicados na revista “Newsday”,
26 anos após a apresentação da novela Admirável Mundo Novo,
em que Huxley analisa a evolução da sociedade ocidental no tempo
entretanto decorrido, e constata que “o futuro chegou demasiado
depressa”, para utilizar uma expressão em voga por estes dias.
Traçando frequentes paralelismos entre
a sua própria novela e o 1984 de Orwell, Huxley considera que
a distopia de Orwell já não parece realizável, na sua brutalidade
totalitária, à luz das recentes evoluções históricas e sociais;
quanto ao Admirável Mundo Novo, mais “benigno” na sua
aparência, encontra-lhe ainda demasiados motivos de preocupação,
bem como determinadas facetas que parecem estar a materializar-se.
Quase 60 anos volvidos, pode-se dizer que vivemos já, em vários
aspectos, nesse Admirável Mundo Novo.
Os ensaios debruçam-se sobre diversas
questões, como as preocupações malthusianas acerca da
superpopulação e o esgotamento dos recursos, os prós e contras do
eugenismo, o preço do chamado progresso técnico, a alienação dos
mass media, a propaganda e manipulação das massas, etc., na
urgência com que se colocavam – e ainda se colocam... cada vez
mais! – no confronto com as soluções preconizadas no Admirável
Mundo Novo.
Huxley previu neste livro um futuro
superpopulado, dominado por ditaduras comunistas; mas também fala
dos perigos de uma democracia puramente formal, onde os destinos das
pessoas são decididos por aquilo que designa como o “Alto Negócio”
e o “Grande Governo”. Se a previsão falhou na segunda metade da
primeira afirmação, acertou em cheio na segunda.
No
que diz respeito à propaganda, os primeiros defensores da instrução
obrigatória e de uma Imprensa livre só enfrentavam duas
possibilidades: a propaganda podia ser verdadeira ou falsa. Não
previam o que realmente sucedeu, principalmente nas nossas
democracias capitalistas acidentais – o crescimento de uma vasta
indústria de comunicações com as massas, que na sua maior parte
não se preocupa nem com o verdadeiro nem com o falso, mas com o
irreal, o mais ou menos totalmente irrelevante. Numa palavra, não
levaram em conta o quase infinito apetite humano de distrações.
No
passado, a maioria das pessoas nunca teve oportunidade de satisfazer
completamente este apetite. Desejavam demais distrações, mas não
lhas forneciam. O Natal só surgia uma vez por ano, as festas eram
“solenes e raras”, havia poucos leitores e muito pouco que ler, e
o que havia mais aproximado de um cinema de bairro era a igreja
paroquial, onde os espetáculos, se bem que freqüentes, eram
bastante monótonos. Para encontrar condições, mesmo de longe
comparáveis às atualmente existentes, temos de recuar até à Roma
Imperial, onde o povo era mantido de bom humor graças a doses
repetidas e gratuitas das mais variadas distrações – desde os
dramas em verso até os combates dos gladiadores, desde recitais de
Virgílio até os combates de pugilismo, desde festivais de música
até paradas militares e execuções públicas. Mas, mesmo em Roma,
não havia nada de semelhante à distração contínua agora
fornecida por jornais e magazines, pelo rádio, televisão e cinema.
No Admirável Mundo Novo, as distrações contínuas da mais
fascinante natureza são deliberadamente empregadas como instrumentos
de governo, com a finalidade de obstar o povo de prestar demasiada
atenção às realidades da situação social e política. O mundo da
religião é diferente do mundo do divertimento; mas parecem-se um
com o outro por, decididamente, “não serem deste mundo”. Ambos
são divertimentos e, se vivemos neles de forma excessivamente
contínua, ambos podem tornar-se, segundo a frase de Marx, “o ópio
do povo”, tornando-se assim uma ameaça à liberdade. Só uma
pessoa vigilante consegue conservar a liberdade, e apenas os que
estão constante e inteligentemente despertos podem alimentar a
esperança de se governar a si próprios eficazmente por meios
democráticos. Uma sociedade, cuja maioria dos membros dissipa uma
grande parte do seu tempo não na vigília, não aqui e agora e no
futuro previsível, mas em outra parte, nos outros mundos
irrelevantes do prazer e das obras superficiais, da mitologia e da
fantasia metafísica, terá dificuldade em resistir às investidas
daqueles que quiserem orientá-la e controlá-la.
Na
sua propaganda, os ditadores atuais limitam-se, na maioria das vezes,
à repetição, supressão e racionalização – repetição de
estribilhos que pretendem sejam aceitos como verdades, à supressão
de fatos que eles pretendem sejam ignorados, ao desencadeamento e à
racionalização de paixões que podem ser aplicadas nos interesses
do Partido ou do Estado. Quando a arte e a ciência da manipulação
vierem a ser mais bem conhecidas, os ditadores do futuro aprenderão,
sem dúvida, a combinar estas técnicas com as distrações
ininterruptas que, no Ocidente, ameaçam agora submergir num mar de
irrelevância a propaganda racional indispensável à manutenção da
liberdade individual e à sobrevivência das instituições
democráticas.
Li anteriormente:
A Ilha (1962)
As Portas da
Percepção / Céu e Inferno (1954 / 1956)
Admirável Mundo
Novo (1932)
3 de agosto de 2015
Count Zero
William Gibson
Count Zero (1986)
Quando o Neuromancer foi editado
despoletou um imenso burburinho; William Gibson era anunciado como
uma nova estrela da literatura, e passou-se por cima do preconceito
de ter publicado um livro de FC. Não o li então; deixei assentar a
poeira e li-o há cinco anos, quando o autor possuía já uma obra de
certa dimensão e continuidade. Chegou agora a vez de Count Zero,
cujas peripécias têm por fundo a violenta disputa industrial de uma
nova tecnologia, o biochip, enquanto o multimilionário Virek parte
em busca da imortalidade, por interposta pessoa. A narrativa
desdobra-se em três vectores simultâneos, centrados nas personagens
de Turner (um mercenário ao serviço de uma poderosa multinacional),
Bobby Newmark (um hacker novato mas com sonhos ambiciosos,
auto-denominado “Count Zero”) e Marly Krushkhova (uma parisiense,
obscura negociante de arte, que ganha um contrato astronómico ao
serviço de Virek), mas estas tramas mal chegam a se interceptar
(aliás, Marly não converge de todo).
Criado numa época em que a internet
mal dava os primeiros passos, reencontra-se aqui toda a ambiência do
Neuromancer — passa-se uns anos depois, com algumas
referências a um par de personagens desse romance — tal como o
futuro era imaginado em meados da década de 80: o ciberespaço e a
experiência de imersão numa realidade virtual; o Japão ascendido a
uma posição dominante a nível mundial (o contemporâneo Blade
Runner partilhava desta ideia), com as multinacionais da época
tornadas em enormes potentados globais e o iene a fazer as vezes do
dólar. Menciona-se também a Alemanha Ocidental (em 1986 o Muro de
Berlim parecia que ia durar para sempre) e o fax é de uso óbvio —
então em processo de massificação... quando hoje se tornou numa
peça de museu!
A escrita de Gibson é um tanto
angulosa e difusa, e tende a deixar o leitor para trás — nesse
particular faz-me lembrar o Philip K. Dick mais tardio. Depois de ter
lido o Neuromancer em pt-br, senti-me um tanto intimidado em
abordar este Count Zero no original. Há uma catadupa de
neologismos e palavras inventadas pelo autor que me dificultariam a
leitura e optei, novamente, pela versão em português do Brasil.
Infelizmente não foi a decisão correcta.
Costumo dizer, um pouco na brincadeira,
que o “brasileiro” é a língua estrangeira que melhor entendo.
Depois deste livro já não tenho a certeza. Para além de ter achado
a tradução atabalhoada, com a manutenção desnecessária de
demasiadas palavras em inglês (eu, que normalmente me queixo do
contrário, porque gosto de perceber o texto original “atrás” da
tradução), o recurso a um vocabulário coloquial (ou gíria,
talvez), empobrece fortemente o texto, na minha opinião. Fora as
frequentes vezes em que pura e simplesmente não consegui entender, e
me vi obrigado a pesquisar o original para tirar dúvidas. Neste
confronto, tornaram-se evidentes as más opções de tradução, não
no fio narrativo, mas na escolha da sintaxe. Um nomeado para os
prémios Hugo e Nebula merecia melhor; quando voltar a ler William
Gibson vou ter isto em consideração...
Os
sonhos de computador continham uma vertigem especial. Turner se
deitou em uma placa virgem de espuma verde, no dormitório
improvisado, e conectou o dossiê de Mitchell. Começou devagar: teve
tempo de fechar os olhos.
Dez
segundos depois, os olhos estavam abertos. Agarrou a espuma verde e
lutou contra a náusea. Fechou os olhos de novo... Mais uma vez,
começou aos poucos, um fluxo bruxuleante e não linear de fatos e
dados sensoriais, um tipo de narrativa transmitida em planos
interrompidos e justaposições surreais. Era um pouco como andar em
uma montanha-russa que aleatoriamente entrasse e saísse da
existência, em intervalos impossivelmente rápidos, mudando de
altitude, ângulo e direção a cada pulso de inexistência. Exceto
que os deslocamentos não tinham nada a ver com qualquer orientação
física, mas sim com alternâncias instantâneas no sistema de
símbolos e paradigmas. Aqueles dados nunca se destinaram a acesso
humano.
Com
os olhos abertos, tirou o objeto do soquete e segurou-o na mão, lisa
de suor. Era como acordar de um pesadelo. Não um de horror, no qual
os temores internos assumiam formas simples e terríveis, mas o tipo
de sonho, infinitamente mais perturbador, em que tudo é perfeita e
terrivelmente normal... e em que tudo está completamente errado.
Li anteriormente:
Neuromancer
(1984)
19 de xullo de 2015
Los Pasos Perdidos
Alejo Carpentier
Los Pasos Perdidos (1953)
Cheguei a Alejo Carpentier e a este
livro depois de ter lido uma entrevista com o escritor José Vicente
Pascual; quando lhe foi perguntado sobre quais os livros que leria
uma segunda e terceira vez, disse, sobre Los Pasos Perdidos,
que era a novela que mais vezes havia revisitado; que era preciso
lê-la com vinte anos, com trinta, com quarenta, com cinquenta —
e que nunca era a mesma novela.
É na verdade um livro um tanto
estranho, mas marcante, que conta a história de um compositor enviado à
selva sul-americana (numa nota final o autor diz ter descrito o alto
Orinoco), em busca de raros instrumentos musicais tribais, destinados
a um museu. Para além de evocativas descrições da natureza, ou de
digressões musicológicas, é também a história do seu
relacionamento com três mulheres: a esposa (uma actriz de teatro com
quem mantém uma relação árida e subjugada à rotina), a amante
(uma astróloga, mulher de cidade que comete o erro de o acompanhar à
selva), e uma mestiça aldeã, que encontra na viagem. O
protagonista, cujo nome nunca é pronunciado, deixa-se depois
encantar pela vida básica numa aldeia recém-fundada, julgando
encontrar aí o entorno ideal para dar finalmente curso à sua veia
criativa como compositor. A sua integração virá a revelar-se
incompleta, e, desse falhanço, retenho uma frase que surge num dos
últimos parágrafos: "Hoje terminaram as férias de Sísifo".
Fingiendo que no me
hubiera oído, o que mis palabras no tenían el menor interés,
Mouche afirmó que aquí no había cosa de mérito que ver o
estudiar; que este país no tenía historia ni carácter, y, dando su
decisión por sentencia, habló de partir mañana al alba, ya que
nuestro barco, navegando esta vez a favor de la corriente, podía
cubrir la jornada del regreso en poco más de un día. Pero ahora me
importaban poco sus deseos. Y como esto era muy nuevo en mí, cuando
le declaré secamente que pensaba cumplir con la Universidad,
llegando hasta donde pudiera encontrar los instrumentos musicales
cuya busca me era encomendada, mi amiga, de súbito, montó en
cólera, tratándome de burgués. Ese insulto —¡bien lo
conocía yo!— era un recuerdo de la época en que muchas mujeres de
su formación se hubieran proclamado revolucionarias para gozar de
las intimidades de una militancia que arrastraba a no pocos
intelectuales interesantes, y entregarse a los desafueros del sexo
con el respaldo de ideas filosóficas y sociales, luego de haberlo
hecho al amparo de las ideas estéticas de ciertas capillas
literarias.
Siempre atenta a su
bienestar, colocando por encima de todo sus placeres y pequeñas
pasiones, Mouche me resultaba el arquetipo de la burguesa.
Sin embargo, calificaba de
burgués, como supremo denuesto, a todo el que intentara
oponer a su criterio algo que pudiera vincularse con ciertos deberes
o principios molestos, no transigiera con ciertas licencias físicas,
encerrara preocupaciones de tipo religioso o reclamara un orden. Ya
que mi empeño de quedar bien con el Curador y, por ende, con mi
conciencia, se atravesaba en su camino, tal propósito tenía, por
fuerza, que ser calificado por ella de burgués.
7 de xuño de 2015
Lendas de Portugal, vol. 5
Gentil Marques
Lendas de Portugal, vol. 5 (1966)
O último
tomo desta obra é dedicado às Lendas
de Amor, quase todas marcadas por
desenlaces trágicos, o que poderá muito bem significar que é a
tragédia, e não a felicidade, a marca
que assinala um
grande amor. Dos amores impossíveis às ironias do destino, estas
lendas populares percorrem um alargado espectro de personagens
e situações, desde as mais ingénuas e
singelas às mais complexas e simbólicas. Destas últimas, gostaria
de destacar a Lenda da Madalena do Mar,
decorrida na Ilha da Madeira e centrada na misteriosa personagem do
Henrique Alemão, cujo argumento poderia servir como ponto de partida
para uma interessante criação sob outra forma artística – um
filme, um romance, uma ópera.
No final da série, talvez seja tempo
de fazer um pequeno balanço. As Lendas de Portugal, neste
tempo “d'uma austera, apagada e vil tristeza” são como uma brisa
de ar fresco, vindo de um passado certamente idealizado – lendário
– que fala de valores, conceitos e princípios que forjaram uma
nação outrora forte, ajudando a conhecermo-nos, e entendermo-nos,
melhor. Esse espaço da Portugalidade, que ultrapassa as nossas
fronteiras geográficas e temporais, estende-se desde um antes
romano até um depois que termina cerca do século XVII, e
baliza um tempo quase mítico onde a assenta a nossa identidade como
povo e nação. A quem aprecia este género de
narrativa, recomendo o sítio www.lendarium.org, onde se encontram
algumas das lendas transcritas por Gentil Marques, bem como muitas
outras mais.
Para o excerto transcrito (como sempre,
a grande dificuldade foi a escolha) seleccionei um trecho da Lenda
da Vingança de Fernão Gonçalves, pela força e pelo drama.
Fernão Gonçalves, um nobre guerreiro da Reconquista, no século X,
recolhe, após uma das guerras, um menino mouro, Abdalá, a quem
poupa a vida e faz educar entre o seu povo. O rapaz cresce e
apaixona-se por Constança, a filha de Fernão Gonçalves; quando
este descobre o que se passa pretende descarregar a sua ira sobre
Abdalá, que, respondendo ao apelo do seu sangue, foge para o lado
dos mouros. A cena passa-se no reencontro dos dois inimigos, no campo
de batalha:
Um dia, a batalha
travava-se fora da região onde ele tinha os seus domínios. Ajudava
o monarca D. Ramiro II na luta contra os infiéis. No meio da
contenda, D. Fernão Gonçalves caiu do cavalo. Logo o rodeou um
turba de mouros. Mais de vinte adagas caíram sobre ele. Mas logo uma
voz possante gritou:
– Quem o vai
desarmar sou eu!
Os outros, vendo
um dos seus chefes, retiraram as armas, embora sem perder de vista o
ferido. O chefe mouro falou:
– D. Fernão
Gonçalves! Sabes quem sou?
Mal podendo ver,
pois a agonia aproximava-se, D. Fernão teve forças para responder:
– Sei quem
és... És Abdalá, o maldito a quem poupei a vida!
– Que fizeste
da tua filha?
– Que te
importa?
– Amo-a, apesar
de tudo!
– Pois... fica
feliz! Vou morrer... e ela... espera-te!
– Onde?
– No salão
nobre do meu palácio, onde cresceste e te fizeste homem!
– Porquê no
salão nobre?
– Porque lá a
fechei... antes de vir para aqui! E agora... satisfaz o teu ódio...
mata-me!
– Não matarei
o pai daquela a quem amo... Outros o farão por mim.
E dando costas,
fez sinal para que não prolongassem a agonia de D. Fernão.
Terminada a
batalha, que estava já no fim e fora ganha pelos mouros, Abdalá e
alguns dos seus obtiveram licença para se embrenharem nos domínios
de D. Fernão Gonçalves. Atravessaram rios e montanhas ligeiros como
o vento. Ao cair da noite, o jovem mouro chegou ao palácio. Parecia
deserto. Nem um criado, nem um guarda. Arranjou luz e forçou a porta
do salão nobre. Ao entrar, o quadro que se lhe deparou deixou-o
horrorizado... Gritou:
– Constança,
meu amor!
Mas ela não
respondeu. Estava morta sobre um divã estofado de rico damasco. A
seu lado, tombada no solo, ainda ensanguentada, uma das espadas de
seu pai.
Abdalá caiu de
joelhos, soluçando. Compreendia a terrível vingança de D. Fernão.
Poderia ter-lhe dito que a deixara morta para que jamais lhe
pertencesse. Mas preferiu dar-lhe a alegria de uma esperança, na
certeza de que, assim, se vingaria duplamente!
Li anteriormente:
Lendas de Portugal, vol. 4 (1965)
Lendas de Portugal, vol. 3 (1964)
Lendas de Portugal, vol. 2 (1963)
19 de abril de 2015
La Tabla de Flandes
Arturo Pérez-Reverte
La Tabla de Flandes (1990)
Ouvi mencionar pela primeira vez o nome
de Arturo Pérez-Reverte há bastantes anos, na recensão de um dos
seus livros (possivelmente este, A Tábua de Flandres, na
tradução portuguesa), e algo nesse texto me despertou o interesse,
embora já não me recorde do que se tratava. Mais tarde soube que
Pérez-Reverte era jornalista, e o meu preconceito contra
jornalistas-escritores esmoreceu-me a vontade de lê-lo, tanto mais
que a sua obra parecia versar temáticas das quais me encontrava,
então, um tanto afastado. Nos últimos tempos reencontrei
Pérez-Reverte como um dos colaboradores do El Manifiesto, um sítio
que visito com frequência e que defende causas e valores nos quais
me revejo; gostei dos seus artigos e decidi dar-me a oportunidade de
tomar contacto com a sua obra.
Com uma história baseada numa pintura
de Pieter Van Huys, um mestre flamengo do século XV, e do segredo
que ela encerra, encriptado no jogo de xadrez ali representado,
rapidamente a vertigem da partida se apodera das pessoas que se movem
ao redor do quadro, em restauro com vista a ser leiloado. Os
primeiros capítulos foram uma desilusão; tendo por cenário o meio
artístico madrileno, as personagens pereciam desinteressantes e as
situações fúteis, à excepção de Julia (a restauradora) e Muñoz
(um empregado de escritório que se dedica ao xadrez nas horas
vagas). Com o avançar das páginas o livro vai ganhando substância
e profundidade – uma boa justificação
para aquilo que aparentava ser superficial é a vacuidade e o
materialismo que predomina no mundo artístico dos nossos dias –
e A Tábua de Flandres acaba por se tornar num livro que vale
bem o tempo gasto a lê-lo.
Cruzaron
la avenida desierta. Al llegar a la otra acera Julia observó de
nuevo a su acompañante, con disimulo. No parecía un hombre de
extraordinaria inteligencia. Por lo demás, dudaba que las cosas le
hubiesen ido demasiado bien en la vida. Viéndolo caminar con las
manos en los bolsillos, el ajado cuello de la camisa y las grandes
orejas asomando sobre la gabardina vieja, daba la impresión de no
ser sino lo que era: un oscuro oficinista, cuya única fuga de la
mediocridad era el mundo de combinaciones, problemas y soluciones que
el ajedrez podía ofrecerle. Lo más curioso en él era la mirada que
se apagaba al apartarse del tablero; aquella forma de inclinar la
cabeza igual que si algo le pesara demasiado en las vértebras del
cuello, ladeándola; como si de esa forma intentase que el mundo
exterior se deslizara por su lado sin rozarlo más que lo necesario.
Recordaba un poco a los soldados prisioneros que caminaban con la
cabeza baja en los viejos documentales de guerra. Era el suyo el aire
inequívoco del derrotado antes de la batalla; de quien cada día
abre los ojos y se despierta vencido.
Y,
sin embargo, había algo más. Al explicar una jugada, siguiendo el
retorcido hilo de la trama, en Muñoz despuntaba el destello fugaz de
algo sólido, incluso brillante. Como si, a pesar de su apariencia,
en el interior latiese un extraordinario talento lógico, matemático,
o del género que fuera, que daba aplomo, autoridad indiscutible a
sus palabras y gesto.
Le
habría gustado conocerlo mejor. Comprendió que lo ignoraba todo de
él, salvo que jugaba al ajedrez y era contable. Pero ya resultaba
demasiado tarde. El trabajo había terminado, y sería difícil
encontrarse de nuevo.
–
Ha sido la nuestra una extraña relación –dijo en voz alta.
Muñoz
dejó vagar la mirada a su alrededor durante unos segundos, como si
buscase confirmación a aquellas palabras.
–
Ha sido la relación habitual en ajedrez… –respondió–. Usted y
yo, reunidos durante el tiempo que dura una partida –sonrió de
nuevo, de aquel modo difuso que no significaba nada–. Llámeme
cuando quiera volver a jugar.
3 de abril de 2015
O Castelo dos Destinos Cruzados
Italo Calvino
O Castelo dos Destinos Cruzados
(1973)
Este livro é composto por duas partes:
O Castelo dos Destinos Cruzados e A Taberna dos Destinos
Cruzados. A primeira parte foi originalmente publicada em 1969, e
reunida à segunda parte em 1973, no formato definitivo desta obra,
quando Italo Calvino desistiu definitivamente de lhe acrescentar uma
terceira parte, que se intitularia O Hotel dos
Destinos Cruzados, por manifesto desinteresse em continuar a
experiência.
Essa experiência absorvente e
fatigante tratava, nem mais nem menos, de utilizar as 78 cartas do
baralho de tarot como suporte do fio narrativo, uma vez que as
personagens estão privadas da fala, através de uma elaboração
complexa na interpretação simbólica das ilustrações contidas nas
cartas. Os contos d'O Castelo são baseados no tarot pintado
por Bonifácio Bembo em meados do século XV, enquanto os d'A
Taberna tomam como ponto de partida o baralho de Marselha,
impresso em 1761 por Nicolas Conver. Apesar das semelhanças, as
ilustrações comportam diferenças importantes ao nível simbólico
(como se pode comprovar pela sua representação paralelamente ao
texto), que influem nos decursos narrativos dos contos. No final do
livro, a própria personagem do escritor recorre ao método
anteriormente utilizado pelas personagens e, ainda mais aliciante,
submete Édipo, Hamlet, Macbeth e outros à mesma estrutura narrativa
com resultados convincentes. Daqui se poderá concluir que o tarot,
como representação do inconsciente colectivo, inclui todas os
arquétipos da acção e motivação humana nos seus 21 arcanos
maiores, servindo-se ainda dos quatro naipes como sintaxe de suporte,
passível de tudo abranger e apropriar-se.
Considerando-se bem, tanto para o
alquimista quanto para o cavaleiro errante o ponto de chegada deveria
ser o Ás de Copas, que para um contém o flogístico ou a
pedra filosofal ou o elixir da longa vida, e para o outro é o
talismã guardado pelo Rei Pescador, o vaso misterioso que seu
primeiro poeta não se deu ao trabalho de nos explicar o que era –
ou não o quis dizer – e que desde então fez brotar rios de tinta
de conjecturas, o Graal que continua a ser disputado entre as
religiões romana e céltica. (Talvez o trovador de Champagne
quisesse precisamente isso: manter viva a batalha entre O Papa
e o Druida-Eremita. Não há melhor lugar para se guardar um
segredo que num romance inacabado).
Logo, o problema que os nossos dois
comensais queriam resolver dispondo as cartas em redor do Ás de
Copas era ao mesmo tempo a Grande Obra alquímica e a Demanda do
Graal. Nas mesmas cartas, um por uma, ambos podiam reconhecer as
etapas da sua Arte ou Aventura: no Sol, o astro de ouro ou a
inocência do jovem guerreiro, na Roda, o moto-perpétuo ou o
encantamento do bosque, no Juízo, a morte e a ressurreição
(dos metais e da alma) ou o apelo celestial.
Estando assim as coisas, as histórias
arriscam continuamente tropeçar uma na outra, se não se põe bem às
claras o mecanismo. O alquimista é aquele que para obter as
modificações da matéria procura tornar sua alma inalterável e
pura como o ouro; mas tomemos o caso de um doutor Fausto que inverte
a regra do alquimista, faz da alma um objeto de troca e por esse meio
espera que a natureza se torne incorruptível e não seja mais
necessário buscar o ouro porque todos os elementos serão igualmente
preciosos, o mundo é de ouro e o ouro é o mundo. Do mesmo modo, é
cavaleiro errante aquele que submete suas ações a uma lei moral
absoluta e rígida, para que a lei natural mantenha a abundância
sobre a terra com indulgência absoluta, mas vamos imaginar um
Perceval-Parzival-Parsifal que inverta a regra da Távola Redonda: as
virtudes cavalheirescas serão nele involuntárias, virão à tona
como um dom da natureza, como as cores das asas das borboletas, e
assim, executando suas empresas com espantosa negligência, talvez
consiga submeter a natureza à sua vontade, possuir a ciência do
mundo como a uma coisa, tornar-se mago e taumaturgo, fazer cicatrizar
a chaga do Rei Pescador e restituir a verde linfa à terra deserta. O
mosaico de cartas que estamos aqui estatelados a olhar é, pois, a
Obra ou a Demanda que se gostaria de levar a termo sem obrar nem
demandar. O doutor Fausto cansou-se de fazer as metamorfoses
instantâneas dos metais dependerem das lentas transformações que
ocorriam dentro de si mesmo, e duvida de toda a sapiência que
acumulou em sua solitária vida de Eremita; está desiludido
dos poderes de sua arte bem como das trapaças entre as combinações
das cartas do tarô. Naquele momento um relâmpago ilumina seu
cubículo no alto da Torre. Aparece à sua frente um
personagem com chapéu de abas largas, como esses que usam os
estudantes de Wittemberg: talvez seja um clérigo errante, ou um
Bateleiro, charlatão, um mágico de feira que tenha
aparelhado sobre uma banca todo um laboratório de frascos
desaparelhados.
Li anteriormente:
As Cidades Invisíveis (1972)
Se Numa Noite de Inverno um Viajante
(1979)
22 de marzo de 2015
Lendas de Portugal, vol. 4
Gentil Marques
Lendas de Portugal, vol. 4 (1965)
O quarto volume é dedicado às Lendas
Religiosas. A abrir o livro encontra-se a Lenda do Milagre da
Nazaré, centrada na personagem, também ela lendária, de D.
Fuas Roupinho, cavaleiro de D. Afonso Henriques, e o modo prodigioso
como a sua vida é salva in extremis depois de ter sido
ludibriado pelo diabo. A narrativa é bem conhecida, mas o que mais
me chamou a atenção, antes do ponto culminante, foi a referência
ao último rei visigodo, Rodrigo, e ao seu túmulo em Viseu.
A primeira vez que li sobre o assunto
foi na Historia Total de España de Ricardo de la
Cierva, o que me levou ao documento original, a Crónica de Afonso
III, o Magno, que faz a resenha dos reis visigodos e asturianos, que
se consideravam seus sucessores, desde Wamba (no séc. VII), até
Ordonho I, seu pai e antecessor (séc. IX). No excerto dedicado a
Ruderico (ou Rodrigo, derrotado pelos mouros em Guadalete e posto em
fuga após a batalha), pode ler-se o seguinte: «Não se conhece a
causa da morte do rei Ruderico; nos nossos tempos, quando repovoamos
a cidade de Viseu e as suas cercanias, encontrou-se em certa basílica
um monumento no qual estava escrito um epitáfio que diz: Aqui
descansa Ruderico, último rei dos godos.» O
túmulo encontrar-se-á na envolvente da Igreja de São Miguel do
Fetal, reconstruída sobre um templo muito mais antigo, do qual não
existem vestígios.
Cumprindo o prometido, manhã cedo, D.
Fuas Roupinho leva consigo a jovem princesa moura e vai mostrar-lhe a
imagem de Nossa Senhora, entre duas rochas, na Nazaré.
Pela primeira vez na sua vida, a filha
do rei Gamir cai de joelhos diante de uma imagem cristã.
– É linda a Vossa Senhora... Muito
linda!
E D. Fuas Roupinho conta-lhe então,
docemente, a história maravilhosa daquela imagem.
Um monge grego fugira com ela para
Belém de Judá, dando-a a São Jerónimo. Este, por sua vez,
mandara-a a Santo Agostinho. E Santo Agostinho entregara-a ao
Mosteiro de Cauliniana, a uns doze quilómetros de Mérida. Aí
puseram à imagem o nome de Nossa Senhora da Nazaré, por ela ter
vindo da própria terra natal da Virgem Maria.
Quando os mouros derrotaram os
cristãos, obrigando o rei Rodrigo a fugir para Mérida, Rodrigo
levou consigo a preciosa imagem. Mas nem mesmo assim se sentiu
absolutamente seguro. E resolveu fugir de novo, agora na companhia do
abade Frei Romano, possuidor duma preciosa caixa de relíquias que
pertencera a Santo Agostinho.
Após uma aventura dramática, quase
mortos, os dois homens chegaram ao sítio da Pederneira, na costa do
Atlântico. Então, resolveram separar-se.
Rodrigo ficou no monte que se chama de
São Bartolomeu e Frei Romano foi viver para o monte fronteiro.
Combinaram, porém, corresponder-se por
meio de fogueiras, que acendiam à noite.
Mas, certa noite, a fogueira de Frei
Romano não se acendeu. Não mais se acenderia!
Rodrigo acudiu inquieto, e foi
encontrá-lo morto. Apavorado, escondeu a imagem e a caixa de
relíquias numa lapa, e abalou dali, correndo como um doido.
Segundo conta a tradição, veio a
morrer perto de Viseu, num sítio denominado Fetal...
Concluindo a sua história, D. Fuas
Roupinho acrescenta, olhando a imagem:
– Só há bem pouco tempo alguns
pastores a descobriram, e eu logo me tornei num dos seus maiores
devotos. Venero-a com todas as forças da minha alma.
A jovem princesa parece alheada e
distante. Olhos fitos na imagem, repete como em oração:
– É linda, a Senhora!... É linda a
Senhora!...
D. Fuas afaga-lhe a cabeça e diz-lhe
meigamente:
– Olha, minha filha... Podes ficar
aqui a adorá-la o tempo que quiseres. Eu vou caçar. Depois,
voltarei a buscar-te.
Li anteriormente:
Lendas de Portugal, vol. 3 (1964)
Lendas de Portugal, vol. 2 (1963)
Lendas de Portugal, vol. 1 (1962)
5 de marzo de 2015
Historia Total de España
Ricardo de la Cierva
Historia Total de España (1997)
O meu interesse por Espanha foi tardio.
Como muitos portugueses, partilhei o reflexo de condicionalismos
culturais e históricos que nos deixaram indiferentes ou de costas
voltadas ao nosso único vizinho fronteiriço. Tinha obviamente
consciência do enorme contributo artístico, cultural e
civilizacional dado por Espanha ao mundo ocidental, mas quando, um
dia, me lembrei de contar quantos autores espanhóis tinha lido até
então, verifiquei que eram menos do que os dedos de uma mão (mesmo
com os hispano-americanos não seriam muito mais). Pior ainda, mal
conseguia lembrar-me do nome de outros! Deve ter sido então que me
resolvi a preencher essa lacuna; decidi posteriormente aprender o
necessário espanhol para conseguir ler na língua original; e como
umas coisas trazem as outras, chegou a altura de considerar a
necessidade de ter uma lição aprofundada da História de Espanha.
Depois de me inteirar das diversas
possibilidades ao alcance, escolhi esta Historia Total de España,
de don Ricardo de la Cierva, porque me pareceu a mais credível
e rigorosa. Editada pela primeira vez em finais de 1997, a edição
que possuo é a 14.a que segue a última revisão e actualização de
2008. E a escolha não podia ter sido mais acertada.
Para quem se questiona sobre o "total"
no meio da História de Espanha, a explicação é simples: "porque
Espanha é uma totalidade histórica, uma convergência de vários
reinos e vários povos com um substrato e um horizonte comum, sem que
a ninguém seja lícito prescindir das particularidades regionais nem
esquecer-se absurdamente do conjunto e da vertebralidade de todas
elas". Ricardo de la Cierva confronta os seus compatriotas com o
risco de perda desse horizonte histórico, o que faz perigar a nação
espanhola, e afirma ainda: "A História não deve ser nunca
instrumento da política, apesar da política, num país
sobrecarregado de tanta História como a Espanha, trate demasiadas
vezes de instrumentalizar a História."
Este é um livro que muitos
portugueses deviam ler. E também, sobretudo, os espanhóis. São
mais de 1000 páginas empolgantes e afirmativas que me renderam
algumas semanas de prazer, entre a narração de factos para mim mais ou menos
conhecidos, outros mais ou menos obscuros, ou outros ainda que eu desconhecia totalmente.
Poderia ter escolhido, para o excerto
que se pode ler abaixo, uma das páginas douradas da História de
Espanha – e são tantas que a dificuldade seria escolher. Ou então
as lições que se podem retirar das trágicas consequências levadas
pela Revolução Francesa à nação espanhola, que, assolada por uma
decadência veloz, culminaram na desastrosa Guerra Civil de 1936. Ou
ainda sobre o papel providencial desempenhado por Francisco Franco, que em
três décadas fez ressuscitar Espanha e a devolveu a um nível
impensável quando assumiu o poder. Ou as reflexões sombrias que o
autor faz, justificadamente, nas últimas páginas sobre o futuro da
Espanha. Preferi colocar um texto onde se analisa a tripla perda de
Espanha (depois das invasões bárbaras do séc. V e, novamente, com
a invasão árabe de 711). Um texto para reflectir.
A lo largo de la Historia,
España se perdió dos veces. Creo muy importante fijar con precisión
cómo sucedieron esas dos pérdidas de España porque por desgracia
cuando se escribe este libro muchos españoles tenemos la angustiosa
impresión de que España se puede estar perdiendo, ante nuestros
ojos, por tercera vez. Por lo pronto, como se reconoce desde el
propio Gobierno actual, según veíamos en la Introducción, se está
perdiendo, en el cuarto de siglo final del siglo XX, y en algunos
casos se ha perdido ya, la Historia de España. Por las noticias
diarias de la Prensa y otros medios de comunicación cunde la
conciencia de que con todas estas zarandajas de las «nacionalidades»,
del «Estado plurinacional» y de «España como nación de naciones»
que son insignes bobadas y disparates históricos, aunque las acepten
grandes políticos y notables historiadores, se está perdiendo la
nación española, que como tal figura varias veces en la
Constitución vigente y se están exaltando oficialmente otras falsas
naciones menores que jamás fueron naciones, como la catalana, ni
podrán serlo sin la pérdida de España, la tercera. Se exaltan los
nacionalismos regionales y se abomina del «nacionalismo español»,
es decir de la Nación Española, única que existe en España. El
término «nacionalidades» se incluyó en la Constitución por el
chantaje separatista pero como explicó el portavoz de UCD en el
Senado constituyente, el término «nacionalidades» no es sinónimo
de «naciones» es decir no significa absolutamente nada. Pese a lo
cual se han solicitado y creo que aprobado la elevación a
«nacionalidades» de algunas regiones como Galicia, Aragón,
Andalucía y Valencia. El autor de este libro que intervino
decisivamente en el Senado Constituyente de 1978, junto con el
profesor Julián Marías, para introducir en la Constitución el
término «Nación Española» que se le había «olvidado» a la
Ponencia Constitucional del Congreso, se ve en la obligación de
declarar que el actual gobierno de centro-derecha, que por deber
sagrado debería sentirse depositario de la más honda tradición
nacional de España, descuida lamentablemente sus deberes en la
defensa de la Nación española por rastreros motivos de pactos
electorales con los nacionalistas y no hace nada serio para defender
a España, a la Nación y a la Historia de España ante los zarpazos
de esos nacionalistas, pese a sus promesas formales y su proclamación
de España en la campaña electoral de 1996. Este libro se escribe en
defensa de la Historia de España y de España como nación, para
contribuir a que la gran mayoría de españoles que creemos en España
no suframos ante nuestros ojos la tercera pérdida de España.
14 de decembro de 2014
O Leopardo
Tomasi di Lampedusa
O Leopardo (1958)
O Leopardo é a única novela
entre a reduzida obra deixada por Giuseppe Tomasi di Lampedusa, e
publicada postumamente. Passada maioritariamente no período
conturbado da unificação italiana, tem como tema geral a
desagregação da aristocracia siciliana num tempo que deixou de ter
lugar para ela, em que campeiam os arrivistas burgueses. Inspirado na
vida de familiares próximos, O Leopardo tem uma força
visceral, do primeiro ao último parágrafo, sem prescindir de uma
linguagem cuidada e criteriosa. Li algures, há tempos, que a
qualidade da literatura se media pelo comprimento das frases. É uma
afirmação discutível, mas, se reflectirmos no que ali está
implícito, é impossível não deixar de concordar. Sendo, apesar de
tudo, uma obra mal vista em determinados círculos "bem-pensantes",
é-se levado a supor, tendo em conta o exemplo, que tal pode
funcionar como um cartão de recomendação.
Don Ciccio continuava a bramar:
— Para vós, senhores, há outra
coisa. Pode-se ser ingrato por causa de mais uma propriedade; mas por
causa de um bocado de pão, o reconhecimento é uma obrigação. E há
muito pano para mangas para os traficantes como Sedara, para quem o
lucro é uma lei da natureza. Para nós, a arraia-miúda, as coisas
ficam na mesma. Sabeis bem, Excelência, que aquela boa alma do meu
pai era guarda-caça do pavilhão real de S. Onófrio, já no tempo
de Fernando IV, quando aqui estavam os ingleses. É certo que se
levava uma vida dura mas o uniforme real e a placa de prata davam
autoridade. Foi a Rainha Isabel, a espanhola, que nessa altura era
Duquesa da Calábria, que me mandou estudar, que me permitiu ser
aquilo que hoje sou, organista da Igreja Matriz, honrado pela
benevolência de Vossa Excelência; e nos anos de maior necessidade,
quando minha mãe enviava uma súplica à Corte, chegavam sempre as
cinco onças de socorro, tão certas como a morte, pois lá em
Nápoles estimavam-nos, sabiam que éramos boa gente, súbditos
fiéis; quando vinha o Rei, este dava umas palmadas nas costas do meu
pai e dizia: «Don Leonardo, precisava de muita gente como você;
sustentáculos fiéis do trono e da minha pessoa.» Depois, vinha o
ajudante-de-campo e distribuía moedas de ouro. Agora dizem que eram
esmolas, essas generosidades de verdadeiros Reis; dizem-no por não
serem dadas a eles; tratava-se porém de justas recompensas da nossa
dedicação. E hoje se esses santos Reis e Rainhas nos olhassem lá
do céu, que diriam eles? «O filho de don Leonardo Tumeo
atraiçoou-nos!» Ainda bem que no Paraíso se conhece a verdade. Eu
sei, Excelência, eu sei, as pessoas como vós já me disseram que
essas coisas por parte dos Reis não significam nada, fazem parte do
ofício. Será verdade, é mesmo certamente verdade. Mas o facto é
que havia as cinco onças e com elas sempre se ajudava a passar o
Inverno. E agora que podia pagar a minha dívida, não há nada a
fazer, nada, «tu não percebes patavina», o meu não transforma-se
num sim. Era «súbdito fiel», tornei-me um bourbónico sujo. Agora
toda a gente é «saboiana»! Mas os «saboianos» mastigo-os eu ao
café! — E empunhando, entre o polegar e o indicador, um biscoito
fictício, mergulhava-o numa chávena imaginária.
10 de outubro de 2014
Lendas de Portugal, vol. 3
Gentil Marques
Lendas de Portugal, vol. 3 (1964)
Terceiro volume dedicado à recolha de
lendas populares portuguesas, desta vez sob o tema Lendas de
Mouras e Mouros. O excerto que escolhi pertence à Lenda da
Mina de Ouro, relacionada com a freguesia de Vale da Figueira, no
concelho de Santarém.
Com voz sumida, Maria indagou:
– Chegamos?
– Sim, chegamos.
Ela olhou em volta. O coração
bateu-lhe com violência.
– Mas... senhor... onde é a vossa
casa?
– Já vai ver.
E encaminhando-se para uma pedra
rochosa tocou-lhe com a mão. A pedra rodou. Maria olhou para o
homem, aflita:
– Mas... isso é um alçapão!
Com a serenidade de sempre, ele
retorquiu:
– É uma porta como outra qualquer.
– Pode ser um covil de ladrões!
– E... se fosse... recusava-se a
salvar duas vidas?
Maria olhou o homem que a fitava numa
ansiosa interrogação. Suspirou:
– Tem razão, senhor. Irei. E seja o
que Deus quiser!
O homem sorriu. A sua expressão
tornou-se mais leve. A sua voz, quase cariciosa.
– Cuidado! Daqui para diante
encontrará muitas coisas que hão-de parecer-lhe estranhas. Não
faça perguntas, nem tente fixar o que vai ver. Lembre-se que tem por
única missão assistir ao nascimento de uma criança.
Maria fez um sinal afirmativo com a
cabeça e, vendo à sua frente umas escadas, indagou:
– Desço por aqui?
– Não precisa de descer. A própria
escada a levará.
Sorrindo acrescentou:
– Não se assuste com o que vir. Faça
de conta que está sonhando.
Surpreendida, Ti Maria murmurou quase:
– E estarei eu mesmo sonhando?...
Ali, desaparecera a voz do vento e a
impiedade da chuva. Lá em baixo, ela via salões fantásticos de
luxo e riquezas. Homens de turbantes na cabeça passavam como se ela
não existisse. Mulheres vestidas com mantos e véus.
Maria parara no meio do salão, como
que deslumbrada. O desconhecido tocou-lhe num ombro.
– Vamos?
Maria deixou-se encaminhar. Vivia um
conto d'As Mil e Uma Noites! E lembrava-se das histórias de fadas e
mouras encantadas que a avó lhe contara à lareira. Tudo ali era
irreal! Tudo parecia um sonho!
Li anteriormente:
Lendas de Portugal, vol. 2 (1963)
Lendas de Portugal, vol. 1 (1962)
7 de outubro de 2014
O Adeus às Armas
Ernest Hemingway
O Adeus às Armas (1929)
De Hemingway li um punhado de livros há
já muitos anos, quase todos eles publicados depois de 1950; a
excepção era O Adeus às Armas. Pretendendo agora ler
algumas das obras pertencentes à sua primeira fase, decidi reler
este livro, cujo argumento tinha praticamente esquecido.
O Adeus às Armas, largamente
autobiográfico, narra a história de Frederic Henry, um
norte-americano alistado no exército italiano durante a Grande
Guerra, com a missão de condutor de ambulâncias, e o seu encontro
com uma enfermeira inglesa, Catherine Barkley, com quem viverá uma
grande paixão. Ferido num bombardeamento na frente de combate, o
período de convalescença e o regresso à frente, decorridos muitos
meses, trazem a Henry uma mudança de perspectiva e um sentimento
anti-militarista à medida que se vai confrontando com o imobilismo,
a perpetuação e a aparente inutilidade dos combates. Durante a
confusão de uma retirada, a polícia do exército confunde-o com um
espião, devido à sua nacionalidade estrangeira, e, na iminência de
ser fuzilado, Henry foge, para se reunir a Catherine, e abandonar de
uma vez o exército...
– Sou patriota
– disse Gino –, mas não posso gostar de Brindisi nem de Tarento.
– Você gosta
do Bainsizza? – perguntei.
– O solo é
sagrado – disse ele –, mas preferia que desse mais batatas. Sabe,
quando cá chegámos achámos batatais plantados pelos Austríacos.
– Tem havido
realmente falta de abastecimentos?
– Eu próprio
nunca tive o suficiente para comer, mas como muito, e não cheguei a
passar fome. A messe é razoável. Nas trincheiras, as tropas são
bem alimentadas, mas as de reforço nem tanto. Há algures qualquer
coisa que não funciona bem. Devia haver víveres mais que
suficientes.
– Os
especuladores vendem-nos por outro lado.
– Sim, dão aos
batalhões que estão nas trincheiras o mais que podem, mas os da
retaguarda ficam prejudicados. Comeram todas as batatas dos
Austríacos e as castanhas dos bosques. Era preciso que os
alimentassem melhor. Somos grandes comilões. Tenho a certeza de que
há comida em abundância. É muito mau para os soldados não comerem
o suficiente. Já reparou alguma vez como isso influencia a maneira
de eles pensarem?
– Reparei –
disse eu. – Não é coisa que faça ganhar uma guerra, mas pode
fazê-la perder.
– Não falemos
em perder a guerra. Já se fala de mais nisso. O que se fez este
Verão não pode ter sido em vão.
Eu não disse
nada. As palavras "sagrado", "glorioso" e
"sacrifício" e a expressão "em vão"
deixavam-me sempre embaraçado. Tínhamo-lo ouvido, muitas vezes, de
pé, à chuva, quase fora do alcance do ouvido, de forma que só nos
chegavam as palavras gritadas, e tínhamo-las lido em proclamações
que eram coladas sobre outras proclamações vezes sem conta, e eu
não tinha visto nada sagrado, e as coisas que eram gloriosas não
tinham glória e os sacrifícios eram como os matadouros de Chicago,
com a diferença de que a carne servia só para ser enterrada. Havia
muitas palavras que não se podiam suportar, e por fim só os nomes
dos lugares conservavam ainda dignidade. Com certos números
acontecia o mesmo, e também com certas datas, e estas, assim como os
nomes dos lugares, eram tudo quanto significava ainda alguma coisa.
Palavras abstractas como "glória", "honra",
"coragem" ou "santidade" tornavam-se obscenas
comparadas aos nomes concretos das aldeias, aos números das
estradas, aos nomes dos rios, aos números dos regimentos e às
datas. Gino era um patriota, e por isso dizia coisas que às vezes
nos separavam, mas era ao mesmo tempo um excelente moço, e eu
compreendia que ele fosse patriota. Tinha nascido assim. Regressou no
carro a Gorizia, juntamente com Peduzzi.
Li anteriormente:
Ilhas na Corrente (1970)
Na Outra Margem entre as Árvores
(1950)
O Jardim do Éden (1986)
30 de setembro de 2014
Amor sem Limites
Robert A. Heinlein
Amor sem Limites (1973)
Publicada em Portugal em 1977 na
Colecção Argonauta sob o enganador título A História do
Futuro, dividida em três volumes, esta é, de longe, a obra que
mais anos esperei para ler. Comprei em 1980 ou 81 os volumes 2 e 3, e
vim a descobrir que o volume 1 estava completamente esgotado; durante
anos continuei a ver os dois últimos volumes nos escaparates, mas a
Livros do Brasil nunca se dignou reeditar o primeiro. Consegui por
fim encontrá-la, numa versão diferente.
Amor sem Limites é a tradução
brasileira de Time Enough for Love, e um dos títulos centrais
da série Future History. Passada no futuro distante do ano
4272, reencontramos aqui a personagem de Lazarus Long, então o mais
velho ser humano vivo, com 2360 anos! A humanidade tornou-se
praticamente imortal, através de uma técnica de rejuvenescimento
periódico, e a morte só acontece por acidente ou por suicídio.
Lazarus Long, cansado da vida, decidiu não rejuvenescer e
desapareceu na cidade de Nova Roma, em Secundus, para morrer
tranquilamente. Foi porém resgatado in extremis a mando de
Ira Weatheral, um seu descendente, e levado para uma clínica para
lhe ser aplicado o rejuvenescimento. Ira Weatheral está interessado
em registar a experiência e o conhecimento do Sénior, e convence-o
a fazer com ele um trato semelhante ao de Xerazade, das Mil e uma
Noites: Lazarus Long não se suicidará enquanto ele estiver
disposto a escutar as suas histórias.
Amor sem Limites é assim
dividido em várias partes, intituladas segundo uma nomenclatura
própria de uma obra musical, onde o presente narrativo se intercala
com as memórias de Lazarus Long. Determinadas partes, retiradas do
texto principal, quase poderiam funcionar como contos ou novelas
independentes. Temos assim a divertida "História do Homem que
era Preguiçoso demais para Fracassar" (de onde retirei o
excerto abaixo), "A História dos Gémeos que não eram Gémeos"
sobre um caso de manipulação genética — um tema recorrente ao
longo de todo o livro —, ou "A História da Filha Adoptiva",
sobre a colonização e a vida rústica num planeta recém-descoberto.
No quarto final desta extensa obra, Lazarus Long faz uma viagem no
tempo e regressa à sua Kansas City natal, na época em que os
Estados Unidos entram na Grande Guerra, e trava conhecimento com a
família onde nasceu — e consigo próprio, como um rapazinho de
cinco anos.
Depois a guerra acabou.
Dave
olhou em volta e avaliou a situação. Havia centenas de
capitães-de-mar-e-guerra que, como ele, tinham sido
capitães-de-corveta apenas três anos antes. Já que a paz era "para
sempre", como os políticos sempre insistem, poucos seriam algum
dia promovidos. Dave pôde ver que não seria promovido; não tinha
nem a antigüidade, padrão tradicionalmente aprovado nas forças
armadas, nem as ligações apropriadas, políticas e sociais.
O
que ele tinha eram quase vinte anos de serviço, o mínimo para se
reformar a meio soldo. Ou podia permanecer até ser forçado a se
reformar por não ser escolhido para almirante.
Não
havia necessidade de decidir imediatamente; a reforma aos vinte anos
era para daí a um ou dois anos.
Mas
ele se reformou quase imediatamente, por motivos de saúde. O
diagnóstico foi "psicose situacional", o que significava
que ele ficava doido quando trabalhava.
Ira,
não sei como avaliar isto. Dave me impressionou como um dos poucos
homens completamente sãos que já conheci. Mas eu não estava lá
quando ele se reformou, e a "psicose situacional" era a
segunda causa mais comum para reforma por motivos de saúde dos
oficiais de marinha naquele tempo; mas como podiam eles saber? Ficar
maluco não era nenhum empecilho para um oficial de marinha, não
mais do que o era para um escritor, um professor, um pregador ou
várias outras ocupações respeitáveis. Desde que David chegasse na
hora e assinasse a documentação que algum escriturário preparava,
e nunca desse respostas malcriadas aos seus superiores, isso nunca
seria notado. Lembro-me de um oficial da marinha que tinha uma
coleção espantosa de ligas de senhoras; ele costumava trancar-se em
sua sala e examiná-las; e de outro que fazia exatamente a mesma
coisa com uma coleção de rótulos de papel usados para franquia
postal. Qual deles era maluco? Ambos? Ou nenhum dos dois?
Outro
aspecto da reforma de Dave exige conhecimento das leis da época.
Reformar-se com vinte anos de serviço resultava em meio soldo,
sujeito ao imposto de renda, que era pesado. Reformar-se por
incapacidade física resultava em três quartos de soldo, ficando-se
isento do imposto de renda.
Não sei, simplesmente não
sei. Mas toda a questão se enquadra no talento de Dave para obter
resultados máximos com o mínimo de esforço. Vamos aceitar que ele
estivesse maluco, mas estaria ele completamente maluco?
Li anteriormente:
The Moon Is A Harsh Mistress (1966)
Stranger in a Strange Land (1961)
O Homem que Vendeu a Lua (1951)
30 de agosto de 2014
O Lobo da Estepe
Hermann Hesse
O Lobo da Estepe (1927)
O Lobo da Estepe (Der
Steppenwolf) é um romance com uma estrutura peculiar: inicia-se
por um Prefácio redigido pelo sobrinho da senhoria de Harry Heller,
o protagonista, onde narra as circunstâncias em que o conheceu e
como lhe chagaram à mão os seus apontamentos. O resto do livro são
os apontamentos de Harry Heller, onde se inclui ainda o "Tratado
do Lobo da Estepe", um breve ensaio sobre questões espirituais,
que lhe foi oferecido e é transcrito na íntegra.
Harry Heller descreve-se como um lobo
da estepe, um cinquentão oriundo da burguesia, que simultaneamente
almeja e despreza, transformado em ser intelectualizado que acaba à
margem da sociedade, tão incapaz de se integrar quanto falho da
vontade para o fazer. Do seu encontro com Hermínia, uma jovem
mundana que o arrasta para os salões de baile, lhe dá a conhecer os
seus amigos e lhe propõe um estranho pacto de morte, aprende uma
nova forma de estar e sentir.
Passado nos Loucos Anos da década de
20, com a música de jazz por fundo e onde se fala da inevitabilidade
da próxima guerra, O Lobo da Estepe é um livro tão mais
interessante quanto se vai afastando da realidade objectiva, rumo a
um surrealismo espesso, onde se representam os medos e as angústias
da sua época.
Ah, é difícil achar esse trilho de
Deus em meio à vida que levamos, na embrutecida monotonia de uma era
de cegueira espiritual, com sua arquitetura, seus negócios, sua
política e seus homens! Como não haveria de ser eu um Lobo da
Estepe e um mísero eremita em meio de um mundo de cujos objetivos
não compartilho, cuja alegria não me diz respeito! Não consigo
permanecer por muito tempo num teatro ou num cinema. Mal posso ler um
jornal, raramente leio um livro moderno. Não sei que prazeres e
alegrias levam as pessoas a trens e hotéis superlotados, aos cafés
abarrotados, com sua música sufocante e vulgar, aos bares e
espetáculos de variedades, às Feiras Mundiais, aos Corsos. Não
entendo nem compartilho essas alegrias, embora estejam ao meu
alcance, pelas quais milhares de outros tanto anseiam. Por outro
lado, o que se passa comigo nos meus raros momentos de júbilo,
aquilo que para mim é felicidade e vida e êxtase e exaltação,
procura-o o mundo em geral nas obras de ficção; na vida parece-lhe
absurdo. E, de fato, se o mundo tem razão, se essa música dos
cafés, essas diversões em massa e esses tipos americanizados que se
satisfazem com tão pouco têm razão, então estou errado, estou
louco. Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes —
aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem alegria nem
alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível.
25 de agosto de 2014
Lendas de Portugal, vol. 2
Gentil Marques
Lendas de Portugal, vol. 2 (1963)
Segundo volume desta recolha de lendas
populares, dedicado este às Lendas Heróicas. O excerto citado
pertence à Lenda das Chaves do Castelo de Coimbra. Esta lenda
passa-se após o termo do reinado de D. Sancho II, na sequência da
guerra civil de 1245-47, que o opôs ao seu irmão e sucessor D.
Afonso III. D. Sancho II, após tentativa de reforço da
centralização monárquica do poder, foi vítima de uma conspiração
destinada a depô-lo que contou com a cumplicidade do clero e do
papado, que o excomungou e ostracizou. O rei deposto morreu no ano
seguinte no seu exílio de Toledo, que serve de cenário a esta cena
final.
Vendo-o, D. Gil Martins ergueu-se.
– Grande honra tenho em receber-vos!
Martim de Freitas pareceu não ligar ao
cumprimento e perguntou em tom grave:
– El-rei D. Sancho II é morto?
Baixando a cabeça, o fidalgo
confirmou.
– Sim... é morto. Que Deus tenha a
sua alma em descanso!
– Vistes o seu corpo sem vida?
– Deus reservou-me mais esse
desgosto!
– Pois quero eu vê-lo também.
D. Gil Martins elevou a estatura num
gesto de surpresa.
– Que dizeis, D. Martim de Freitas?
Solene, o visitante confirmou:
– O que acabais de ouvir, senhor.
Quero vê-lo e desempenhar-me da minha última missão.
– É assim tão urgente e...
necessário?
– Sim. Trago comigo as chaves do
castelo de Coimbra. Preciso que el-rei me desobrigue do meu juramento
antes que o rei Afonso tome conta delas.
De olhos abertos num espanto, D. Gil
Martins olhava o visitante, perguntando a si próprio se o prolongado
cerco a que D. Martim de Freitas se sujeitara não dera cabo do seu
entendimento. Mas logo o fidalgo, que parecia ter adivinhado as
conjecturas do seu interlocutor, pôs ponto final nessas mudas
interrogações.
– Senhor, creio que fui bem
explícito. O que peço é justo e não pode ser-me negado!
Lá fora, a chuva miúda, impertinente,
punha lama nos caminhos. E a tarde morria, com a pressa de quem não
tem nem deixa saudades.
O dia que nasceu depois daquele em que
Martim de Freitas chegara a Toledo não era menos triste. A chuva
deixara por momentos de cair mas o vento viera substituí-la. Um
vento gritante, que punha arrepios nas almas inquietas.
No cemitério, um pequeno grupo olhava
com ar de assombro, e por vezes entre as lágrimas, a figura altiva
de D. Martim de Freitas, agora ajoelhado junto da sepultura do que
fora seu rei e rei de Portugal. O corpo estava exposto. O fidalgo
português curvou-se e, entre as mãos cruzadas sobre o peito do
defunto, depôs as chaves do castelo de Coimbra. Beijou-lhe as pontas
dos dedos. Depois ergueu-se e falou:
– Meu rei e senhor! Enquanto
vivestes, sofri pela vossa causa as maiores privações, dissimulando
sempre, para dar conforto e ânimo aos meus companheiros. E assim
eles continuaram no castelo que é vosso e continuaram honradamente
aguentando por vós. Cumpri o meu juramento de lealdade, Senhor!
Porém, agora que sois morto e não posso já entregar-vos a cidade,
quero ao menos fazer-vos a entrega destas chaves para que,
desobrigando-me vós, eu possa apresentá-las a vosso irmão, o conde
D. Afonso, como renúncia vossa e não como triunfo de suas armas!...
Fez-se um pesado silêncio após estas
palavras, cadenciadas, solenes. Havia emoção em todos os rostos
desses homens habituados às agruras da guerra. Depois,
silenciosamente ainda, as chaves do castelo de Coimbra foram
retiradas das mãos do rei morto e a sua sepultura fechada para
sempre.
Assim ficava encerrado, também, um
feito de lealdade que jamais as chuvas, o vento, o pó ou a lama dos
caminhos poderão destruir, apesar do esforço do tempo!
Li anteriormente:
Lendas de Portugal, vol. 1 (1962)
23 de agosto de 2014
The Moon Is A Harsh Mistress
Robert A. Heinlein
The Moon Is A Harsh Mistress (1966)
Traduzido em português com o título
Revolta na Lua (porquê mudar para um título tão árido
quando o original é tão evocativo?), este livro do ciclo Future
History, ao qual me tenho dedicado recentemente, trata da
sublevação que levou à independência de Luna, até então uma
simples colónia das Nações Federadas da Terra.
Partindo do pressuposto de um
computador tão expandido e melhorado nas suas capacidades que, um
dia, se torna auto-consciente, com a sua capacidade de análise e
previsão alerta para um futuro negro que ameaça a colónia lunar a
curto prazo, a menos que toda a sua gestão seja radicalmente
modificada. É essa luta, desde a constituição de uma rede
clandestina e adopção de tácticas subversivas, passando pela
revolução e guerra da independência, até ao reconhecimento da
soberania, que constitui a narrativa desta obra, vencedora do Prémio
Hugo em 1967.
O referido pressuposto continua um tema
actual; muitos se têm questionado se o contínuo acréscimo de
computadores à rede, onde cada um deles equivale a um neurónio,
eventualmente poderá levar à auto-consciência da própria
internet...
One man demanded to know
why, since we paid no taxes, we colonists thought we had a right to
run things our own way? After all, those colonies had been
established by Federated Nations—by some of them. It had been
terribly expensive. Earth had paid all bills—and now you colonists
enjoy benefits and pay not one dime of taxes. Was that fair?
I wanted to tell him to
blow it. But Prof had again made me take a tranquilizer and had
required me to swot that endless list of answers to trick questions.
"Lets take that one at a time," I said. "First, what
is it you want us to pay taxes for? Tell me what I get and perhaps
I'll buy it. No, put it this way. Do you pay taxes?"
"Certainly I do! And
so should you."
"And what do you get
for your taxes?"
"Huh? Taxes pay for
government."
I said, "Excuse me,
I'm ignorant. I've lived my whole life in Luna, I don't know much
about your government. Can you feed it to me in small pieces? What do
you get for your money?"
They all got interested
and anything this aggressive little choom missed, others supplied. I
kept a list. When they stopped, I read it back: "Free
hospitals—aren't any in Luna. Medical insurance—we have that but
apparently not what you mean by it. If a person wants insurance, he
goes to a bookie and works b-Out a bet. You can hedge anything, for a
price. I don't hedge my health, I'm healthy. Or was till I came here.
We have a public library, one Carnegie Foundation started with a few
book films. It gets along by charging fees. Public roads. I suppose
that would be our tubes. But they are no more free than air is free.
Sorry, you have free air here, don't you? I mean our tubes were built
by companies who put up money and are downright nasty about expecting
it back and then some. Public schools. There are schools in all
warrens and I never heard of them turning away pupils, so I guess
they are 'public.' But they pay well, too, because anyone in Luna who
knows something useful and is willing to teach it charges all the
traffic will bear."
I went on: "Let's see
what else—Social security. I'm not sure what that is but whatever
it is, we don't have it. Pensions. You can buy a pension. Most people
don't; most families are large and old people, say a hundred and up,
either fiddle along at something they like, or sit and watch video.
Or sleep. They sleep a lot, after say a hundred and twenty."
[...] I looked at list.
"I'll lump the rest of this together by saying we don't have any
of it in Luna, so I can't see any reason to pay taxes for it. On that
other point, sir, surely you know that the initial cost of the
colonies has long since been repaid several times over through grain
shipments alone? We are being bled white of our most essential
resources... and not even being paid an open-market price. That's why
the Lunar Authority is being stubborn; they intend to go on bleeding
us. The idea that Luna has been an expense to Terra and the
investment must be recovered is a lie invented by the Authority to
excuse their treating us as slaves. The truth is that Luna has not
cost Terra one dime this century—and the original investment has
long since been paid back."
Li anteriormente:
Stranger in a Strange Land (1961)
O Homem que Vendeu a Lua (1951)
Revolta em 2100 (1953)
7 de agosto de 2014
Aparição
Vergílio Ferreira
Aparição (1959)
Narrado na primeira pessoa por Alberto
Soares, um professor colocado em Évora - provavelmente um alter-ego
do autor, também ele professor -, Aparição é uma ruminação
existencialista sobre as suas dúvidas pessoais. Como comenta uma
outra personagem, quando o narrador compra uma casa isolada - esse é
o sítio ideal para ele: "Está isolado, pode meditar em sossego
sobre o espantoso milagre de estar vivo e o incrível absurdo da
morte."
Saí enfim para a noite, Chico saiu
comigo. E, enquanto subíamos a rua, falou-me de si, falou-me de
Évora. Estava ali há cinco anos, era engenheiro, trabalhava na
Direcção dos Monumentos. Évora era uma cidade absurda,
reaccionária, empanturrada de ignorância e de soberba. Em Évora –
tinham-lhe dito um dia – não se podia ter mais do que a quarta
classe nem menos que 300 porcos.
– Qualquer iniciativa cultural é
logo abafada de desprezo e de banha.
O peso da Idade Média enegrecia ainda
as almas, e os mouros também. Ter meia dúzia de amantes era para
aqueles sultões um sinal de abundância. E havia damas que durante
anos não saíam à rua, ou saíam apenas pela Semana Santa. Muitas
casas tinham jardins. Pois visse eu se os descobria. Cercavam-nos de
muros altos como a toda a sua vida. Criar relações em Évora era um
milagre. Tudo ali tinha muralhas: a sociabilidade, os jardins e,
enfim, a própria cidade. Mas de vez em quando aquela gente ia a
Lisboa. E então era vê-la desabafar: casinos, teatros, ceias.
Depois recolhiam ao mosteiro. Havia damas que nunca se viam na rua.
Vira-as ele, Chico, fumando e bebendo no Estoril. Évora era a
Quaresma e Lisboa o Carnaval. Ora bem, ele, Chico, e alguns amigos
não desistiam de importunar a embófia gorda daqueles senhores.
Falhara em tempos o Círculo de Cultura Musical. Falhara o Cinema
Clássico. Mas iam atacar outra vez. Agora, com uma série de
conferências na Harmonia. Poderia eu colaborar?
Vagueámos pela cidade morta, de
arcadas desertas.
Disse enfim ao caloroso homem:
– Ignoro tudo de Évora. Mas sinto
que você exagera. Por ora sei apenas que é uma cidade fantástica.
E quanto às conferências, decerto estou pronto a colaborar.
Li anteriormente:
Manhã Submersa (1954)
4 de agosto de 2014
Lendas de Portugal, vol. 1
Gentil Marques
Lendas de Portugal, vol. 1 (1962)
O primeiro de cinco volumes de recolha
de lendas populares portuguesas, recontadas por Gentil Marques numa
linguagem simples e acessível. O primeiro tomo é dedicado às
Lendas dos Nomes das Terras. O excerto que se segue pertence à Lenda
do Bom Jardim dos Coelhos, relativa ao solar de Sergude, em
Felgueiras.
Estremeceu. Um suspiro fundo fê-lo
voltar a cabeça. Parecia ter ouvido soluçar baixinho. Talvez fosse
o ruído das árvores, receosas da noite invernal que não tardaria.
Andou uns passos mais e entrou na clareira florida que ficava ao cimo
da álea dos lilases. E o seu coração quase parou. Uma dama envolta
num véu espesso e cinzento parecia chorar, encostada a uma frondosa
árvore. Gonçalo aproximou-se mais. Ela parecia não dar pela
presença do jovem. Ele falou-lhe num tom de delicada surpresa:
– Senhora! Em que pode servir-vos o
meu braço?
A dama levantou a cabeça. Sem pressas.
Altivamente. E logo a baixou de novo, num gesto súbito. Gonçalo não
pôde ver-lhe a expressão do rosto com nitidez. Mas a sua voz,
estranhamente em surdina, chegou aos seus ouvidos:
– Deixai-me só, jovem fidalgo!
Preciso descansar.
Ele porém insistiu, levado pela
surpresa de ver no seu solar uma dama desconhecida:
– Perdoai, mas... gostaria de saber
como chegastes até aqui.
– Andando... como vós!...
– Sois visita da nossa casa?
– Conheço-vos há muito!
– E poderei saber quem sois?
A dama do véu cinzento silenciou um
breve instante, mas respondeu por fim:
– Dir-vos-ei apenas que alguém do
vosso sangue muito mal me causou!
Gonçalo Coelho mostrou-se ainda mais
surpreendido:
– Alguém do meu sangue? E quem?
A dama não respondeu. Ao longe soou
uma gargalhada fresca. Ruído de vozes denunciavam a presença
distante de um grupo turbulento.
Como que numa desculpa, o jovem fidalgo
olhou o local donde partira a gargalhada e disse apenas:
– Brincam e riem sem preocupações...
Voltou a dama a falar,
sentenciosamente:
– A jovem que ora ri, talvez chore
dentro de pouco tempo!
Gonçalo elucidou:
– A jovem a quem vos referis,
senhora, é minha prima-irmã, D. Leonor de Alvim.
Houve um ligeiro assentimento de cabeça
da parte da dama velada:
– Eu sei. E com ela passar-se-á algo
de misterioso... depois de casar...
– Sabeis então que Leonor vai casar
com Vasco Gonçalves Barroso?
– Sim... mas enviuvará ainda
donzela.
A surpresa subiu ao auge na expressão
de Gonçalo Coelho.
– Que dizeis? Não pertence ao
passado nem ao presente tal acontecimento!
A dama pareceu sorrir.
– Mas pertence a um futuro muito
próximo.
– Como o sabeis?
– É fácil para quem vê o mundo
como eu o vejo... mesmo através deste meu véu espesso...
Então Gonçalo, num impulso
instintivo, avançou até junto da dama desconhecida. Mas não lhe
tocou. Pediu apenas:
– Senhora! Dizei-me quem sois e
porque estais aqui!
Ela não respondeu. Ergueu o busto e
pareceu absorta na contemplação da paisagem. A aragem corria
fresca, fazendo bater a ramagem das árvores. Gonçalo tentou quebrar
o mutismo em que a sua interlocutora parecia querer refugiar-se.
– Decerto não ignorais que estais no
solar da família de Pêro Coelho...
A dama fez com a cabeça um sinal
afirmativo e declarou:
– Venho aqui todos os anos neste dia.
Depois houve uma pausa. E logo uma
pergunta lenta:
– Sabeis que dia é hoje?
– Se o sei! Sete de Janeiro...
A desconhecida interrompeu com um gesto
a palavra de Gonçalo.
– Não vale a pena ficardes preso a
dolorosas recordações. Calai então o dia de hoje. Ide folgar com
vossos irmãos e primas, senhor fidalgo! Ide, Gonçalo Pires Coelho,
e deixai-me só!
Gonçalo inclinou-se com galhardia.
– Senhora! De modo algum devo
esquecer que estais no solar dos Coelhos. Melhor direi, como dizia o
senhor meu pai, no «Bom Jardim dos Coelhos»...
– Calai-vos, por favor... Hoje é um
mau jardim... Será sempre um mau jardim, no dia de hoje!
A voz dele revestiu-se de espanto
sincero.
– Não vos compreendo, senhora!
Pretendo apenas receber-vos como mandam as regras da fidalguia.
A misteriosa dama voltou a suspirar.
Pareceu de novo interessada pela paisagem. Mas, voltando-se de
repente para o jovem Gonçalo, pediu com voz ansiosa:
– Se querei, de facto, fazer-me
grande mercê, deixai-me só até ao fim deste dia. Não consenti que
mais alguém venha perturbar o meu repouso. Fazei cientes disto a
todos desta casa: uma vez em cada ano, durante as horas do sol-posto,
virei aqui. E peço-vos por tudo: que ninguém ouse perturbar esta
minha visita. Ninguém... sob pena de grandes desgraças! Sob pena
mesmo do vosso solar deixar de ser um Bom Jardim e transformar-se,
para sempre, num Mau Jardim...
Gonçalo olhou com assombro a dama
velada.
– Que estranhas as vossas palavras,
senhora! Poderei, ao menos, saber quem sois?
Numa voz repassada de sofrimento, a
dama desconhecida declarou:
– Pois já que o desejais saber,
senhor fidalgo... chamo-me Inês!
Um arrepio forte percorreu o corpo de
Gonçalo Pires Coelho. Olhou melhor a singular figura, como a querer
descobri-la através dos seus véus espessos, e pareceu-lhe encontrar
traços de um rosto que vira em alguns retratos.
Inês! – pensava ele, na turbulenta
confusão do seu espírito... – Seria possível? Estaria em
presença de uma alma penada? Para ele, seu pai nunca fora um
assassino e sim um fervoroso adorador da sua pátria, que supusera em
perigo. Seu pai era recto e bom para com os outros! Se tinha
insistido na morte de Inês de Castro, fora apenas para salvar dos
Castelhanos o seu querido Portugal, por quem tantos heróis se tinham
batido. Mas Inês, decerto, não pensaria assim. E seria mesmo Inês?
Apavorado, Gonçalo Coelho fez uma longa vénia e retrocedeu sem mais
olhar para trás, deixando a dama sozinha...
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