7 de setembro de 2016

A Jangada de Pedra

José Saramago
A Jangada de Pedra (1986)

A Jangada de Pedra é um romance que tem como tema principal a misteriosa separação da Península Ibérica do continente europeu, e o igualmente misterioso percurso que a leva a rumar Atlântico fora. Nas primeiras páginas descrevem-se alguns prodígios sucedidos com as principais personagens da obra – Joaquim Sassa, que lança uma pedra a uma distância impossível; José Anaiço, sempre acompanhado por uma nuvem de estorninhos; Pedro Orce, que sente o chão a tremer, apesar de nenhum instrumento de medição o registar; e também um cão dos Pirinéus, Joana Carda, Maria Guavaira e Roque Lozano, todos de alguma forma ligados a pormenores insólitos. Ora, no decurso da narrativa, todos estes personagens acabam por se encontrar e associar, numa viagem nómada que percorre o território da península num grande círculo. Editado numa época em que Espanha e Portugal tinha acabado de entrar na CEE, o livro levanta subtilmente a questão, se seria esse horizonte europeu, realmente, o que mais se adequava aos interesses das nações ibéricas.
José Saramago é um autor controverso, mas, na meia-dúzia de livros que li dele, agradou-me um certo recurso ao fantástico, que me parece aparentado do realismo mágico. Depois de ter lido O Ano da Morte de Ricardo Reis e Memorial do Convento, obras maiores da bibliografia do autor, cheguei a considerar parar por aí. Afinal, seis anos depois, voltei a Saramago...

Avançaram para o interior do círculo, aproximaram-se, o risco lá estava, vivo, como se tivesse sido acabado de traçar, a terra apartada para os lados, húmida a da camada inferior apesar do sol quente. Agora estão calados, os homens não sabem que dizer, Joana Carda não tem que acrescentar mais palavras, é a vez de um acto arriscado que pode tornar em motivo de escárnio toda a sua história maravilhosa. Arrasta o pé pelo chão, arrasa o risco como uma rasoira, pisa e calca, é como um sacrilégio. No instante seguinte, diante dos olhos assombrados de todos, o risco refaz-se, recompõe-se exactamente como fora antes, os torrões minúsculos, os grãos de areia reformam-se, reorganizam-se, reocupam o seu lugar, e o risco reaparece. Entre a parte que fora destruída e o resto, para um lado e para o outro, nenhum sinal se percebe de separação dos efeitos, primeiro e segundo. Diz Joana Carda, numa voz um pouco estridente de nervosismo, Já varri o risco todo, já lhe deitei água, aparece sempre, se quiserem experimentar, até lhe pus pedras em cima, quando as tirei voltou tudo à mesma, experimentem para poderem acreditar. Joaquim Sassa baixou-se, enterrou os dedos no chão fofo, arrancou um punhado de terra, lançou-o para longe, e acto contínuo o risco restabeleceu-se. Foi a vez de José Anaiço, mas esse pediu a vara a Joana Carda, fez com ela um risco profundo ao lado do primeiro, depois pisou-o em todo o comprimento. O risco não se refez. Faça você agora o mesmo, disse José Anaiço a Joana Carda. A ponta da vara cravou-se no chão, foi arrastada, abriu uma ferida longa, logo fechada como uma cicatriz defeituosa quando a calcaram, e assim ficou. Disse José Anaiço, Não é da vara, não é da pessoa, foi do momento, o momento é que conta.

Li anteriormente:
Memorial do Convento (1982)
O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)
As Intermitências da Morte (2005)

4 de setembro de 2016

Solaris


Stanislaw Lem
Solaris (1961)

De Stanislaw Lem apenas havia lido um único livro até hoje, A Nave Invencível, já lá vão demasiados anos para me recordar com clareza do argumento, tendo perdurado uma opinião positiva, apesar de o considerar um livro de leitura "difícil" – nada mau, para um leitor que acabara de completar 15 anos. Já Solaris, significava para mim o inesquecível filme de Andrei Tarkovski, que vi duas vezes, primeiro na televisão e depois no cinema, aguçando-me a curiosidade sobre a obra que lhe serviu de inspiração, na qual acabei por tropeçar, em tradução de português do Brasil.
E posso dizer que Solaris esteve à altura das minhas expectativas. Reconheci nele os pontos essenciais da adaptação cinematográfica, na história que decorre numa estação-observatório a pairar sobre um planeta coberto por um oceano plasmático, vivo, interactivo e consciente. Nessa estação permanecem três cientistas que sofrem daquilo que inicialmente tomam por alucinações, mas que são obra desse imenso organismo para além da compreensão: projecções materializadas do conteúdo cerebral do indivíduo, as impressões mais marcantes da sua memória, que o assombram e perseguem até à insanidade. É também uma estranha história de amor, entre Kris Kelvin, recém-chegado a Solaris, e Rheya, sua jovem mulher, morta dez anos antes, e inexplicavelmente materializada num ser que parece tornar-se cada dia emocionalmente mais complexo e distinto, desafiando simultaneamente a racionalidade e a linha de fronteira entre o ser humano e o seu duplicado autonomizado. Como pano de fundo – a comprovar como, tantas vezes, uma frase vale mais do que mil imagens –, os silêncios da obra cinematográfica têm aqui correspondência numa análise aprofundada do tema "contacto", com as suas implicações filosóficas, sociológicas e religiosas, tal como a identificação das armadilhas da interpretação antropomórfica, tanto mais quando o objecto desse "contacto" é um ser absolutamente ininteligível.

Quando tornei a abrir os olhos, tive a impressão de haver cochilado alguns minutos. O quarto estava banhado por uma penumbra vermelha. Fazia menos calor. Eu estava me sentindo bem, deitado, com as cobertas afastadas, inteiramente nu. A cortina só cobria metade da janela e lá, defronte de mim, ao lado da vidraça, iluminada pelo sol vermelho, havia alguém sentado. Reconheci Rheya. Usava um vestido de praia, branco, cujo tecido estava esticado no bico dos seios. Tinha as pernas cruzadas e pés descalços. Imóvel, com os braços abertos bronzeados até os cotovelos, olhava-me por entre os cílios escuros. Rheya, com seus cabelos pretos penteados para trás.
Encarei-a durante muito tempo, calmamente. Meu primeiro pensamento foi reconfortante: eu estava sonhando e consciente disso. Não obstante, preferia que ela sumisse. Fechei os olhos e tratei de varrer aquele sonho. Quando tornei a abri-los, Rheya estava sentada ao meu lado. Tinha os lábios entreabertos, como de costume, num gesto de assoviar.
Mas seu olhar era sério. Lembrei-me da véspera, quando fizera aquelas especulações a respeito dos sonhos. Rheya não havia mudado desde o dia em que a vira pela última vez. Tinha, naquela época, dezenove anos. Hoje teria vinte nove. Mas, evidentemente, os mortos não mudam, ficam eternamente jovens. Ela fixava-me com o olhar espantado de sempre. Tive vontade de atirar alguma coisa sobre ela. No entanto, apesar de se tratar de um sonho, não tive coragem – mesmo em sonho – de maltratar uma morta.

Li anteriormente:
A Nave Invencível (1964)

2 de setembro de 2016

Mundo del Fin del Mundo


Luis Sepúlveda
Mundo del Fin del Mundo (1994)

Mundo del Fin del Mundo é uma curta novela passada a dois tempos: os quatro capítulos que compõem a Primeira parte, de fundo autobiográfico, descrevem a aventura de férias escolares de um rapaz, influenciado pelo avô e pela leitura de Moby Dick, a quem é permitida uma viagem a bordo de um navio baleeiro nas imediações do Estreito de Magalhães. No restante, reencontramos já o adulto, que parte de Londres e regressa a essas paragens da infância, desta vez como um jornalista ligado à Greenpeace, empenhado na luta contra os modernos baleeiros e a caça ilegal que ameaça de extinção os cetáceos.

Hay que señalar que no son solamente los depredadores japoneses los que practican el juego de la doble moral que caracteriza a un mundo regido por la ética del mercado. Japón es uno de los siete países más ricos del planeta y un interlocutor fundamental; a veces hasta da la impresión de ser una nación con patente de corso. Por ejemplo: todos los países de Europa, Estados Unidos, la Unión Soviética y la mayoría de los Estados africanos condenan la caza del elefante y reconocen el peligro de extinción en que se encuentran los gigantes grises de África. Pero ningún país condena a Japón, el gran incentivador de la caza y el mayor comprador de marfil del planeta. De más está señalar que controla el mercado y que es el principal proveedor de marfil de Europa, Estados Unidos y la Unión Soviética. ¿Y para qué sirve el marfil? Toda su utilidad se limita a la fabricación de unos pocos artículos de lujo; con toda seguridad podemos afirmar que el talento de una Paloma O'Shea o de un Claudio Arrau no se verá disminuido al sentarse frente a pianos cuyo teclado no sea de marfil, y continuarán con sus formidables interpretaciones de Mozart o Scarlatti sin que para ello haya que exterminar animales de seis u ocho toneladas, de los cuales se obtienen cuarenta miserables kilos de marfil.

Li anteriormente:
Patagonia Express (1995)
Nombre de Torero (1994)
Un Viejo que Leía Novelas de Amor (1989)

21 de agosto de 2016

A Selva


Ferreira de Castro
A Selva (1930)

Ferreira de Castro foi, em tempos, o escritor português com maior número de traduções no estrangeiro. Da sua juventude passada no Brasil, à qual se refere no prólogo deste romance, recolheu certamente a inspiração para o enredo, a história de Alberto, um português a quem as circunstâncias levam aos confins da Amazónia, nas margens do rio Madeira, para trabalhar num seringal – na extracção da borracha – na época em que a matéria-prima começa a desvalorizar imparavelmente. É a descrição da grandiosidade desta selva indómita, e a sujeição dos homens a uma Natureza implacável, agravada por uma exploração quase esclavagista do seu trabalho, que fazem de A Selva um imenso quadro, que se percorre com curiosidade crescente.

Por toda a parte havia uma orquestra invisível, feita de aves trinando melodias diferentes, que se diluíam frequentemente num ritmo tão suave que era quase o silêncio verificado, na véspera, por Alberto, mas agora mais vivo, mais alvoroçante e integrado no esplendor da manhã.
De quando em quando, como se alternassem, subia pelas narinas, perturbando o olfacto, um cheiro forte de húmus em combustão, de troncos e folhagem apodrecendo no solo negro e húmido; ou então errava, por largos trechos, um aroma de ignorado jardim, perfume original e precioso como nunca o recolheram os frascos caprichosos da França.
Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo.
O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir pele de fera. A árvore solitária, que borda melancolicamente campos e regatos na Europa, perdia ali a sua graça e romântica sugestão e, surgindo em brenha inquietante, impunha-se como um inimigo. Dir-se-ia que a selva tinha, como os monstros fabulosos, mil olhos ameaçadores, que espiavam de todos os lados.
Nada a assemelhava às últimas florestas do velho mundo, onde o espírito busca enlevo e o corpo frescura; assustava com o seu segredo, com o seu mistério flutuante e as suas eternas sombras, que davam às pernas nervoso anseio de fuga.
Vista uma légua parecia ter-se visto tudo. Só a água, presa nos lagos ou deslizando nos rios e igarapés, quebrava, com a abertura de clareiras, o emaranhado aparentemente uniforme. E, contudo, havia ali uma variedade vegetal assombrosa, com milhentos indivíduos diferentes a confundirem-se e a engalfinhar-se mutuamente, como numa raiva surda, – eviterna, mas quase sempre com a mesma expressão. Daquela bárbara grandiosidade e da sua estranha beleza, uma só forte impressão ficava – a inicial; que nunca mais se esquecia e nunca mais também se voltava a sentir plenamente. Solo de constantes parturejamentos; obstinado na ânsia-de-criar, a sua cabeleira, contemplada por fora, sugeria vida liberta num mundo virgem, ainda não tocado pelos conceitos humanos, vista por dentro, oprimia e fazia anelar a morte. Só a luz obrigava o monstro a mudar de fisionomia, revelando as suas pesadas atitudes, mas persistindo sempre no seu ar enigmático.

17 de agosto de 2016

Wilt on High


Tom Sharpe
Wilt on High (1984)

Na terceira dose das desventuras de Henry Wilt, reencontramos o nosso protagonista nas alhadas habituais, acompanhado das personagens já conhecidas: a sua mulher Eva, as quatro filhas gémeas, o inspector Flint, o sargento Yates, e alguns professores e funcionários da escola de adultos onde Henry tenta dar lições de literatura a alunos desinteressados.
Desta vez, a morte por overdose da filha de um lorde na escola de Wilt, à qual se junta outra morte, em circunstâncias idênticas, de um presidiário a quem Wilt proporcionava explicações de literatura, é o pretexto encontrado por Flint para pôr a investigação – mais concretamente o Inspector Hodge, dos Narcóticos, a quem despreza – no encalço de Wilt, na tentativa de exercer a sua vingança, por razões descritas nos livros anteriores da série, e simultaneamente fazer com que Hodge enfie o pé na argola.

Twenty minutes later, Eva, who had been intercepted by Mavis on her way home, drove up to the house.
'Henry,' she shouted as soon as she was inside the front door. 'You come straight down here and explain what you were doing with Mavis.'
'Sod off,' said Wilt.
'What did you say?'
'Nothing. I was just groaning.'
'No, you weren't. I distinctly heard you say something,' said Eva on her way upstairs.
Wilt got out of bed and girded his loins with the water bottle. 'Now you just listen to me,' he said before Eva could get a word in. 'I've had all I can stand from everybody, you, Mavis-moron-Mottram, that poisoner Kores, the quads and the bloody thugs who've been following me. In fact the whole fucking modern world with its emphasis on me being nice and docile and passive and everyone else doing their own thing and to hell with the consequences. (A) I am not a thing, and (B) I'm not going to be done any more. Not by you, or Mavis, or, for that matter, the damned quads. And I don't give a tuppenny stuff what received opinions you suck up like some dehydrated sponge from the hacks who write articles on progressive education and sex for geriatrics and health through fucking hemlock--'
'Hemlock's a poison. No one...' Eva began, trying to divert his fury.
'And so's the ideological codswallop you fill your head with,' shouted Wilt. 'Permissive cyanide, page three nudes for the so-called intelligentsia or video nasties for the unemployed, all fucking placebos for them that can't think or feel. And if you don't know what a placebo is, try looking it up in a dictionary.'
He paused for breath and Eva grabbed her opportunity. 'You know very well what I think about video nasties,' she said, 'I wouldn't dream of letting the girls see anything like that.'
'Right,' yelled Wilt, 'so how about letting me and Mr bleeding Gamer off the hook. Has it ever occurred to you that you've got genuine non-video actual nasties, pre-pubescent horrors, in those four daughters? Oh no, not them. They're special, they're unique, they're flipping geniuses. We mustn't do anything to retard their intellectual development, like teaching them some manners or how to behave in a civilized fashion. Oh no, we're your modern model parents holding the ring while those four ignoble little savages turn themselves into computer-addicted technocrats with about as much moral sense as Ilse Koch on a bad day.'
'Who's Ilse Koch?' asked Eva.
'Just a mass murderess in a concentration camp,' said Wilt, 'and don't get the idea I'm on a right-wing, flog 'em and hang 'em reactionary high because I'm not, and those idiots don't think either. I'm just mister stick-in-the-middle who doesn't know which way to jump. But my God I do think! Or try to. Now leave me in peace and discomfort and go and tell your mate Mavis that the next time she doesn't want to see an involuntary erection, not to advise you to go anywhere near Castrator Kores.'
Eva went downstairs feeling strangely invigorated. It was a long time since she'd heard Henry state his feelings so strongly and, while she didn't understand everything he'd said, and she certainly didn't think he'd been fair about the quads, it was somehow reassuring to have him assert his authority in the house. It made her feel better about having been to that awful Dr Kores with all her silly talk about...what was it?...'the sexual superiority of the female in the mammalian world'. Eva didn't want to be superior in everything and anyway, she wasn't just a mammal. She was a human being. That wasn't the same thing at all.

Li anteriormente:
Wilt (1976)
The Alternative Wilt (1979)

16 de xullo de 2016

Clarissa

Érico Veríssimo
Clarissa (1933)

Érico Veríssimo foi, para mim, a melhor descoberta da literatura brasileira. Gostei sobretudo do tríptico O Tempo e o Vento, de uma dimensão épica, uma epopeia familiar entretecida na própria História da sua pátria, comparável a um Guerra e Paz. Já Clarissa é completamente diferente: trata-se do primeiro romance de Veríssimo, com o nome que viria a dar à sua primeira filha.
Clarissa é a história de uma adolescente a completar 14 anos, filha de agrários, no seu último ano de escola, à descoberta da vida. Vive na cidade, com a tia D. Eufrasina, proprietária de uma pensão, e ali se assiste ao desfilar das personagens secundárias que com ela se cruzam: O Tio Couto, desempregado e, aparentemente, pouco amigo do trabalho, permanentemente a zurzir no governo; Nico Pombo, o major reformado que conta e reconta as suas velhas histórias de guerra; Amaro, o apagado e ausente empregado bancário e compositor frustrado; Tonico, o menino inválido da casa ao lado, cuja deficiência tolhe até os seus sonhos; Dudu, a desinibida amiga de Clarissa, detestada por D. Zina que a considera uma “desfrutável”; as eternas discussões entre Levinsky, o judeu marxista, e o farmacêutico protestante Gamaliel; e todas as peripécias que, com frescura e algum humor, Érico Veríssimo vai alinhando nesta novela despretensiosa.

— Clarissa, vem prà mesa!
A voz aguda de D. Eufrasina apaga impiedosamente a imagem do palhaço e do cortejo de moleques. Amaro volta à tona...
— Que história é essa? — pergunta Tio Couto. — O seu Amaro está enjoando a nossa comida?
Só agora Amaro percebe que nem tocou nos talheres. Balbucia desculpas.
Estava esquecido até do almoço. Sempre o velho vício. Sonhando, devaneando, enquanto os outros conversam, gesticulam, vivem de verdade. É por isso que não há-de passar nunca de simples funcionário de banco. A música não lhe dá dinheiro. Os editores sempre vêm com a mesma desculpa:
— Nós sabemos que o senhor tem talento, que sabe compor, mas infelizmente o nosso público quer é sambas e fox-trotes. Escreva uma marchinha para o Carnaval que vem, um samba ou coisa que o valha e nós editaremos a música por nossa conta.
Nestas ocasiões Amaro pensava sempre no carão severo e inflexível de Beethoven. E tinha vontade de dizer num cicio de oração: «Mestre, não faça caso, eles não sabem o que dizem...»
E assim vivia ele dentro do sonho, alheio ao mundo objectivo. Perdia aquilo a que os homens práticos chamam oportunidade. Cumpria o seu destino obscuro, de contemplativo.
Mas ia ficando para trás: sem dinheiro, sem amigos, sem glória, sem nada — na sombra: uma vida mais apagada que a do Micefufe, o gato da casa. Porque o Micefufe, enfim, se afirma: luta contra os camundongos; luta e vence-os. O Micefufe anda pelos telhados nas noites de lua e ama as gatas da vizinhança.
— Se o senhor, seu Amaro, não fosse tão distraído, seria um óptimo funcionário. Tem até uma letra muito boa...
Só de pensar na opinião do contador do banco, Amaro sente um mal-estar desconfortante. Quando terminará o conflito? Conflito com a vida, com os homens que andam pela vida a se magoarem uns aos outros, a disputar lugares aos encontrões e cotoveladas? Cada dia que passa é uma tortura que se repete. O expediente do banco, o tá-tá-tá das máquinas de escrever, os cavalheiros que discutem juros de mora, taxas, câmbios; contínuos que passam com pastas gordas de papéis cheios de algarismos; e homens inclinados sobre as carteiras, escrevendo, registando, calculando... E a fúria de uns para conseguirem juros mais vantajosos, e o desespero de outros por não poderem pagar os títulos vencidos, e as ameaças de protesto, e mais juros, e mais cálculos, e números, números, números, afogando, esterilizando, complicando, matando.
Só de pensar naquelas coisas Amaro sente arrepios.

Li anteriormente:
Olhai os Lírios do Campo (1938)
O Tempo e o Vento, vol. III – O Arquipélago (1962)
O Tempo e o Vento, vol. II – O Retrato (1951)

3 de xullo de 2016

O Avatar

Poul Anderson
O Avatar (1978)

De Poul Anderson, um autor estado-unidense com inúmeros títulos publicados e razoavelmente conhecido nos meios FC, já tinha lido meia dúzia de livros – o último dos quais há mais de 20 anos. Desses seis livros, apenas um não tinha sido editado nos anos 50 e, ao decidir ler O Avatar, sabia que corria um certo risco: em 1978 a Era Dourada da FC tinha ficado muito para trás, e as críticas ao livro eram globalmente desfavoráveis, tanto ao nível do argumento como da extensão do texto. Foi por isso com baixas expectativas que me dediquei à leitura desta obra.
O argumento parte de uma ideia recorrente na literatura deste género: o ser humano encontra uma máquina alienígena que lhe permite fazer viagens interplanetárias, mesmo sem entender o seu princípio de funcionamento. Neste caso particular, inspirado por alguma especulação científica da época acerca da utilização do força gravitacional como forma de dominar o espaço-tempo, conforme se explica no prefácio.
A história inicia-se num ponto em que o ser humano coloniza já um segundo planeta, Deméter, após ter encontrado uma máquina T no Sistema Solar. Essa máquina T, encontrada numa órbita estável, com uma mensagem de boas-vindas, permite o acesso a Deméter no Sistema de Febo, uma espécie de «oferta» dos Outros, nome que designa os seus desconhecidos construtores. E embora o método de acesso a Deméter e o regresso à Terra tenha sido revelado, todas as outras tentativas humanas na procura de outros destinos, com sondas enviadas pelas máquinas T, fracassaram.
A trama complica-se no momento em que uma nave de exploração, guiada por uma nave alienígena, consegue fazer o percurso de ida e volta ao Sistema de Febo, depois de conseguir o contacto e a ajuda desses alienígenas: os betanos – também simples utilizadores das máquinas T, embora um pouco mais evoluídos tecnologicamente do que os humanos. Uma facção política da Terra (e Deméter) na posse dessa informação, esforça-se por mantê-la secreta a todo o custo, por considerar que a descoberta iria desviar os recursos da humanidade e dispersá-los na exploração espacial.
É aqui que entra em acção Dan Brodersen, que com uma pequena nave e uma tripulação composta de alguns fiéis e de elementos resgatados à nave de exploração já mencionada, decide arriscar tudo para divulgar a verdade que os políticos desejam ocultar. Afrontando forças poderosas, decide fugir num rumo desconhecido, através da máquina T, o que dá origem a um périplo por uma série de mundos, na procura dos Outros, e da própria sobrevivência.
O Avatar é, de facto, desnecessariamente extenso; alguns capítulos poderiam ter sido cortados sem se perder nada de essencial. Com metade das páginas, e despojado de uma certa pseudo-espiritualidade que o autor nos tenta impingir, O Avatar podia ter sido bem mais interessante.

Trevas, nada. Negrura e absoluto. Aquela gente lamentava-se numa espécie de terror.
As balizas em torno da máquina T não eram candeias — vermelha, violeta, esmeralda, âmbar — acesas na maldita escuridão. Brilhavam perdidas e débeis, como se de um momento para o outro se pudessem apagar. Depois ao longe, no meio de luzes mais frouxas que mal se viam, os olhos descobriam um simples ponto de luz.
— Acalma-te — ordenava uma parte de Joelle que ela destacava de si mesmo para isso. — Não corremos perigo imediato. Vou investigar.
Reunificou a sua mente. Com os órgãos da nave e com os seus próprios sentidos começou a desbravar o desconhecido.
O radar trouxe-lhe a imagem daquele cilindro a girar. Era o maior que até aí haviam encontrado. Na ausência de gravidade, Joelle sentia, apesar de tudo, aquela massa e a energia que ela continha. Os meios ópticos e a rádio, vastamente ampliados, mostravam-lhe estrelas espalhadas em pequeno número e por largas distâncias, como brasas já a cobrirem-se de cinzas, a caminharem para a extinção. Em torno do casco era quase o vácuo total. Toda a radiação e todas as partículas materiais que ela conhecia tinham desaparecido quase por completo, deixando uma cavidade a que não fazia sentido chamar vazia ou fria. Joelle procurou e encontrou galáxias próximas, tão calcinadas como esta. As suas formas eram caóticas. Joelle tentou encontrar agrupamentos completos delas, e teria possibilidade de vislumbrar algumas das mais próximas, tais como as do grupo da Virgo, pelos derradeiros fotões que houvessem irradiado; mas não conseguiu. Haviam desaparecido demasiado rapidamente.
A atenção de Joelle voltou-se de novo para o que mais próximo a rodeava. Os instrumentos haviam acumulado dados suficientes para ela deduzir que a máquina girava em órbita em torno de um sol completamente extinto. Semelhante ao Sistema Solar, ele nunca tinha explodido, por ser demasiado pequeno, mas passou pelas fases de gigante vermelho e por outras fases variáveis, contraiu-se até ficar um globo do tamanho de um planeta de densidade máxima, onde os átomos podiam ainda continuar a ser átomos, e arrefecer lentamente, de calor branco para uma massa de escórias. Ficaram alguns verdadeiros planetas, rochas nuas ou cobertos pelas suas próprias atmosferas geladas.
Salvo um...
Joelle lembrou-se de que tinha de descer das alturas para dizer à sua gente aquilo que havia sido revelado dentro dela.
— Estamos no futuro remoto... Espacialmente, de novo no interior da galáxia, mas no tempo qualquer coisa entre setenta e cem biliões de anos depois de termos nascido. Não restam mais estrelas vivas a não ser as mais pálidas (bem-aventurados os simples porque deles é o reino dos céus) e estão agora a morrer, enquanto a própria galáxia se está a desintegrar. O universo expandiu-se e atingiu quatro ou cinco vezes as dimensões que tinha nos nossos dias. Se avançarmos muito ainda, julgo que saberemos se ele realmente se continuará a expandir para todo o sempre ou se, no fim de contas, é verdadeira a velha ideia de que acabará por implodir, retraindo-se para o interior de si mesmo e transformando-se em nova bola de fogo e em novo cosmos.

Li anteriormente:
Essas Estrelas São Nossas (1959)
A Hora da Inteligência (1954)
Espião Interestelar (1966)

9 de xuño de 2016

El Informe de Brodie

Jorge Luis Borges
El Informe de Brodie (1970)

El Informe de Brodie (conhecido em português sob o título O Relatório de Brodie) reúne onze curtos contos, em que o último dá o nome ao livro. Sem os enigmas e os labirintos que caracterizavam as suas recolhas anteriores, o próprio Borges escreve no prefácio que estes contos são «directos», sem se atrever a afirmar que são «simples» (pois não existirá, na sua opinião, uma única palavra no universo que o seja). Toma como modelo Rudyard Kipling e os seus contos de Plain Tales from the Hills, entre os quais considera existir «não poucas [...] lacónicas obras-primas». Caracterizados por um enquadramento de violência mais ou menos explícita, o trecho que escolhi pertence a «Historia de Rosendo Juárez», uma espécie de continuação de «Hombre de la Esquina Rosada» da Historia Universal de la Infamia.

En el almacén, una noche me empezó a buscar un mozo Garmendia. Yo me hice el sordo, pero el otro, que estaba tomado, insistió. Salimos; ya desde la vereda, medio abrió la puerta del almacén y dijo a la gente:
—Pierdan cuidado, que ya vuelvo enseguida.
Yo me había agenciado un cuchillo; tomamos para el lado del Arroyo, despacio, vigilándonos. Me llevaba unos años; había visteado muchas veces conmigo y yo sentí que iba a achurarme. Yo iba por la derecha del callejón y él iba por la izquierda. Tropezó contra unos cascotes. Fue tropezar Garmendia y fue venírmele yo encima, casi sin haberlo pensado. Le abrí la cara de un puntazo, nos trabamos, hubo un momento en el que pudo pasar cualquier cosa y al final le di una puñalada, que fue la última. Sólo después sentí que él también me había herido, unas raspaduras. Esa noche aprendí que no es difícil matar a un hombre o que lo maten a uno. El arroyo estaba muy bajo; para ir ganando tiempo, al finado medio lo disimulé atrás de un horno de ladrillos. De puro atolondrado le refalé el anillo que él sabía llevar con un zarzo. Me lo puse, me acomodé el chambergo y volví al almacén. Entré sin apuro y les dije:
—Parece que el que ha vuelto soy yo.
Pedí una caña y es verdad que la precisaba. Fue entonces que alguien me avisó de la mancha de sangre.

Li anteriormente:
Ficciones (1944/1956)
El Aleph (1949/1952)
Historia Universal de la Infamia (1935/1974)

6 de xuño de 2016

A Sonda do Tempo


Arthur C. Clarke / vários autores
A Sonda do Tempo (1966)

Uma antologia de contos de vários autores de FC, organizada por um dos nomes sonantes do género, não é um acontecimento raro; já tive oportunidade de ler obras neste formato, editadas ou organizadas por Isaac Asimov ou Bruce Sterling. A Sonda do Tempo (Time Probe no título original) compõe-se de 11 contos que incluem o Take A Deep Breath (ou Respire Fundo), do próprio Arthur C. Clarke, que eu já conhecia da sua colectânea O Outro Lado do Céu. Os outros autores incluídos são Isaac Asimov, Robert A. Heinlein, Julian Huxley (irmão de Aldous Huxley), Cyril M. Kornbluth, Philip Latham, Murray Leinster, James H. Schmitz, Robert Silverberg, Theodore L. Thomas e Jack Vance. Os contos datam entre 1927 e 1962, e Arthur C. Clarke fez a sua selecção de modo que cada um deles ilustrasse um aspecto particular da ciência ou tecnologia – matemática, arqueologia, medicina, biologia, etc.
É difícil – para não dizer injusto – destacar qualquer dos contos; mas, para o excerto abaixo citado escolhi o primeiro, de Robert A. Heilein, intitulado ... E Ele Construiu Uma Casa Torta, que tem por tema uma casa tetradimensional, por aplicação da geometria não euclidiana, concebida por um arquitecto chamado Quintus Teal que, após uma conversa com um amigo, bem regada de conhaque, o convence a financiá-la. Depois de considerarem as dificuldades burocráticas, decidem-se por um desdobramento tridimensional dessa forma geométrica (da mesma forma que a cruz latina é um desdobramento bidimensional de um cubo). Uma vez construído o edifício, e na consequência de um pequeno incidente, o arquitecto, o amigo e a mulher deste, na visita inaugural, vêem-se aprisionados numa casa de geometria inesperada onde, por exemplo, se se caminhar sempre no mesmo sentido volta-se ao ponto de partida, ou ao espreitar por uma janela nunca se vê o que seria de esperar (e, a partir daqui. as coisas só tendem a piorar...)

Do ponto de vista dos Baileys ele simplesmente desapareceu.
Mas não do seu. Levou alguns segundos para recuperar o fôlego. Então, cautelosamente, soltou-se da roseira com a qual ficara quase que irrevocavelmente entrelaçado, tomando mentalmente nota de nunca mais encomendar ajardinamento que incluísse plantas com espinhos, e olhou em volta.
Estava do lado de fora da casa. O volume compacto da sala do andar térreo elevava-se ao seu lado. Aparentemente, caíra do telhado.
Dobrou a esquina da casa correndo, abriu a porta da frente, com violência, e subiu correndo as escadas. — Homer! — chamou. — Sra. Bailey! Encontrei uma saída!
Bailey pareceu mais aborrecido do que contente em vê-lo. — O que foi que aconteceu com você?
— Caí para fora. Estive do lado de fora da casa. Vocês podem fazer isso com a mesma facilidade — apenas atravessem essas portas-janelas. Cuidado com a roseira, talvez tenhamos que construir outra escada.
— Como foi que voltou a entrar?
— Pela porta da frente.
— Então sairemos da mesma maneira. Venha, querida. — Bailey enfiou, resolutamente, o chapéu na cabeça e desceu as escadas com passo firme, a esposa agarrada ao seu braço.
Teal encontrou-os na saleta. — Eu podia ter-lhes dito que isso não funcionaria — observou. — Agora, eis o que devemos fazer: do modo como vejo as coisas, numa figura quadridimensional, um homem tridimensional tem duas escolhas cada vez que cruza uma linha de junção, como uma parede ou um limiar. Comumente, ele fará uma volta de noventa graus na quarta dimensão, só que não sentirá isso nas suas três dimensões. Olhem. — Teal atravessou a mesma janela pela qual caíra há poucos momentos. Atravessou-a e chegou à sala de jantar, bem onde estava, ainda falando.
— Observei onde ia e cheguei onde tencionava. — Voltou para a saleta. — Da outra vez não prestei atenção, desloquei-me através do espaço normal e caí para fora da casa. Deve ser um caso de orientação subconsciente.
— Detestaria ter de depender de orientação subconsciente quando saio de manhã para apanhar o jornal.
— Você não terá de fazê-lo; tornar-se-á automático. Bem, para sair da casa, desta vez — Sra. Bailey, se a senhora ficar de pé aqui, com as costas para a janela e pular para trás, tenho absoluta certeza de que a senhora aterrissará no jardim.
O rosto da Sra. Bailey expressava sua opinião sobre Teal e suas idéias. — Homer Bailey — disse ela com voz esganiçada, —, você vai ficar parado aí e deixar que ele sugira uma coisa des...
— Mas, Sra. Bailey — tentou explicar Teal —, podemos amarrar uma corda na senhora e baixá-la fácil.
— Esqueça, Teal — interrompeu Bailey, bruscamente. — Vamos ter de encontrar coisa melhor do que essa. Nem a Sra. Bailey nem eu estamos em condições de pular.

1 de xuño de 2016

Sumisión


Michel Houellebecq
Sumisión (2015)

Confesso que nunca tinha ouvido falar de Michel Houellebecq antes da publicação de Submissão, e da polémica que levantou. Pensei, erradamente, que se tratava de uma obra de estreia; afinal Houellebecq já publicava há mais de vinte anos e contava um punhado de prémios literários.
A novela decorre em 2022, no contexto das eleições presidenciais francesas, onde um candidato islâmico “moderado”, líder da Irmandade Muçulmana, apoiado por uma “frente republicana” que inclui socialistas, sociais-democratas e liberais, derrota tangencialmente a candidata da Frente Nacional. No centro da narrativa está François, um professor universitário de literatura (e fala-se bastante sobre literatura e filosofia), despolitizado e desenraizado – com uma preferência especial pela obra de Joris-Karl Huysmans, sobre o qual fez a sua tese – que vê o seu pequeno mundo desabar aos pedaços.
Sumisión (Soumission no original – optei pela tradução em espanhol) é um livro em tom crepuscular, que antecipa uma França à beira do abismo islâmico, tentando alinhar algumas pistas que possam responder à pergunta «como foi possível chegarmos a isto?» E temos, assim, em primeiro lugar, a nossa própria responsabilidade, quando nos deixamos enredar nos vários cantos de sereia destinados a levar a nossa sociedade ao suicídio; depois, a cegueira (para não dizer mais) dos actuais dirigentes políticos, extrapolados para este futuro próximo; o falhanço da democracia, no cada vez maior afastamento entre as opções da classe política e o sentir da sua base de apoio; a manipulação e o boicote noticioso das grandes cadeias de informação levados às últimas consequências (já em marcha actualmente: é raro o noticiário onde não se veja um barco de “refugiados”, mas nada se conta sobre as violações, assassínios e outra criminalidade violenta praticada diariamente por esses “migrantes” em território europeu). Por fim, a submissão pacífica à sharia, tanto por parte da esquerda, paralisada nas suas próprias contradições, como pela direita conservadora e pragmática que, no fundo, não se sente demasiado afectada com as novas leis...

—Es curioso —dijo finalmente Lempereur—, cómo nos mantenemos apegados a los autores a los que nos dedicamos al principio de nuestra vida. Podría parecer que al cabo de uno o dos siglos, las pasiones se extinguen y como universitarios accedemos a una especie de objetividad literaria, etcétera. Pues para nada. Huysmans, Zola, Barbey, Bloy, todas esas personas se conocieron, tuvieron relaciones de amistad o de odio, se aliaron, se enfadaron, la historia de sus relaciones es la de la literatura francesa; y nosotros, a más de un siglo de distancia, reproducimos esas mismas relaciones, mantenemos nuestra fidelidad al que fue nuestro campeón, seguimos dispuestos a amarnos, enfadarnos y pelear por él a golpe de artículo.
—Lleva razón, pero eso es bueno y prueba por lo menos que la literatura es un asunto serio.
—Nadie se enfadó nunca con el pobre Nerval... — intervino Alice, pero Lempereur ni siquiera la oyó, creo, seguía mirándome con intensidad, ensimismado en su discurso.
—Usted siempre ha sido una persona muy seria —prosiguió—, he leído todos sus artículos en el Journal. No es ése mi caso. Estaba fascinado por Bloy cuando tenía veinte años, fascinado por su intransigencia, su violencia, su virtuosismo en el desprecio y en el insulto; pero era también, y mucho, un fenómeno de moda. Bloy era el arma absoluta contra el siglo XX con su mediocridad, su idiotez militante, su humanitarismo repelente; contra Sartre, contra Camus, contra todos los payasos del compromiso; también contra todos los formalistas nauseabundos, el nouveau roman y todas esas absurdidades sin consecuencia. Bueno, ahora tengo veinticinco años y siguen sin gustarme Sartre, ni Camus, ni nada que se parezca al nouveau roman; pero el virtuosismo de Bloy se me ha vuelto pesado, y tengo que reconocer que la dimensión espiritual y sagrada en la que se regodea ya no me evoca casi nada. Ahora me gusta más releer a Maupassant o a Flaubert, o incluso a Zola, por lo menos algunas páginas. Y también, por supuesto, al muy curioso Huysmans...

24 de maio de 2016

Estrella Distante


Roberto Bolaño
Estrella Distante (1996)

Em tom quase documental, Estrella Distante dá um curso acelerado de poesia chilena recente, entrecruzado com a inventariação de bibliografias imaginárias, tão ao gosto de Jorge Luis Borges, tendo por fundo o contexto histórico do Chile entre as décadas de 70 e 90. Bibiano O'Ryan e o narrador, amigos e ambos com ambições poéticas, movem-se por oficinas universitárias de poesia, bruscamente interrompidas pelo golpe de 1973. Depois, o livro segue o trajecto de algumas personagens que as frequentavam; mais pormenorizadamente os directores dos dois grupos principais, Juan Stein e Diego Soto, e, sobretudo, o misterioso e esquivo Carlos Wieder, um dos frequentadores desses grupos, aviador militar e autor de “poesia aérea”, ou seja, poesia escrita nos céus com o rasto do seu pequeno avião. Estrella Distante é baseado no último capítulo da novela anterior de Bolaño, La Literatura Nazi en América, ampliado para o personagem principal, Wieder, um torcionário da ditadura que desaparece com o fim do regime, mas em cujo rasto segue a inevitável vingança, para que fique bem claro que o homem era um criminoso e não um artista.

Tras el estruendo inicial de pronto todos se callaron. Parecía como si una corriente de alto voltaje hubiera atravesado la casa dejándonos demudados, dice Muñoz Cano en uno de los pocos momentos de lucidez de su libro. Nos mirábamos y nos reconocíamos, pero en realidad era como si no nos reconociéramos, parecíamos diferentes, parecíamos iguales, odiábamos nuestros rostros, nuestros gestos eran los propios de los sonámbulos o de los idiotas. Mientras algunos se iban sin despedirse una extraña sensación de fraternidad quedó flotando en el piso entre los que optaron por quedarse. Como nota curiosa Muñoz Cano añade que en aquel momento particularmente delicado el teléfono comenzó a sonar. Ante la pasividad del dueño de la casa fue él quien contestó la llamada. Una voz de viejo preguntó por un tal Lucho Álvarez. ¿Aló?, ¿aló?, ¿está Lucho Álvarez, por favor? Muñoz Cano, sin contestar, le pasó el fono al dueño de la casa. ¿Alguien conoce a un Lucho Álvarez?, preguntó éste tras un intervalo excesivamente largo. El viejo, dedujo Muñoz Cano, probablemente hablaba de otras cosas, hacía otras preguntas acaso relacionadas con Lucho Álvarez. Nadie lo conocía. Algunos se rieron; fueron risas nerviosas que sonaron irrazonablemente altas. Aquí no vive esa persona, dijo el dueño de la casa después de escuchar otro rato en silencio y colgó.
En el cuarto de las fotos ya no había nadie, excepto Wieder y el capitán, y en el departamento, según Muñoz Cano, no quedaban más de ocho personas, entre ellas el padre de Wieder que no parecía particularmente afectado (su actitud era la de estar participando —acaso involuntariamente— en una fiesta de cadetes que por una razón que se le escapaba o que no le incumbía se había malogrado). El dueño de la casa, al que conocía desde que era un adolescente, procuraba no mirarlo. Los demás supervivientes de la fiesta hablaban o cuchicheaban entre sí pero callaban cuando se acercaba. Silencio incómodo que el padre de Wieder intentó soslayar ofreciendo tragos, bebidas calientes y sandwiches que preparaba en la cocina, solo y sereno. No se preocupe, don José, dijo uno de los oficiales mirando el suelo. No estoy preocupado, Javierito, dijo el padre de Wieder. Esto en la carrera de Carlos, dijo otro, no es más que un bache sin importancia. El padre de Wieder lo miró como si no comprendiera de qué hablaba. Era benévolo con nosotros, recuerda Muñoz Cano, estaba en el borde del abismo y no lo sabía o no le importaba o lo disimulaba con una rara perfección.

Li anteriormente:
Putas Asesinas (2001)

7 de maio de 2016

Angústia Para o Jantar


Luís de Sttau Monteiro
Angústia Para o Jantar (1961)

Luís Sttau Monteiro afirmou-se sobretudo como dramaturgo, a partir de Felizmente há Luar!, peça que tem no seu currículo a dúbia honra de ter sido proibida pela censura. Angústia Para o Jantar, datada do ano anterior e segunda novela, após Um Homem Não Chora (1960), denota na sua forma uma aproximação à escrita para teatro, dominada pelos diálogos curtos e pelo monólogo interior. Adaptada para série televisiva em 1975 com leve aura de escândalo, talvez, imagino – eu era demasiado novo para me deixarem ver “estas coisas” –, por uma linguagem um tanto crua e cínica na descrição das luzes e sombras de uma certa alta burguesia lisboeta de meados do século XX, sociedade que o autor devia conhecer bem, já que ele próprio era descendente de nobres e de altos funcionários do Estado.
Angústia Para o Jantar, encena (é a palavra certa) o contraste entre Gonçalo, um próspero industrial, e António, um funcionário humilde e falhado, antigos condiscípulos que há 30 anos se encontram num jantar mensal, que é, para ambos, um fardo do qual não querem ou não sabem como se libertar. Pelo meio, surge Alexandra, amante do primeiro, que acaba por ter um encontro fortuito com o segundo. Entretanto, a teorização sobre as “pegas”, meticulosamente feita em parte de alguns capítulos, ou as “regras dos jogos que não levam a nada”, estão entre os trechos mais interessantes de um livro cujo maior defeito será, talvez, a brevidade.

O jogador senta-se à mesa sozinho e dá as cartas. Tantas para si, tantas para o ser imaginário com quem vai jogar. Primeiramente pega nas suas. Estuda-se, escolhe uma e dá início ao jogo. Cabe agora a vez ao parceiro imaginário. O jogador pousa as suas próprias cartas e pega nas outras. Para que o jogo exista, é forçado a jogar pelo parceiro como se não conhecesse o seu próprio jogo e a ripostar como se não tivesse o jogo do parceiro. Primeira jogada, segunda jogada, terceira jogada.
Cada vez se torna mais difícil distinguir entre a cartada imposta pelo jogo que está na mesa e a cartada que deriva do conhecimento do jogo alheio. O jogador quer ganhar sem habilidades. Está na sua natureza detestar o caminho mais fácil. Está na sua natureza respeitar o outro jogador. Está na sua natureza respeitá-lo e destruí-lo assim que lhe for possível fazê-lo. Sabe que o adversário lhe pagará na mesma moeda. Presta-lhe essa homenagem. É a única homenagem que o jogador sabe prestar e que deseja receber. Quarta jogada, quinta jogada, sexta jogada. Quando joga sozinho, o jogador assume a posição do seu adversário e não se poupa. Antes pelo contrário: para conservar o respeito que tem por si próprio é ainda mais inteligente e mais prudente ao jogar com as cartas do outro. O resultado está duvidoso. Tanto o jogador como o ser imaginário que ele representa estão a jogar com técnica e prudência. Ao jogar pelo outro, o jogador não toma um só risco que não tomaria ao jogar com as suas próprias cartas. Um deles vai perder. O jogador sabe que o resultado pode ser definitivo. Sétima jogada, oitava jogada, nona jogada. É a última cartada. Como está a jogar sozinho, o jogador pode evitar a derrota, interrompendo o jogo. Pode e não pode. Se o fizesse não seria jogador. Não admite sequer tal hipótese. Uma vez dadas as cartas, o jogo seguirá até que um seja vencido. Ou eu ou ele. O jogador sente que se aproxima a última cartada. Não pode voltar atrás. Não o desejaria fazer. Respeita-se e respeita o adversário. Quando um homem se mede, mede-se até ao fim. Quando um homem é capaz de se medir até ao fim, confere ao seu semelhante o direito de fazer o mesmo. A única cartada é a hora da verdade. Quem vencerá. Talvez o adversário. O jogador admite-o sem rancor. Admite-o mesmo com certa ternura, a ternura que une os homens que andaram na mesma guerra. O jogador concentra-se. Joga.

30 de abril de 2016

A Ilustre Casa de Ramires

Eça de Queiroz
A Ilustre Casa de Ramires (1900)

O meu primeiro contacto com Eça de Queiroz foi através d'Os Maias, leitura obrigatória na disciplina de Português quando fiz o então 11.º Ano. A forma como o ensino me foi ministrado fez-me ganhar uma profunda aversão a essa obra, — tal como tinha ficado “vacinado” contra outros autores portugueses que faziam parte do currículo escolar — de tal forma que, durante muito tempo, não dei uma oportunidade à literatura nacional (e então eu conseguia ler muito mais do que hoje). Voltei a Eça de Queiroz uma dúzia de anos depois dos fatídicos Maias, com A Cidade e as Serras, e depois fui lendo outras obras, sempre com um prazer crescente. E ainda hei-de reler Os Maias...
Este livro, o último publicado em vida do autor (em rigor, começou a ser publicado em fascículos na «Revista Moderna» em 1897, e só em 1900 foi publicado em livro, sem que Eça de Queiroz tenha terminado a totalidade da revisão), conta a história de Gonçalo Mendes Ramires, último representante de uma casa fidalga que «descende dos reis de Leão».
Gonçalo, findos os estudos em Coimbra, vê-se encerrado numa vida sem perspectivas entre Vila-Clara e Oliveira, dedicando-se à escrita de uma novela histórica, incentivado por um amigo e ex-condiscípulo que deseja renovar o panorama literário nacional com o lançamento de uma nova revista. Pelo meio atravessa-se a vontade de entrar na política e surge a hipótese de ser eleito deputado às Cortes, o que lhe vai custar alguns dissabores e cedências incómodas. Nestas peripécias de província, saborosamente descritas por Eça, vai Gonçalo abrindo o seu caminho para, num momento de triunfo final, ao fazer um balanço, chegar à conclusão que tudo não passou de uma amarga futilidade.

Despido, soprada a vela, depois de um rápido sinal-da-cruz, o Fidalgo da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de sombras, começou para ele uma noite revolta e pavorosa. André Cavaleiro e João Gouveia romperam pela parede, revestidos de cotas de malha, montados em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho mau, arremessavam contra o seu pobre estômago pontoadas de lança, que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau-preto. Depois era, na Calçadinha de Vila-Clara, o medonho Ramires morto, com a ossada a ranger dentro da armadura, e el-rei D. Afonso II, arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para a batalha das Navas. Ele resistia, fincado nas lajes, gritando pela Rosa, por Gracinha, pelo «Titó»! Mas D. Afonso tão rijo murro lhe despedia aos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a hospedaria do Gago até à Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de pendões e de armas. E imediatamente seu primo de Espanha, Gomes Ramires, Mestre de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os derradeiros cabelos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os choros da tia Louredo trazida como um andor aos ombros de quatro reis!... Por fim, moído, sem sossego, já com a madrugada clareando nas fendas das janelas e as andorinhas piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um derradeiro repelão aos lençóis, saltou ao soalho, abriu a vidraça — e respirou deliciosamente o silêncio, a frescura, a verdura, o repouso da quinta. Mas que sede! Uma sede desesperada que lhe encortiçava os lábios! Recordou então o famoso fruit salt que lhe recomendara o dr. Matos, arrebatou o frasco, correu à sala de jantar, em camisa. E, a arquejar, deitou duas fartas colheradas num copo de água da Bica Velha, que esvaziou de um trago, na fervura picante.
— Ah! que consolo, que rico consolo!...


Li anteriormente:
O Mandarim (1880)
O Primo Basílio (1878)
A Relíquia (1887)

28 de marzo de 2016

El Enredo de la Bolsa y la Vida

Eduardo Mendoza
El Enredo de la Bolsa y la Vida (2012)

Onze anos depois da última aventura, reencontramos o detective anónimo numa esgrouviada história de terrorismo internacional que tem por fundo Barcelona agora uma cidade assolada pela crise, onde as lojas chinesas proliferam. O protagonista continua com o seu cada vez mais decrépito salão de cabeleireiro, e assiste-se a uma renovação das personagens secundárias (à excepção da sua irmã Cándida) onde se destacam a subinspectora Victoria Arrozales, cujos tiques fazem lembrar o antigo comissário Flores, e Quesito, uma miúda de onze anos que o vai ajudar nas investigações e motivar algumas surpresas.
No centro de um projectado atentado, que o protagonista vai deslindar, tentando simultaneamente não delatar o presumível envolvimento de um velho amigo, Rómulo el Guapo, está imagine-se! Angela Merkel, que vem à cidade para participar num encontro de economistas e empresários. Quando o caminho dela se cruza com o nosso herói, Merkel confunde-o com Manolito, um amor de verão de há muitos anos em Lloret del Mar, acabando por se despedir com a seguinte tirada: «Já não somos jovens, Manolito. Estou casada, sou chanceler da República Federal e hei-de solucionar a crise do euro»... Já em 2012 Eduardo Mendoza tinha percebido que Angela Merkel era um cromo ao nível de Pollo Morgan, de Juli, ou da Moski, entre os que compõem a galeria de personagens desta história satírica, cujo final aberto dava a entender que se publicaria um novo livro na série...

Me levanté con grandes dificultades, primero porque se me habían entumecido músculos y articulaciones y segundo porque la resina que rezumaba el maldito pino había pegado con fuerza la ropa al tronco y yo no estaba dispuesto a regalarle mi único traje a un árbol. Conseguí despegarme a delicados tirones, pero la parte trasera del traje se quedó de lo más adhesiva, de resultas de lo cual llegué al hotel arrastrando una cola de papeles, hojas secas, mariposas y otros artículos volátiles. Aun así, atravesé la verja sin ser detenido ni especialmente observado, rodeé el edificio por el lado contrario a la piscina y me refugié en una espesa pineda, procurando evitar el contacto con los perversos congéneres del que me había fastidiado el ajuar.
Era un lugar umbrío, reseco y solitario. No entendí cuál podía ser la utilidad de aquel paraje, salvo que el peligro de un incendio forestal constituyera uno de los alicientes del hotel. A la espera de esta eventualidad, la pineda no ofrecía otro pasatiempo que la contemplación de muchas y muy grandes telarañas, ni otra ventaja que su aislamiento.
Esperé un rato. Llegaban voces de niños procedentes de la piscina y de adultos procedentes del comedor y el bar al aire libre. También me llegaba un hipnótico olor a carne a la brasa. Era admirable ver cómo aquellos potentados, tan duramente golpeados por la crisis financiera como acababa de saber leyendo un trozo de periódico, seguían manteniendo la apariencia de derroche y jolgorio con el único fin de no sembrar el desaliento en los mercados bursátiles. Apartando ramas, tallos, vástagos y bejucos, obtuve una visión oblicua y parcial pero amparada de un sector de la piscina. Mujeres juncales y bronceadas se asolaban o deambulaban con elegante insolencia en ceñidos bañadores y grandes gafas de sol. Todas hablaban animadamente a sus respectivos móviles. Observándolas sin ser visto y recreándome en la parte de su anatomía que más me interesaba (el peinado), perdí la noción del tiempo, la percepción del lugar y la conciencia de hallarme en una situación incierta, por no decir peligrosa, y de resultas de lo cual no me percaté de la presencia de un hombre a mis espaldas hasta que su voz dijo:
—¡Arriba las manos!

Li anteriormente:
La Aventura del Tocador de Señoras (2001)
El Laberinto de las Aceitunas (1982)
El Misterio de la Cripta Embrujada (1979)

17 de marzo de 2016

El Sueño de los Héroes


Adolfo Bioy Casares
El Sueño de los Héroes (1954)

Depois de La Invención de Morel, esta é a minha segunda incursão na obra de Bioy Casares.
Trata-se da história de Emilio Gauna, que ganha uma boa maquia nas corridas de cavalos, e decide esbanjar o dinheiro numa farra de três dias de Carnaval. Acompanham-no o seu grupo de jovens amigos, tutelado pelo doutor Valerga, um homem de idade com grande influência sobre eles e, a contragosto, o barbeiro que havia dado a dica para a aposta. Turvado pela embriaguez, na madrugada da terceira noite, Gauna perde o conhecimento e a memória, até despertar no meio de um bosque, levado depois para uma casa de embarcadouro, na margem de um lago, onde é cuidado até recuperar a sobriedade.
Gauna conhece depois Clara, filha do bruxo Taboada, com quem vai desenvolver um lento processo de aproximação que o levará ao casamento. Mas os factos ocorridos na já distante terceira noite de Carnaval tornam-se uma crescente obsessão, uma nostalgia difusa que Gauna quer recuperar. Até que num outro Carnaval, três anos volvidos e a lentidão da narração, até chegar a este ponto, torna-se por vezes exasperante —, Gauna volta a ganhar bom dinheiro, em corridas de cavalos, devido à dica de outro barbeiro. Interpretando isto como um sinal do destino, decide escapar a Clara e reunir novamente o velho grupo de amigos para uma segunda farra de três dias, regressando aos mesmos locais e fazendo o mesmo percurso, na esperança de invocar magicamente o tempo passado e reaver as suas memórias...

El último en entrar fue Gauna. Serafín Taboada le ofreció una mano muy limpia y muy seca. Era un hombre delgado, bajo, de profusa cabellera, de frente alta, huesuda, de ojos hundidos, de prominente nariz rojiza. En el cuarto había muchos libros, un armonio, una mesa, dos sillas; sobre la mesa, un incontenible desorden de libros y de papeles, un cenicero con muchas colillas, una piedra gris que servía de pisapapel. Dos láminas —las efigies de Spencer y de Confucio— colgaban de las paredes. Taboada indicó a Gauna que se sentara; le ofreció un cigarrillo (que no aceptó Gauna) y, después de encender uno, preguntó:
— ¿En qué puedo servirlo?
Gauna pensó un momento. Después respondió:
— En nada. Vine por acompañar a los muchachos.
Taboada arrojó el cigarrillo que había prendido y encendió otro.
— Lo siento —dijo, como si fuera a levantarse y poner fin a la entrevista; siguió sentado y, enigmáticamente, continuó—: Lo siento, porque tenía qué decirle algo. Será otra vez.
— Quién sabe.
— No hay que desesperar. El futuro es un mundo en el que hay de todo.
— ¿Como en la tienda de la esquina? —comentó Gauna—. Es lo que reza en la propaganda, pero, créame, cuando usted pide algo, le contestan que ya no hay más.
Gauna pensó que Taboada era tal vez más hablador que astuto o inteligente. Taboada continuó:
— En el futuro corre, como un río, nuestro destino, según lo dibujamos aquí abajo. En el futuro está todo, porque todo es posible. Allí usted murió la semana pasada y allí está viviendo para siempre. Allí usted se ha convertido en un hombre razonable y también se ha convertido en Valerga.
— No permito que se mofe del doctor.
— No me mofo —contestó brevemente Taboada—, pero quisiera preguntarle algo, si no lo toma a mal: ¿doctor en qué?
— Usted lo sabrá —replicó en el acto Gauna— ya que es brujo.
Taboada sonrió.
— Está bien, muchacho —dijo; luego prosiguió explicando—: si en el futuro no encontramos lo que buscamos, será porque no sabemos buscar. Siempre podemos esperar cualquier cosa.
— Yo no espero mucho —declaró Gauna—. No creo, tampoco, en brujerías.
— Tal vez tenga razón —repuso con tristeza Taboada—. Pero habría que saber lo que usted llama brujería. Le pongo por caso la transmisión del pensamiento. No hay gran mérito, le aseguro, en averiguar lo que piensa un joven enojado y asustadizo.

Li anteriormente:
La Invención de Morel (1940)

28 de febreiro de 2016

Textos Nacional-Sindicalistas


Francisco Rolão Preto
Textos Nacional-Sindicalistas (2014)

Rolão Preto é um nome injustamente esquecido, do Portugal das décadas de 20 e 30 do século passado. Oriundo das fileiras do Integralismo Lusitano, ideólogo principal do 28 de Maio, e impulsionador do Movimento Nacional-Sindicalista, a sua visão revolucionária do Estado Novo acabou por entrar em choque com a personalidade moderada de Oliveira Salazar. Este conflito levou Rolão Preto a Espanha, onde ajudou José António Primo de Rivera a estabelecer a Falange Espanhola, fornecendo-lhe boa parte do seu ideário político e imagético. Não é por isso uma surpresa que estes «Textos Nacional-Sindicalistas» sejam compilados e editados pelas Ediciones Fides, de Tarragona.
O grosso do livro é a transcrição de uma série de artigos publicados na revista Acción Española entre 1933 e 1934, onde Rolão Preto começa por uma avaliação global da Primeira República (uma avaliação extremamente negativa, como é natural – ao contrário do que é correntemente veiculado no actual regime, onde se pretende fazer um absurdo branqueamento daquele período). Depois enuncia Os doze princípios da produção, uma síntese do programa político nacional-sindicalista, explicados pormenorizadamente ponto por ponto. Seguem-se dois artigos de 1938, publicados na revista FE. Doctrina del Estado Nacional-Sindicalista, e, por último, uma polémica com Santa Cruz, artigo e contra-artigo, mantida no jornal A Época em 1922, onde Rolão Preto faz a defesa do recém-triunfante movimento fascista italiano por oposição ao cepticismo do seu opositor, um homem do clero, ligado ao centro liberal e católico, que considerava Mussolini um fenómeno passageiro.
Uma das facetas mais interessantes do nacional-sindicalismo, na minha opinião, foi não ter desenvolvido um conceito de nacionalismo anti-castelhano/espanhol, mas, pelo contrário, ter afirmado que a aliança dos Estados peninsulares é o primeiro pilar que pode suportar um novo renascimento comum. Quem se der ao trabalho de ler o actual programa eleitoral da FE de las JONS verá que é proposta uma frente ibérica – política, económica e militar – dinamizadora de um grande bloco mundial (unindo a Hispano-América e outros países historicamente ligados a Espanha – e os PALOPs logicamente) que possa fazer frente ao imperialismo capitalista anglo-saxónico.
O excerto abaixo citado pertence a um dos artigos publicados na revista da FE, em 1938. «Lisboa, não sejas francesa» – já dizia a velha canção...

Portugal está cambiando su personalidad característica, nítida, por un modo de ser que responde a un compromiso entre su verdadero temperamento y su interpretación del modo de ser francés; día a día se siente más apartado de España, su hermana de origen.
La idiosincrasia del pueblo español rechaza, en gran parte, a aquellos portugueses que podrían sentirse en contacto con él. Los españoles son, por naturaleza, definidos, terminantes, sin asombro. Cuando odian, lo mismo que cuando aman, lo hacen por completo, perdiendo hasta la noción de sí mismos.
El término medio, no tiene posibilidad de éxito en tierra española. El término medio, es francés. Educados a la francesa, no tenemos ninguna curiosidad por la España que no entendemos, que hemos dejado de entender y que, por tanto, totalmente ignoramos.
Y han contribuido a reforzar esta actitud las determinantes históricas de una política de aislamiento portugués respecto a la península madre. Con las costas vueltas a España, miramos hacia otros horizontes, en busca de satisfacciones espirituales o de apoyo para nuestra política externa.
Nuestra ignorancia de España es, así, completa.
Mientras no se nos pasa desapercibido el último mono de las artes, de las ciencias, de las investigaciones históricas, que hayan nacido en Francia, somos totalmente ajenos a todos los aspectos de la cultura española. Esto en lo que a inspiración espiritual se refiere, que de lo tocante a inspiración de nuestra política externa, será inútil hablar.

15 de febreiro de 2016

Utopia


Thomas More
Utopia (1516)

Como já andava cansado de me cruzar com referências a esta obra, e porque muitas dessas referências me pareciam apropriações abusivas, decidi lê-la para poder ficar com uma opinião mais fundamentada. Na verdade acabei por confirmar as minhas suspeitas, e por uma margem inesperadamente larga, embora possa admitir que diferentes leitores tenderão a encontrar neste texto sentidos opostos, sobrevalorizando o que mais lhes interessa. O próprio More escreve, nos últimos parágrafos «Porque, se de um lado não posso concordar com tudo o que disse este homem, [Utopia é escrito como um diálogo] aliás incontestavelmente muito sábio e muito hábil nos negócios humanos, de outro lado confesso sem dificuldade que há entre os utopianos uma quantidade de coisas que eu aspiro ver estabelecidas em nossas cidades.»
Produto de uma Europa que começava a alagar os horizontes medievais, De Optimo Reipublicae Statu Deque Nova Insula Utopia (O Estado Ideal de uma República na Nova Ilha de Utopia) é maioritariamente o relato fantástico de Rafael Hitlodeu, um viajante português por mares distantes, que afirma ter passado cinco anos nesta ilha, uma sociedade «perfeita», da qual faz a apologia. A república de Utopia – que mais parece uma monarquia electiva, governada por um príncipe vitalício –, registava, nos seus anais, 1760 anos de história, desde a fundação até à narrativa. Uma história imutável, porque as suas bases, estabelecidas por Utopus, o fundador, foram rigorosamente seguidas desde então (nem poderia ser de outra forma, uma vez que a perfeição fora atingida). O relato, dividido em curtos capítulos explicativos dos mecanismos sociais de Utopia – a organização administrativa, a distribuição do trabalho, a guerra, a religião, etc. –, é um espelho das preocupações filosóficas da época, do humanismo nascente, e, simultaneamente um reparo às enormes injustiças cometidas pela sociedade de então. A descrição de uma sociedade justa, pela inexistência de propriedade privada ou moeda corrente, poderá ainda entusiasmar algumas almas – as apropriações que acima referi –, mas como poderão elas lidar com a existência de escravatura, com uma rigidez de costumes devedora do catolicismo medieval, ou a quase inamovível divisão das classes profissionais? Na minha opinião, este livro deve ser lido sem preconceito ideológico, e, sob esse prisma, não ficará muito distante das Viagens de Marco Polo, ou de Peregrinação. O fragmento que escolhi, provocatoriamente, pertence ao trecho «Dos Escravos».

Nem todos os prisioneiros de guerra são indistintamente entregues à escravidão; mas unicamente os indivíduos pegados de armas na mão.
Os filhos de escravos não são escravos. O escravo estrangeiro torna-se livre ao tocar na terra da Utopia.
A servidão recai particularmente sobre os cidadãos culpáveis de grandes crimes e sobre os condenados à morte pertencentes ao estrangeiro. Estes são muito numerosos na Utopia; os utopianos vão mesmo procurá-los no exterior onde os compram a vil preço; algumas vezes obtêm-nos até de graça.
Todos os escravos são submetidos a um trabalho contínuo, e trazem correntes. Os que são tratados, porém, com mais rigor, são os indígenas, que são tidos como os mais miseráveis dos celerados, dignos de servir de exemplo aos outros por uma pior degradação. Com efeito, eles receberam todos os germes da virtude; aprenderam a ser felizes e bons, e, no entanto, abraçaram o crime.
Há ainda uma outra espécie de escravos, os trabalhadores pobres das regiões vizinhas que vêm se oferecer voluntariamente para trabalhar. São em tudo tratados como cidadãos; apenas são obrigados a trabalhar um pouco mais, uma vez que têm o hábito de fadiga maior. São livres de partir quando querem e nunca são devolvidos de mãos vazias.

6 de febreiro de 2016

Derrota Mundial


Salvador Borrego
Derrota Mundial (1953)

Já não me lembro onde encontrei a referência a Salvador Borrego Escalante, jornalista e escritor mexicano, autor de dezenas de livros; terá sido possivelmente em algum dos sites de informação independente, em língua espanhola, que percorro frequentemente. É, evidentemente, um nome maldito — não tem sequer uma entrada na Wikipedia em português, nem encontrei rasto de alguma vez ter sido publicado em Portugal.
Em Derrota Mundial atreveu-se a escrever a História do ponto de vista dos vencidos, quando, toda a gente o sabe, só aos vencedores é permitido escrevê-la. Porque os factos, por si só, não são a História; a História é a «narrativa» (para utilizar uma palavra de má memória) que integra de um modo coerente esses factos, destacando uns, desvalorizando outros, ignorando os restantes — quando não os oculta deliberadamente. Quanto a este livro em particular — que já ultrapassou as 50 edições desde que foi editado pela primeira vez, em 1953, contra boicotes, ameaças ao autor, aos editores e distribuidores — oferece um vasto panorama de análise metapolítica do século decorrido entre a publicação do Manifesto Comunista e o rescaldo da II Guerra Mundial, profusamente documentado e sustentado, numa linguagem clara e acutilante. Uma surpresa, para quem procure uma «narrativa» alternativa à versão «oficial», que os poderes instituídos têm imposto com razoável sucesso. Pelo modo como as coisas seguem, um dia, talvez não muito distante, este livro há-de ser proibido.

Todo poblado y toda aldea cayó en un infierno inenarrable. Ancianos asesinados a golpes porque tenían algún hijo en las SS; civiles muertos a tiros en la nuca delante de sus familiares; civiles requisados como bestias para cargar abastecimientos o arrojados ante las líneas alemanas para que hicieran estallar minas al pisarlas. Niñas de 12 años y mujeres hasta de 70 ultrajadas públicamente y en masa; criaturas que lloraban y gritaban presas de espanto al ser obligadas a presenciar aquellas torturas de sus madres; niños arrancados de sus padres y llevados al Oriente; muchachos de diez años requisados por el Ejército Rojo; saqueos de ropa y de víveres, mujeres semidesnudas abandonadas en los caminos para morir lentamente de hemorragia y de frío.
Todo lo que se temía del Oriente, monstruosamente superado por aquel infierno... Caravanas aterrorizadas de civiles comenzaron a huir hacia retaguardia. En carros y a pie recorrían caminos llenos de nieve y a veces alcanzados por tanques soviéticos que se divertían disparando contra esos blancos inermes, para luego caer sobre las mujeres. Hubo casos en que no respetaban ni a las muertas.
En la confusión de la huida —agravada por los ataques rasantes de los aviones soviéticos—, madres que perdían a sus hijos y niños que buscaban aterrorizados a sus madres. A veces la marcha se prolongaba tanto, por los caminos nevados, que entumecidos fugitivos perdían los pies como si fueran de cristal, al quitarse las botas. Enfermos corroídos por dolores intestinales al cundir las epidemias. Soldados heridos que huían entre la población civil o que fatigados se suicidaban.
Había también caravanas de prisioneros ingleses, americanos y rusos que voluntariamente se alejaban del frente soviético. Trabajadores franceses y polacos engrosaban la huida.
Los restos de la marina alemana se dedicaron infatigablemente a evacuar civiles de Prusia Oriental, Transportaron cerca de millón y medio de desventurados, no sin padecer espantosos desastres. La flota submarina soviética del Mar Báltico, inicialmente integrado por 94 unidades, había sido mantenida a raya durante toda la guerra. En 1941-42 había hundido 24 naves alemanas, inclusive lanchones, al incosteable precio de 37 submarinos destruidos. Pero en los últimos días pudo aprovecharse del blanco fácil que ofrecían los transportes. El vapor «Wilhelm Gustloff» fue torpedeado de noche por un submarino ruso y de sus 5000 ocupantes sólo mil pudieron ser rescatados de las frías aguas del Báltico.
El barco «General Steuben» que zarpó de Prusia el 9 de febrero con dos mil heridos y mil fugitivos, en su mayor parte niños, también fue alcanzado por un torpedo y su proa se clavó inmediatamente en el agua. Los que viajaban en cubierta se apeñuscaban en la popa, pero al escorarse la nave y al cundir el pánico muchos niños y adultos resbalaban hacia el agua o caían en las hélices. Algunos hombres que llevaban pistola se suicidaron. Y los dos mil heridos trataban vanamente de salir a cubierta. Cuando se hundió de pronto lo que sobresalía del barco, «dos mil gritos de los encerrados en el interior terminaron repentinamente, sin intermedio, como cortados por un único y terrible tajo». Al desaparecer la nave hizo un remolino tan vertiginoso que se tragó a los que nadaban a su alrededor. El transporte «Goya» sufrió una suerte semejante con 7000 fugitivos, de los cuales se salvaron sólo 170. Y cuando los aliados se dieron cuenta de estas evacuaciones sembraron de minas desde el aire las bahías de Lubeck y de Kiel, para evitar que continuaran.
Tropas alemanas que lograron arrebatar algunas aldeas a los soviéticos, presenciaron huellas horrendas y escucharon de los supervivientes relatos que encendían inaudita desesperación. Aquello contrastaba sarcásticamente con el respeto que el Ejército Alemán había tenido para la población civil en las zonas ocupadas. Un respeto que se mantuvo inalterable incluso ejecutando a los esporádicos infractores.