24 de outubro de 2017

Nas Montanhas da Loucura

H. P. Lovecraft
Nas Montanhas da Loucura (1936)

Howard Phillips Lovecraft, hoje considerado como um dos mais carismáticos e influentes escritores de literatura fantástica do séc. XX, não publicou um único livro durante a sua vida (se descontarmos a péssima edição de The Shadow Over Innsmouth, em 1936). A sua obra – ensaio, uma novela, várias noveletas, contos e poesia – nem sempre impressa em revistas conhecidas, como a Astounding, a Amazing ou a Weird Tales, espalhou-se por edições amadoras ou jornais regionais, e parecia destinada ao esquecimento, após a sua morte prematura. O empenho dos escritores August Derleth e Donald Wandrei, pertencentes ao seu círculo de amigos e admiradores, resultou na criação da Arkham House, editora destinada inicialmente à publicação dos trabalhos de H. P. Lovecraft. Assim, os livros de Lovecraft são, por norma, colectâneas de contos, mais ou menos organizadas segundo os vários ciclos em que é possível dividir a sua obra.
Nas Montanhas da Loucura trata de uma expedição geológica e paleontológica ao continente antárctico, onde é destruída num ataque por seres primevos que encarnam o próprio mal. O relato é contado em retrospectiva, por um dos sobreviventes, como um apelo desesperado na tentativa de evitar novas incursões àquele continente. Descreve então a descoberta de uma interminável cidade ciclópica, abandonada e semiarruinada, em parte preservada pela camada de gelo glacial, velha de muitos milhões de anos, construída ao longo de eras geológicas por seres vindos do espaço, cuja história deixaram talhada em baixos-relevos omnipresentes nos salões, galerias e túneis que o narrador e um acompanhante percorreram, antes de fugir da ameaça de morte certa.
O tema das viagens ao continente desconhecido já o havia encontrado em Edgar Allan Poe (As Aventuras de Arthur Gordon Pym com o qual este livro partilha uma ligação) e Jules Verne (A Esfinge dos Gelos também relacionado com Arthur Gordon Pym) e, de forma algo diferente, em Vladimir Obrutchev (Terra de Sannikof e Viagem à Plutónia), uma vez mais, Verne (Viagem ao Centro da Terra) ou Arthur Conan Doyle (O Mundo Perdido). No entanto, H. P. Lovecraft é diferente de todos eles, pois traz uma dimensão de horror primordial e sobrenatural, que raramente passa das alusões veladas e das meias-palavras dos personagens, deixando à imaginação do leitor o trabalho de ligar os pontos para completar o desenho.
Os restantes três contos que compõem o livro – A Casa Abandonada, Os Sonhos na Casa Assombrada e O Depoimento de Randolph Carter – são, na minha opinião, mais próximos do horror à Edgar Allan Poe, e cruzam referências (remetem para particularidades de Mountains e também para títulos de outros contos que ainda não li) deixando entrever todo um universo mitológico que H. P. Lovecraft terá criado para os seus contos.

O efeito da visão monstruosa era indescritível, pois parecia fora de dúvida que em sua origem atuara alguma diabólica violação da lei natural. Ali, num altiplano infernalmente antigo, a nada menos de 6.000 metros de altitude, e num meio climático vedado à vida desde uma era pré-humana a não menos de quinhentos mil anos, estenda-se quase até o limite da visão um entrelaçamento ordeiro de pedras que só o desespero da legítima defesa mental poderia deixar de imputar a uma causa consciente e artificial. Havíamos descartado anteriormente, para todos os efeitos de cogitação séria, qualquer teoria de que os cubos e muralhas das encostas não tivessem origem natural. Como seria de outra forma, se o próprio homem mal poderia ser diferenciado dos grandes macacos à época em que aquela região sucumbira ao presente reino ininterrupto de morte glacial?
No entanto, agora a razão parecia irrefutavelmente abalada, pois aquele emaranhado ciclópico de blocos aplainados, recurvados e dispostos em ângulos possuía características que invalidavam todo e qualquer refúgio seguro. Era, com inescapável clareza, a cidade blasfema da miragem, numa realidade crua, objetiva e inelutável. Aquele prodígio maldito tivera, afinal, um fundamento material — uma camada horizontal de poeira de gelo pairara, suspensa, na atmosfera superior e aquela chocante sobrevivência de pedra havia projetado sua imagem para o outro lado das montanhas, obedecendo às leis simples da reflexão. O fantasma, naturalmente, chegara a nós distorcido e exagerado, exibindo, ademais, coisas que a fonte real não continha. Agora, porém, vendo-lhe a fonte real, nós a julgávamos ainda mais tétrica e ameaçadora que sua imagem distante.

13 de outubro de 2017

Música ao Longe

Érico Veríssimo
Música ao Longe (1935)

Sobre Música ao Longe, é o próprio Érico Veríssimo quem, no Prólogo, datado de 1961, o considera um livro medíocre, apressado (foi escrito em menos de um mês para concorrer a um prémio literário), embora não desprovido de méritos. O tema, diz, poderia ter comportado uma certa grandiosidade, e a história exigia um tratamento sério e de certa profundidade. A razão disto, segundo o autor, deve-se ao facto de ter recorrido ao diário da jovem Clarissa, sem experiência suficiente para avaliar o drama da família, nem para compreender as suas causas profundas.
Clarissa é a mesma personagem do livro de 1933, agora regressada a Jacarecanga como professora recém-formada. O drama da sua família – os Albuquerques, outrora poderosos e ilustres –, mais do que o aperto financeiro, pois o pai perdeu terras e gado, restando-lhe apenas a casa que acabará por hipotecar, é também o da decadência física e moral dos seus parentes. Música ao Longe é o confronto do desencanto pessoal de Clarissa, a jovem adulta na posse de um novo entendimento, vertido no diário, com os dias despreocupados da sua infância. São os horizontes estreitos da sua terra, que lhe prometem uma vida para a qual não consegue encontrar sentido, e Vasco, o primo considerado a ovelha-negra da família que aguarda o momento certo para partir dali. Entre os dois nascerá uma certa cumplicidade, originada no entendimento mútuo e no desconforto que a ambos assola.
Este livro acabou por ganhar o Prémio de Romance Machado de Assis, instituído em 1934, ao qual concorreu; se todos os livros “medíocres” fossem como este, certamente não ficávamos mal servidos.

Nicolina entra trazendo os pires com compota de pêssego.
— Não tem outra sobremesa? — pergunta João de Deus.
— Esta é a única.
— Por que não mandas buscar uma goiabada ali no Café do Pires?
O olhar de D. Clemência é uma resposta eloquente. João de Deus compreende.
— Ele também não quer fiar?
A mulher sacode afirmativamente a cabeça.
João de Deus empurra o prato, amarfanha o guardanapo com uma expressão de raiva na cara bronzeada, ergue-se de repente e começa a passear dum lado para outro, resmungando:
— Corja! Me negarem crédito... Logo pra mim! Pra mim!
Cleonice, de cabeça baixa, come a sua compota. D. Clemência olha para o marido. Clarissa nem ousa erguer os olhos.
Como uma fera enjaulada, João de Deus caminha da mesa até a janela, com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa. Vai e volta, de lá pra cá, de cá pra lá...
— Patifes! O velho Olivério já matou a fome de toda essa cachorrada e agora um filho dele não tem crédito nem para uma lata de goiabada! Patifes!
D. Clemência sacode a cabeça abandonadamente. Cleonice pede mais uma metade de pêssego.
— O Pires! — continua a resmungar o bisneto do general Zé Pedro. — O Pires que andava de roupa rasgada. Papai chamou ele, deu casa, deu comida e depois ainda por cima emprestou dinheiro pra esse ordinário se estabelecer. Sim senhor! Hoje vai-se buscar uma lata de goiabada e ele diz: "Não se fia!" O Pires!
— Mas, João de Deus — observa a mulher — o coitado tem razão, já devemos cinco meses de fornecimento, também o homem não pode viver de promessas...
João de Deus estaca de repente. Olhos chispantes, ele cresce para a mulher:
— Tu também? Dando razão àquele porco? Era só o que faltava! O Pires!

Li anteriormente:
Caminhos Cruzados (1935)
Clarissa (1933)
Olhai os Lírios do Campo (1938)

10 de outubro de 2017

Tesla y la Conspiración de la Luz

Miguel A. Delgado
Tesla y la Conspiración de la Luz (2014)

O nome de Nikola Tesla está associado ao campo magnético alternado, que tornou possível a electricidade na forma de corrente alterna. Na sua época, Thomas Edison, talvez o mais prolífico inventor de todos os tempos, insistia erradamente na via da corrente contínua. Tesla era, talvez, mais visionário que Edison (com quem chegou a trabalhar) – veja-se, por exemplo as suas experiências com a ressonância –, mas, em lugar de se ter dedicado a grandiosos projectos que nunca foram levados à prática, se tivesse seguido o caminho de Edison, que se concentrou na massificação das suas invenções, talvez hoje o seu nome fosse mais reconhecido (a sua personalidade excêntrica e solitária também não o ajudou). Há mesmo quem pense que, se tivesse sido levado a sério, a sua física nos teria conduzido a um mundo diferente...
Este livro leva-nos a um 1931 paralelo, a uma Nova Iorque onde as ideias visionárias de Tesla se converteram em realidade e transformaram os EUA numa potência tecnológica (ainda) mais avançada. O Titanic não se afundou, a Grande Guerra foi ganha com a ajuda de autómatos norte-americanos, Trotsky está à frente da União Soviética, a energia eléctrica sem fios (transmitida por ondas) é abundante e barata, os céus são cruzados por enormes fusos – os “oceânicos” – dirigidos por feixes eléctricos, existem tantos veículos citadinos terrestres como aéreos, a iluminação nocturna é dada por uma aurora artificial, e o controlo do clima é uma realidade. O tempo é de prosperidade e segurança (a crise bolsista de 1929 não passou de um leve solavanco), porém, tudo isto é atribuído a Thomas Edison, herói nacional, detentor de um poderosíssimo conglomerado industrial, partilhado por Marconi e J.P. Morgan Jr., enquanto Tesla vive isolado e na pobreza.
A história gira em torno de Edgar Kerrigan, um jovem de 19 anos, um estafeta de entregas porta-a-porta, que no seu trabalho tripula um “aéreo”, mas ambiciona vir a ser piloto de “oceânicos”. Tem por Edison uma admiração ilimitada, mas as circunstâncias vão fazê-lo presenciar o ruir do relato em que sustentava a sua vida e as suas ambições. Com a morte de Edison há, aparentemente, quem pretenda desmascarar o mito e devolver a Tesla o lugar que lhe é devido, colocando em risco interesses instalados. Mas sob esse pretexto está uma gigantesca conspiração que visa apenas tomar o poder e exercer a vingança.
Tesla y la Conspiración de la Luz é, assim, uma interessante incursão no subgénero da história alternativa, ou da realidade paralela, com personagens históricas conhecidas mas onde os eventos divergem daqueles que conhecemos. Trata-se do primeiro romance de Miguel Ángel Delgado, escritor e jornalista, divulgador da figura e do legado de Tesla e co-comissário de uma grande exposição, apresentada em Madrid no mesmo ano da publicação deste livro, dedicada ao génio do inventor sérvio.

Otro sonido metálico, similar al anterior, le hizo volverse instantáneamente, cuando estaba empezando a sentarse de nuevo en su terrestre. Esta vez había sonado más cerca, en la otra fila. Y no se extinguió de manera inmediata. Quedó algo, un leve zumbido, casi imperceptible, que permaneció en el ambiente, al límite de lo audible. Un sonido que simulaba desaparecer cuando le prestabas atención, pero que volvía a estar presente en cuanto lo abandonabas, como hacían los gatos, en su infancia, cuando los perseguía.
De improviso, el mismo sonido se multiplicó, más cerca, más lejos, chasquidos metálicos que recorrieron las formaciones de autómatas. Y la suma de los zumbidos, apenas perceptibles por sí solos, formó una masa perfectamente audible, creciente, de mecanismos en espera...
... que ya no era lo único que surgía de allí. También había movimiento.
Al principio, fue más una intuición que una visión real. Hasta que percibió claramente cómo una de las decenas de cabezas que formaban en aquel almacén se alzaba y giraba con lentitud. A los ruidos mecánicos, se unieron otros prolongados, neumáticos, de articulaciones desperezándose, de sistemas recolocándose para abandonar su estado de hibernación.
Y finalmente, la luz. Desde un rincón, cuando los primeros focos de los grandes e inhumanos ojos se prendieron. Y luego, como una marea que fuera extendiéndose por la oscuridad, de las formaciones enteras que comenzaban a elevarse, mientras las máquinas abandonaban sus posiciones semiflexionadas para alzarse sobre sus poderosas patas.
Demasiado, en todo caso, para Jonathan, que logró superar la parálisis de su boca abierta y su cuerpo inmovilizado para saltar, no sin antes perder la linterna por el camino (no la necesitaba, el almacén entero era ya un hervidero de luz, ruidos y vida mecánica), hasta su terrestre y arrancarlo.
Nunca le pareció más lento aquel vehículo, apenas una modificación de los que los oficiales empleaban en los campos de golf, ridículo mientras intentaba alcanzar, con dificultad, el portalón de salida. No se atrevió a mirar hacia atrás; los retrovisores apenas dejaban ver otra cosa que grandes pechos metálicos, brazos potentes con ametralladoras y tenazas, cabezas grotescamente pequeñas con los focos de los ojos mirando en la misma dirección que él, la de salida.
Finalmente, ganó el exterior. Por un momento, se engañó pensando que todo seguía igual, que lo ocurrido en aquel almacén era tan sólo una alucinación, un momentáneo error que pronto sería devuelto al estado previo, el que debía tener. Pero no tardó en comprender que no sería así, que estruendos similares estaban surgiendo de los otros almacenes. Y, de hecho, pudo ver cómo las primeras formas levemente humanoides, pequeñas por la distancia, estaban saliendo del más alejado.
Procedió a girar el vehículo para moverse en el sentido contrario, en busca de refugio en el edificio del regimiento. Pero, en ese momento, el terrestre se detuvo, quedó muerto por más que intentara girar un volante que se había quedado inmóvil como una piedra. Las pequeñas luces de posición y el foco delantero se apagaron.
Y no sólo ellos: la entera iluminación del complejo dejó de funcionar. Todo lo que podía abarcar su vista se desvaneció. Hacia delante, fue como si una mano oscura descendiese sobre las instalaciones de Fort Dix, un viento helado suficiente para apagar de una sola vez miles de pequeñas velas de cumpleaños. Ante los ojos asombrados de Jonathan, la mancha de negrura se extendió más y más hacia el horizonte, y pronto sólo algunos resplandores a lo lejos, lo que llegaba hasta allí del gran conglomerado de la metrópolis de Nueva York, parecía arañar algo de la repentina oscuridad.

5 de outubro de 2017

The Fall of Western Man

Mark Collett
The Fall of Western Man (2017)

Mark Collett foi dirigente da juventude do British National Party, director publicitário do partido, um dos responsáveis pela sua revista «Identity», e apoiante da saída da Grã-Bretanha da UE. The Fall of Western Man retoma o tema do iminente colapso do Ocidente europeu, numa argumentação clara e sensata, por vezes circular e retro-alimentada para evidenciar a interligação dos temas, em que cada um dos capítulos é um verdadeiro tratado de análise sociológica.
Mark Collett explica a queda do Ocidente europeu como um reflexo de um assalto dirigido por aqueles que designa como «enemies of the West» a um alvo puramente mental. Assim, torna-se necessário entender o funcionamento da mente para entender como ela pode ser manipulada e atacada. Daí a descrição da sua estrutura: em primeiro lugar o id, subconsciente, ligado aos instintos e aos impulsos, regido pelo princípio do prazer, exigindo satisfação imediata sem consideração pela realidade ou pela lógica. Depois o ego, ou princípio da realidade, moderador do id, procura o modo viável de satisfazer o id, evitando a dor, as consequências negativas, ou colocar a sobrevivência em risco, independentemente de qualquer avaliação moral. Por fim, o superego, apreendido pela educação paternal e comunitária, controla os impulsos do id através de um enquadramento moral e social, funcionando em dois níveis separados: a consciência e o ideal do ego. A consciência abarca o sistema de valores e as normas sociais, levando à culpa ou vergonha cada vez que o id reclama a transgressão destes limites; quanto ao ideal do ego incorpora os modelos de referência que desejamos emular, e dá uma imagem ideal do indivíduo que aspiramos ser.
Demonstra depois a importância de um forte superego, a forma como ele foi alcançado, no seio da família nuclear como espaço formativo do indivíduo e base da sociedade ocidental, e o seu papel decisivo na partilha e transmissão de valores morais e da tradição, de pais a filhos, unificador dessa mesma sociedade coesa e forte, uma fórmula de sucesso que permitiu ao Ocidente europeu atingir os seus mais notáveis feitos. A família nuclear, como espaço fulcral no fornecimento de modelos de referência à criança e ao jovem, através da figura maternal e bondosa da mãe, bem como da figura disciplinadora e autoritária do pai, proporcionou como tal o reforço do superego colectivo, que se traduziu nas virtudes do sacrifício pessoal em prol do interesse comunitário, espelhadas no esforço, na dedicação, e na ordem. O ataque ao Ocidente europeu teria de passar, forçosamente, pelo ataque à família, dirigido precisamente ao seu âmago mais profundo: a mente.
A chave residiu na libertação do id e no enfraquecimento do superego, numa tarefa paulatinamente levada a cabo durante algumas décadas, focada na acção sobre as novas gerações, separando-as do seu passado e da sua História, destruindo assim o futuro da civilização. A ruptura deu-se em várias frentes simultâneas conjugadas nesse único objectivo. Em primeiro lugar na promoção de famílias monoparentais, desequilibrando assim o espaço formativo da criança com a ausência de um dos modelos de referência. Depois na destruição da rede de segurança que existiu no passado sob a forma de barreiras e enquadramentos sociais que nunca deixavam a criança desprotegida face a essa fatalidade: os líderes comunitários e as figuras disciplinadoras ligadas à escola, à igreja ou à autoridade, como origem de modelos de referência, foram desacreditados. A seguir, pela substituição de modelos positivos por modelos negativos, maioritariamente dados pelos media na promoção de “celebridades” e afins, com a mesma mensagem de sempre: o hedonismo e o prazer como prioridade, a supremacia do id – o que teve como consequência o exacerbar do individualismo, e a atomização do indivíduo.
Destaca-se também o papel do feminismo nesta derrocada do Ocidente europeu, ao longo de três capítulos que lhe são dedicados. Trata-se de um ataque à mulher, menosprezando o seu lugar na sociedade, levando-a a emular os atributos masculinos numa competição sem sentido, em busca de uma falsa igualdade, uma competição de consequências nefastas na taxa de natalidade e no desenvolvimento mental dos filhos, devido à alteração do papel maternal no apoio ao crescimento e formação da geração seguinte, ao mesmo tempo que induz a divisão e a desconfiança entre os sexos. Ao estabelecer uma dicotomia em que homens e mulheres são inimigos naturais, o feminismo visa a destruição da unidade familiar, base da civilização ocidental. Os filhos tornaram-se indesejados, vistos como um gasto de tempo e dinheiro que sobrecarrega a mulher, uma barreira entre ela e os seus objectivos materialistas. O feminismo visa não apenas atacar a feminilidade e a maternidade, mas também o homem e o casamento, proporcionando a quebra da natalidade como mais um meio de ataque ao futuro do Ocidente, num momento em que uma emigração descontrolada, e culturalmente agressiva, rapidamente desequilibra a balança populacional e faz o resto do trabalho.
Estes são os temas tratados na primeira metade do livro e, para não sobrecarregar este texto, direi apenas que a segunda metade é ainda mais assertiva no desmascarar dos processos infames movidos contra a nossa essência civilizacional, embora nada do que é descrito seja propriamente novidade para quem já conseguiu romper o muro da desinformação e descodificar o marxismo cultural.
The Fall of Western Man é um livro essencial e só espero que alguém tenha a ousadia de o traduzir e publicar em língua portuguesa. Para o ler em inglês basta ir ao sítio www.thefallofwesternman.com, que também o disponibiliza gratuitamente.

The rise of the id is present before the collapse of any civilisation. Every great nation or civilisation that has collapsed has embraced the cult of individualism, and the individual has been increasingly motivated by the pursuit of endless and immediate pleasure.
This is of course exactly what the enemies of Western man have planned. The enemies of the West understand the complex working of the human mind and realise that to break a community and turn that community into a group of disparate individuals all that needs to be done is to convince those people to give in to their immediate desires.
Even with immigration and multiculturalism, the enemies of the West knew that Western man would still have a fighting chance of survival – in fact better than a fighting chance. Even if Western man was outnumbered by hostile cultures and peoples, as long as Western man retained his own culture and sense of community he could always fight back – and if history has taught us one thing, it is that Western man would likely have prevailed.
It was not merely enough to flood the Western world with different groups of immigrants who viewed the West with envious eyes. The enemies of the West knew that the Western community spirit – the Western superego – must also be broken in order to ensure there would be no fight back or resistance.
The last thing Western man will see is the look of insane mirth upon the faces of the Western revellers as Western civilisation, culture and traditions collapse and are lost forever. Thousands of years of heritage will be lost in a matter of decades as the last generations of Western man compete in a desperate struggle to live for the moment and satisfy their every primal need with no thought for the future or the wider consequences their actions might have for the West.
The enemies of the West know that the rise of the id precedes the fall of Western man, and they sit rubbing their hands and biding their time as the final days of the West rapidly approach.
[...]
The death of the Western superego precedes the fall of Western man and the destruction of Western civilisation itself. The period we are now living in can be described as the end times for Western civilisation and the next few generations of Western man will bear witness to the death of the West. The conditions for a perfect storm are now in place and in that storm the West will be washed away and consigned to the history books – if indeed history books are ever written again in the absence of Western man.
The death of the West will not come about in one magnificent yet tragic final battle that eclipses all others that have gone before it. The death of the West will not occur in some 'race war' or in a series of great conflicts where battle lines are clearly drawn and armies clash in a final epic military engagement. The death of the West will be a creeping one – like a cancer that eats away at an organism, slowly weakening the suffering creature over a long period of time. The death of the West will be akin to a death of a thousand cuts rather than one significant blow.
Many have theorised that eventually immigrants that have come to settle in the West and whose communities have grown in size will one day turn on Western man – that foreign communities will form a fifth column within the West and initiate a great conflict on Western soil. This theory surmises a racial or religious conflict on a grand scale between Western man and those immigrants who have come to settle in the West yet retained a culture that is hostile to that of Western culture.
This theory of a great war is not only misguided, but is also highly damaging to the cause of saving Western man. It relies on the idea that Western man is who he once was and that he still has his mind, body, soul and heart intact. The idea of a great racial or religious war – and one where Western man would be victorious – is actually laughable. This war will never take place, but instead the death of the West will take place house by house, street by street, town by town and city by city, like a creeping shroud falling over Western nations.

23 de setembro de 2017

Tortilla Flat

John Steinbeck
Tortilla Flat (1935)

Tortilla Flat é o nome de um morro nos arrabaldes pobres de Monterey, na costa californiana, habitado por hispânicos, italianos, índios e outros desfavorecidos da escala social. Aqui conhecemos Danny, vadio e alcoólico, a quem calha em herança um par de casas degradadas. Pilon, seu amigo de desventura, faz um trato de arrendamento da casa mais pequena, que ambos sabem não ser para cumprir, pois vivem na penúria e cada dólar que conseguem arranjar serve para comprar vinho. Sucessivamente vão sendo apresentados Pablo, Jesus Maria, o Pirata e os seus cinco cães, Big Joe Portagee, outros tantos vadios, ao longo de capítulos que descrevem situações diferentes mas conclusivas, numa estrutura semelhante aos episódios de uma série televisiva. Entretanto a segunda casa arde, e todos se mudam para a casa de Danny.
Tortilla Flat, que em português foi titulado como O Milagre de S. Francisco ou Boêmios Errantes, é uma novela escrita num registo leve, com descrições cheias de humor. As personagens, quase todas dependentes do vinho, arranjam as desculpas mas esfarrapadas para justificar perante si próprias a cedência ao seu vício, tentando convencer-se que, quando fazem algo em seu próprio benefício, o fim último dos seus actos é o altruísmo. Não se pense contudo que Steinbeck atribuiu as estas personagens um mau carácter, ou que quis gozar com a pobreza. Pelo contrário, estas almas simples não regateiam a amizade e também são capazes de se entreajudar com pouco que podem oferecer.

Time is more complex near the sea than in any other place, for in addition to the circling of the sun and the turning of the seasons, the waves beat out the passage of time on the rocks and the tides rise and fall as a great clepsydra.
Danny began to feel the beating of time. He looked at his friends, and saw how with them every day was the same. When he got out of his bed in the night and stepped over the sleeping paisanos, he was angry with them for being there. Gradually, sitting on the front porch, in the sun, Danny began to dream of the days of his freedom. He had slept in the woods in summer, and in the warm hay of barns when the winter cold was in. The weight of property was not upon him. He remembered that the name of Danny was a name of storm. Oh, the fights! The flights through the woods with an outraged chicken under his arm! The hiding places in the gulch when an outraged husband proclaimed feud! Storm and violence, sweet violence! When Danny thought of the old lost time, he could taste again how good the stolen food was, and he longed for that old time again. Since his inheritance had lifted him, he had not fought often. He had been drunk, but not adventurously so. Always the weight of the house was upon him; always the responsibility to his friends.
“Tea made from yerba buena will be good,” Pilon suggested. “If you will go to bed, Danny, we will put hot rocks to your feet.”
It was not coddling Danny wanted, it was freedom. For a month he brooded, stared at the ground, looked with sullen eyes at his ubiquitous friends, kicked the friendly dogs out of his way.
In the end he gave up to his longing. One night he ran away. He went into the pine woods and disappeared.

Li anteriormente:
A um Deus Desconhecido (1933)
O Inverno do Nosso Descontentamento (1962)

10 de setembro de 2017

Las Fuerzas Extrañas

Leopoldo Lugones
Las Fuerzas Extrañas (1906)

A obra de Leopoldo Lugones estende-se à poesia, ao ensaio, aos estudos académicos e também à narrativa breve, onde foi um brilhante percursor dessa tradição argentina à qual se dedicou durante mais de quarenta anos. Esta faceta está reunida, de forma não exaustiva, em quatro livros publicados entre 1905 e 1924.
Las Fuerzas Extrañas é um desses livros, composto por doze contos seguido de uma cosmogonia esotérica, escritos entre 1897 e 1906; três ou quatro contos seguem uma linha de proto-FC com afinidades a H. G. Welles e os restantes debruçam-se sobre questões parapsicológicas ou metafísicas, ou remetem para o campo mitológico ou lendário, alguns deles em aproximação ao universo de Edgar Allan Poe. Cada um destes doze contos, segundo o prefácio, explora temas caros à teosofia. O texto final tem características diferentes: é a transcrição de um relato, em dez lições, a que se somam um prólogo e um epílogo dados pelo ouvinte desse relato, destinado a fornecer o enquadramento teórico geral para os textos que o precedem.
Las Fuerzas Extrañas vinha referenciado como um pioneiro da ficção-científica argentina. Mas não será bem assim – no cômputo geral insere-se melhor na literatura fantástica de tradição romântica. De grande utilidade é o “estudo preliminar”, à laia de prefácio, de Pedro Luis Barcia, que analisa detalhadamente cada um dos textos e fornece o adequado contexto.

Apenas dos o tres especies de aves cuyas alas no tenían plumas, sino escamas como las de las mariposas, y cuyo tornasol preludiaba el oro inexistente, remontaban su vuelo por la atmósfera fosfórica.
Era ella tan elevada, y el vuelo tan vasto, que las llevaba cerca de la luna. El arrebato magnético del astro solía embriagarlas; y como éste poseía entonces una atmósfera en contacto con la terrestre, afrontábanla en ímpetu temerario yendo a caer exánimes sobre sus campos de hielo.
Una vegetación de hongos y de líquenes gigantes arraigaba en las aún mal seguras tierras; y no lejanos todavía del animal, en la primitiva confusión de los orígenes, algunos sabían trasladarse por medio de tentáculos; tenían otros, a guisa de espinas, picos de ave, que estaban abriéndose y cerrándose; otros fosforecían a cualquier roce; otros frutaban verdaderas arañas que se iban caminando y producían huevos de los cuales brotaba otra vez el vegetal progenitor. Eran singularmente peligrosos los cactus eléctricos que sabían proyectar sus espinas.
Los elementos terrestres se encontraban en perpetua inestabilidad. Surgían y fracasaban por momentos disparatadas alotropías. La presión enorme apenas dejaba solidificarse escasos cuerpos. Las rocas actuales dormían el sueño de la inexistencia. Las piedras preciosas no eran sino colores en las fajas del espectro.
Así las cosas, sobrevino la catástrofe que los hombres llamaron después diluvio; pero ella no fue una inundación acuosa, si bien la causó una invasión del elemento líquido. El agua tuvo intervención de otro modo.

1 de setembro de 2017

Revolta Contra o Mundo Moderno



Julius Evola
Revolta Contra o Mundo Moderno (1934)

Há menos de três anos o nome de Julius Evola era para mim absolutamente desconhecido. Uma série de artigos publicados num semanário prenderam-me a atenção e, desde então, devo ter lido centenas de páginas em artigos e excertos da sua obra. Estas leituras não só o transformaram, a meus olhos, no mais importante pensador do séc. XX, como me levaram a outros filósofos – René Guénon, por exemplo nas referências aí contidas.
Datado de 1934 – e certamente objecto de revisões em edições posteriores, pois refere-se factos sucedidos após essa data – Revolta Contra o Mundo Moderno é, como eu já sabia, uma análise demolidora da modernidade, das suas crenças e fundamentos, da causas da involução e degradação civilizacional que atinge o Ocidente em geral e a Europa em particular; Evola descreve as características da civilização tradicional e os factores que, uma vez postos em marcha, a arrastam fatalmente à queda. Por isso não existe aqui qualquer réstia de esperança; identificado tempo presente como a Idade última, que antecederá uma restauração das condições primordiais (em Evola o tempo é cíclico e não linear), não nos caberá viver o novo amanhecer. Neste combate de causa perdida, «preocupemo-nos só com uma coisa: manter-nos de pé num mundo de ruínas».
Essa será a precisa razão porque Julius Evola continuará a ser um ilustre desconhecido: num mundo em que o materialismo triunfou sobre a espiritualidade, as suas ideias e os valores que promove parecem deslocados, ultrapassados, para além da “razoabilidade”ninguém gosta de más notícias, o discurso do “progresso” parece muito mais atraente. Daí a profunda cortina de silêncio sobre o autor e respectiva obra, a desvalorização e o enviesamento – basta ler o que qualquer enciclopédia corriqueira dirá sobre ele, suficiente para afugentar quem lá tiver chegado por acaso –, quando não o apagamento puro e simples.

É uma palavra de ordem que faz parte das convenções da historiografia moderna a exaltação polémica da civilização do Renascimento contra a medieval. Se não se tratasse de uma das numerosas sugestões difundidas na cultura moderna pelos dirigentes da subversão mundial, teria de se ver nisso a expressão de uma incompreensão típica. Se, depois do fim do mundo antigo, houve uma civilização que tenha merecido o nome de Renascimento foi precisamente a Idade Média. Na sua objectividade, no seu «virilismo», na sua estrutura hierárquica, na sua soberba elementaridade anti-humanística, tão frequentemente penetrada de sacro, a Idade Média foi como que uma nova chama do espírito da civilização una e universal das origens. A verdadeira Idade Média surge-nos sob características clássicas, e em nada românticas. O carácter da civilização que se lhe sucedeu tem um significado totalmente diferente. A tensão que durante a Idade Média tinha tido uma orientação essencialmente metafísica degrada-se e muda de polaridade. O potencial anteriormente recolhido sobre a direcção vertical — para cima, como no símbolo das catedrais góticas — descarrega-se no presente na direcção horizontal, para fora, produzindo, por sobressaturação de planos subordinados, fenómenos capazes de sensibilizar o observador superficial: na cultura a irrupção tumultuosa de múltiplas manifestações de uma criatividade quase totalmente privada de toda a base tradicional ou meramente simbólica, e portanto profana e dessacralizada; no plano exterior, a expansão quase explosiva dos povos europeus no conjunto de todo o mundo no período dos Descobrimentos, das explorações e das conquistas coloniais, que corresponde mais ou menos ao do Renascimento e do Humanismo. São os efeitos de uma libertação de forças idêntica à que se produz durante a decomposição de um organismo.
Pretendeu-se ver no Renascimento, em muitos dos seus aspectos, um retomar da civilização antiga, descoberta de novo e reafirmada contra o sombrio mundo do cristianismo medieval. Trata-se de um grave equívoco. O Renascimento só retomou do mundo antigo formas decadentes, e não as das origens, que estavam penetradas de elementos sacros e suprapessoais, ou então retomou-as desprezando completamente estes elementos e utilizando a herança antiga numa direcção absolutamente diferente. No Renascimento a «paganidade», de facto, serviu essencialmente para desenvolver a simples afirmação do Homem, para fomentar uma exaltação do indivíduo, que passa a inebriar-se com as produções de uma arte, de uma erudição e de uma especulação privadas de qualquer elemento transcendente e metafísico.
[...]
No seu sentido mais geral, o humanismo pode-se dizer que é o estigma e a palavra de ordem de toda a civilização que se libertou das «trevas da Idade Média». Com efeito, esta civilização já só conhecerá o homem: é no homem que começarão e acabarão todas as coisas; é só no homem que assentam os céus e os infernos, as glorificações e as maldições que agora serão conhecidas. É este mundo — o outro do verdadeiro mundo — com as suas criações da febre e da sede, com as suas vaidades artísticas e os seus «génios», com a selva das suas máquinas e das suas fábricas e, por fim, com os seus chefes populares, que constituirá o limite para o homem.
A primeira forma sob a qual aparece o humanismo é o individualismo. Este caracteriza-se pela constituição de um centro ilusório fora do centro verdadeiro, como pretensa prevaricação de um «Eu» que é simplesmente o mortal do corpo — e como construção por meio de faculdades puramente naturais, que agora criam e defendem, através das artes e ciências profanas, aparências diferentes que, fora deste centro falso e vazio, não têm a menor consistência; verdades e leis essas marcadas pela contingência e pela caducidade próprias de tudo o que pertence ao mundo do devir.
Daí, um irrealismo radical, uma radical organicidade em tudo o que é moderno. Tanto por dentro como por fora, já nada será vida, tudo será construção: ao ser agora extinto, substituem-se em todos os aspectos o «querer» e o «Eu», como que num sinistro sustentáculo racionalista e mecanicista de um corpo morto. Tal como no pulular vermicular das putrefacções, desenvolvem-se então as mil conquistas, as mil superações e as mil criações do homem novo. Abre-se o caminho a todos os paroxismos, a todas as manias inovadoras e iconoclastas, a todo um mundo de uma retórica fundamental em que, tendo-se substituído o espírito pela imagem do espírito, já não conhecerão limites as fornicações incestuosas do homem nos campos da religião, da filosofia, da arte, da ciência e da política.

24 de agosto de 2017

Volfrâmio

Aquilino Ribeiro
Volfrâmio (1943)

Os restos mortais de Aquilino Ribeiro foram trasladados em 2007 para o Panteão Nacional, facto que, nos tempos que correm, não constitui propriamente a melhor das recomendações. O escritor associou-se, durante a juventude, à maçonaria e ao terrorismo carbonário, foi perseguido e encarcerado por conspiração durante a Monarquia. Após a Revolução Nacional de 1926 foi novamente preso, por participação numa revolta, e evadiu-se para França, onde já tinha permanecido em diferentes períodos desde a implantação da República. A partir de 1933, com a atribuição de prémios literários e o reconhecimento da sua obra, Aquilino parece ter esmorecido a veia «activista», excepção feita no apoio da candidatura à presidência de Humberto Delgado, em 1957; contudo, nunca deixou de ser persona non grata no Estado Novo. É considerado um dos romancistas portugueses mais notáveis da primeira metade do séc. XX, e este título está entre os mais representativos da sua obra.
Volfrâmio decorre nos anos da II Guerra Mundial, num ambiente de ruralidade que há muito desapareceu. A exploração desse minério valioso, disputado na indústria bélica, e a miragem de riqueza que proporciona da noite para o dia, afecta profundamente a aldeia e o quotidiano de quantos nela vivem, modificando comportamentos, corroendo a comunidade, deixando um rasto de morte. O volfrâmio, diz uma personagem, «...só lhes serviu para ganhar vícios e maus costumes. Como havia de dar pão uma coisa que é para matar...?!»
A prosa de Volfrâmio é escorreita e atractiva, apesar da catadupa de regionalismos e da escolha de um vocabulário que me obrigaram a interromper constantemente a leitura — obrigado, Priberam!

Lavradores patudos, tão fonas como suspicazes, que noutros tempos seriam insusceptíveis de arriscar uma coroa com o veterinário, se tinham a vaca doente, ou ir à consulta do subdelegado de saúde, se lhes sobreviesse uma tifóide, associavam-se uns com os outros, desmentindo o princípio de que o português era um primário na fase da inaglutinação.
Associavam-se às três pancadas e um pouco à toa revolviam o solo onde aflorasse veio de quartzo, ou qualquer filão encasquetado em granito, rasgando valados e fojos absurdos. Por montes e vales a terra aparecia picada desta furunculose, esvurmadoiros de saibro e rimas de pedra, estilhaçada a pólvora bombardeira e a gatilho. O resultado as mais das vezes era calamitoso. Mas no meio da vesânia geral não havia maneira de um insucesso pôr entraves aos despaurérios da cobiça. Cavavam onde lhes sugeria o sonho, onde punham nada mais que o palpite, à falta dum indicador no género do Livro de S. Cipriano, e em muitos casos sem outra razão que a de serem donos de duas aguilhadas de saibro ou de fraga.
— Vamos experimentar na belga — avisava-se de dizer um belo dia o visionário à tribo congregada. — Pode ser que lá se encontre mamara.
A mamara era o volfro, porque às qualidades nutritivas do leite maternal reunia a vantagem de ser grato Deo. E, dito e feito, viravam a courela desde os penetrais ao húmus. Esgaivavam na seara e no maninho, por baixo das casas e das ruas, e para as bandas do Ladário o fosso foi de tal ordem que se assapou sobre os pesquisadores a capela dum santo. Nas arribas a pique do Cairria, cerca da ponte da Mizarela, trabalhavam firmados em andaimes sucessivos, suspensos por amarras do alto cairel. Uma martelada imprudente cortou a corda e três homens vieram britar-se nos abismos rochosos da torrente. Aqui era uma família que fazia a lavra por sua conta e risco, além um poviléu inteiro que, animado de espírito comunal, manobrava a toque de sino a picareta e a enxada. E acontecia da manhã para a noite ficarem uns podres de ricos, devorarem outros o seu e o alheio.

19 de agosto de 2017

To Sail Beyond The Sunset



Robert A. Heinlein
To Sail Beyond The Sunset (1987)

To Sail Beyond The Sunset é o último livro do ciclo Future History, o terceiro da sub-divisão The World as Myth, publicado no ano anterior ao da morte de Heinlein. O livro é centrado na personagem de Maureen Johnson, mãe de Lazarus Long, que assume o papel de narradora, na primeira pessoa. Maureen, foi apresentada ao leitor na parte final de Time Enough for Love, quando Lazarus viaja no tempo até à sua infância; em The Number of The Beast, Lazarus, com a ajuda das quatro personagens principais e da sua nave senciente Gay Deceiver, concebem uma manobra que resulta na resgate de Maureen, retirada do seu tempo no momento em que historicamente morre por acidente, para ser transportada para Tertius no futuro distante onde Lazarus e o seu clã vivem. Em The Cat Who Walks Through Walls, Maureen era já uma das personagens secundárias integradas no círculo familiar de Lazarus. Daqui facilmente se poderá deduzir que To Sail Beyond The Sunset é novamente ambientado na temática dos universos paralelos, tornada preponderante a partir de The Number of The Beast; na realidade, contém numerosas referências a factos passados nos livros anteriores, mas quatro quintos deste tomo não não têm qualquer assomo de ficção científica.
No capítulo 1 encontramos Maureen, acompanhada de Pixel (o gato que atravessa as paredes), aparentemente apanhada num universo paralelo que não consegue identificar nem se recorda como lá chegou; o desenvolvimento dessa situação é retomado normalmente nos escassos primeiros parágrafos de cada um dos capítulos seguintes, acabando por se mencionar a sua integração no já conhecido Time Corps – uma organização que interfere em diversas linhas temporais tentando “consertar” a História, ou seja, fazer com que ela decorra “no bom sentido”. Será necessário esperar pelos três últimos capítulos para o desenlace desta trama. Entretanto, o grosso de To Sail Beyond The Sunset acompanha em retrospectiva a vida de Maureen Johnson, desde a sua adolescência, em finais do séc. XIX. A educação transmitida pelo pai, Ira Johnson, a revelação dos planos da Howard Foundation, ainda nos primórdios; depois a vida adulta e familiar, o casamento com Brian Smith (personagem que reúne várias características autobiográficas), o nascimento dos dezassete filhos. Como pano de fundo, o panorama histórico da época – as guerras, as mudanças tecnológicas, as convulsões sociais – o que dá a Heinlein a oportunidade para um pequeno e incisivo ajuste de contas com o séc. XX, do qual o excerto abaixo transcrito é um belíssimo exemplo.
O tempo narrativo decorre mais lentamente até aos anos da Grande Guerra – quando se revisita o encontro de Maureen e Lazarus (sob o nome Theodore Bronson) em 1917, já descrito em Time Enough For Love, agora sob a perspectiva de Maureen – e vai progressivamente acelerando à medida que passa pela Terça-feira Negra de 1929, pela II Guerra Mundial e pelas décadas seguintes, com uma paragem em 1952 para descrever com detalhe a relação conflituosa com dois filhos adolescentes; volta a abrandar depois, no capítulo 23, para efectuar a ligação ao argumento de The Man Who Sold the Moon. O capítulo seguinte resume os anos decorridos até 1982, e termina com a sua morte e renascimento em Tertius. E tudo isto com um grande enfoque na sua vida sexual ou dos seus familiares. Nesse aspecto, não fica pedra sobre pedra: os homens deste livro têm uma forte vontade de usar um grande par de chifres, há swingers com fartura e o incesto é coisa pouca – como, aliás, já se havia visto nos livros anteriores. A diferença, aqui, é que o tempo histórico e o fundo sociológico não servem de desculpa, ao contrário de outras circunstâncias verificadas ao longo da Future History (por exemplo em The Moon is a Harsh Mistress).
Isto leva-nos directamente à análise das ideias que Robert A. Heinlein veicula através das suas personagens. Recorde-se que Heinlein seguiu uma carreira militar, a qual se viu forçado a abandonar, por motivos de saúde, aos 27 anos; por isso não surpreende a sua tendência para valorizar a ordem e a hierarquia nem o facto de ser referir sempre em termos apologéticos à instituição militar e respectivos valores. Natural do estado do Missouri, no midwest, a cultura do chamado “Bible Belt” deve tê-lo vacinado de algum modo, pois tornou-se ateu. Apesar do desenfreamento das personagens e das constantes agulhadas à moral e crenças cristãs, isso não transborda da sua esfera privada e participam na vida religiosa da comunidade, cuidando de manter as aparências; afirma-se, algures no capítulo 7, que o Maio de 68 não trouxe o “comportamento de uma cultura verdadeiramente livre; foi apenas a oscilação do pêndulo”. Apesar das mulheres desinibidas que estão no centro deste livro – e noutros da mesma série –, a igualdade de direitos nunca se confunde com o feminismo, pois elas interiorizam e assumem simultaneamente a sua posição mais ou menos tradicional na sociedade. Para além de todas estas contradições há outra ideia, mais que subliminar, a atravessar a narrativa e que se poderia resumir na frase «In Money we trust»... Inicialmente um democrata, Heinlein acabou por se aproximar dos republicanos, embora se considerasse libertário. Acusado de quase tudo – libertino, fascista, fetichista, racista, etc. – este escritor é mais um produto da cultura estado-unidense (ou da falta dela), liberal, eminentemente materialista, e incongruente até ao fim.

Time line three, code Neil Armstrong, is the native world of my sister-wife Hazel Stone (Gwen Campbell) and of our husband Dr Jubal Harshaw. This is an unattractive world in which Venus is uninhabitable and Mars is a bleak, almost airless desert, and Earth itself seems to have gone crazy, led by the United States in a lemming-like suicide stampede.
I dislike studying time line three; it is so horrid. Yet it fascinates me. In this time line (as in mine) United States historians call the second half of the twentieth century the Crazy Years — and well they might! Hearken to the evidence:
a) The largest, longest, bloodiest war in United States history, fought by conscript troops without a declaration of war, without any clear purpose, without any intention of winning — a war that was ended simply by walking away and abandoning the people for whom it was putatively fought;
b) Another war that was never declared — this one was never concluded and still existed as an armed truce forty years after it started... while the United States engaged in renewed diplomatic and trade relations with the very government it had warred against without admitting it;
c) An assassinated president, an assassinated presidential candidate, a president seriously wounded in an assassination attempt by a known psychotic who nevertheless was allowed to move freely, an assassinated leading Negro national politician, endless other assassination attempts, unsuccessful, partly successful, and successful;
d) So many casual killings in public streets and public parks and public transports that most lawful citizens avoided going out after dark, especially the elderly;
e) Public school teachers and state university professors who taught that patriotism was an obsolete concept, that marriage was an obsolete concept, that sin was an obsolete concept, that politeness was an obsolete concept — that the United States itself was an obsolete concept;
f) School teachers who could not speak or write grammatically, could not spell, could not cipher;
g) The nation's leading farm state had as its biggest cash crop an outlawed plant that was the source of the major outlawed drug;
h) Cocaine and heroin called ‘recreational drugs’, felonious theft called ‘joyriding’, vandalism by gangs called ‘trashing’, burglary called ‘ripping off’, felonious assault by gangs called ‘mugging’ and all of these treated as ‘boys will be boys’, so scold them and put them on probation but don't ruin their lives by treating them as criminals;
i) Millions of women who found it more rewarding to have babies out of wedlock than it would be to get married or to go to work.
I don't understand time line three (code Neil Armstrong) so I had better quote Jubal Harshaw, who lived through it. ‘Mama Maureen,’ he said to me, ‘the America of my time line is a laboratory example of what can happen to democracies, what has eventually happened to all perfect democracies throughout all histories. A perfect democracy, a "warm body" democracy in which every adult may vote and all votes count equally, has no internal feedback for self-correction. It depends solely on the wisdom and self-restraint of citizens... which is opposed by the folly and-lack of self-restraint of other citizens. What is supposed to happen in a democracy is that each sovereign citizen will always vote in the public interest for the safety and welfare of all. But what does happen is that he votes for his own self-interest as he sees it... which for the majority translates as "Bread and Circuses".
‘"Bread and Circuses" is the cancer of democracy, the fatal disease for which there is no cure. Democracy often works beautifully at first. But once a state extends the franchise to every warm body, be he producer or parasite, the day marks the beginning of the end of that state. For when the plebs discover that they can vote themselves bread and circuses without limit and that the productive members of the body politic cannot stop them, they will do so, until the state bleeds to death, or in its weakened condition the state succumbs to an invader — the barbarians enter Rome.’

Li anteriormente:
The Cat Who Walks Through Walls (1985)
The Number of the Beast (1979)
Amor Sem Limites (1973)

22 de xullo de 2017

Por Quem os Sinos Dobram

Ernest Hemingway
Por Quem os Sinos Dobram (1940)

Como afirma Ricardo de la Cierva na Historia Total de España, a mitologia da guerra civil deve-se à plêiade de escritores estrangeiros que visitaram e, por vezes, intervieram activamente na guerra espanhola, quase sempre do lado republicano, quando já eram famosos ou estavam prestes a sê-lo; e foram precisamente as suas obras sobre Espanha, quase sempre, que os consagraram de forma definitiva. Embora não tenham faltado autores importantes a escrever sobre o lado franquista – e nomeia-os –, é evidente que o lado republicano contou com uma autêntica constelação de estrelas: Hemingway, Orwell, Bernanos, Malraux, Koestler, Ehrenburg, Koltsov ou Maritain. E – continua – ninguém parece ter percebido que essas obras imortais eram novelas, ou seja, obras de ficção; e que, portanto, a imagem histórica que se forjou noutros países sobre a guerra civil espanhola era uma imagem de ficção.
Ernest Hemingway passou por Madrid, em 1937, no papel de repórter, antes de contribuir para a citada mitologia com este livro, For Whom the Bell Tolls no título original, editado quando as cinzas da guerra ainda fumegavam. Nele se acompanha Robert Jordan, um americano das Brigadas Internacionais, que se junta aos guerrilheiros da montanha, na região de Segóvia, com a missão de dinamitar uma ponte. As quase 500 páginas do livro decorrem nos quase quatro dias que precedem a destruição da ponte e nos momentos seguintes, para as consequências e o desfecho.
A Jordan, o Inglés, pergunta-lhe uma das personagens: «És comunista?» «Não. Sou antifascista» responde ele, numa evasiva dir-se-ia, sendo sabido que, naquela guerra, lutar ao lado dos republicanos era lutar do lado dos soviéticos pelo triunfo do bolchevismo em Espanha – e sem a desculpa da ignorância, porque, já então, era facto bem conhecido que Estaline tinha as mãos sujas de sangue. Depois das descrições de violência gratuita e da relação amorosa com a jovem Maria, a semente da dúvida instala-se na mente de Robert Jordan, agora já não tão indiferente pelo destino dos que o rodeiam. As dúvidas que o assaltam nunca põem em causa as suas convicções, e a razão do lado pelo qual combate, «em prol de todos os pobres do mundo, contra todas as tiranias», conforme a mentirosa cartilha sobejamente conhecida. Mesmo assim, Hemingway resiste a pintar a história a um preto-e-branco panfletário, sendo que a coragem e a generosidade, tal como a malvadez e a estupidez, podem ser encontradas nos dois lados em contenda. A própria citação de John Donne, que abre o livro, onde se diz «a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano», dá o tom apropriado.
Mas, ao escolher o seu «lado», Hemingway, tal como muitos outros ao longo do tempo, terá sentido o suporte de uma duvidosa «superioridade moral» devida a um Governo tido por «legítimo», derrubado pela «tenebrosa revolta fascista». (Em nome desse princípio, quanta asneira se tem feito em Espanha nos últimos 40 anos!). Pois bem: até essa cartada estava viciada, já que os estudos mais recentes (Manuel Álvarez Tardío, Roberto Villa García) e a documentação trazida à luz do dia (as recuperadas memórias de Niceto Alcalá-Zamora, Presidente da República entre 1931 e 1936, roubadas da caixa-forte de um banco madrileno, em 1937, pelo Governo republicano) provam, sem margem para dúvidas, que a Frente Popular foi derrotada na eleições de Fevereiro de 1936 e não teve qualquer pejo em recorrer a um «pucherazo», uma fraude eleitoral, para contornar uma desvantagem de 700 mil votos.

Não, ele executaria as ordens, embora tivesse a infelicidade de gostar das pessoas de quem tinha de servir-se e iria sacrificar.
Todos os trabalhos que os partizans tinham feito sempre haviam dado azar e sempre pioraram a situação dos que os acolhiam e auxiliavam. E para quê? Para que, no fim de contas, o país se visse livre de todos os males e se tomasse um lugar agradável para viver. Era verdade, por mais banal que isso pudesse parecer.
Se a República se desmoronasse tornar-se-ia impossível para os que nela acreditavam viver em Espanha. Mas seria assim? Era, estava certo disso pelo que sabia que vinha acontecendo nas zonas onde os fascistas já dominavam.
Pablo era um porco, mas os outros eram gente espantosa e não seria traição arrastá-los para aquele trabalho? Talvez. Mas se eles não o fizessem, dois esquadrões de cavalaria viriam dentro em pouco caçá-los naquelas montanhas, dentro de uma semana talvez.
Não. Não havia nada a ganhar em deixá-los em paz. A menos que toda a gente fosse deixada em paz e ninguém se metesse com o próximo. Então tu acreditas verdadeiramente que o ideal é deixar toda a gente tranquila? Sim, acreditava em tal. Mas então a sociedade organizada e tudo o mais? Isso competia aos outros. Ele tinha mais que fazer, terminada a guerra. Ele combatia naquela guerra porque a luta irrompera num país que ele amava e porque acreditava na República, e se a República fosse destruída a vida tornar-se-ia impossível para os que acreditavam nela. Estava sob o comando comunista enquanto durassem as operações. Aqui, em Espanha, eram os comunistas que revelavam a melhor disciplina, a mais razoável e a mais sã porque, na condução da guerra, eram o único partido cujo programa e disciplina lhe inspiravam respeito.
Mas que opiniões políticas eram então as suas? Não tinha nenhuma de momento. Mas não iria dizer isso a ninguém. Nunca. É que vais fazer depois? Voltar ao meu país para ganhar a vida a ensinar o espanhol, como dantes e escrever um livro verdadeiro. Tenho a impressão, sonhava ele, tenho a impressão de que me será fácil.

Li anteriormente:
O Sol Nasce Sempre (Fiesta) (1926)
O Adeus às Armas (1929)
Ilhas na Corrente (1970)

25 de xuño de 2017

La Rebelión de las Masas


José Ortega y Gasset
La Rebelión de las Masas (1930)

Julián Marías alerta, no prólogo, que este livro – o mais conhecido de Ortega y Gasset – suscitou muitos mal-entendidos, dado ser apenas uma parte do conjunto da obra do autor, na qual estão as suas raízes e a sua justificação; A Rebelião das Massas será um capítulo de sociologia integrado num pensamento mais abrangente, que, isolado do seu contexto, poderá não ser totalmente apreendido. O próprio autor acrescentou-lhe, quase uma década depois, um “Prólogo para franceses” e um “Epílogo para ingleses” com considerações acerca de como a passagem dos anos retirou pertinência ao livro – encarou mesmo a possibilidade de escrever uma segunda parte complementar.
Escrito entre 1926 e 1929, destinado a conferências e a artigos de jornal, este ensaio foi publicado como livro em 1930, e analisa a emergência da sociedade das massas. A caracterização do homem-massa, que ocupa a primeira parte do livro, descreve a ascensão, não só ao poder mas a todos os ramos da sociedade, do homem médio, marcado pela vulgaridade e pela mediocridade, um fenómeno não de classe, mas transversal a todas as classes sociais. Se um homem de excelência é aquele que exige muito de si próprio e se define pela exigência e pelas obrigações, o homem vulgar, pelo contrário, nada exige de si, é auto-suficiente, injustificadamente confiante, e reclama os seus supostos “direitos” sem nada ter feito para os merecer. E para que não se pense que o homem-massa emana apenas da plebe, Ortega aponta a especialização como a causa do estreitamento de vistas desses indivíduos parcialmente qualificados, os sábios-ignorantes, que, sendo versados nas matérias que lhes respeitam, julgam ter opinião válida sobre qualquer coisa, mesmo que fique fora da sua área de especialização – política, arte, religião e todas as esferas da vida. E nomeia-os: médicos, engenheiros, financeiros, professores e, de um modo geral, os chamados «homens de ciência», a quem acusa de um comportamento primitivo e bárbaro, que simbolizam o império das massas. Na sociedade de massas não será por isso de espantar que o plano político reflicta o que se passa no plano intelectual e moral.
Quanto à Europa se encontrar ou não em decadência, uma questão que preocupava o pensamento da época, Ortega y Gasset não via motivos de preocupação. Reconhece a existência de uma crise moral, mas considera-a circunstancial, dado que a aliança da democracia liberal com o desenvolvimento técnico frutificou numa sociedade de abundância com parâmetros de bem-estar material jamais vistos. Os totalitarismos que então avançavam merecem-lhe duras críticas, considera-os regressivos e produto típico dos homens-massa.
Numa segunda parte em que analisa a natureza do poder, o modo como ele é exercido e o que sucede na sua vacilação ou ausência, com comparações históricas, destaca-se o seu europeísmo optimista defendendo a integração dos estados numa entidade supranacional como superação da crise observada, que associa à exiguidade de horizontes que considera terem atingido os estados nacionais, também eles forjados pouco antes pela união de estados fragmentados – sublinhando: sem a anulação das nações. Temos, assim, a defesa de um império sem imperialismo que devolvesse à Europa o espírito de liderança civilizacional, no qual ela parecia então desacreditar.

Nos encontramos, pues, con la misma diferencia que eternamente existe entre el tonto y el perspicaz. Éste se sorprende a sí mismo siempre a dos dedos de ser tonto; por ello hace un esfuerzo para escapar a la inminente tontería, y en ese esfuerzo consiste la inteligencia. El tonto, en cambio, no se sospecha a sí mismo: se parece discretísimo, y de ahí la envidiable tranquilidad con que el necio se asienta e instala en su propia torpeza. Como esos insectos que no hay manera de extraer fuera del orificio en que habitan, no hay modo de desalojar al tonto de su tontería, llevarlo de paseo un rato más allá de su ceguera y obligarlo a que contraste su torpe visión habitual con otros modos de ver más sutiles. El tonto es vitalicio y sin poros. Por eso decía Anatole France que un necio es mucho más funesto que un malvado. Porque el malvado descansa algunas veces; el necio, jamás.
No se trata de que el hombre-masa sea tonto. Por el contrario, el actual es más listo, tiene más capacidad intelectiva que el de ninguna otra época. Pero esa capacidad no le sirve de nada; en rigor, la vaga sensación de poseerla le sirve sólo para cerrarse más en sí y no usarla. De una vez para siempre consagra el surtidor de tópicos, prejuicios, cabos de ideas o, simplemente, vocablos hueros que el azar ha amontonado en su interior, y con una audacia que sólo por la ingenuidad se explica, los impondrá dondequiera. Esto es lo que en el primer capítulo enunciaba yo como característico en nuestra época: no que el vulgar crea que es sobresaliente y no vulgar, sino que el vulgar proclame e imponga el derecho de la vulgaridad o la vulgaridad como un derecho.
El imperio que sobre la vida pública ejerce hoy la vulgaridad intelectual es acaso el factor de la presente situación más nuevo, menos asimilable a nada del pretérito. Por lo menos en la historia europea hasta la fecha, nunca el vulgo había creído tener «ideas» sobre las cosas. Tenía creencias, tradiciones, experiencias, proverbios, hábitos mentales, pero no se imaginaba en posesión de opiniones teóricas sobre lo que las cosas son o deben ser —por ejemplo, sobre política o sobre literatura—. Le parecía bien o mal lo que el político proyectaba y hacía; aportaba o retiraba su adhesión, pero su actitud se reducía a repercutir, positiva o negativamente, la acción creadora de otros. Nunca se le ocurrió oponer a las «ideas» del político otras suyas; ni siquiera juzgar las «ideas» del político desde el tribunal de otras «ideas» que creía poseer. Lo mismo en arte y en los demás órdenes de la vida pública. Una innata conciencia de su limitación, de no estar calificado para teorizar, se lo vedaba completamente. La consecuencia automática de esto era que el vulgo no pensaba, ni de lejos, decidir en casi ninguna de las actividades públicas, que en su mayor parte son de índole teórica.
Hoy, en cambio, el hombre medio tiene las «ideas» más taxativas sobre cuanto acontece y debe acontecer en el universo. Por eso ha perdido el uso de la audición. ¿Para qué oír, si ya tiene dentro cuanto falta? Ya no es sazón de escuchar, sino, al contrario, de juzgar, de sentenciar, de decidir. No hay cuestión de vida pública donde no intervenga, ciego y sordo como es, imponiendo sus «opiniones».
Pero ¿no es esto una ventaja? ¿No representa una progreso enorme que las masas tengan «ideas», es decir, que sean cultas? En manera alguna. Las «ideas» de este hombre medio no son auténticamente ideas, ni su posesión es cultura. La idea es un jaque a la verdad. Quien quiera tener ideas necesita antes disponerse a querer la verdad y aceptar las reglas de juego que ella imponga. No vale hablar de ideas u opiniones donde no se admite una instancia que las regula, una serie de normas a que en la discusión cabe apelar. Estas normas son los principios de la cultura. No me importa cuáles. Lo que digo es que no hay cultura donde no hay normas a que nuestros prójimos puedan recurrir. No hay cultura donde no hay principios de legalidad civil a que apelar. No hay cultura donde no hay acatamiento de ciertas últimas posiciones intelectuales a que referirse en la disputa. No hay cultura cuando no preside a las relaciones económicas un régimen de tráfico bajo el cual ampararse. No hay cultura donde las polémicas estéticas no reconocen la necesidad de justificar la obra de arte.
Cuando faltan todas esas cosas, no hay cultura; hay, en el sentido más estricto de la palabra, barbarie. Y esto es, no nos hagamos ilusiones, lo que empieza a haber en Europa bajo la progresiva rebelión de las masas. El viajero que llega a un país bárbaro sabe que en aquel territorio no rigen principios a que quepa recurrir. No hay normas bárbaras propiamente. La barbarie es ausencia de normas y de posible apelación.