18 de outubro de 2015

The Number of the Beast

Robert A. Heinlein
The Number of the Beast (1979)

Comprei na época da sua edição os três volumes que, na Colecção Argonauta, compõem este The Number of the Beast (O Número do Monstro, na versão portuguesa); não o li então porque, no texto introdutório dado pela editora, afirmava-se que este livro era a continuação de Os Filhos de Matusalém e de História do Futuro (leia-se Time Enough For Love) obras que eu ainda não tinha conseguido encontrar, sem imaginar que seria necessário passar-se mais de 30 anos até poder lê-las. Quando abri o livro de páginas acastanhadas pelo tempo e com letra minúscula decidi ler o original em inglês, mantendo-o porém como auxiliar de tradução, no que me foi muito útil.
O livro, dividido em três partes, é narrado na primeira pessoa, com cada capítulo rodando pelas quatro principais personagens: Zebadiah, casado com Deety, filha de Jacob, casado com Hilda. Jacob, a partir de uma base teórica de geometria hexadimensional não-Euclidiana, onde se consideram 3 dimensões de espaço e 3 dimensões de tempo, construiu um dispositivo que permite viajar entre universos paralelos; a divulgação desses princípios matemáticos atraiu as atenções de poderosos e não-humanos inimigos, e, após sofrerem alguns atentados à sua vida, os quatro protagonistas iniciam uma fuga, simultaneamente exploração, pelos universos paralelos. A certo ponto constatam que esses universos reflectem os seus gostos literários, e que a ficção de algum modo se transformou numa realidade paralela.
Será talvez interessante notar que a vida pode não ser consequência das condições físicas de um planeta, mas ser a determinante dessas condições e, por extensão, pode pressupor-se que um mundo não é o que nos cerca, mas sim aquilo com que nos queremos cercar; assim a vida não seria a resultante de uma infinidade de condicionalismos e acasos, mas algo conduzido por um ser ou uma força superior, navegando num número infinito de possibilidades correspondente a um número infinito de mundos paralelos, algo conhecido como o "Princípio Antrópico" conforme é explicado pelas notas de rodapé da edição portuguesa. Mais ainda, segundo o físico e matemático Paul Dirac, há certas relações numéricas curiosas entre números não-dimensionais que têm um importante papel na física e astrofísica, que poderiam suportar este tipo de teorias. Mas, como também se afirma algures no livro, a matemática pode suportar "qualquer coisa"...
A aproximação ao ciclo de Future History dá-se apenas na terceira parte do livro, onde os protagonistas encontram Lazarus Long, após os factos descritos em Time Enough For Love, rodeado de outras personagens desse e do outro livro acima referido. No capítulo final de The Number of the Beast junta-se-lhes Jubal Harshaw, a impagável personagem de Um Estranho Numa Terra Estranha, e passam ainda outras personagens de outros livros de Heinlein, como Glory Road, por exemplo. Isto para não alongar sequer a passagem, em outros momentos, de personagens ou referências a outros universos literários FC, como os "Lensmen" de E.E. "Doc" Smith, ou os "Dorsai" de Gordon R. Dickson, o que dá a este livro um cariz de homenagem a um certo tipo de literatura fantástica ou FC.
Gostei particularmente de um excerto no capítulo 9, sobre a degradação do ensino superior, em que Zeb descreve pormenorizadamente como é possível tirar um doutoramento, sem estudar nem apresentar qualquer trabalho válido. O trecho é demasiado extenso para apresentar aqui, por isso optei por outro texto, do final da segunda parte, onde os protagonistas (em fuga, recorde-se) encontram uns Estados Unidos paralelos, onde decidem instalar-se temporariamente, dado conterem as condições benévolas adequadas que eles buscavam e sei que haverá por aí muita gente que consideraria este tipo de sociedade um horror...

The Bible affects their penal system, again by selective quotation: "Eye for eye, tooth for tooth —"
This results in a fluid code, with no intent to rehabilitate but to make the punishment fit the crime. I saw an example four days after we settled. I was driving our steam wagon and encountered a road block. A policeman told me that I could take a detour or wait twenty minutes; the highway was being used to balance a reckless driver.
I elected to pull over and wait. A man was staked with one leg stretched out at a right angle. A police wagon drove down that cleared highway, ran over his leg, turned and drove back over it.
An ambulance was waiting — but nothing was done for a timed seventeen minutes. Then surgeons amputated on the spot; the ambulance took him away and the block was removed.
I went back to my wagon and shook for many minutes, then returned home, driving cautiously. I didn't tell our family. But it was reported on radio and the evening paper had pictures — so I admitted that I had seen it. The paper noted that the criminal's insurance had been insufficient to cover the court's award to the victim, so the reckless driver had not only lost his left leg (as had his victim) but also had had most of his worldly goods confiscated.
There is no speed limit and traffic regulations are merely advisory — but there are extremely few accidents. I have never encountered such polite and careful drivers.
A poisoner is killed by poison; an arsonist is burned to death. I won't describe what is done to a rapist. But poisoning, arson, and rape are almost unknown.
My encounter with this brutal system of "balancing" almost caused me to think that my dear wife had been mistaken in picking this world — we should move! I am no longer certain. This place has no prisons, almost no crime, and it is the safest place to raise children I've ever heard of.
We are having to relearn history. "The Years of Rising Waters" explain themselves. The change came before 1600; by 1620 new shorelines had stabilized. That had endless consequences — mass migrations, political disorder, a return of the Black Death, and much immigration from Great Britain and the lowlands of Europe while the waters rose.
Slavery never established here. Indentures, yes — many a man indentured himself to get his family away from doomed land. But the circumstances that could have created "King Cotton" were destroyed by rising waters. There are citizens here of African descent but their ancestors were not slaves. Some have indentured ancestors, no doubt — but everyone claims indentured ancestors even if they have to invent them.
Some aspects of history seem to be taboo. I've given up trying to find out what happened in 1965: "The Year They Hanged the Lawyers." When I asked a librarian for a book on that year and decade, he wanted to know why I needed access to records in locked vaults. I left without giving my name. There is free speech — but some subjects are not discussed. Since they are never defined, we try to be careful.
But there is no category "Lawyers" in the telephone book. Taxation is low, simple — and contains a surprise. The Federal government is supported by a head tax paid by the States, and is mostly for military and foreign affairs. This state derives most of its revenue from real estate taxes. It is a uniform rate set annually, with no property exempted, not even churches, hospitals, or schools — or roads; the best roads are toll roads. The surprise lies in this: The owner appraises his own property.
There is a sting in the tail: Anyone can buy property against the owner's wishes at the appraisal the owner placed on it. The owner can hang on only by raising his appraisal at once to a figure so high that no buyer wants it — and pay three years back taxes at his new appraisal.

Li anteriormente:
Amor Sem Limites (1973)
The Moon is a Harsh Mistress (1966)
Stranger in a Strange Land (1961)

15 de setembro de 2015

Ficciones

Jorge Luis Borges
Ficciones (1944/1956)

A minha edição de A Costa das Sirtes, de Julien Graq, tem na contracapa um pequeno texto de Vergílio Ferreira onde, a propósito desse excelente livro faz a distinção entre fantástico realista e realismo fantástico; “o primeiro apenas escolhe para seu campo de operações a própria fantasia”, diz, enquanto o segundo “se fixa rigorosamente no real, mas, em dado momento oscila nos seus contornos e nos leva a darmo-nos conta de que já não estamos nos limites de relações conhecidas e estáveis”. Estas palavras poderiam aplicar-se igualmente à escrita de Jorge Luis Borges, no que, até agora, li dele. Com meticulosas referências bibliográficas, frequentemente sobre livros e escritores inexistentes, enreda o leitor num terreno movediço onde se instala a dúvida sobre a localização da fronteira que divide a realidade factual e a surrealidade (hoje fácil e instantaneamente cartografável, graças aos motores de busca).
Este Ficciones (Ficções na tradução portuguesa), tal como outras obras de Borges, conheceu várias versões até à sua edição definitiva. A primeira parte intitula-se El jardín de senderos que se bifurcan, e foi publicada sob esse mesmo nome em 1941. Em 1944, Borges agregou-lhe a segunda parte, Artificios, (com um segundo prólogo), e assim se estabeleceu, na sua primeira forma, Ficciones. Em 1956, acrescentou os três contos finais, ampliou o segundo prólogo, e a obra assumiu a sua versão definitiva.
No primeiro prólogo, Borges declara que um “desvario laborioso e empobrecedor é o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”, como outros já fizeram, explica. Sendo “mais razoável, mais inepto, mais preguiçoso, preferi a escrita de notas sobre livros imaginários”. Borges brinca com a justificação, mas o seu engenho na escrita de contos, de que Ficciones é exemplo, é verdadeiramente inultrapassável.

Ciego a las culpas, el destino puede ser despiadado con las mínimas distracciones. Dahlmann había conseguido, esa tarde, un ejemplar descabalado de Las mil y una noches, de Weil; ávido de examinar ese hallazgo, no esperó que bajara el ascensor y subió con apuro las escaleras; algo en la oscuridad le rozó la frente: ¿un murciélago, un pájaro? En la cara de la mujer que le abrió la puerta vio grabado el horror, y la mano que se pasó por la frente salió roja de sangre. La arista de un batiente recién pintado que alguien se olvidó de cerrar le había hecho esa herida. Dahlmann logró dormir, pero a la madrugada estaba despierto y desde aquella hora el sabor de todas las cosas fue atroz. La fiebre lo gastó y las ilustraciones de Las mil y una noches sirvieron para decorar pesadillas. Amigos y parientes lo visitaban y con exagerada sonrisa le repetían que lo hallaban muy bien. Dahlmann los oía con una especie de débil estupor y le maravillaba que no supieran que estaba en el infierno. Ocho días pasaron, como ocho siglos. Una tarde, el médico habitual se presentó con un médico nuevo y lo condujeron a un sanatorio de la calle Ecuador, porque era indispensable sacarle una radiografía. Dahlmann, en el coche de plaza que los llevó, pensó que en una habitación que no fuera la suya podría, al fin, dormir. Se sintió feliz y conversador; en cuanto llegó, lo desvistieron, le raparon la cabeza, lo sujetaron con metales a una camilla, lo iluminaron hasta la ceguera y el vértigo, lo auscultaron y un hombre enmascarado le clavó una aguja en el brazo. Se despertó con náuseas, vendado, en una celda que tenía algo de pozo y, en los días y noches que siguieron a la operación, pudo entender que apenas había estado, hasta entonces, en un arrabal del infierno. El hielo no dejaba en su boca el menor rastro de frescura. En esos días, Dahlmann minuciosamente se odió; odió su identidad, sus necesidades corporales, su humillación, la barba que le erizaba la cara. Sufrió con estoicismo las curaciones, que eran muy dolorosas, pero cuando el cirujano le dijo que había estado a punto de morir de una septicemia, Dahlmann se echó a llorar, condolido de su destino. Las miserias físicas y la incesante previsión de las malas noches no le habían dejado pensar en algo tan abstracto como la muerte.

Li anteriormente:
El Aleph (1949/1952)
Historia Universal de la Infamia (1935/1974)

9 de agosto de 2015

Regresso ao Admirável Mundo Novo


Aldous Huxley
Regresso ao Admirável Mundo Novo (1959)

Regresso ao Admirável Mundo Novo (Brave New World Revisited, no título original) é uma compilação de ensaios publicados na revista “Newsday”, 26 anos após a apresentação da novela Admirável Mundo Novo, em que Huxley analisa a evolução da sociedade ocidental no tempo entretanto decorrido, e constata que “o futuro chegou demasiado depressa”, para utilizar uma expressão em voga por estes dias.
Traçando frequentes paralelismos entre a sua própria novela e o 1984 de Orwell, Huxley considera que a distopia de Orwell já não parece realizável, na sua brutalidade totalitária, à luz das recentes evoluções históricas e sociais; quanto ao Admirável Mundo Novo, mais “benigno” na sua aparência, encontra-lhe ainda demasiados motivos de preocupação, bem como determinadas facetas que parecem estar a materializar-se. Quase 60 anos volvidos, pode-se dizer que vivemos já, em vários aspectos, nesse Admirável Mundo Novo.
Os ensaios debruçam-se sobre diversas questões, como as preocupações malthusianas acerca da superpopulação e o esgotamento dos recursos, os prós e contras do eugenismo, o preço do chamado progresso técnico, a alienação dos mass media, a propaganda e manipulação das massas, etc., na urgência com que se colocavam – e ainda se colocam... cada vez mais! – no confronto com as soluções preconizadas no Admirável Mundo Novo.
Huxley previu neste livro um futuro superpopulado, dominado por ditaduras comunistas; mas também fala dos perigos de uma democracia puramente formal, onde os destinos das pessoas são decididos por aquilo que designa como o “Alto Negócio” e o “Grande Governo”. Se a previsão falhou na segunda metade da primeira afirmação, acertou em cheio na segunda.

No que diz respeito à propaganda, os primeiros defensores da instrução obrigatória e de uma Imprensa livre só enfrentavam duas possibilidades: a propaganda podia ser verdadeira ou falsa. Não previam o que realmente sucedeu, principalmente nas nossas democracias capitalistas acidentais – o crescimento de uma vasta indústria de comunicações com as massas, que na sua maior parte não se preocupa nem com o verdadeiro nem com o falso, mas com o irreal, o mais ou menos totalmente irrelevante. Numa palavra, não levaram em conta o quase infinito apetite humano de distrações.
No passado, a maioria das pessoas nunca teve oportunidade de satisfazer completamente este apetite. Desejavam demais distrações, mas não lhas forneciam. O Natal só surgia uma vez por ano, as festas eram “solenes e raras”, havia poucos leitores e muito pouco que ler, e o que havia mais aproximado de um cinema de bairro era a igreja paroquial, onde os espetáculos, se bem que freqüentes, eram bastante monótonos. Para encontrar condições, mesmo de longe comparáveis às atualmente existentes, temos de recuar até à Roma Imperial, onde o povo era mantido de bom humor graças a doses repetidas e gratuitas das mais variadas distrações – desde os dramas em verso até os combates dos gladiadores, desde recitais de Virgílio até os combates de pugilismo, desde festivais de música até paradas militares e execuções públicas. Mas, mesmo em Roma, não havia nada de semelhante à distração contínua agora fornecida por jornais e magazines, pelo rádio, televisão e cinema. No Admirável Mundo Novo, as distrações contínuas da mais fascinante natureza são deliberadamente empregadas como instrumentos de governo, com a finalidade de obstar o povo de prestar demasiada atenção às realidades da situação social e política. O mundo da religião é diferente do mundo do divertimento; mas parecem-se um com o outro por, decididamente, “não serem deste mundo”. Ambos são divertimentos e, se vivemos neles de forma excessivamente contínua, ambos podem tornar-se, segundo a frase de Marx, “o ópio do povo”, tornando-se assim uma ameaça à liberdade. Só uma pessoa vigilante consegue conservar a liberdade, e apenas os que estão constante e inteligentemente despertos podem alimentar a esperança de se governar a si próprios eficazmente por meios democráticos. Uma sociedade, cuja maioria dos membros dissipa uma grande parte do seu tempo não na vigília, não aqui e agora e no futuro previsível, mas em outra parte, nos outros mundos irrelevantes do prazer e das obras superficiais, da mitologia e da fantasia metafísica, terá dificuldade em resistir às investidas daqueles que quiserem orientá-la e controlá-la.
Na sua propaganda, os ditadores atuais limitam-se, na maioria das vezes, à repetição, supressão e racionalização – repetição de estribilhos que pretendem sejam aceitos como verdades, à supressão de fatos que eles pretendem sejam ignorados, ao desencadeamento e à racionalização de paixões que podem ser aplicadas nos interesses do Partido ou do Estado. Quando a arte e a ciência da manipulação vierem a ser mais bem conhecidas, os ditadores do futuro aprenderão, sem dúvida, a combinar estas técnicas com as distrações ininterruptas que, no Ocidente, ameaçam agora submergir num mar de irrelevância a propaganda racional indispensável à manutenção da liberdade individual e à sobrevivência das instituições democráticas.

Li anteriormente:
A Ilha (1962)
As Portas da Percepção / Céu e Inferno (1954 / 1956)
Admirável Mundo Novo (1932)

3 de agosto de 2015

Count Zero


William Gibson
Count Zero (1986)

Quando o Neuromancer foi editado despoletou um imenso burburinho; William Gibson era anunciado como uma nova estrela da literatura, e passou-se por cima do preconceito de ter publicado um livro de FC. Não o li então; deixei assentar a poeira e li-o há cinco anos, quando o autor possuía já uma obra de certa dimensão e continuidade. Chegou agora a vez de Count Zero, cujas peripécias têm por fundo a violenta disputa industrial de uma nova tecnologia, o biochip, enquanto o multimilionário Virek parte em busca da imortalidade, por interposta pessoa. A narrativa desdobra-se em três vectores simultâneos, centrados nas personagens de Turner (um mercenário ao serviço de uma poderosa multinacional), Bobby Newmark (um hacker novato mas com sonhos ambiciosos, auto-denominado “Count Zero”) e Marly Krushkhova (uma parisiense, obscura negociante de arte, que ganha um contrato astronómico ao serviço de Virek), mas estas tramas mal chegam a se interceptar (aliás, Marly não converge de todo).
Criado numa época em que a internet mal dava os primeiros passos, reencontra-se aqui toda a ambiência do Neuromancer — passa-se uns anos depois, com algumas referências a um par de personagens desse romance — tal como o futuro era imaginado em meados da década de 80: o ciberespaço e a experiência de imersão numa realidade virtual; o Japão ascendido a uma posição dominante a nível mundial (o contemporâneo Blade Runner partilhava desta ideia), com as multinacionais da época tornadas em enormes potentados globais e o iene a fazer as vezes do dólar. Menciona-se também a Alemanha Ocidental (em 1986 o Muro de Berlim parecia que ia durar para sempre) e o fax é de uso óbvio — então em processo de massificação... quando hoje se tornou numa peça de museu!
A escrita de Gibson é um tanto angulosa e difusa, e tende a deixar o leitor para trás — nesse particular faz-me lembrar o Philip K. Dick mais tardio. Depois de ter lido o Neuromancer em pt-br, senti-me um tanto intimidado em abordar este Count Zero no original. Há uma catadupa de neologismos e palavras inventadas pelo autor que me dificultariam a leitura e optei, novamente, pela versão em português do Brasil. Infelizmente não foi a decisão correcta.
Costumo dizer, um pouco na brincadeira, que o “brasileiro” é a língua estrangeira que melhor entendo. Depois deste livro já não tenho a certeza. Para além de ter achado a tradução atabalhoada, com a manutenção desnecessária de demasiadas palavras em inglês (eu, que normalmente me queixo do contrário, porque gosto de perceber o texto original “atrás” da tradução), o recurso a um vocabulário coloquial (ou gíria, talvez), empobrece fortemente o texto, na minha opinião. Fora as frequentes vezes em que pura e simplesmente não consegui entender, e me vi obrigado a pesquisar o original para tirar dúvidas. Neste confronto, tornaram-se evidentes as más opções de tradução, não no fio narrativo, mas na escolha da sintaxe. Um nomeado para os prémios Hugo e Nebula merecia melhor; quando voltar a ler William Gibson vou ter isto em consideração...

Os sonhos de computador continham uma vertigem especial. Turner se deitou em uma placa virgem de espuma verde, no dormitório improvisado, e conectou o dossiê de Mitchell. Começou devagar: teve tempo de fechar os olhos.
Dez segundos depois, os olhos estavam abertos. Agarrou a espuma verde e lutou contra a náusea. Fechou os olhos de novo... Mais uma vez, começou aos poucos, um fluxo bruxuleante e não linear de fatos e dados sensoriais, um tipo de narrativa transmitida em planos interrompidos e justaposições surreais. Era um pouco como andar em uma montanha-russa que aleatoriamente entrasse e saísse da existência, em intervalos impossivelmente rápidos, mudando de altitude, ângulo e direção a cada pulso de inexistência. Exceto que os deslocamentos não tinham nada a ver com qualquer orientação física, mas sim com alternâncias instantâneas no sistema de símbolos e paradigmas. Aqueles dados nunca se destinaram a acesso humano.
Com os olhos abertos, tirou o objeto do soquete e segurou-o na mão, lisa de suor. Era como acordar de um pesadelo. Não um de horror, no qual os temores internos assumiam formas simples e terríveis, mas o tipo de sonho, infinitamente mais perturbador, em que tudo é perfeita e terrivelmente normal... e em que tudo está completamente errado.

Li anteriormente:
Neuromancer (1984)

19 de xullo de 2015

Los Pasos Perdidos


Alejo Carpentier
Los Pasos Perdidos (1953)

Cheguei a Alejo Carpentier e a este livro depois de ter lido uma entrevista com o escritor José Vicente Pascual; quando lhe foi perguntado sobre quais os livros que leria uma segunda e terceira vez, disse, sobre Los Pasos Perdidos, que era a novela que mais vezes havia revisitado; que era preciso lê-la com vinte anos, com trinta, com quarenta, com cinquenta e que nunca era a mesma novela.
É na verdade um livro um tanto estranho, mas marcante, que conta a história de um compositor enviado à selva sul-americana (numa nota final o autor diz ter descrito o alto Orinoco), em busca de raros instrumentos musicais tribais, destinados a um museu. Para além de evocativas descrições da natureza, ou de digressões musicológicas, é também a história do seu relacionamento com três mulheres: a esposa (uma actriz de teatro com quem mantém uma relação árida e subjugada à rotina), a amante (uma astróloga, mulher de cidade que comete o erro de o acompanhar à selva), e uma mestiça aldeã, que encontra na viagem. O protagonista, cujo nome nunca é pronunciado, deixa-se depois encantar pela vida básica numa aldeia recém-fundada, julgando encontrar aí o entorno ideal para dar finalmente curso à sua veia criativa como compositor. A sua integração virá a revelar-se incompleta, e, desse falhanço, retenho uma frase que surge num dos últimos parágrafos: "Hoje terminaram as férias de Sísifo".

Fingiendo que no me hubiera oído, o que mis palabras no tenían el menor interés, Mouche afirmó que aquí no había cosa de mérito que ver o estudiar; que este país no tenía historia ni carácter, y, dando su decisión por sentencia, habló de partir mañana al alba, ya que nuestro barco, navegando esta vez a favor de la corriente, podía cubrir la jornada del regreso en poco más de un día. Pero ahora me importaban poco sus deseos. Y como esto era muy nuevo en mí, cuando le declaré secamente que pensaba cumplir con la Universidad, llegando hasta donde pudiera encontrar los instrumentos musicales cuya busca me era encomendada, mi amiga, de súbito, montó en cólera, tratándome de burgués. Ese insulto —¡bien lo conocía yo!— era un recuerdo de la época en que muchas mujeres de su formación se hubieran proclamado revolucionarias para gozar de las intimidades de una militancia que arrastraba a no pocos intelectuales interesantes, y entregarse a los desafueros del sexo con el respaldo de ideas filosóficas y sociales, luego de haberlo hecho al amparo de las ideas estéticas de ciertas capillas literarias.
Siempre atenta a su bienestar, colocando por encima de todo sus placeres y pequeñas pasiones, Mouche me resultaba el arquetipo de la burguesa.
Sin embargo, calificaba de burgués, como supremo denuesto, a todo el que intentara oponer a su criterio algo que pudiera vincularse con ciertos deberes o principios molestos, no transigiera con ciertas licencias físicas, encerrara preocupaciones de tipo religioso o reclamara un orden. Ya que mi empeño de quedar bien con el Curador y, por ende, con mi conciencia, se atravesaba en su camino, tal propósito tenía, por fuerza, que ser calificado por ella de burgués.

7 de xuño de 2015

Lendas de Portugal, vol. 5

Gentil Marques
Lendas de Portugal, vol. 5 (1966)

O último tomo desta obra é dedicado às Lendas de Amor, quase todas marcadas por desenlaces trágicos, o que poderá muito bem significar que é a tragédia, e não a felicidade, a marca que assinala um grande amor. Dos amores impossíveis às ironias do destino, estas lendas populares percorrem um alargado espectro de personagens e situações, desde as mais ingénuas e singelas às mais complexas e simbólicas. Destas últimas, gostaria de destacar a Lenda da Madalena do Mar, decorrida na Ilha da Madeira e centrada na misteriosa personagem do Henrique Alemão, cujo argumento poderia servir como ponto de partida para uma interessante criação sob outra forma artística – um filme, um romance, uma ópera.
No final da série, talvez seja tempo de fazer um pequeno balanço. As Lendas de Portugal, neste tempo “d'uma austera, apagada e vil tristeza” são como uma brisa de ar fresco, vindo de um passado certamente idealizado – lendário – que fala de valores, conceitos e princípios que forjaram uma nação outrora forte, ajudando a conhecermo-nos, e entendermo-nos, melhor. Esse espaço da Portugalidade, que ultrapassa as nossas fronteiras geográficas e temporais, estende-se desde um antes romano até um depois que termina cerca do século XVII, e baliza um tempo quase mítico onde a assenta a nossa identidade como povo e nação. A quem aprecia este género de narrativa, recomendo o sítio www.lendarium.org, onde se encontram algumas das lendas transcritas por Gentil Marques, bem como muitas outras mais.
Para o excerto transcrito (como sempre, a grande dificuldade foi a escolha) seleccionei um trecho da Lenda da Vingança de Fernão Gonçalves, pela força e pelo drama. Fernão Gonçalves, um nobre guerreiro da Reconquista, no século X, recolhe, após uma das guerras, um menino mouro, Abdalá, a quem poupa a vida e faz educar entre o seu povo. O rapaz cresce e apaixona-se por Constança, a filha de Fernão Gonçalves; quando este descobre o que se passa pretende descarregar a sua ira sobre Abdalá, que, respondendo ao apelo do seu sangue, foge para o lado dos mouros. A cena passa-se no reencontro dos dois inimigos, no campo de batalha:

Um dia, a batalha travava-se fora da região onde ele tinha os seus domínios. Ajudava o monarca D. Ramiro II na luta contra os infiéis. No meio da contenda, D. Fernão Gonçalves caiu do cavalo. Logo o rodeou um turba de mouros. Mais de vinte adagas caíram sobre ele. Mas logo uma voz possante gritou:
– Quem o vai desarmar sou eu!
Os outros, vendo um dos seus chefes, retiraram as armas, embora sem perder de vista o ferido. O chefe mouro falou:
– D. Fernão Gonçalves! Sabes quem sou?
Mal podendo ver, pois a agonia aproximava-se, D. Fernão teve forças para responder:
– Sei quem és... És Abdalá, o maldito a quem poupei a vida!
– Que fizeste da tua filha?
– Que te importa?
– Amo-a, apesar de tudo!
– Pois... fica feliz! Vou morrer... e ela... espera-te!
– Onde?
– No salão nobre do meu palácio, onde cresceste e te fizeste homem!
– Porquê no salão nobre?
– Porque lá a fechei... antes de vir para aqui! E agora... satisfaz o teu ódio... mata-me!
– Não matarei o pai daquela a quem amo... Outros o farão por mim.
E dando costas, fez sinal para que não prolongassem a agonia de D. Fernão.
Terminada a batalha, que estava já no fim e fora ganha pelos mouros, Abdalá e alguns dos seus obtiveram licença para se embrenharem nos domínios de D. Fernão Gonçalves. Atravessaram rios e montanhas ligeiros como o vento. Ao cair da noite, o jovem mouro chegou ao palácio. Parecia deserto. Nem um criado, nem um guarda. Arranjou luz e forçou a porta do salão nobre. Ao entrar, o quadro que se lhe deparou deixou-o horrorizado... Gritou:
– Constança, meu amor!
Mas ela não respondeu. Estava morta sobre um divã estofado de rico damasco. A seu lado, tombada no solo, ainda ensanguentada, uma das espadas de seu pai.
Abdalá caiu de joelhos, soluçando. Compreendia a terrível vingança de D. Fernão. Poderia ter-lhe dito que a deixara morta para que jamais lhe pertencesse. Mas preferiu dar-lhe a alegria de uma esperança, na certeza de que, assim, se vingaria duplamente!

Li anteriormente:
Lendas de Portugal, vol. 4 (1965)
Lendas de Portugal, vol. 3 (1964)
Lendas de Portugal, vol. 2 (1963)

19 de abril de 2015

La Tabla de Flandes


Arturo Pérez-Reverte
La Tabla de Flandes (1990)

Ouvi mencionar pela primeira vez o nome de Arturo Pérez-Reverte há bastantes anos, na recensão de um dos seus livros (possivelmente este, A Tábua de Flandres, na tradução portuguesa), e algo nesse texto me despertou o interesse, embora já não me recorde do que se tratava. Mais tarde soube que Pérez-Reverte era jornalista, e o meu preconceito contra jornalistas-escritores esmoreceu-me a vontade de lê-lo, tanto mais que a sua obra parecia versar temáticas das quais me encontrava, então, um tanto afastado. Nos últimos tempos reencontrei Pérez-Reverte como um dos colaboradores do El Manifiesto, um sítio que visito com frequência e que defende causas e valores nos quais me revejo; gostei dos seus artigos e decidi dar-me a oportunidade de tomar contacto com a sua obra.
Com uma história baseada numa pintura de Pieter Van Huys, um mestre flamengo do século XV, e do segredo que ela encerra, encriptado no jogo de xadrez ali representado, rapidamente a vertigem da partida se apodera das pessoas que se movem ao redor do quadro, em restauro com vista a ser leiloado. Os primeiros capítulos foram uma desilusão; tendo por cenário o meio artístico madrileno, as personagens pereciam desinteressantes e as situações fúteis, à excepção de Julia (a restauradora) e Muñoz (um empregado de escritório que se dedica ao xadrez nas horas vagas). Com o avançar das páginas o livro vai ganhando substância e profundidade uma boa justificação para aquilo que aparentava ser superficial é a vacuidade e o materialismo que predomina no mundo artístico dos nossos dias e A Tábua de Flandres acaba por se tornar num livro que vale bem o tempo gasto a lê-lo.

Cruzaron la avenida desierta. Al llegar a la otra acera Julia observó de nuevo a su acompañante, con disimulo. No parecía un hombre de extraordinaria inteligencia. Por lo demás, dudaba que las cosas le hubiesen ido demasiado bien en la vida. Viéndolo caminar con las manos en los bolsillos, el ajado cuello de la camisa y las grandes orejas asomando sobre la gabardina vieja, daba la impresión de no ser sino lo que era: un oscuro oficinista, cuya única fuga de la mediocridad era el mundo de combinaciones, problemas y soluciones que el ajedrez podía ofrecerle. Lo más curioso en él era la mirada que se apagaba al apartarse del tablero; aquella forma de inclinar la cabeza igual que si algo le pesara demasiado en las vértebras del cuello, ladeándola; como si de esa forma intentase que el mundo exterior se deslizara por su lado sin rozarlo más que lo necesario. Recordaba un poco a los soldados prisioneros que caminaban con la cabeza baja en los viejos documentales de guerra. Era el suyo el aire inequívoco del derrotado antes de la batalla; de quien cada día abre los ojos y se despierta vencido.
Y, sin embargo, había algo más. Al explicar una jugada, siguiendo el retorcido hilo de la trama, en Muñoz despuntaba el destello fugaz de algo sólido, incluso brillante. Como si, a pesar de su apariencia, en el interior latiese un extraordinario talento lógico, matemático, o del género que fuera, que daba aplomo, autoridad indiscutible a sus palabras y gesto.
Le habría gustado conocerlo mejor. Comprendió que lo ignoraba todo de él, salvo que jugaba al ajedrez y era contable. Pero ya resultaba demasiado tarde. El trabajo había terminado, y sería difícil encontrarse de nuevo.
– Ha sido la nuestra una extraña relación –dijo en voz alta.
Muñoz dejó vagar la mirada a su alrededor durante unos segundos, como si buscase confirmación a aquellas palabras.
– Ha sido la relación habitual en ajedrez… –respondió–. Usted y yo, reunidos durante el tiempo que dura una partida –sonrió de nuevo, de aquel modo difuso que no significaba nada–. Llámeme cuando quiera volver a jugar.

3 de abril de 2015

O Castelo dos Destinos Cruzados

Italo Calvino
O Castelo dos Destinos Cruzados (1973)

Este livro é composto por duas partes: O Castelo dos Destinos Cruzados e A Taberna dos Destinos Cruzados. A primeira parte foi originalmente publicada em 1969, e reunida à segunda parte em 1973, no formato definitivo desta obra, quando Italo Calvino desistiu definitivamente de lhe acrescentar uma terceira parte, que se intitularia O Hotel dos Destinos Cruzados, por manifesto desinteresse em continuar a experiência.
Essa experiência absorvente e fatigante tratava, nem mais nem menos, de utilizar as 78 cartas do baralho de tarot como suporte do fio narrativo, uma vez que as personagens estão privadas da fala, através de uma elaboração complexa na interpretação simbólica das ilustrações contidas nas cartas. Os contos d'O Castelo são baseados no tarot pintado por Bonifácio Bembo em meados do século XV, enquanto os d'A Taberna tomam como ponto de partida o baralho de Marselha, impresso em 1761 por Nicolas Conver. Apesar das semelhanças, as ilustrações comportam diferenças importantes ao nível simbólico (como se pode comprovar pela sua representação paralelamente ao texto), que influem nos decursos narrativos dos contos. No final do livro, a própria personagem do escritor recorre ao método anteriormente utilizado pelas personagens e, ainda mais aliciante, submete Édipo, Hamlet, Macbeth e outros à mesma estrutura narrativa com resultados convincentes. Daqui se poderá concluir que o tarot, como representação do inconsciente colectivo, inclui todas os arquétipos da acção e motivação humana nos seus 21 arcanos maiores, servindo-se ainda dos quatro naipes como sintaxe de suporte, passível de tudo abranger e apropriar-se.

Considerando-se bem, tanto para o alquimista quanto para o cavaleiro errante o ponto de chegada deveria ser o Ás de Copas, que para um contém o flogístico ou a pedra filosofal ou o elixir da longa vida, e para o outro é o talismã guardado pelo Rei Pescador, o vaso misterioso que seu primeiro poeta não se deu ao trabalho de nos explicar o que era – ou não o quis dizer – e que desde então fez brotar rios de tinta de conjecturas, o Graal que continua a ser disputado entre as religiões romana e céltica. (Talvez o trovador de Champagne quisesse precisamente isso: manter viva a batalha entre O Papa e o Druida-Eremita. Não há melhor lugar para se guardar um segredo que num romance inacabado).
Logo, o problema que os nossos dois comensais queriam resolver dispondo as cartas em redor do Ás de Copas era ao mesmo tempo a Grande Obra alquímica e a Demanda do Graal. Nas mesmas cartas, um por uma, ambos podiam reconhecer as etapas da sua Arte ou Aventura: no Sol, o astro de ouro ou a inocência do jovem guerreiro, na Roda, o moto-perpétuo ou o encantamento do bosque, no Juízo, a morte e a ressurreição (dos metais e da alma) ou o apelo celestial.
Estando assim as coisas, as histórias arriscam continuamente tropeçar uma na outra, se não se põe bem às claras o mecanismo. O alquimista é aquele que para obter as modificações da matéria procura tornar sua alma inalterável e pura como o ouro; mas tomemos o caso de um doutor Fausto que inverte a regra do alquimista, faz da alma um objeto de troca e por esse meio espera que a natureza se torne incorruptível e não seja mais necessário buscar o ouro porque todos os elementos serão igualmente preciosos, o mundo é de ouro e o ouro é o mundo. Do mesmo modo, é cavaleiro errante aquele que submete suas ações a uma lei moral absoluta e rígida, para que a lei natural mantenha a abundância sobre a terra com indulgência absoluta, mas vamos imaginar um Perceval-Parzival-Parsifal que inverta a regra da Távola Redonda: as virtudes cavalheirescas serão nele involuntárias, virão à tona como um dom da natureza, como as cores das asas das borboletas, e assim, executando suas empresas com espantosa negligência, talvez consiga submeter a natureza à sua vontade, possuir a ciência do mundo como a uma coisa, tornar-se mago e taumaturgo, fazer cicatrizar a chaga do Rei Pescador e restituir a verde linfa à terra deserta. O mosaico de cartas que estamos aqui estatelados a olhar é, pois, a Obra ou a Demanda que se gostaria de levar a termo sem obrar nem demandar. O doutor Fausto cansou-se de fazer as metamorfoses instantâneas dos metais dependerem das lentas transformações que ocorriam dentro de si mesmo, e duvida de toda a sapiência que acumulou em sua solitária vida de Eremita; está desiludido dos poderes de sua arte bem como das trapaças entre as combinações das cartas do tarô. Naquele momento um relâmpago ilumina seu cubículo no alto da Torre. Aparece à sua frente um personagem com chapéu de abas largas, como esses que usam os estudantes de Wittemberg: talvez seja um clérigo errante, ou um Bateleiro, charlatão, um mágico de feira que tenha aparelhado sobre uma banca todo um laboratório de frascos desaparelhados.

Li anteriormente:
As Cidades Invisíveis (1972)
Se Numa Noite de Inverno um Viajante (1979)

22 de marzo de 2015

Lendas de Portugal, vol. 4


Gentil Marques
Lendas de Portugal, vol. 4 (1965)

O quarto volume é dedicado às Lendas Religiosas. A abrir o livro encontra-se a Lenda do Milagre da Nazaré, centrada na personagem, também ela lendária, de D. Fuas Roupinho, cavaleiro de D. Afonso Henriques, e o modo prodigioso como a sua vida é salva in extremis depois de ter sido ludibriado pelo diabo. A narrativa é bem conhecida, mas o que mais me chamou a atenção, antes do ponto culminante, foi a referência ao último rei visigodo, Rodrigo, e ao seu túmulo em Viseu.
A primeira vez que li sobre o assunto foi na Historia Total de España de Ricardo de la Cierva, o que me levou ao documento original, a Crónica de Afonso III, o Magno, que faz a resenha dos reis visigodos e asturianos, que se consideravam seus sucessores, desde Wamba (no séc. VII), até Ordonho I, seu pai e antecessor (séc. IX). No excerto dedicado a Ruderico (ou Rodrigo, derrotado pelos mouros em Guadalete e posto em fuga após a batalha), pode ler-se o seguinte: «Não se conhece a causa da morte do rei Ruderico; nos nossos tempos, quando repovoamos a cidade de Viseu e as suas cercanias, encontrou-se em certa basílica um monumento no qual estava escrito um epitáfio que diz: Aqui descansa Ruderico, último rei dos godos.» O túmulo encontrar-se-á na envolvente da Igreja de São Miguel do Fetal, reconstruída sobre um templo muito mais antigo, do qual não existem vestígios.

Cumprindo o prometido, manhã cedo, D. Fuas Roupinho leva consigo a jovem princesa moura e vai mostrar-lhe a imagem de Nossa Senhora, entre duas rochas, na Nazaré.
Pela primeira vez na sua vida, a filha do rei Gamir cai de joelhos diante de uma imagem cristã.
– É linda a Vossa Senhora... Muito linda!
E D. Fuas Roupinho conta-lhe então, docemente, a história maravilhosa daquela imagem.
Um monge grego fugira com ela para Belém de Judá, dando-a a São Jerónimo. Este, por sua vez, mandara-a a Santo Agostinho. E Santo Agostinho entregara-a ao Mosteiro de Cauliniana, a uns doze quilómetros de Mérida. Aí puseram à imagem o nome de Nossa Senhora da Nazaré, por ela ter vindo da própria terra natal da Virgem Maria.
Quando os mouros derrotaram os cristãos, obrigando o rei Rodrigo a fugir para Mérida, Rodrigo levou consigo a preciosa imagem. Mas nem mesmo assim se sentiu absolutamente seguro. E resolveu fugir de novo, agora na companhia do abade Frei Romano, possuidor duma preciosa caixa de relíquias que pertencera a Santo Agostinho.
Após uma aventura dramática, quase mortos, os dois homens chegaram ao sítio da Pederneira, na costa do Atlântico. Então, resolveram separar-se.
Rodrigo ficou no monte que se chama de São Bartolomeu e Frei Romano foi viver para o monte fronteiro.
Combinaram, porém, corresponder-se por meio de fogueiras, que acendiam à noite.
Mas, certa noite, a fogueira de Frei Romano não se acendeu. Não mais se acenderia!
Rodrigo acudiu inquieto, e foi encontrá-lo morto. Apavorado, escondeu a imagem e a caixa de relíquias numa lapa, e abalou dali, correndo como um doido.
Segundo conta a tradição, veio a morrer perto de Viseu, num sítio denominado Fetal...
Concluindo a sua história, D. Fuas Roupinho acrescenta, olhando a imagem:
– Só há bem pouco tempo alguns pastores a descobriram, e eu logo me tornei num dos seus maiores devotos. Venero-a com todas as forças da minha alma.
A jovem princesa parece alheada e distante. Olhos fitos na imagem, repete como em oração:
– É linda, a Senhora!... É linda a Senhora!...
D. Fuas afaga-lhe a cabeça e diz-lhe meigamente:
– Olha, minha filha... Podes ficar aqui a adorá-la o tempo que quiseres. Eu vou caçar. Depois, voltarei a buscar-te.

Li anteriormente:
Lendas de Portugal, vol. 3 (1964)
Lendas de Portugal, vol. 2 (1963)
Lendas de Portugal, vol. 1 (1962)

5 de marzo de 2015

Historia Total de España


Ricardo de la Cierva
Historia Total de España (1997)

O meu interesse por Espanha foi tardio. Como muitos portugueses, partilhei o reflexo de condicionalismos culturais e históricos que nos deixaram indiferentes ou de costas voltadas ao nosso único vizinho fronteiriço. Tinha obviamente consciência do enorme contributo artístico, cultural e civilizacional dado por Espanha ao mundo ocidental, mas quando, um dia, me lembrei de contar quantos autores espanhóis tinha lido até então, verifiquei que eram menos do que os dedos de uma mão (mesmo com os hispano-americanos não seriam muito mais). Pior ainda, mal conseguia lembrar-me do nome de outros! Deve ter sido então que me resolvi a preencher essa lacuna; decidi posteriormente aprender o necessário espanhol para conseguir ler na língua original; e como umas coisas trazem as outras, chegou a altura de considerar a necessidade de ter uma lição aprofundada da História de Espanha.
Depois de me inteirar das diversas possibilidades ao alcance, escolhi esta Historia Total de España, de don Ricardo de la Cierva, porque me pareceu a mais credível e rigorosa. Editada pela primeira vez em finais de 1997, a edição que possuo é a 14.a que segue a última revisão e actualização de 2008. E a escolha não podia ter sido mais acertada.
Para quem se questiona sobre o "total" no meio da História de Espanha, a explicação é simples: "porque Espanha é uma totalidade histórica, uma convergência de vários reinos e vários povos com um substrato e um horizonte comum, sem que a ninguém seja lícito prescindir das particularidades regionais nem esquecer-se absurdamente do conjunto e da vertebralidade de todas elas". Ricardo de la Cierva confronta os seus compatriotas com o risco de perda desse horizonte histórico, o que faz perigar a nação espanhola, e afirma ainda: "A História não deve ser nunca instrumento da política, apesar da política, num país sobrecarregado de tanta História como a Espanha, trate demasiadas vezes de instrumentalizar a História."
Este é um livro que muitos portugueses deviam ler. E também, sobretudo, os espanhóis. São mais de 1000 páginas empolgantes e afirmativas que me renderam algumas semanas de prazer, entre a narração de factos para mim mais ou menos conhecidos, outros mais ou menos obscuros, ou outros ainda que eu desconhecia totalmente.
Poderia ter escolhido, para o excerto que se pode ler abaixo, uma das páginas douradas da História de Espanha – e são tantas que a dificuldade seria escolher. Ou então as lições que se podem retirar das trágicas consequências levadas pela Revolução Francesa à nação espanhola, que, assolada por uma decadência veloz, culminaram na desastrosa Guerra Civil de 1936. Ou ainda sobre o papel providencial desempenhado por Francisco Franco, que em três décadas fez ressuscitar Espanha e a devolveu a um nível impensável quando assumiu o poder. Ou as reflexões sombrias que o autor faz, justificadamente, nas últimas páginas sobre o futuro da Espanha. Preferi colocar um texto onde se analisa a tripla perda de Espanha (depois das invasões bárbaras do séc. V e, novamente, com a invasão árabe de 711). Um texto para reflectir.

A lo largo de la Historia, España se perdió dos veces. Creo muy importante fijar con precisión cómo sucedieron esas dos pérdidas de España porque por desgracia cuando se escribe este libro muchos españoles tenemos la angustiosa impresión de que España se puede estar perdiendo, ante nuestros ojos, por tercera vez. Por lo pronto, como se reconoce desde el propio Gobierno actual, según veíamos en la Introducción, se está perdiendo, en el cuarto de siglo final del siglo XX, y en algunos casos se ha perdido ya, la Historia de España. Por las noticias diarias de la Prensa y otros medios de comunicación cunde la conciencia de que con todas estas zarandajas de las «nacionalidades», del «Estado plurinacional» y de «España como nación de naciones» que son insignes bobadas y disparates históricos, aunque las acepten grandes políticos y notables historiadores, se está perdiendo la nación española, que como tal figura varias veces en la Constitución vigente y se están exaltando oficialmente otras falsas naciones menores que jamás fueron naciones, como la catalana, ni podrán serlo sin la pérdida de España, la tercera. Se exaltan los nacionalismos regionales y se abomina del «nacionalismo español», es decir de la Nación Española, única que existe en España. El término «nacionalidades» se incluyó en la Constitución por el chantaje separatista pero como explicó el portavoz de UCD en el Senado constituyente, el término «nacionalidades» no es sinónimo de «naciones» es decir no significa absolutamente nada. Pese a lo cual se han solicitado y creo que aprobado la elevación a «nacionalidades» de algunas regiones como Galicia, Aragón, Andalucía y Valencia. El autor de este libro que intervino decisivamente en el Senado Constituyente de 1978, junto con el profesor Julián Marías, para introducir en la Constitución el término «Nación Española» que se le había «olvidado» a la Ponencia Constitucional del Congreso, se ve en la obligación de declarar que el actual gobierno de centro-derecha, que por deber sagrado debería sentirse depositario de la más honda tradición nacional de España, descuida lamentablemente sus deberes en la defensa de la Nación española por rastreros motivos de pactos electorales con los nacionalistas y no hace nada serio para defender a España, a la Nación y a la Historia de España ante los zarpazos de esos nacionalistas, pese a sus promesas formales y su proclamación de España en la campaña electoral de 1996. Este libro se escribe en defensa de la Historia de España y de España como nación, para contribuir a que la gran mayoría de españoles que creemos en España no suframos ante nuestros ojos la tercera pérdida de España.

14 de decembro de 2014

O Leopardo


Tomasi di Lampedusa
O Leopardo (1958)

O Leopardo é a única novela entre a reduzida obra deixada por Giuseppe Tomasi di Lampedusa, e publicada postumamente. Passada maioritariamente no período conturbado da unificação italiana, tem como tema geral a desagregação da aristocracia siciliana num tempo que deixou de ter lugar para ela, em que campeiam os arrivistas burgueses. Inspirado na vida de familiares próximos, O Leopardo tem uma força visceral, do primeiro ao último parágrafo, sem prescindir de uma linguagem cuidada e criteriosa. Li algures, há tempos, que a qualidade da literatura se media pelo comprimento das frases. É uma afirmação discutível, mas, se reflectirmos no que ali está implícito, é impossível não deixar de concordar. Sendo, apesar de tudo, uma obra mal vista em determinados círculos "bem-pensantes", é-se levado a supor, tendo em conta o exemplo, que tal pode funcionar como um cartão de recomendação.

Don Ciccio continuava a bramar:
— Para vós, senhores, há outra coisa. Pode-se ser ingrato por causa de mais uma propriedade; mas por causa de um bocado de pão, o reconhecimento é uma obrigação. E há muito pano para mangas para os traficantes como Sedara, para quem o lucro é uma lei da natureza. Para nós, a arraia-miúda, as coisas ficam na mesma. Sabeis bem, Excelência, que aquela boa alma do meu pai era guarda-caça do pavilhão real de S. Onófrio, já no tempo de Fernando IV, quando aqui estavam os ingleses. É certo que se levava uma vida dura mas o uniforme real e a placa de prata davam autoridade. Foi a Rainha Isabel, a espanhola, que nessa altura era Duquesa da Calábria, que me mandou estudar, que me permitiu ser aquilo que hoje sou, organista da Igreja Matriz, honrado pela benevolência de Vossa Excelência; e nos anos de maior necessidade, quando minha mãe enviava uma súplica à Corte, chegavam sempre as cinco onças de socorro, tão certas como a morte, pois lá em Nápoles estimavam-nos, sabiam que éramos boa gente, súbditos fiéis; quando vinha o Rei, este dava umas palmadas nas costas do meu pai e dizia: «Don Leonardo, precisava de muita gente como você; sustentáculos fiéis do trono e da minha pessoa.» Depois, vinha o ajudante-de-campo e distribuía moedas de ouro. Agora dizem que eram esmolas, essas generosidades de verdadeiros Reis; dizem-no por não serem dadas a eles; tratava-se porém de justas recompensas da nossa dedicação. E hoje se esses santos Reis e Rainhas nos olhassem lá do céu, que diriam eles? «O filho de don Leonardo Tumeo atraiçoou-nos!» Ainda bem que no Paraíso se conhece a verdade. Eu sei, Excelência, eu sei, as pessoas como vós já me disseram que essas coisas por parte dos Reis não significam nada, fazem parte do ofício. Será verdade, é mesmo certamente verdade. Mas o facto é que havia as cinco onças e com elas sempre se ajudava a passar o Inverno. E agora que podia pagar a minha dívida, não há nada a fazer, nada, «tu não percebes patavina», o meu não transforma-se num sim. Era «súbdito fiel», tornei-me um bourbónico sujo. Agora toda a gente é «saboiana»! Mas os «saboianos» mastigo-os eu ao café! — E empunhando, entre o polegar e o indicador, um biscoito fictício, mergulhava-o numa chávena imaginária.

10 de outubro de 2014

Lendas de Portugal, vol. 3


Gentil Marques
Lendas de Portugal, vol. 3 (1964)

Terceiro volume dedicado à recolha de lendas populares portuguesas, desta vez sob o tema Lendas de Mouras e Mouros. O excerto que escolhi pertence à Lenda da Mina de Ouro, relacionada com a freguesia de Vale da Figueira, no concelho de Santarém.

Com voz sumida, Maria indagou:
– Chegamos?
– Sim, chegamos.
Ela olhou em volta. O coração bateu-lhe com violência.
– Mas... senhor... onde é a vossa casa?
– Já vai ver.
E encaminhando-se para uma pedra rochosa tocou-lhe com a mão. A pedra rodou. Maria olhou para o homem, aflita:
– Mas... isso é um alçapão!
Com a serenidade de sempre, ele retorquiu:
– É uma porta como outra qualquer.
– Pode ser um covil de ladrões!
– E... se fosse... recusava-se a salvar duas vidas?
Maria olhou o homem que a fitava numa ansiosa interrogação. Suspirou:
– Tem razão, senhor. Irei. E seja o que Deus quiser!
O homem sorriu. A sua expressão tornou-se mais leve. A sua voz, quase cariciosa.
– Cuidado! Daqui para diante encontrará muitas coisas que hão-de parecer-lhe estranhas. Não faça perguntas, nem tente fixar o que vai ver. Lembre-se que tem por única missão assistir ao nascimento de uma criança.
Maria fez um sinal afirmativo com a cabeça e, vendo à sua frente umas escadas, indagou:
– Desço por aqui?
– Não precisa de descer. A própria escada a levará.
Sorrindo acrescentou:
– Não se assuste com o que vir. Faça de conta que está sonhando.
Surpreendida, Ti Maria murmurou quase:
– E estarei eu mesmo sonhando?...
Ali, desaparecera a voz do vento e a impiedade da chuva. Lá em baixo, ela via salões fantásticos de luxo e riquezas. Homens de turbantes na cabeça passavam como se ela não existisse. Mulheres vestidas com mantos e véus.
Maria parara no meio do salão, como que deslumbrada. O desconhecido tocou-lhe num ombro.
– Vamos?
Maria deixou-se encaminhar. Vivia um conto d'As Mil e Uma Noites! E lembrava-se das histórias de fadas e mouras encantadas que a avó lhe contara à lareira. Tudo ali era irreal! Tudo parecia um sonho!

Li anteriormente:
Lendas de Portugal, vol. 2 (1963)
Lendas de Portugal, vol. 1 (1962)

7 de outubro de 2014

O Adeus às Armas

Ernest Hemingway
O Adeus às Armas (1929)

De Hemingway li um punhado de livros há já muitos anos, quase todos eles publicados depois de 1950; a excepção era O Adeus às Armas. Pretendendo agora ler algumas das obras pertencentes à sua primeira fase, decidi reler este livro, cujo argumento tinha praticamente esquecido.
O Adeus às Armas, largamente autobiográfico, narra a história de Frederic Henry, um norte-americano alistado no exército italiano durante a Grande Guerra, com a missão de condutor de ambulâncias, e o seu encontro com uma enfermeira inglesa, Catherine Barkley, com quem viverá uma grande paixão. Ferido num bombardeamento na frente de combate, o período de convalescença e o regresso à frente, decorridos muitos meses, trazem a Henry uma mudança de perspectiva e um sentimento anti-militarista à medida que se vai confrontando com o imobilismo, a perpetuação e a aparente inutilidade dos combates. Durante a confusão de uma retirada, a polícia do exército confunde-o com um espião, devido à sua nacionalidade estrangeira, e, na iminência de ser fuzilado, Henry foge, para se reunir a Catherine, e abandonar de uma vez o exército...

– Sou patriota – disse Gino –, mas não posso gostar de Brindisi nem de Tarento.
– Você gosta do Bainsizza? – perguntei.
– O solo é sagrado – disse ele –, mas preferia que desse mais batatas. Sabe, quando cá chegámos achámos batatais plantados pelos Austríacos.
– Tem havido realmente falta de abastecimentos?
– Eu próprio nunca tive o suficiente para comer, mas como muito, e não cheguei a passar fome. A messe é razoável. Nas trincheiras, as tropas são bem alimentadas, mas as de reforço nem tanto. Há algures qualquer coisa que não funciona bem. Devia haver víveres mais que suficientes.
– Os especuladores vendem-nos por outro lado.
– Sim, dão aos batalhões que estão nas trincheiras o mais que podem, mas os da retaguarda ficam prejudicados. Comeram todas as batatas dos Austríacos e as castanhas dos bosques. Era preciso que os alimentassem melhor. Somos grandes comilões. Tenho a certeza de que há comida em abundância. É muito mau para os soldados não comerem o suficiente. Já reparou alguma vez como isso influencia a maneira de eles pensarem?
– Reparei – disse eu. – Não é coisa que faça ganhar uma guerra, mas pode fazê-la perder.
– Não falemos em perder a guerra. Já se fala de mais nisso. O que se fez este Verão não pode ter sido em vão.
Eu não disse nada. As palavras "sagrado", "glorioso" e "sacrifício" e a expressão "em vão" deixavam-me sempre embaraçado. Tínhamo-lo ouvido, muitas vezes, de pé, à chuva, quase fora do alcance do ouvido, de forma que só nos chegavam as palavras gritadas, e tínhamo-las lido em proclamações que eram coladas sobre outras proclamações vezes sem conta, e eu não tinha visto nada sagrado, e as coisas que eram gloriosas não tinham glória e os sacrifícios eram como os matadouros de Chicago, com a diferença de que a carne servia só para ser enterrada. Havia muitas palavras que não se podiam suportar, e por fim só os nomes dos lugares conservavam ainda dignidade. Com certos números acontecia o mesmo, e também com certas datas, e estas, assim como os nomes dos lugares, eram tudo quanto significava ainda alguma coisa. Palavras abstractas como "glória", "honra", "coragem" ou "santidade" tornavam-se obscenas comparadas aos nomes concretos das aldeias, aos números das estradas, aos nomes dos rios, aos números dos regimentos e às datas. Gino era um patriota, e por isso dizia coisas que às vezes nos separavam, mas era ao mesmo tempo um excelente moço, e eu compreendia que ele fosse patriota. Tinha nascido assim. Regressou no carro a Gorizia, juntamente com Peduzzi.

Li anteriormente:
Ilhas na Corrente (1970)
Na Outra Margem entre as Árvores (1950)
O Jardim do Éden (1986)

30 de setembro de 2014

Amor sem Limites

Robert A. Heinlein
Amor sem Limites (1973)

Publicada em Portugal em 1977 na Colecção Argonauta sob o enganador título A História do Futuro, dividida em três volumes, esta é, de longe, a obra que mais anos esperei para ler. Comprei em 1980 ou 81 os volumes 2 e 3, e vim a descobrir que o volume 1 estava completamente esgotado; durante anos continuei a ver os dois últimos volumes nos escaparates, mas a Livros do Brasil nunca se dignou reeditar o primeiro. Consegui por fim encontrá-la, numa versão diferente.
Amor sem Limites é a tradução brasileira de Time Enough for Love, e um dos títulos centrais da série Future History. Passada no futuro distante do ano 4272, reencontramos aqui a personagem de Lazarus Long, então o mais velho ser humano vivo, com 2360 anos! A humanidade tornou-se praticamente imortal, através de uma técnica de rejuvenescimento periódico, e a morte só acontece por acidente ou por suicídio. Lazarus Long, cansado da vida, decidiu não rejuvenescer e desapareceu na cidade de Nova Roma, em Secundus, para morrer tranquilamente. Foi porém resgatado in extremis a mando de Ira Weatheral, um seu descendente, e levado para uma clínica para lhe ser aplicado o rejuvenescimento. Ira Weatheral está interessado em registar a experiência e o conhecimento do Sénior, e convence-o a fazer com ele um trato semelhante ao de Xerazade, das Mil e uma Noites: Lazarus Long não se suicidará enquanto ele estiver disposto a escutar as suas histórias.
Amor sem Limites é assim dividido em várias partes, intituladas segundo uma nomenclatura própria de uma obra musical, onde o presente narrativo se intercala com as memórias de Lazarus Long. Determinadas partes, retiradas do texto principal, quase poderiam funcionar como contos ou novelas independentes. Temos assim a divertida "História do Homem que era Preguiçoso demais para Fracassar" (de onde retirei o excerto abaixo), "A História dos Gémeos que não eram Gémeos" sobre um caso de manipulação genética — um tema recorrente ao longo de todo o livro —, ou "A História da Filha Adoptiva", sobre a colonização e a vida rústica num planeta recém-descoberto. No quarto final desta extensa obra, Lazarus Long faz uma viagem no tempo e regressa à sua Kansas City natal, na época em que os Estados Unidos entram na Grande Guerra, e trava conhecimento com a família onde nasceu — e consigo próprio, como um rapazinho de cinco anos.

Depois a guerra acabou.
Dave olhou em volta e avaliou a situação. Havia centenas de capitães-de-mar-e-guerra que, como ele, tinham sido capitães-de-corveta apenas três anos antes. Já que a paz era "para sempre", como os políticos sempre insistem, poucos seriam algum dia promovidos. Dave pôde ver que não seria promovido; não tinha nem a antigüidade, padrão tradicionalmente aprovado nas forças armadas, nem as ligações apropriadas, políticas e sociais.
O que ele tinha eram quase vinte anos de serviço, o mínimo para se reformar a meio soldo. Ou podia permanecer até ser forçado a se reformar por não ser escolhido para almirante.
Não havia necessidade de decidir imediatamente; a reforma aos vinte anos era para daí a um ou dois anos.
Mas ele se reformou quase imediatamente, por motivos de saúde. O diagnóstico foi "psicose situacional", o que significava que ele ficava doido quando trabalhava.
Ira, não sei como avaliar isto. Dave me impressionou como um dos poucos homens completamente sãos que já conheci. Mas eu não estava lá quando ele se reformou, e a "psicose situacional" era a segunda causa mais comum para reforma por motivos de saúde dos oficiais de marinha naquele tempo; mas como podiam eles saber? Ficar maluco não era nenhum empecilho para um oficial de marinha, não mais do que o era para um escritor, um professor, um pregador ou várias outras ocupações respeitáveis. Desde que David chegasse na hora e assinasse a documentação que algum escriturário preparava, e nunca desse respostas malcriadas aos seus superiores, isso nunca seria notado. Lembro-me de um oficial da marinha que tinha uma coleção espantosa de ligas de senhoras; ele costumava trancar-se em sua sala e examiná-las; e de outro que fazia exatamente a mesma coisa com uma coleção de rótulos de papel usados para franquia postal. Qual deles era maluco? Ambos? Ou nenhum dos dois?
Outro aspecto da reforma de Dave exige conhecimento das leis da época. Reformar-se com vinte anos de serviço resultava em meio soldo, sujeito ao imposto de renda, que era pesado. Reformar-se por incapacidade física resultava em três quartos de soldo, ficando-se isento do imposto de renda.
Não sei, simplesmente não sei. Mas toda a questão se enquadra no talento de Dave para obter resultados máximos com o mínimo de esforço. Vamos aceitar que ele estivesse maluco, mas estaria ele completamente maluco?

Li anteriormente:
The Moon Is A Harsh Mistress (1966)
Stranger in a Strange Land (1961)
O Homem que Vendeu a Lua (1951)

30 de agosto de 2014

O Lobo da Estepe


Hermann Hesse
O Lobo da Estepe (1927)

O Lobo da Estepe (Der Steppenwolf) é um romance com uma estrutura peculiar: inicia-se por um Prefácio redigido pelo sobrinho da senhoria de Harry Heller, o protagonista, onde narra as circunstâncias em que o conheceu e como lhe chagaram à mão os seus apontamentos. O resto do livro são os apontamentos de Harry Heller, onde se inclui ainda o "Tratado do Lobo da Estepe", um breve ensaio sobre questões espirituais, que lhe foi oferecido e é transcrito na íntegra.
Harry Heller descreve-se como um lobo da estepe, um cinquentão oriundo da burguesia, que simultaneamente almeja e despreza, transformado em ser intelectualizado que acaba à margem da sociedade, tão incapaz de se integrar quanto falho da vontade para o fazer. Do seu encontro com Hermínia, uma jovem mundana que o arrasta para os salões de baile, lhe dá a conhecer os seus amigos e lhe propõe um estranho pacto de morte, aprende uma nova forma de estar e sentir.
Passado nos Loucos Anos da década de 20, com a música de jazz por fundo e onde se fala da inevitabilidade da próxima guerra, O Lobo da Estepe é um livro tão mais interessante quanto se vai afastando da realidade objectiva, rumo a um surrealismo espesso, onde se representam os medos e as angústias da sua época.

Ah, é difícil achar esse trilho de Deus em meio à vida que levamos, na embrutecida monotonia de uma era de cegueira espiritual, com sua arquitetura, seus negócios, sua política e seus homens! Como não haveria de ser eu um Lobo da Estepe e um mísero eremita em meio de um mundo de cujos objetivos não compartilho, cuja alegria não me diz respeito! Não consigo permanecer por muito tempo num teatro ou num cinema. Mal posso ler um jornal, raramente leio um livro moderno. Não sei que prazeres e alegrias levam as pessoas a trens e hotéis superlotados, aos cafés abarrotados, com sua música sufocante e vulgar, aos bares e espetáculos de variedades, às Feiras Mundiais, aos Corsos. Não entendo nem compartilho essas alegrias, embora estejam ao meu alcance, pelas quais milhares de outros tanto anseiam. Por outro lado, o que se passa comigo nos meus raros momentos de júbilo, aquilo que para mim é felicidade e vida e êxtase e exaltação, procura-o o mundo em geral nas obras de ficção; na vida parece-lhe absurdo. E, de fato, se o mundo tem razão, se essa música dos cafés, essas diversões em massa e esses tipos americanizados que se satisfazem com tão pouco têm razão, então estou errado, estou louco. Sou, na verdade, o Lobo da Estepe, como me digo tantas vezes — aquele animal extraviado que não encontra abrigo nem alegria nem alimento num mundo que lhe é estranho e incompreensível.

25 de agosto de 2014

Lendas de Portugal, vol. 2


Gentil Marques
Lendas de Portugal, vol. 2 (1963)

Segundo volume desta recolha de lendas populares, dedicado este às Lendas Heróicas. O excerto citado pertence à Lenda das Chaves do Castelo de Coimbra. Esta lenda passa-se após o termo do reinado de D. Sancho II, na sequência da guerra civil de 1245-47, que o opôs ao seu irmão e sucessor D. Afonso III. D. Sancho II, após tentativa de reforço da centralização monárquica do poder, foi vítima de uma conspiração destinada a depô-lo que contou com a cumplicidade do clero e do papado, que o excomungou e ostracizou. O rei deposto morreu no ano seguinte no seu exílio de Toledo, que serve de cenário a esta cena final.

Vendo-o, D. Gil Martins ergueu-se.
– Grande honra tenho em receber-vos!
Martim de Freitas pareceu não ligar ao cumprimento e perguntou em tom grave:
– El-rei D. Sancho II é morto?
Baixando a cabeça, o fidalgo confirmou.
– Sim... é morto. Que Deus tenha a sua alma em descanso!
– Vistes o seu corpo sem vida?
– Deus reservou-me mais esse desgosto!
– Pois quero eu vê-lo também.
D. Gil Martins elevou a estatura num gesto de surpresa.
– Que dizeis, D. Martim de Freitas?
Solene, o visitante confirmou:
– O que acabais de ouvir, senhor. Quero vê-lo e desempenhar-me da minha última missão.
– É assim tão urgente e... necessário?
– Sim. Trago comigo as chaves do castelo de Coimbra. Preciso que el-rei me desobrigue do meu juramento antes que o rei Afonso tome conta delas.
De olhos abertos num espanto, D. Gil Martins olhava o visitante, perguntando a si próprio se o prolongado cerco a que D. Martim de Freitas se sujeitara não dera cabo do seu entendimento. Mas logo o fidalgo, que parecia ter adivinhado as conjecturas do seu interlocutor, pôs ponto final nessas mudas interrogações.
– Senhor, creio que fui bem explícito. O que peço é justo e não pode ser-me negado!
Lá fora, a chuva miúda, impertinente, punha lama nos caminhos. E a tarde morria, com a pressa de quem não tem nem deixa saudades.
O dia que nasceu depois daquele em que Martim de Freitas chegara a Toledo não era menos triste. A chuva deixara por momentos de cair mas o vento viera substituí-la. Um vento gritante, que punha arrepios nas almas inquietas.
No cemitério, um pequeno grupo olhava com ar de assombro, e por vezes entre as lágrimas, a figura altiva de D. Martim de Freitas, agora ajoelhado junto da sepultura do que fora seu rei e rei de Portugal. O corpo estava exposto. O fidalgo português curvou-se e, entre as mãos cruzadas sobre o peito do defunto, depôs as chaves do castelo de Coimbra. Beijou-lhe as pontas dos dedos. Depois ergueu-se e falou:
– Meu rei e senhor! Enquanto vivestes, sofri pela vossa causa as maiores privações, dissimulando sempre, para dar conforto e ânimo aos meus companheiros. E assim eles continuaram no castelo que é vosso e continuaram honradamente aguentando por vós. Cumpri o meu juramento de lealdade, Senhor! Porém, agora que sois morto e não posso já entregar-vos a cidade, quero ao menos fazer-vos a entrega destas chaves para que, desobrigando-me vós, eu possa apresentá-las a vosso irmão, o conde D. Afonso, como renúncia vossa e não como triunfo de suas armas!...
Fez-se um pesado silêncio após estas palavras, cadenciadas, solenes. Havia emoção em todos os rostos desses homens habituados às agruras da guerra. Depois, silenciosamente ainda, as chaves do castelo de Coimbra foram retiradas das mãos do rei morto e a sua sepultura fechada para sempre.
Assim ficava encerrado, também, um feito de lealdade que jamais as chuvas, o vento, o pó ou a lama dos caminhos poderão destruir, apesar do esforço do tempo!

Li anteriormente:
Lendas de Portugal, vol. 1 (1962)

23 de agosto de 2014

The Moon Is A Harsh Mistress

Robert A. Heinlein
The Moon Is A Harsh Mistress (1966)

Traduzido em português com o título Revolta na Lua (porquê mudar para um título tão árido quando o original é tão evocativo?), este livro do ciclo Future History, ao qual me tenho dedicado recentemente, trata da sublevação que levou à independência de Luna, até então uma simples colónia das Nações Federadas da Terra.
Partindo do pressuposto de um computador tão expandido e melhorado nas suas capacidades que, um dia, se torna auto-consciente, com a sua capacidade de análise e previsão alerta para um futuro negro que ameaça a colónia lunar a curto prazo, a menos que toda a sua gestão seja radicalmente modificada. É essa luta, desde a constituição de uma rede clandestina e adopção de tácticas subversivas, passando pela revolução e guerra da independência, até ao reconhecimento da soberania, que constitui a narrativa desta obra, vencedora do Prémio Hugo em 1967.
O referido pressuposto continua um tema actual; muitos se têm questionado se o contínuo acréscimo de computadores à rede, onde cada um deles equivale a um neurónio, eventualmente poderá levar à auto-consciência da própria internet...

One man demanded to know why, since we paid no taxes, we colonists thought we had a right to run things our own way? After all, those colonies had been established by Federated Nations—by some of them. It had been terribly expensive. Earth had paid all bills—and now you colonists enjoy benefits and pay not one dime of taxes. Was that fair?
I wanted to tell him to blow it. But Prof had again made me take a tranquilizer and had required me to swot that endless list of answers to trick questions. "Lets take that one at a time," I said. "First, what is it you want us to pay taxes for? Tell me what I get and perhaps I'll buy it. No, put it this way. Do you pay taxes?"
"Certainly I do! And so should you."
"And what do you get for your taxes?"
"Huh? Taxes pay for government."
I said, "Excuse me, I'm ignorant. I've lived my whole life in Luna, I don't know much about your government. Can you feed it to me in small pieces? What do you get for your money?"
They all got interested and anything this aggressive little choom missed, others supplied. I kept a list. When they stopped, I read it back: "Free hospitals—aren't any in Luna. Medical insurance—we have that but apparently not what you mean by it. If a person wants insurance, he goes to a bookie and works b-Out a bet. You can hedge anything, for a price. I don't hedge my health, I'm healthy. Or was till I came here. We have a public library, one Carnegie Foundation started with a few book films. It gets along by charging fees. Public roads. I suppose that would be our tubes. But they are no more free than air is free. Sorry, you have free air here, don't you? I mean our tubes were built by companies who put up money and are downright nasty about expecting it back and then some. Public schools. There are schools in all warrens and I never heard of them turning away pupils, so I guess they are 'public.' But they pay well, too, because anyone in Luna who knows something useful and is willing to teach it charges all the traffic will bear."
I went on: "Let's see what else—Social security. I'm not sure what that is but whatever it is, we don't have it. Pensions. You can buy a pension. Most people don't; most families are large and old people, say a hundred and up, either fiddle along at something they like, or sit and watch video. Or sleep. They sleep a lot, after say a hundred and twenty."
[...] I looked at list. "I'll lump the rest of this together by saying we don't have any of it in Luna, so I can't see any reason to pay taxes for it. On that other point, sir, surely you know that the initial cost of the colonies has long since been repaid several times over through grain shipments alone? We are being bled white of our most essential resources... and not even being paid an open-market price. That's why the Lunar Authority is being stubborn; they intend to go on bleeding us. The idea that Luna has been an expense to Terra and the investment must be recovered is a lie invented by the Authority to excuse their treating us as slaves. The truth is that Luna has not cost Terra one dime this century—and the original investment has long since been paid back."

Li anteriormente:
Stranger in a Strange Land (1961)
O Homem que Vendeu a Lua (1951)
Revolta em 2100 (1953)

7 de agosto de 2014

Aparição

Vergílio Ferreira
Aparição (1959)

Narrado na primeira pessoa por Alberto Soares, um professor colocado em Évora - provavelmente um alter-ego do autor, também ele professor -, Aparição é uma ruminação existencialista sobre as suas dúvidas pessoais. Como comenta uma outra personagem, quando o narrador compra uma casa isolada - esse é o sítio ideal para ele: "Está isolado, pode meditar em sossego sobre o espantoso milagre de estar vivo e o incrível absurdo da morte."

Saí enfim para a noite, Chico saiu comigo. E, enquanto subíamos a rua, falou-me de si, falou-me de Évora. Estava ali há cinco anos, era engenheiro, trabalhava na Direcção dos Monumentos. Évora era uma cidade absurda, reaccionária, empanturrada de ignorância e de soberba. Em Évora – tinham-lhe dito um dia – não se podia ter mais do que a quarta classe nem menos que 300 porcos.
– Qualquer iniciativa cultural é logo abafada de desprezo e de banha.
O peso da Idade Média enegrecia ainda as almas, e os mouros também. Ter meia dúzia de amantes era para aqueles sultões um sinal de abundância. E havia damas que durante anos não saíam à rua, ou saíam apenas pela Semana Santa. Muitas casas tinham jardins. Pois visse eu se os descobria. Cercavam-nos de muros altos como a toda a sua vida. Criar relações em Évora era um milagre. Tudo ali tinha muralhas: a sociabilidade, os jardins e, enfim, a própria cidade. Mas de vez em quando aquela gente ia a Lisboa. E então era vê-la desabafar: casinos, teatros, ceias. Depois recolhiam ao mosteiro. Havia damas que nunca se viam na rua. Vira-as ele, Chico, fumando e bebendo no Estoril. Évora era a Quaresma e Lisboa o Carnaval. Ora bem, ele, Chico, e alguns amigos não desistiam de importunar a embófia gorda daqueles senhores. Falhara em tempos o Círculo de Cultura Musical. Falhara o Cinema Clássico. Mas iam atacar outra vez. Agora, com uma série de conferências na Harmonia. Poderia eu colaborar?
Vagueámos pela cidade morta, de arcadas desertas.
Disse enfim ao caloroso homem:
– Ignoro tudo de Évora. Mas sinto que você exagera. Por ora sei apenas que é uma cidade fantástica. E quanto às conferências, decerto estou pronto a colaborar.

Li anteriormente:
Manhã Submersa (1954)