8 de abril de 2017

The War of the Worlds


H. G. Wells
The War of the Worlds (1898)

Este livro, intitulado A Guerra dos Mundos em português, é o título mais conhecido de H. G. Wells, certamente devendo mais a sua celebridade às inúmeras adaptações que sofreu do que à leitura da obra escrita. A primeira vez que dele tive conhecimento foi, creio, num filme passado na televisão, onde se contava como Orson Welles espalhou o pânico com a sua adaptação radiofónica de 1938.
A história, toda a gente a conhece, trata de uma invasão de marcianos que, armados de tecnologia superior, levam a cabo uma destruição inaudita em Londres e arrabaldes, acabando derrotados pela vida microbiana, contra a qual não estavam preparados.
A ameaça extraterrestre, tema que marcou uma época na literatura FC, terá começado aqui. Nas últimas décadas, um novo entendimento defende que, se uma civilização conseguir um tal avanço tecnológico que lhe permita viajar entre as estrelas (Marte já estava então descartado da possibilidade de albergar vida inteligente), deverá ter uma evolução ética correspondente, que a impeça de fazer a guerra a outras civilizações que encontre... Um pacifismo, sinal dos nossos tempos, que apenas reconhece a sua ética, validada na projecção antropomórfica de um ser humano de sentido único, que não passa de uma construção baseada num desejo. Como explicou Stanislaw Lem em Solaris, a motivação de uma mente alienígena poderá estar muito para além da compreensão humana. E, regressando a The War of the Worlds, é-nos explicado que os marcianos se encontravam em risco de extinção no seu planeta moribundo; a invasão era, para eles, uma questão de vida ou morte.

Suddenly I heard a noise without, the run and smash of slipping plaster, and the triangular aperture in the wall was darkened. I looked up and saw the lower surface of a handling-machine coming slowly across the hole. One of its gripping limbs curled amid the debris; another limb appeared, feeling its way over the fallen beams. I stood petrified, staring. Then I saw through a sort of glass plate near the edge of the body the face, as we may call it, and the large dark eyes of a Martian, peering, and then a long metallic snake of tentacle came feeling slowly through the hole.
I turned by an effort, stumbled over the curate, and stopped at the scullery door. The tentacle was now some way, two yards or more, in the room, and twisting and turning, with queer sudden movements, this way and that. For a while I stood fascinated by that slow, fitful advance. Then, with a faint, hoarse cry, I forced myself across the scullery. I trembled violently; I could scarcely stand upright. I opened the door of the coal cellar, and stood there in the darkness staring at the faintly lit doorway into the kitchen, and listening. Had the Martian seen me? What was it doing now?
Something was moving to and fro there, very quietly; every now and then it tapped against the wall, or started on its movements with a faint metallic ringing, like the movements of keys on a split-ring. Then a heavy body—I knew too well what—was dragged across the floor of the kitchen towards the opening. Irresistibly attracted, I crept to the door and peeped into the kitchen. In the triangle of bright outer sunlight I saw the Martian, in its Briareus of a handling-machine, scrutinizing the curate's head. I thought at once that it would infer my presence from the mark of the blow I had given him.
I crept back to the coal cellar, shut the door, and began to cover myself up as much as I could, and as noiselessly as possible in the darkness, among the firewood and coal therein. Every now and then I paused, rigid, to hear if the Martian had thrust its tentacles through the opening again.
Then the faint metallic jingle returned. I traced it slowly feeling over the kitchen. Presently I heard it nearer—in the scullery, as I judged. I thought that its length might be insufficient to reach me. I prayed copiously. It passed, scraping faintly across the cellar door. An age of almost intolerable suspense intervened; then I heard it fumbling at the latch! It had found the door! The Martians understood doors!
It worried at the catch for a minute, perhaps, and then the door opened.
In the darkness I could just see the thing—like an elephant's trunk more than anything else—waving towards me and touching and examining the wall, coals, wood and ceiling. It was like a black worm swaying its blind head to and fro.
Once, even, it touched the heel of my boot. I was on the verge of screaming; I bit my hand. For a time the tentacle was silent. I could have fancied it had been withdrawn. Presently, with an abrupt click, it gripped something—I thought it had me!—and seemed to go out of the cellar again. For a minute I was not sure. Apparently it had taken a lump of coal to examine.
I seized the opportunity of slightly shifting my position, which had become cramped, and then listened. I whispered passionate prayers for safety.
Then I heard the slow, deliberate sound creeping towards me again. Slowly, slowly it drew near, scratching against the walls and tapping the furniture.
While I was still doubtful, it rapped smartly against the cellar door and closed it. I heard it go into the pantry, and the biscuit-tins rattled and a bottle smashed, and then came a heavy bump against the cellar door. Then silence that passed into an infinity of suspense.
Had it gone?
At last I decided that it had.

Li anteriormente:
The Invisible Man (1897)
The Island of Doctor Moreau (1896)
The Time Machine (1895)

19 de marzo de 2017

El Enigma Capitalista



Joaquín Bochaca
El Enigma Capitalista (1977)

Uma frase, algures, chamou-me a atenção para este livro: afirmava, certamente por outras palavras, que tudo quanto O Capital de Karl Marx fora incapaz de explicar no seu emaranhado de centenas de páginas, estava aqui plasmado de forma evidente e cristalina; Marx nunca teria abordado a essência da natureza do dinheiro, e aí residiria o âmago do capitalismo internacional. Apesar de nunca ter lido Marx (nem estar sequer nos meus projectos fazê-lo), parece-me óbvio que o filósofo judeu nunca esteve interessado em pôr termo ao capitalismo, mas, simplesmente, em transferi-lo dos burgueses para o Estado, mudando apenas o agente explorador.
Apesar de publicado originalmente em 1977, a propósito da crise financeira que então grassava, esta edição data de 2008, aproveitando o estalar de nova crise financeira, desta vez bem mais persistente.
Começando por explicar as razões para o aumento da miséria em plena abundância, o que espanta é a absoluta actualidade do texto, dos mecanismos descritos, a repetição dos processos utilizados e dos resultados obtidos. Em 30 anos (ou serão 130?) não mudou nada, e, bem vistas as coisas, nada poderia mudar, porque a natureza cíclica das crises serve determinados interesses. Como declarou Henry Ford em 1922, «Convém que o povo não perceba como funciona o sistema bancário e monetário, pois se percebesse acredito que haveria uma revolução antes de amanhã de manhã.»
Numa segunda parte, dedicada a fazer a história do designado establishment, a propósito do binómio Alta Finança-Revolução, cujo alcance parece ter sido inteiramente compreendido e aceite por tão poucos, o autor invoca como explicação o geralmente subestimado fenómeno da preguiça mental, e, recorrendo a uma citação de Bernard Shaw, afirma: «Alguns homens prefeririam morrer a pensar. São os mártires da estupidez humana.»
Além do diagnóstico, este livro tem a vantagem de propor a via alternativa, ao que se dedica na sua terceira parte, intitulada “A Solução”, centrada no conceito do Dividendo Nacional. Não uma solução, como sublinha o autor, mas a solução. De leitura obrigatória.

Al entregar su dinero en el banco, los depositarios obtenían un recibo que les entregaba el banquero, y sobre tal recibo —documento, en sí, intachable— se iba a montar el mayor timo de todos los tiempos.
En efecto, el banquero era un hombre observador y pronto se dio cuenta de que la gente utilizaba esos recibos como si de auténtico dinero se tratara. Esos recibos, respaldados por dinero auténtico, hacían la misma función que el dinero, es decir, servían para adquirir mercancías y contratar servicios. Como tales recibos no era nominativos, cualquier persona, que a lo mejor nunca había depositado dinero en el banco, podía presentarse en la ventanilla de pagos del mismo, y, exhibiendo un recibo por una cantidad determinada de dinero oficial, o legal, exigir tal cantidad en el acto. Un inciso imprescindible: decimos dinero oficial, o legal, porque esos recibos, al ser aceptados por la comunidad como medio de pago, se convertían automáticamente, de hecho, en dinero. También se dio cuenta, el banquero, de que, en promedio, los impositores sólo retiraban, en un período determinado de tiempo, el diez por ciento del dinero depositado. O dicho en otras palabras, que el noventa por ciento de sus depósitos permanecían en sus cofres, y que con el diez restante tenía suficiente para hacer frente a los recibos que se le irían presentando al cobro. La tentación era demasiado grande para el banquero, hombre cuya conciencia no sentía excesivamente el embarazo de los escrúpulos, o no podía sentirlos por sus condiciones étnicas y religiosas. Y se formuló a sí mismo la siguiente pregunta: ¿Por qué no poner en circulación más recibos, representando nueve veces más valor que el dinero que, efectivamente, tenía en su caja fuerte? Para él, formular así esa pregunta equivalía a responderla en el sentido deseado por su yo íntimo. Es decir, que multiplicó por nueve sus recibos —comprometiéndose a pagar un dinero que no tenía, o, como máximo, sólo tenía en una novena parte —y empezó a prestarlo a particulares y, sobre todo, a comerciantes, cobrando un interés por ese dinero inexistente. En realidad, más que inexistente, ficticio; pues existencia, aunque fraudulenta, la tenía, al entregarse mercancías y servicios por él. Este fue el fraude original, que ha perdurado hasta nuestros días, y que está en la raíz de todos nuestros males económicos. Como dice Gertrude Coogan, “los banqueros pueden justificar sus prácticas como gusten, pero el hecho es que cuando prestan su ‘crédito’ a interés lo único que hacen es crear dinero privado, que luego pueden reclamar y destruir a su voluntad para desesperación y empobrecimiento del prestatario” quien periodicamente se ve obligado, por la artificial escasez del dinero-crédito, a entregar bienes auténticos por el dinero-crédito que tomó en préstamo.
El banquero, al proceder de esta guisa, efectivamente, ha creado dinero. Y para crearlo lo único que ha necesitado ha sido que un empleado del banco tomara una pluma, o un bolígrafo, y escribiera en el Libro Mayor del banco, una cifra cualquiera, pongamos diez millones de pesetas, en el saldo deudor del prestatario. Pero, al mismo tiempo, en el saldo acreedor del mismo, se ha anotado la garantía que éste ha debido ofrecer contra el préstamo bancario. Dicha garantía, que siempre debe ser un bien tangible, una casa, unos terrenos, unas cosechas o el título de propiedad de una industria, siempre vale más que el dinero que el banco presta. Al prestatario se le entrega un talonario de cheques, que permiten fraccionar cómodamente el importe del préstamo, luego se le carga en cuenta un interés por dicho préstamo, interés que oscila entre un cinco y un nueve por ciento en las épocas relativamente “tranquilas”, pero que puede ser mucho más elevado en las épocas turbias y la operación ha sido puesta en marcha.
Detengámonos un momento para hacer las siguientes observaciones:
a) Al poner en circulación de hecho, más dinero, que aparece en el mercado antes de que el mismo haya podido generar más riqueza, se ha puesto en movimiento un proceso inflacionario, es decir, se ha hecho perder valor al dinero que existía ya en circulación.
b) Las mercancías que, con el nuevo dinero, irán apareciendo en el mercado, llevarán su costo gravado con el interés bancario —como ya hemos dicho, de un 5 a un 9 por ciento— que deberán pagar, en última instancia, los consumidores. Nueva contribución al proceso inflacionario.
c) Mientras el banquero ha entregado sus “promesas de pagar” dinero —pues nadie, por muy banquero que sea, puede crear algo de la Nada, y así, lo que él presta no son más que promesas— en cambio, el prestario ha entregado al banquero títulos que representan una riqueza que, a parte de ser muy superior al préstamo, es real. Ha habido, pues, un notorio abuso de confianza por parte del banco. Como decíamos en otro lugar “mientras el banco dispone contra la comunidad de garantías representando una riqueza real, tal como fábricas, fincas, cosechas, etc. la comunidad no dispone, contra los bancos, de ninguna garantía. La menor tentativa hecha por los acreedores de un banco para ejercitar sus garantías contra éste, pone de manifiesto que dichas garantías, de hecho, no tienen substancia alguna. Si tales acreedores le “aprietan demasiado las clavijas” al banco, son castigados perdiendo todos sus ahorros. El banco cierra sus puertas poniendo de manifiesto que sus “promesas de pagar” son falsas promesas... a menos que el gobierno no acuda en su ayuda con una moratoria.... moratoria cuyas consecuencias serán que, al fin y a la postre, la comunidad en bloque deberá pagar para cubrir las falsas promesas del banquero.

Li anteriormente:
Los Crímenes de los «Buenos» (1982)

28 de febreiro de 2017

The Invisible Man


H. G. Wells
The Invisible Man (1897)

Uma figura completamente enroupada e, ainda, com luvas, óculos escuros, cachecol e um chapéu de aba larga, chega a uma pequena estalagem de aldeia numa noite de Inverno. Esta personagem paga a estadia mas rejeita todas as tentativas de diálogo de circunstância, por parte da estalajadeira e dos aldeãos, para proteger o segredo da sua identidade. Embora todos suponham que as faixas que lhe envolvem a cabeça ocultem alguma desfiguração ou sejam os restos de alguma complicada operação cirúrgica, na verdade trata-se de um homem que, por uma razão não revelada, se tornou invisível. Esta qualidade atinge-o como um estigma e, à medida que, inevitavelmente, ela se evidencia perante a suspeição de quantos o rodeiam, o horror vai tomando conta da situação, enquanto a natureza algo violenta do homem, acossado pela sua condição, toma rédea solta.
A história de Griffin, é esse o nome do Homem Invisível, é contada muito mais tarde, quando, perseguido e tema de manchetes de jornais, procura a ajuda de Kemp, um antigo colega da universidade, e o põe a par do seu trabalho de investigação sobre a invisibilidade e dos resultados que alcançou, ao mesmo tempo que revela uma personalidade desequilibrada, egoísta e desumanizada.
Porém, nessa altura já está em marcha uma implacável caça ao homem, rumo ao desfecho esperado.

Suddenly the stranger raised his gloved hands clenched, stamped his foot, and said, "Stop!" with such extraordinary violence that he silenced her instantly.
"You don't understand," he said, "who I am or what I am. I'll show you. By Heaven! I'll show you." Then he put his open palm over his face and withdrew it. The centre of his face became a black cavity. "Here," he said. He stepped forward and handed Mrs. Hall something which she, staring at his metamorphosed face, accepted automatically. Then, when she saw what it was, she screamed loudly, dropped it, and staggered back. The nose—it was the stranger's nose! pink and shining—rolled on the floor.
Then he removed his spectacles, and everyone in the bar gasped. He took off his hat, and with a violent gesture tore at his whiskers and bandages. For a moment they resisted him. A flash of horrible anticipation passed through the bar. "Oh, my Gard!" said some one. Then off they came.
It was worse than anything. Mrs. Hall, standing open-mouthed and horror-struck, shrieked at what she saw, and made for the door of the house. Everyone began to move. They were prepared for scars, disfigurements, tangible horrors, but nothing! The bandages and false hair flew across the passage into the bar, making a hobbledehoy jump to avoid them. Everyone tumbled on everyone else down the steps. For the man who stood there shouting some incoherent explanation, was a solid gesticulating figure up to the coat-collar of him, and then—nothingness, no visible thing at all!
People down the village heard shouts and shrieks, and looking up the street saw the "Coach and Horses" violently firing out its humanity. They saw Mrs. Hall fall down and Mr. Teddy Henfrey jump to avoid tumbling over her, and then they heard the frightful screams of Millie, who, emerging suddenly from the kitchen at the noise of the tumult, had come upon the headless stranger from behind. These increased suddenly.

Li anteriormente:
The Island Of Doctor Moreau (1896)
The Time Machine (1895)

11 de febreiro de 2017

La Isla de los Jacintos Cortados

Gonzalo Torrente Ballester
La Isla de los Jacintos Cortados (1980)

O autor escreve de forma epistolar, dirigindo-se a Ariadna, contando-lhe tudo quanto aconteceu desde que a conheceu. Escreve na pele de um professor universitário espanhol, algures nos Estados Unidos, e Ariadna é uma grega, aluna (e algo mais...) de um seu colega, Alain Sidney, também conhecido por Claire, descendente de um reconhecido poeta britânico, sir Ronald Sidney. Claire acaba de editar um livro, onde defende que Napoleão não existiu – terá sido uma criação deliberada –, tese que põe em risco a sua credibilidade académica e a cátedra; mas encontra-se ausente do campus e essa circunstância leva Ariadna ao contacto com o escritor, acabando por viver os dois, durante um curto espaço de algumas semanas, na cabana de uma pequena ilha dos arredores, denominada Ilha dos Jacintos Cortados.
Entretanto é-nos dito que Claire tentava ligar a personalidade de Ariadna à de Agnesse, uma mulher com quem sir Ronald Sidney manteve uma relação amorosa na pequena ilha mediterrânica de La Gorgona (que também se conhece por Ilha dos Jacintos Cortados), no tempo que se seguiu a uma revolução motivada pela Revolução Francesa, para, através de uma, conhecer melhor a outra. O escritor, através de métodos divinatórios, tenta também descobrir o que se passara em La Gorgona, ilha que aparenta conter a chave da questão levantada pelo livro de Claire, para mostrá-la a Ariadna, presencialmente ou através da escrita, com o fim de a impressionar e seduzir, completando assim o triângulo amoroso. Deste modo se acrescenta um bom punhado de personagens e se desloca o centro narrativo deste romance pouco linear, onde a realidade e a fantasia se fundem.
Apesar de Gonzalo Torrente Ballester afirmar, no prólogo, ser este livro «mero divertimento e descanso [escrito] ao longo de um ano preenchido por outro género de trabalhos», na verdade não se afigura de leitura muito fácil, com parágrafos de grande extensão e diálogos colocados entre aspas, sem translineação. Contudo, se na forma é um tanto monótono, a narrativa acaba por se impor, inventiva e imprevisível.

Verás que son combinaciones ternarias, las únicas posibles. Verás que Talía va siempre en medio: así, las manos de sus hermanas la sostienen. Hay quien afirma que las varias figuras carecen de finalidad práctica, que no pasan de mero ejercicio estético, o, si acaso, matemático; pero no falta quien sostenga que depende del viento, de su duración y de su fuerza. Las escasas veces que llueve en la Isla, las Hermanas quedan detrás de los cristales, y esa noche los amantes se sienten libres, y los esposos abren las ventanas de las alcobas, y hasta los solitarios se regocijan: nueve meses después suelen nacer muchos niños. Fíjate cómo pasan y repasan delante de aquella ventana, cómo se posan en el alféizar como si fueran aves, cómo dejan caer un papelito: mañana el marido o la mujer leerán algo parecido a esto: «¡Cochinos! ¡Ya lo habéis hecho tres veces esta semana!». Recorren todas las casas de la ciudad, todas las calles, todos los recovecos. La gente se aplasta contra el pavimento, se emboza en las sombras; los despiertos en el lecho simulan sueños de muerte, mientras, ocultas, las manos se oprimen y se prometen. Cuando se han alejado las Parcas, un movimiento tímido precede al furor apresurado con que se quiere recuperar el tiempo. La Vieja dicta a la Tonta lo que van averiguando, nombres de las personas, qué hacían cuando las sorprendieron, y la Tonta escribe sin dejar de volar, en un largo papel que lleva en la mano: cuando escribe, la Muerta, agarrada únicamente a la Vieja, queda en desequilibrio y como colgada, pero no llega a caer, porque la Tonta es rápida escribiendo, y pronto recompone el equilibrio. Son como aves de presa: ascienden, escrutan y caen en picado sobre el conejo incauto: «¡Cochinos!». «¿Y si vuelven?» «¡Malo será que vuelvan!» A veces sí, las Hermanas repiten la ronda, pero, en cualquier caso, antes que el alba despierte, abandonan el aire y entran en un cuartucho de la Señoría, donde un funcionario de guardia recibe las denuncias y las apunta en ese enorme libro de tapas negras: nombre de los pecadores, delito, cuantía de la multa, o pasar a los jueces el tanto de culpa.
Si has seguido con atención el vuelo de las Hermanas, habrás visto cómo se detuvieron un momento en la terraza de la viuda Fulcanelli; que la Muerta y la Tonta quedaron en la ventana, y que la Vieja penetró en el interior de la casa, como que se acercó al lecho de Agnesse y le espió el sueño, y después hizo un mohín –que en su cara fue mueca de incomprensión y de indiferencia. Al regresar a casa, al repasar frente a la Señoría, advierten que Ascanio Aldobrandini, abierto el mirador, contempla las estrellas. La Vieja pregunta a la Tonta: «¿Qué hará a estas horas despierto nuestro sobrino? ¿No te parece raro?». La Tonta debió de repetirlo en voz demasiado alta, porque Ascanio la oyó y cerró. A la tercera ronda, Ascanio ya no estaba.
«La poesía –dijiste entonces– es un amontonamiento de nubes que se pintan de gris y de púrpura y que te impiden ver al sol caer en el horizonte. Lo que yo necesito es una explicación racional de por qué esos fantasmas han venido a espiarnos, me han mirado con esos ojos muertos, me han insultado.» Tuve que responderte: «Es muy posible que la explicación que requieres se pueda recabar de Claire: él entiende de todo». Tú, entonces, te volviste hacia la pared: «Vete ya, por favor; cuida de que las puertas y las ventanas queden cerradas».

Li anteriormente:
Crónica del Rey Pasmado (1989)

26 de xaneiro de 2017

Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido


Rui Mateus
Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido (1996)

Não tenho por hábito ler livros sobre política escritos por esquerdistas, mas este Contos Proibidos tem um rasto de lenda que me espicaçou a curiosidade. Publicado em 1996 pela Dom Quixote, o livro, da autoria de um dos fundadores do PS, rapidamente desapareceu dos escaparates para nunca mais voltar a ser reeditado; aparentemente, na "democracia consolidada" portuguesa, ainda há livros proibidos. Quanto a Rui Mateus, diz-se que deixou Portugal desde então, por uma questão de segurança pessoal, tendo como destino a Suécia e os EUA; o certo é que foi "apagado" da memória do partido que ajudou a fundar.
Contos Proibidos descreve a história do Partido Socialista, desde os tempos em que não passava de uma obscura agremiação clandestina, maioritariamente formada por burgueses exilados com ligações à maçonaria, até ao caso Emaudio no início dos anos 90, tendo por pano de fundo as constantes e pouco claras situações do financiamento partidário. Diga-se, de passagem, que foi o caso Emaudio, aqui minuciosamente explicado e dissecado, que levou o autor à ostracização pelo partido, e não a publicação deste livro.
Descrevem-se igualmente numerosas viagens e encontros no estrangeiro em que Rui Mateus, como responsável pelas relações internacionais do PS, esteve presente. Entre as mais pitorescas, estão uma viagem a Milão, em Setembro de 1977, onde foi recolher meio milhão de dólares «oferecido» pelo PSI do futuro foragido à justiça Bettino Craxi, de cuja origem e justificação não fez a mais pequena ideia (e muito menos perguntas); e também a descrição de uma viagem à República Dominicana em 1978, acompanhando Soares e outros delegados da Internacional Socialista, para ajudar à eleição de um candidato presidencial nas eleições locais, descrevendo um comício que foi uma autêntica fantochada, terminando tudo com um bom golpe militar à moda sul-americana.
Sobre a sua figura de proa, Mário Soares, é-nos descrita a sua colossal ambição, aliada a uma superficialidade ideológica e uma impreparação para o exercício do poder verdadeiramente notáveis. Particularmente impressionante é a descrição da forma como Soares, ex-militante comunista, recorde-se, concebeu o PS como um partido satélite do PCP, sem maior ambição que um conceito de "unicidade" que tomou de empréstimo a François Mitterrand; e, enquanto procurava o financiamento do PS entre os partidos social-democratas europeus inscritos na IS, na frente interna os aliados escolhidos eram Santiago Carrillo, Cuba, Roménia ou Coreia do Norte, por exemplo. É necessário compreender o que se passou no I Congresso do PS, em Dezembro de 1974, quando os infiltrados do PCP (a sucursal da União Soviética em Portugal) quase se apoderaram do partido, para interpretar a absurda viagem que Soares fez a Moscovo, duas semanas depois, para prestar vassalagem ao Kremlin – o que lhe valeu o epíteto de «Kerensky português».
Apesar de discordar frontalmente de muitos considerandos e avaliações de Rui Mateus, valorizo a descrição crua dos factos (apesar das frequentes gralhas e, até, erros de ortografia), profusamente documentada por notas de rodapé. Confirma-se que devemos agradecer a Mário Soares o ter levado os comunistas pela mão para o I Governo Provisório, após o golpe de 25 de Abril, no cumprimento de um acordo que tinha assinado com eles em 1973 em Paris, com todas as consequências que ainda hoje se fazem sentir. A situação a que Portugal chegou tem muitos responsáveis, e Mário Soares está entre os principais, apesar da "canonização" que as televisões e a generalidade da imprensa tentou promover aquando da sua recente morte.

Os incidentes do 1.º de Maio, felizmente para o PS, contribuíram para a ruptura definitiva, dado que muitos observadores internacionais, depois de tudo o que se passara até então, ainda se perguntavam porque razão quereriam ainda os socialistas celebrar o 1.º de Maio conjuntamente com o PCP. O assalto ao jornal República, a 19 de Maio, juntamente com a vitória eleitoral nas eleições para a Assembleia Constituinte seriam a «gota de água» que levaria a Europa a seguir o caminho que os EUA já tinham iniciado por sugestão de Carlucci, com o apoio dos homens de Langley contra o Departamento de Estado. Aliás o receio de alguns governos europeus de não ficar atrás dos Americanos serviria de leit motiv, para a determinação europeia. Contudo, se é evidente para muitos, mesmo muitos socialistas, que foi o discurso de Zenha que desencadeou a ruptura com o PC, não é ainda claro para a grande maioria que a mudança de Mário Soares só teria lugar após os incidentes do 1.º de Maio, no estádio com o mesmo nome. Foi a sua «vaidade» ferida, ao não o deixarem entrar na tribuna daquele estádio, impedindo-o de estar ao lado de Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal, para onde este se dirigira, que precipitou a sua ruptura com o PC. Até então, como comprova todo o seu comportamento até àquela data, Henry Kissinger tinha razão em o considerar o «Kerensky» português. Durante os últimos doze meses alimentara esperanças em relação ao Programa Comum com o PC, que só não se concretizara porque os comunistas o não quiseram a seu lado. «A falta deve-se unicamente aos comunistas». Senão tivesse então ocorrido tal incidente e Soares, despeitado, não passasse também ao ataque, que viria a ter como pano de fundo o conhecido slogan — «Soares e Zenha não há quem os detenha» — é provável que ainda em 1975 tivesse ocorrido uma cisão no seio do próprio Partido Socialista, com o afastamento do secretário-geral. A tal não acontecer, dada a lealdade demonstrada por Salgado Zenha, o resultado teria sido, pelo menos, a transferência do apoio americano para Sá Carneiro, que atrairia a si grande parte do movimento socialista. E, por essa via, o posterior reconhecimento do seu partido pela Internacional Socialista.
[...]
Mário Soares é quase unanimemente considerado um homem de grande coragem política. Pode ser essa a ideia que ele faz de si próprio, mas eu considero que uma mistura de «ousadia calculada» com um apurado sentido da contra-informação seria uma descrição mais adequada. Em Janeiro de 1975, o primeiro socialista a romper com o PCP seria Salgado Zenha. Entretanto e apesar de Soares só ter seguido o seu exemplo quatro meses depois seria ele que viria a ser conotado com esse rompimento curricular. O enfrentamento de Mário Soares com os comunistas é relativamente serôdio e teve lugar quando o País já se apercebera de que o PCP era minoritário. Em Novembro, Soares seria a face visível da «Resistência», mas a partir do Norte do País e com a garantia de que os serviços secretos anglo-americanos não ficariam parados. Em 1975 e 1976 Salgado Zenha abriria o caminho ao apoio económico ocidental a Portugal, mas não seria «convidado» para integrar o I Governo Constitucional. Os louros dessa tarefa viriam todos cair na mão de Mário Soares. Em 1978, enquanto primeiro-ministro, enfrentaria militares indispostos na sua visita à República Dominicana mas, além de ser primeiro-ministro, tinha o apoio do presidente Carter e chegara num avião da Presidência da República do México e sairia noutro da Presidência da República da Venezuela. Fizera também nesse ano um arriscado acordo político com o CDS, mas após obtida a cobertura de esquerda dos «ex-MES». Decidiu finalmente enfrentar Eanes em 1980, mas tinha apoios financeiros e apoiantes suficientes para arriscar e sabia de antemão que não fazê-lo representaria o fim da sua carreira política. Foi um acto de ousadia calculada, em que teria sempre a garantia de apoio dos chamados «históricos» do PS.

7 de xaneiro de 2017

Caminhos Cruzados

Érico Veríssimo
Caminhos Cruzados (1935)

Caminhos Cruzados é o segundo romance de Érico Veríssimo. Dividido em cinco partes, cada uma com o nome dos dias da semana de sábado a quarta-feira, subdivide-se depois em capítulos breves que acompanham a vida diária e as pequenas peripécias que sucedem aos seus protagonistas. Deste modo, acompanhamos gente e famílias de todos os estratos sociais, como o professor Clarimundo, que um dia há-de escrever um livro a descrever a verdade das coisas mas, por enquanto, anda a magicar no que será o prefácio; Chinita, a filha do novo-rico coronel Pedrosa, com a cabeça à roda numa vida fútil onde se tenta comparar ao que julga ser a vida das estrelas de Hollywood; Teotônio Leitão Leiria, um burguês abastado de modos ridículos; a desgraça de Maximiliano, tuberculoso entre a vida e a morte; João Benévolo, amante de leituras e de ilusões, caído no desemprego e sem dinheiro, vê a miséria montar o cerco à sua família. Entre tanta gente, destacam-se duas mulheres que, pela sua força interior, escapam a este descritivo quase caricatural: Fernanda, por oposição ao apagamento de Noel, seu amigo de infância, e D. Maria Luísa, a mulher do coronel Pedrosa, que cedo se apercebe que o dinheiro não traz a felicidade. Na impessoalidade da grande cidade, por vezes, os caminhos destas personagens cruzam-se, as decisões de uns afectam outros, justificando o título.

Mas um dia Zé Maria sonhou que a casa do coletor tinha prendido fogo e que o Madruga havia morrido queimado. Levantou-se, impressionado. Estava-se em véspera de Natal, a Loteria do Estado anunciava uma extração de dois mil contos. Zé Maria foi olhar a casa do coletor. Tinha o número 1063. Tomou uma resolução heróica. Uma vez na vida e outra na morte não fazia mal arriscar... Desgraça pouca é bobagem. Juntou a féria de três dias e foi à Agência de Loteria do Bianchi.
— O 1063 não tem... — disse o italiano.
Zé Maria ficou amolado.
— Encomende. Pago telegrama, pago tudo.
Estava nervoso. O Bianchi telegrafou. A resposta veio. O 1063 já estava vendido, mas o 3601 estava livre. Servia?
— Servia! Mande buscar urgente.
Em casa ninguém sabia de nada. O 3601 veio. Zé Maria andava preocupado. Algumas firmas ameaçavam protestar duplicatas vencidas e não pagas. O negócio estava meio parado.
Um dia Zé Maria não agüentou aquela coisa esquisita que se lhe avolumava no peito, aquela angústia, aquele peso. Contou tudo à mulher. Tinha comprado um bilhete!
— Um bilhete inteiro? Inteiro?
D. Maria Luísa levou as mãos à cabeça. Zé Maria estava aniquilado.
— Quanto custou?
— Trezentos...
D. Maria Luísa enxergava, via com nitidez os trezentos mil-réis diante dos olhos. Sentiu uma tontura. Foi para o quarto e chorou toda a tarde.
Na véspera de Natal ao anoitecer estralaram foguetes lá para as bandas da praça.
Zé Maria apareceu à porta da loja.
— É na agência do Bianchi — disse uma voz.
Assomavam cabeças às janelas. Corria gente para a rua. Contra o céu claro faiscavam os foguetes que explodiam, e as pequenas nuvens de fumaça ficavam no ar por alguns instantes...
O coração de Zé Maria começou a bater com mais força. Enfiou o chapéu na cabeça e saiu.
— Deve ser a bruta! — gritou-lhe alguém.
Zé Maria caminhava como um ébrio, os olhos turvos, a cabeça tão tonta que nem podia pensar. A uma esquina encontrou o Madruga.
— Onde vais com tanta pressa, homem?
Zé Maria afastou-o com a mão.
— Me deixa.
Madruga ficou rindo, o palito tremeu-lhe nos lábios.
— Pensas que tiraste a sorte grande, animal?
Na frente da agência do italiano Bianchi havia gente amontoada, procurando ler o número escrito no quadro-negro. Bianchi, rindo com toda a cara vermelha e enrugada, emergiu da maçaroca humana e correu para Zé Maria, de braços abertos:
— Felizardo! Felizardo! A bruta!
Zé Maria negava-se a compreender, a acreditar. Era demais. Aquilo não lhe podia acontecer. Ah! Não podia.
— Mas é a bruta. Dois mil contos! Eu mandei na loja lhe avisar!
Diante dos olhos do coronel tudo dançava: o italiano, as árvores, as pessoas... Os foguetes continuavam a subir para o céu e estouravam lá em cima, provocando ecos atrás da igreja. Agora em torno de Zé Maria havia muitas pessoas, conhecidas umas, desconhecidas outras. Ele tinha vontade de gritar. Sons confusos lhe chegavam aos ouvidos: — Parabéns! Felizardo! Qual foi o número? Nasceu empelicado! Sim senhor!
Depois que se livrou dos abraços da primeira hora, examinando com os próprios olhos o telegrama que trouxera o resultado da extração; depois que bebeu um copo d'água fria é que Zé Maria começou a se habituar à realidade maravilhosa. Quando serenou, o seu primeiro pensamento foi para o amigo: “Eu só quero é ver a cara do Madruga.” E viu. Madruga chegou, fingindo indiferença.
— Ouvi dizer que tiraste a sorte grande.
O sorriso largo de Zé Maria era uma confirmação. Madruga segurou o palito, fleumático, fez uma careta de dúvida e disse:
— Não sei se te felicito... Bem diz o ditado que a fortuna é cega. Deus às vezes dá osso pra cachorro sem dente. Dentro de dois anos não tens mais um miserável níquel. Por falar nisto, me empresta vinte mil-réis.
Zé Maria tirou do bolso uma cédula de cinqüenta.
— Leva cinqüenta! Estou louco da vida.

Li anteriormente:
Clarissa (1933)
Olhai os Lírios do Campo (1938)
O Tempo e o Vento, vol. III – O Arquipélago (1962)

3 de xaneiro de 2017

O Véu Pintado

W. Somerset Maugham
O Véu Pintado (1925)

O Véu PintadoThe Painted Veil no título original – é uma história de adultério. Ao terceiro livro deste escritor, fico com a impressão de que Somerset Maugham parece ter uma especial propensão para escavar no lado mais obscuro das fraquezas humanas, num exercício metódico de dissecação psicológica.
Kitty Garstin, uma mulher de 25 anos, bonita mas fútil, é cortejada por Walter Fane, bacteriologista numa cidade do extremo oriente, que passa um temporada em Londres. Quando Walter lhe propõe casamento ela aceita, mesmo sem gostar dele, porque, já com escassez de pretendentes, considera que aquela poderá ser a sua última oportunidade. Com o marido de volta à China (à cidade fictícia de Tching-Yen, dado que Somerset Maugham foi impedido, por um processo em tribunal, de usar Hong Kong), Kitty é seduzida por Charlie Townsend, titular de um cargo secundário na administração local. Descoberta a traição, Kitty supõe, erradamente, que Charlie se divorciaria para se casar com ela, mas o escândalo significa o fim das suas ambições profissionais, das quais ele não abdicaria por nenhum preço. Kitty vê assim gorados os seus planos e com a obrigação de acompanhar Walter a outra cidade, Mei-tan-fu, assolada pela cólera, sem compreender inteiramente os motivos que levaram o marido, que passou a tratá-la friamente, a tomar essa decisão.
Com o desenrolar do tempo e dos acontecimentos, Kitty desenvolve uma auto-repulsão pelo seu comportamento, tanto mais angustiante quanto ela reconhece o seu mau proceder e se sente incapaz de conjurar a vontade para o evitar.

Ela fitou-o sem expressão. O que ele acabava de dizer era tão inesperado que no primeiro momento o sentido de suas palavras quase lhe escapara.
– Mas de que diabo está você falando? – gaguejou.
Até para ela essa pergunta soava falso, e no rosto grave de Walter a resposta foi um olhar de desprezo.
– Quer me parecer que você me julgou um tolo maior do que sou.
Ela não sabia ao certo o que dizer. Hesitava entre uma indignada manifestação de inocência e uma furiosa torrente de censuras. Ele pareceu ler-lhe os pensamentos.
– Tenho todas as provas necessárias.
Kitty começou a chorar. As lágrimas lhe caíam sem angústia, e ela não as enxugava; o choro lhe dava certo tempo para recompor-se. Mas nenhuma ideia lhe ocorria. Ele a observava sem interesse, e sua calma assustava-a. Walter impacientou-se.
– Não é chorando que você remediará a situação.
O tom áspero e frio com que ele disse estas palavras despertou nela certa indignação. Kitty começou a recuperar o domínio de si mesma.
– Pouco me importa. Acho que você não se oporá ao divórcio. Para um homem isso não significa coisa alguma.
– Permita-me perguntar-lhe por que motivo eu me daria o menor incómodo por sua causa?
– Isso não lhe fará nenhuma diferença. Não é muito pedir que você proceda como um cavalheiro.
– Tenho demasiada consideração pelo seu bem-estar.
Ela aprumou-se na cadeira e enxugou os olhos.
– Que quer dizer com isso?
– Townsend somente se casaria com você se houvesse um processo e o caso fosse tão vergonhoso que a mulher dele se visse forçada ao divórcio.
– Você não sabe de que está falando – exclamou ela.
– Sua tola!
Havia tal desprezo na voz dele que Kitty ficou vermelha de raiva. E essa raiva talvez fosse maior porque ela nunca lhe ouvira senão palavras doces, agradáveis e lisonjeiras. Estava habituada a vê-lo submisso diante de todos os seus caprichos.
– Se você quer saber a verdade, pode saber. Ele está ansioso por casar-se comigo. Dorothy Townsend está perfeitamente disposta a conceder o divórcio, e nós nos casaremos assim que estivermos livres.
– Ele lhe disse tal coisa com essas mesmas palavras ou é você que tem essa impressão?
Os olhos de Walter brilhavam com acerba zombaria. E faziam-na sentir-se um tanto inquieta. Ela não estava muito certa de que Charlie tivesse dito aquilo com tantas palavras.
– Disse e redisse.
– Isso é mentira, e você sabe que é mentira.

Li anteriormente:
Um Gosto e Seis Vinténs (1919)
Servidão Humana (1915)

8 de decembro de 2016

O Sol Nasce Sempre (Fiesta)

Ernest Hemingway
O Sol Nasce Sempre (Fiesta) (1926)

Este romance de Hemingway designou-se The Sun Always Shine na sua edição original, e Fiesta quando foi editado em Inglaterra, daí a razão do título duplo.
A história anda à volta de um grupo de amigos que se movem por Paris: Jake Barnes (o narrador), Bill Gorton, Mike Campbell, Brett Ashley, e o judeu Robert Cohn (todos estadounidenses, à excepção de Mike – escocês – e Brett – inglesa –, sendo que os dois primeiros e o último são escritores), aos quais se juntam algumas personagens secundárias. Vivem todos uma vida boémia, carburada a álcool (muito se bebe neste livro!) e, em determinado ponto, Jake e Bill decidem ir ao País Vasco para uma pescaria; acabam por marcar encontro, em Pamplona, com Mike e Brett que se lhes reúnem, acompanhados por Cohn, que se fez convidado, devido ao seu interesse em Brett, apesar de saber que ela está acompanhada por Mike.
É pois neste fundo das festas de San Fermín, pormenorizadamente descritas, que se desenrola depois a trama, e a melhor parte do livro. Entende-se o  fascínio despertado por estas festas, e as touradas, com o seu exotismo, aos olhos de um estadounidense como Hemingway, quando elas ainda tinham algo de genuíno, antes de se massificarem completamente. «Gente chegara continuamente de fora, mas a cidade assimilara-a e não se dava por ela», escreve o autor. Há coisas que se perdem para sempre.

Feita uma curva entrámos numa vila e de ambos os lados se abriu subitamente um verdejante vale. Uma torrente atravessava o centro da vila e os vinhedos roçavam pelas casas.
A camioneta parou em frente de uma estalagem e muitos passageiros desceram, uma data de bagagem foi desamarrada do tejadilho e tirada, para o chão, de debaixo dos grandes oleados. Bill e eu descemos e entrámos na estalagem. Havia uma sala baixa e escura, com selas e arreios, forquilhas de madeira branca, cachos de alpargatas de sola de corda, presuntos, toucinhos, alhos e longos enchidos pendendo do tecto. Era fresca e sombria, e ficámos ao comprido balcão de madeira, onde duas mulheres serviam bebidas. Por trás delas, as prateleiras estavam cheias de géneros.
Cada um de nós bebeu uma aguardente, e pagámos quarenta cêntimos pelos dois copos. Dei à mulher cinquenta cêntimos contando com a gorjeta, e ela deu-me a moeda do troco, julgando que eu não percebera o preço.
Dois dos nossos vascos entraram e insistiram em pagar uma bebida. E assim pagaram a bebida e depois pagámos nós outra bebida, e eles deram-nos então palmadas nas costas e pagaram mais outra bebida. Foi depois a nossa vez, até que saímos para o sol e o calor e trepámos de novo para o tejadilho da camioneta. Havia imenso espaço agora para nos sentarmos no banco, e o vasco que viera deitado no forro de chapa sentou-se no meio de nós. A mulher que servira as bebidas apareceu a limpar as mãos ao avental e falou com alguém para dentro da camioneta. Apareceu então por sua vez o condutor, balançando duas sacas de couro com correio, e subiu, e, entre acenos de todos, arrancámos.

Li anteriormente:
O Adeus às Armas (1929)
Ilhas na Corrente (1970)
Na Outra Margem entre as Árvores (1950)

26 de novembro de 2016

The Island of Doctor Moreau

H. G. Wells
The Island of Doctor Moreau (1896)

Outra obra de H.G. Wells que conta com várias adaptações ao cinema. Recordo ter visto na televisão excertos, pelo menos, da adaptação de 1932 possivelmente, intitulada Island of Lost Souls, com Charles Laughton e Bela Lugosi, realizada por Erle C. Kenton. Li também, em tempos, A Outra Ilha do Dr. Moreau, do britânico Brian Aldiss, que glosava o tema. Isto para dizer que o tema de The Island of Dr. Moreau é intemporal.
Edward Prendick, último sobrevivente de um naufrágio no Pacífico equatorial, é recolhido quase inconsciente num navio capitaneado por um marinheiro de mau génio, fretado por um misterioso médico, Montgomery, que se faz acompanhar por uma estranha carga de animais ferozes. A malfadada viagem termina no destino de Montgomery, uma ilha desconhecida onde se procede à descarga; Prendick, que se tinha inimistado com a capitão, é expelido do navio, e assim se torna num visitante forçado da ilha, onde conhece o Dr. Moreau.
Esta obra questiona os limites éticos da ciência, pois o Dr. Moreau, como todos devem saber ainda que não tenham lido o livro, faz experiências com animais – vivissecção, enxertos de corpos na tentativa de recriar um novo ser, dando-lhes uma condição semi-humana em corpos grotescos, condição que esses animais não pediram nem podem recusar, significando o aprisionamento da sua ampliada consciência num inferno vivo. Aquilo que no final do séc. XIX se traduzia em transfusões de sangue e serragem de ossos, tem um paralelo nos nossos dias com as manipulações de ADN, com cientistas a brincar aos deuses, convencidos que vão corrigir aquilo que consideram ser as imperfeições da Natureza.

A strange persuasion came upon me, that, save for the grossness of the line, the grotesqueness of the forms, I had here before me the whole balance of human life in miniature, the whole interplay of instinct, reason, and fate in its simplest form. The Leopard-man had happened to go under: that was all the difference. Poor brute!
Poor brutes! I began to see the viler aspect of Moreau's cruelty. I had not thought before of the pain and trouble that came to these poor victims after they had passed from Moreau's hands. I had shivered only at the days of actual torment in the enclosure. But now that seemed to me the lesser part. Before, they had been beasts, their instincts fitly adapted to their surroundings, and happy as living things may be. Now they stumbled in the shackles of humanity, lived in a fear that never died, fretted by a law they could not understand; their mock-human existence, begun in an agony, was one long internal struggle, one long dread of Moreau—and for what? It was the wantonness of it that stirred me.
Had Moreau had any intelligible object, I could have sympathised at least a little with him. I am not so squeamish about pain as that. I could have forgiven him a little even, had his motive been only hate. But he was so irresponsible, so utterly careless! His curiosity, his mad, aimless investigations, drove him on; and the Things were thrown out to live a year or so, to struggle and blunder and suffer, and at last to die painfully. They were wretched in themselves; the old animal hate moved them to trouble one another; the Law held them back from a brief hot struggle and a decisive end to their natural animosities.
In those days my fear of the Beast People went the way of my personal fear for Moreau. I fell indeed into a morbid state, deep and enduring, and alien to fear, which has left permanent scars upon my mind. I must confess that I lost faith in the sanity of the world when I saw it suffering the painful disorder of this island. A blind Fate, a vast pitiless mechanism, seemed to cut and shape the fabric of existence and I, Moreau (by his passion for research), Montgomery (by his passion for drink), the Beast People with their instincts and mental restrictions, were torn and crushed, ruthlessly, inevitably, amid the infinite complexity of its incessant wheels. But this condition did not come all at once: I think indeed that I anticipate a little in speaking of it now.


Li anteriormente:
The Time Machine (1895)

12 de novembro de 2016

The Time Machine


H. G. Wells
The Time Machine (1895)

O britânico H. G. Wells tem uma curta série de obras bem conhecidas, datadas do virar do século XIX, a primeira das quais é A Máquina do Tempo. Acho incrível nunca ter tido a oportunidade de ler qualquer delas, e espero corrigir isso agora, tanto mais quanto sempre encontrei um certo encanto nesta proto-FC, então designada por «romances científicos», que encontrei em alguns dos seus contemporâneos, como Allan Poe, Conan Doyle, Stevenson ou Verne.
A história é conhecida: um inventor atirado para o ano 802701, encontra a Terra transformada num jardim decadente, povoada pelos Eloi, uma humanidade infantilizada. Aquilo que, numa primeira impressão lhe parecera uma «Idade do Ouro», a breve trecho se transforma num cenário sinistro, quando entram em cena os habitantes do mundo subterrâneo, os Morlocks. Dias depois, numa fuga apressada, o crononauta chega a 30 milhões de anos no futuro, numa Terra desolada, inóspita e povoada por bestas de pesadelo, já sem movimento de rotação, com o sol de tom alaranjado, em fase de extinção, onde acaba por presenciar um eclipse solar.
Lembro-me de ter visto na televisão, há muito tempo, a cena correspondente ao trecho que escolhi; já não me recordo se vi o filme completo, mas esta cena ficou-me na memória. Sei agora que era uma adaptação de 1960, de George Pal, com Rod Taylor, Alan Young e Yvette Mimieux como protagonistas, e está no YouTube com o preço «a partir de 2,99€». Mas, como diz um dos comentários mais acertados – «3€ for an online movie from 1960? Go back to work, fucking jews!»

'I drew a breath, set my teeth, gripped the starting lever with both hands, and went off with a thud. The laboratory got hazy and went dark. Mrs. Watchett came in and walked, apparently without seeing me, towards the garden door. I suppose it took her a minute or so to traverse the place, but to me she seemed to shoot across the room like a rocket. I pressed the lever over to its extreme position. The night came like the turning out of a lamp, and in another moment came to-morrow. The laboratory grew faint and hazy, then fainter and ever fainter. To-morrow night came black, then day again, night again, day again, faster and faster still. An eddying murmur filled my ears, and a strange, dumb confusedness descended on my mind.
'I am afraid I cannot convey the peculiar sensations of time travelling. They are excessively unpleasant. There is a feeling exactly like that one has upon a switchback—of a helpless headlong motion! I felt the same horrible anticipation, too, of an imminent smash. As I put on pace, night followed day like the flapping of a black wing. The dim suggestion of the laboratory seemed presently to fall away from me, and I saw the sun hopping swiftly across the sky, leaping it every minute, and every minute marking a day. I supposed the laboratory had been destroyed and I had come into the open air. I had a dim impression of scaffolding, but I was already going too fast to be conscious of any moving things. The slowest snail that ever crawled dashed by too fast for me. The twinkling succession of darkness and light was excessively painful to the eye. Then, in the intermittent darknesses, I saw the moon spinning swiftly through her quarters from new to full, and had a faint glimpse of the circling stars. Presently, as I went on, still gaining velocity, the palpitation of night and day merged into one continuous greyness; the sky took on a wonderful deepness of blue, a splendid luminous color like that of early twilight; the jerking sun became a streak of fire, a brilliant arch, in space; the moon a fainter fluctuating band; and I could see nothing of the stars, save now and then a brighter circle flickering in the blue.

1 de novembro de 2016

Esperando al Rey


José María Pérez
Esperando al Rey (2014)

Numa noite de Inverno, tive a sorte de assistir a um documentário da TVE online sobre a catedral de Burgos. Tratava-se do início de uma série, em sete episódios, La Luz y el Misterio de las Catedrales, dedicada às catedrais góticas espanholas, que acompanhei semanalmente. Era apresentada por José María Pérez, arquitecto e desenhista (conhecido como «Peridis», publicou uma tira diária no El País de 1976 a 2011), cujo dom da palavra e capacidade comunicativa me fez lembrar o saudoso José Hermano Saraiva. Depois descobri que, anos antes, tinha apresentado uma outra série, Las Claves del Románico, muito mais extensa, com 33 episódios emitidos em três temporadas entre 2002 e 2007, que dão um panorama muito pormenorizado dos monumentos românicos no país vizinho, acompanhado de paisagens impressionantes e das necessárias explicações sobre o contexto histórico. Também os visionei a todos e recomendo-os vivamente – basta ir à página da TVE, ambas as séries estão disponíveis em streaming.
José María Pérez esteve na origem da Fundación Santa María la Real del Patrimonio Histórico, e, entre os seus muito projectos culturais destaca-se a Enciclopedia del Románico en la Península Ibérica (leia-se Espanha). Não será portanto uma surpresa que, nesta sua primeira incursão pela literatura, tenha escolhido por tema e cenário a época histórica na qual se especializou, com este Esperando al Rey, vencedor do Prémio Afonso X o Sábio de Novela Histórica em 2014.
Passado entre 1141 e 1180, o enredo centra-se basicamente na condessa Teresa Fernandes de Trava, filha de Teresa de Leão e de Fernão Peres de Trava (o que faz dela meia-irmã de Afonso Henriques – nesta época, todos os soberanos dos reinos peninsulares eram irmãos, primos ou de parentesco muito próximo), desde a sua infância até à vida adulta. Acompanha-se o final do reinado de Afonso VII de Leão e Castela, a divisão do seu reino pelos filhos Fernando II de Leão e Sancho III de Castela (uma vez mais se manifestou essa incompreensível e tão espanhola tendência à dispersão). Com a morte prematura de Sancho III e a passagem do título ao seu filho Afonso VIII, com apenas três anos de idade, os onze anos seguintes acompanham a regência até à maioridade do rei, coroado aos 14 anos. O regente de Castela era, nessa altura, Nuno Peres de Lara, casado com Teresa que, após a sua morte, se casou em segundas núpcias com Fernando II. Sobre este pano de fundo espraia-se uma narrativa viva e fluida acerca da vida medieval nesta parte da Hispânia, com um enfoque muito particular no surto românico – as obras da catedral de Santiago de Compostela servem algumas vezes de cenário –, e o seu enquadramento na sociedade de então.

Después de que el legado del papa terminara su predicación al grito de «¡Dios lo quiere!», se levantó vacilante el emperador.
—En nombre de Dios Todopoderoso —declaró solemnemente—, que ha creado todo lo que vemos y no vemos, yo, Alfonso, emperador de toda Hispania, os pongo a todos vosotros como testigos para que, cuando yo falte, se repartan los reinos que me pertenecen del siguiente modo: a mi hijo primogénito Sancho le corresponde....
Por un instante le pasaron por la cabeza todos los avatares del reino y las dudas se le agarraban a la garganta. «Sancho es prudente y diplomático, pero es enfermizo, tiene mal de estómago y no termina de curar un catarro cuando otro le sobreviene. Fernando es atolondrado. Primero se lanza y luego lo piensa... o no lo piensa y se olvida y a otra cosa. Si Fernando tuviera la sensatez y la prudencia de Sancho o Sancho la valentía y la fortaleza de Fernando, de cualquiera de ellos sacábamos un magnífico sucesor. Dividir el reino, tal y como me aconsejaron los condes Manrique de Lara y Fernando de Traba, me pareció lo más conveniente entonces, pero ahora que nos atacan los almohades... no sé qué pasará cuando yo falte. Si no le dejara el reino de León, sería capaz de matar a Sancho y se quedaría con todo como el abuelo».
La emoción le ahogaba, tenía la garganta reseca y las toses que ensayaba no le libraron de la afonía. Como los murmullos llegaban de todos los rincones de la basílica, pasó el documento al canciller y le señaló por gestos que leyera bien alto para que nadie tuviera dudas de cuáles eran sus designios.
—Con la venia del emperador: «A mi hijo primogénito Sancho le corresponde toda Castilla con las villas de Segovia y Ávila y todas las tierras al sur del Duero, y todas las villas, castillos y tierras que están detrás de la sierra y también el reino de Toledo... Y además, la Tierra de Campos hasta Sahagún».
—Esto no era lo que yo esperaba —murmuró entre dientes Fernando con un gesto de contrariedad que no pudo disimular—. De un plumazo ha regalado el pan de mi reino al imbécil de mi hermano.
—«Y a mi hijo el rey don Fernando —continuó el canciller— le asigno Asturias y toda Galicia, Zamora, Toro y todo el reino de León».
Sancho, que se había quedado sin la mitad de la herencia que le correspondía como primogénito, tampoco estaba satisfecho a pesar del regalo del granero del reino, pero se consoló al ver la cara de estupefacción de su hermano.
Pero la frontera entre los reinos de León y de Castilla, llana y sin ríos o cordilleras que la delimitasen, era de difícil trazado. Nada se decía del reparto de las tierras de infieles que se conquistaran en el futuro. Y este podía ser un motivo más de fricciones entre los reinos.

7 de outubro de 2016

Los Crímenes de los «Buenos»


Joaquín Bochaca
Los Crímenes de los «Buenos» (1982)

Este livro parte dos critérios utilizados nos julgamentos de Nuremberga – crimes contra a paz, crimes de guerra e crimes contra a humanidade (crimes que não estavam tipificados na época em que foram cometidos) – e aplica-os ao lado vencedor, com resultados demolidores, tanto mais quando boa parte destes crimes foram cometidos após terminar a guerra.
Somos confrontados com o bombardeamento gratuito de cidades e populações, atrás da linha de frente e com o único objectivo de provocar a morte de civis, como se viu no bombardeamento de Dresden, cidade aberta, sem qualquer interesse militar, onde se juntavam centenas de milhares em fuga da frente leste, provocando mais vítimas que Hiroshima e Nagasaki juntas (outras duas cidades sem objectivos militares). Acompanhamos os constantes atropelos às Convenções de Genebra e de Haia por parte dos Aliados, os "bons", e a guerra desleal que, desde a primeira hora moveram contra o Eixo; a manipulação da camarilha de Roosevelt na preparação de um "isco" chamado Pearl Harbour que, finalmente, lhes deu o pretexto que tanto procuravam para levar os EUA a uma guerra alheia; passamos pela farsa do Tribunal de Nuremberga, pela ignomínia do Plano Morgenthau e da Operação Kellhaul; observamos a utilização de mão de obra escrava nos anos que se seguiram ao fim da guerra (não só pela URSS, mas também pela Austrália, França e Inglaterra); verificamos a contabilidade de vítimas que são atribuídas aos "bons", segundo as estimativas mais modestas: 10,5 milhões de mortos por crimes de guerra e depurações, 6,9 milhões de prisioneiros e deportados desaparecidos por violação das Convenções de Genebra, 13,5 milhões de pessoas encarceradas após o fim da guerra por aplicação de leis retroactivas; analisamos o percurso dos protagonistas nas décadas que se seguiram ao confronto, e por fim, o somatório de vítimas atribuídos ao comunismo, segundo um estudo (naturalmente incompleto) publicado por Jean-Pierre Dujardin em 1978: 150 milhões de mortos – temas sombrios lançados ao esquecimento, enquanto se apontavam os holofotes para outro lado. Falava-se dos crimes míticos e pretéritos para que não se falasse dos "crimes dos bons".
Este livro recomenda-se a quem não se conforma com os dogmas da historiografia marxista, com essa leitura errada, mas infinitamente propagandeada pelos mass media, tendo o mérito de recorrer, sempre que possível, ao testemunho escrito de partidários dos Aliados ou, quando muito, de autores tidos como neutrais.
Destacam-se os capítulos dedicados a analisar as condições que levaram ao despoletar da guerra: as absurdas disposições do Tratado de Versalhes, por uma incompetente (ou algo mais?) Sociedade das Nações, foram na realidade o rastilho já aceso que levou a essa nova hecatombe bélica em território europeu, uma guerra procurada a todo o transe por determinadas elites políticas e financeiras anglo-franco-estadounidenses – os chamados poderes fácticos, com o fim inconfessável de proteger a revolução internacionalista soviética, contra a vontade e o sentimento dos seus próprios povos. A forma como a Polónia foi usada como pretexto, e incentivada a criar as condições que levassem à intervenção alemã (e consequente guerra), oferecendo-lhe uma aliança para a qual tanto a França como a Inglaterra sabiam estar impreparadas para responder; mentindo-lhe sobre o poderio militar alemão, desvalorizando-o, e sobre a pretensa impopularidade do regime, fazendo-lhe crer que, mal estalasse a guerra, este seria deposto pela aristocracia militar; acicatou-se o nacionalismo polaco contra as minorias alemãs que viviam dentro das suas fronteiras, numa série de agressões e limpeza étnica que culminaram ao massacre de Bromberg (quantas vezes se ouviu falar disto nos mass media?), nas vésperas da inevitável intervenção do Reich.
Curioso será notar que a segurança e integridade da Polónia, pretexto oficial que levou à guerra, foi esquecido em duas semanas, tempo que mediou a invasão alemã e a violação da sua fronteira oriental pelas tropas soviéticas, que já não mereceu qualquer desagravo. E, passados cinco anos, metade do que era o território polaco foi alegremente entregue pelos autoproclamados "protectores" à URSS, ficando a Polónia como um estado vassalo, no qual importantes cargos do governo e da administração foram ocupados pelos amos soviéticos.

Aunque toda ciudad alemana de alguna importancia fue profusamente bombardeada, cabe hacer especial mención de los bombardeos de Berlín y, sobre todo, de Hamburgo, el 25 de julio y el 3 de agosto de 1943. Los ataques contra los barrios residenciales de la capital hanseática se desarrollaron de noche, y con una saña hasta entonces inigualada. Pero todos los récords de la gratuita violencia fueron batidos en el bombardeo de Dresde, llevado a cabo durante la noche del 13 al 14 de febrero de 1945. Esa fue la más sangrienta acción bélica realizada, a lo largo de toda la Historia del Mundo, contra una población civil. Dresde, se hallaba entonces, a unos 115 kilómetros de las líneas del frente germano-ruso, y a ella habían llegado más de medio millón de refugiados, ancianos, mujeres y niños. Dresde era una ciudad abierta. En ella no habían cuarteles, ni fábricas de armamentos, ni objetivos militares de ningún género. Habían, en cambio, numerosos hospitales, con enormes cruces rojas pintadas en sus azoteas.
En la mañana del 13 de febrero, 35 aviones ingleses de reconocimiento volaron sobre Dresde y tomaron numerosas fotografías, sin ser inquietados por la Luftwaffe, que se hallaba operando en el frente, ni por las defensas antiaéreas, inexistentes en una ciudad residencial cuya única industria era la de cerámicas. Por la noche, 800 bombarderos de la RAF arrojaron sobre la indefensa ciudad, abarrotada de refugiados, una lluvia de bombas explosivas e incendiarias. Al amanecer del día siguiente, una segunda oleada de bombarderos descargó otro alud de fuego. Y horas más tarde, otros 1.200 tetramotores acabaron de machacar la ciudad destruida, avivando la horrorosa pira con latas de petróleo. En total se lanzaron sobre Dresde 10.000 bombas explosivas y 650.000 bombas incendiarias, amén de 15.000 latas de petróleo, de un hectolitro cada una. El escritor inglés F.J.P. Veale, dice: «Para dar una impresión más dramática, en medio del horror general, las fieras del Parque Zoológico, frenéticas por el ruido y por el resplandor de las explosiones, se escaparon. Se cuenta que estos animales, así como los grupos de refugiados, fueron ametrallados cuando trataban de escapar a través del Parque Grande, por aviones de caza en vuelo rasante... en dicho parque fueron encontrados luego muchos cuerpos de hombres y animales acribillados a balazos... Para evitar las epidemias causadas por los cadáveres en putrefacción, hubo que organizar gigantescas piras que consumían, cada una, cinco mil cuerpos o pedazos de cuerpos. La espantosa tarea se prolongó durante varias semanas.
«Los cálculos del número total de victimas en ese descomunal bombardeo varían mucho de uno a otro. Algunos elevan la cifra hasta un cuarto de millón. Personalmente nos sentimos inclinados a adherimos a esa cifra». Irving no se atreve a dar cifras aunque opta por la de 235.000 muertos y cabe suponer que el número de heridos debió, al menos, doblar esa cantidad.
[...]
El retrato de este gran hombre quedaría incompleto si no se añadiera su intención de arrojar bombas bacteriológicas sobre Alemania. Según la revista americana Spotlight (8-VI-1981) Churchill quería lanzar bombas venenosas y bacteriológicas sobre Berlín, Hamburgo, Frankfurt y Sttugart, a finales de 1944. El plan consistía en arrojar un millón de pequeñas bombas sobre cada una de esas ciudades; esas bombas contendrían bacterias de ántrax. El ántrax es una enfermedad mortalmente contagiosa, tanto para personas como para animales. Tal vez en medio de una de sus clásicas intoxicaciones etílicas, Sir Winston le dijo al jefe de su departamento de guerra química que investigara si el uso de bombas de gas, especialmente de gas mostaza, y de bombas bactericidas resultaría. Según el funcionario consultado, si el plan se hubiera llevado a la práctica, Berlín sería inhabitable todavía en 1981; el número de muertes no hubiera bajado de los tres millones de personas que, dadas las circunstancias, hubieran sido mayoritariamente mujeres, niños, ancianos y prisioneros de guerra.
Dichas bombas no se usaron por no haberse llegado a producir en número suficiente antes del fin de la guerra. Esta «perla» humanitaria ha sido divulgada, incluso, por la muy oficial B.B.C. Y tal vez convendría recordar aquí, que Hitler, una víctima del gas en la I Guerra Mundial, rehusó emplearlo en la II, y que Churchill fue también el responsable de los primeros campos de concentración para civiles en la guerra contra los Boers.
[...]
Un inciso. Queremos llamar la atención sobre un punto que hemos observado escapa a la atención de los más, pese a su sensacional rareza. En el momento de terminar la guerra de las Democracias contra los Fascismos —nos consta que la denominación no es demasiado precisa, pero debemos esquematizar en aras de la comprensión general— eran líderes de las Cinco Grandes Potencias: Truman, Churchill, Stalin, De Gaulle y Chiang-Kai-Chek. Pues bien; ninguno de estos personajes llegó al poder por medio del Sufragio Universal. Truman sucedió automáticamente a Roosevelt, como Vice-Presidente que era, a la muerte de este, pero nadie le había votado como Presidente. Churchill llegó a Primer Ministro por una maniobra de pasillos en el Parlamento, pero el pueblo inglés no le votó, y en cuanto tuvo ocasión de votarle, le echó a la calle. [El pueblo inglés se hartó de negarle sus votos a Churchill. Para tan ferviente creyente en la taumaturgia de la Democracia eso debió ser desmoralizador y traumatizante. Fue, sucesivamente, derrotado en elecciones parciales a diputado cuando se presentó por los laborales, los jóvenes conservadores, los laboristas independientes y los conservadores. Llegó a Primer Ministro merced a una maniobra de pasillos en el Parlamento. Cuando volvió a ser Premier en 1951, lo hizo al alimón con Eden, pero al retirarse discretamente este, cual estaba convenido, el culto pueblo británico volvió a echarle. (N. del A)]
Stalin y Chiang-Kai-Chek eran dos dictadores y nunca habían sido votados. Y De Gaulle, desde 1944 hasta 1948, permaneció en el Poder sin someter su augusta persona a ninguna votación.
Se ha dicho que fue la guerra de las Democracias contra las Dictaduras. Hemos visto que las democracias estaban encabezadas por individuos que no habían llegado al poder por el sistema del Sufragio Universal. El único que llegó al Poder por ese método fue el Canciller del III Reich, Adolf Hitler. Gustará o no gustará. Pero es un hecho. Y los hechos son tozudos.

24 de setembro de 2016

The Cat Who Walks Through Walls

Robert A. Heinlein
The Cat Who Walks Through Walls (1985)

"Precisamos de si para matar um homem." – Esta é a primeira frase do livro, dita à mesa de um restaurante, e dirigida a Richard Ames, o narrador; quem a pronuncia acaba presumivelmente morto, por um atirador invisível, antes de se passarem cinco minutos. É assim que começa esta história de contornos policiais, cuja primeira parte descreve a fuga de Richard e sua mulher Gwen (as coisas complicaram-se após o atentado), de Golden Rule, uma espécie de cidade-estado na órbita de Luna. A segunda parte, consumada a fuga, passa-se maioritariamente em Hong Kong Luna e Luna City, cenários de The Moon is a Harsh Mistress, quase um século volvido sobre a independência, com a sociedade lunar a caminhar rapidamente para uma autocracia. Mas, também aí a permanência do casal, com a cabeça de Richard posta a prémio, é tudo menos tranquila. No limiar da terceira parte, depois de alguns diálogos prenunciadores, entram em cena muitos dos personagens conhecidos dos anteriores livros da série, como as gémeas Laz e Lor, Tamara, Minerva, Galahad, Maureen, o quarteto protagonista de The Number Of The Beast, e o próprio Lazarus Long, como seria de esperar, entre muitos outros.
Este livro, O Gato que Atravessa as Paredes na versão portuguesa que li em 1991, integra a série História do Futuro; reli-o agora na versão original, na série de livros pertencentes ao ciclo, por ordem cronológica de publicação – o que faz muito mais sentido. É sobretudo na terceira parte, grande parte decorrida em Tertius, que se retoma o fio narrativo condutor da série, aprofundando o tema dos universos paralelos, sendo bastante útil ter lido os livros anteriores para entender as alusões e referências a factos passados.

"Gretchen, when I first met you, less than a week ago, you were as I recall 'going on thirteen.' So how dare you be five centimeters taller, five kilos heavier, and at least five years older? Careful how you answer, as anything you say will be taken down by Teena and held against you at another time and place."
"Did someone mention my name? Hi, Gretchen! Welcome home."
"Hi, Teena. It's great to be back!"
I squeezed Xia. "You, too. You look five years younger and you've got to explain it."
"No mystery about me. I'm studying molecular biology just as I was in Luna—but here they know far more about it—and paying my way by working in Howard Clinic doing unprogrammed 'George' jobs—and spending every spare minute in this pool. Richard, I've learned to swim! Why, back Loonie side I didn't know anyone who knew anyone who knew how to swim. And sunshine, and fresh air! In Kongville I sat indoors, breathing canned air under artificial light, and dickered with dudes over bundling bins." She took a deep breath, raising her bust past the danger point, and sighed it out. "I've come alive! No wonder I look younger."
"All right, you're excused. But don't let it happen again. Gretchen?"
"Grandma Hazel, is he teasing? He talks just like Lazarus."
"He's teasing, love. Tell him what you've been doing and why you are older."
"Well... the morning we got here I asked Grandma Hazel for advice—"
"No need to call me 'Grandma,' dear."
"But that's what Cas and Pol call you and I'm two generations junior to them. They require me to call them 'Uncle.'"
"I'll make them say 'Uncle'! Pay no attention to Castor and Pollux, Gretchen; they're a bad influence."
"All right. But I think they're kind o' nice. But teases. Mr. Richard—"
"And no need to call me 'Mister.'"
"Yes, sir. Hazel was busy—you were so terribly ill!—so she turned me over to Maureen, who assigned me to Deety, who got me started on Galacta and gave me some history to read and taught me basic six-axes space-time theory and the literary paradox. Conceptual metaphysics—"
"Slow down! You lost me."

Li anteriormente:
The Number of the Beast (1979)
Amor Sem Limites (1973)
The Moon is a Harsh Mistress (1966)

7 de setembro de 2016

A Jangada de Pedra

José Saramago
A Jangada de Pedra (1986)

A Jangada de Pedra é um romance que tem como tema principal a misteriosa separação da Península Ibérica do continente europeu, e o igualmente misterioso percurso que a leva a rumar Atlântico fora. Nas primeiras páginas descrevem-se alguns prodígios sucedidos com as principais personagens da obra – Joaquim Sassa, que lança uma pedra a uma distância impossível; José Anaiço, sempre acompanhado por uma nuvem de estorninhos; Pedro Orce, que sente o chão a tremer, apesar de nenhum instrumento de medição o registar; e também um cão dos Pirinéus, Joana Carda, Maria Guavaira e Roque Lozano, todos de alguma forma ligados a pormenores insólitos. Ora, no decurso da narrativa, todos estes personagens acabam por se encontrar e associar, numa viagem nómada que percorre o território da península num grande círculo. Editado numa época em que Espanha e Portugal tinha acabado de entrar na CEE, o livro levanta subtilmente a questão, se seria esse horizonte europeu, realmente, o que mais se adequava aos interesses das nações ibéricas.
José Saramago é um autor controverso, mas, na meia-dúzia de livros que li dele, agradou-me um certo recurso ao fantástico, que me parece aparentado do realismo mágico. Depois de ter lido O Ano da Morte de Ricardo Reis e Memorial do Convento, obras maiores da bibliografia do autor, cheguei a considerar parar por aí. Afinal, seis anos depois, voltei a Saramago...

Avançaram para o interior do círculo, aproximaram-se, o risco lá estava, vivo, como se tivesse sido acabado de traçar, a terra apartada para os lados, húmida a da camada inferior apesar do sol quente. Agora estão calados, os homens não sabem que dizer, Joana Carda não tem que acrescentar mais palavras, é a vez de um acto arriscado que pode tornar em motivo de escárnio toda a sua história maravilhosa. Arrasta o pé pelo chão, arrasa o risco como uma rasoira, pisa e calca, é como um sacrilégio. No instante seguinte, diante dos olhos assombrados de todos, o risco refaz-se, recompõe-se exactamente como fora antes, os torrões minúsculos, os grãos de areia reformam-se, reorganizam-se, reocupam o seu lugar, e o risco reaparece. Entre a parte que fora destruída e o resto, para um lado e para o outro, nenhum sinal se percebe de separação dos efeitos, primeiro e segundo. Diz Joana Carda, numa voz um pouco estridente de nervosismo, Já varri o risco todo, já lhe deitei água, aparece sempre, se quiserem experimentar, até lhe pus pedras em cima, quando as tirei voltou tudo à mesma, experimentem para poderem acreditar. Joaquim Sassa baixou-se, enterrou os dedos no chão fofo, arrancou um punhado de terra, lançou-o para longe, e acto contínuo o risco restabeleceu-se. Foi a vez de José Anaiço, mas esse pediu a vara a Joana Carda, fez com ela um risco profundo ao lado do primeiro, depois pisou-o em todo o comprimento. O risco não se refez. Faça você agora o mesmo, disse José Anaiço a Joana Carda. A ponta da vara cravou-se no chão, foi arrastada, abriu uma ferida longa, logo fechada como uma cicatriz defeituosa quando a calcaram, e assim ficou. Disse José Anaiço, Não é da vara, não é da pessoa, foi do momento, o momento é que conta.

Li anteriormente:
Memorial do Convento (1982)
O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)
As Intermitências da Morte (2005)