26 de xaneiro de 2019

Uma Viagem ao Amazonas

Sanches de Frias
Uma Viagem ao Amazonas (1883)

Cheguei aqui absolutamente por acaso, quando procurava o livro de Cristóbal de Acuña; sem nenhuma referência, fiquei na esperança de me deparar com uma boa narrativa de viagem. David Correia Sanches de Frias era para mim um nome desconhecido, e tudo quanto descobri sobre ele está numa página alojada no município de Arganil, de onde era natural. Nasceu em 1845 e partiu muito jovem para o Brasil, em busca de fortuna, que alcançou graças ao trabalho e esforço pessoal. Ao mesmo tempo cultivou as suas aspirações literárias, que levara deste lado do Atlântico, dedicando-se à poesia, conto, romance, biografia. Regressou a Portugal em 1880, foi-lhe atribuído o título de visconde, integrou-se no ambiente literário da época, colaborou com jornais e revistas, e foi co-proprietário dos jornais Capital e O Globo.
Uma Viagem ao Amazonas não é um livro de viagem, entendido como relato de uma experiência pessoal; Sanches de Frias, que permaneceu no Rio de Janeiro alguns anos, antes de se estabelecer em Belém do Pará, terá elaborado esta ficção a partir da informação e de conversas que escutou. Os protagonistas são Paulo da Silveira e Gastão de Mascarenhas, estudantes em Washington que, acabado o curso, devem regressar às suas origens; Silveira, brasileiro, convence o português Mascarenhas a acompanhá-lo à sua terra, na Amazónia, antes de voltar a Portugal. E temos, assim, o pretexto para as descrições das maravilhas e prodígios da natureza, a fauna e a flora que a cada passo surpreendem o português naquela terra estranha e primitiva, a gastronomia e os costumes, bem como as particularidades linguísticas e culturais daquelas gentes. Foi o reencontro com o tema do europeu confrontado com o exotismo de outros continentes, que tantos livros preencheu as minhas leituras, antes dos 20 anos. Não é em vão que se faz aqui uma referência explícita: «E a verdade é que as nossas aventuras, pequenas como são, poderiam fornecer a Júlio Verne meia dúzia de páginas menos más.» — diz a certo ponto Paulo da Silveira (e não é a única alfinetada ao escritor francês). Nesta edição de Uma Viagem ao Amazonas, impressa em Lisboa em 1883, consta uma série de belas gravuras de Armando Pedroso, ao estilo do que era uso na época, com capa de Rafael Bordalo Pinheiro.

Os dois amigos pararam de conversar, vendo que o capitão dava ordens apressadas, recommendando ao homem do leme toda a cautela e vigilancia.
O navio jogava cada vez mais.
— Orça! tudo á esquerda! carrega a bombordo! — gritava o capitão.
Paulo e Gastão correram para elle.
— O que é isto, se me é permittida a pergunta? — disse este.
—Uma pequena surpreza. . . nada mais. Carrega para terra! toda a força! — bradou de novo.
Tudo isto se executou em pouco tempo.
— Prolonga o navio com a corrente, não venha o diabo encontrar-nos a travez!
— Mas o que é isto? — insistiu Mascarenhas.
— Olhe para alli — respondeu o fazendeiro.
Chegaram-se todos para a borda, e viram, com grande pasmo de Mascarenhas, uma enorme serra de agua, franjada de escuma branca, crescendo, ennovelando-se para a direita, como uma muralha fantastica.
De repente, como por encanto, produziu-se um estampido medonho, como de um rouco trovão, e a furiosa e collossal massa liquida, como que a debater-se com um corpo gigantesco, estranho, mysterioso, subiu e desceu por tres vezes, a poucos metros de distancia do vapor.
Este, lambido apenas por uma insignificante parte das aguas, que escorriam dos furiosos e altissimos vagalhões, deu ainda assim tres corcovos assustadores, recebendo no convez uma onda consideravel, que parecia poder submergil-o.
Mascarenhas julgou-se perdido e com elle quasi todos os passageiros, que ficaram completamente molhados.
Quando Paulo acabou de desempastar o cabello da testa, e tentou abrir os olhos, viu o seu companheiro agarrado a Francisco de Andrade, que caira de costas.
As ondas fugiam em carreira vertiginosa e a longa distancia já: o vapor balouçava-se tranquillamente, e seguia viagem, como se nada tivesse acontecido.
— Acabou tudo, meus senhores. Vamos despir-nos — exclamou o capitão, a sorrir-se.
— Ó sr. Mascarenhas, — disse o fazendeiro — confesse que teve mais medo do que eu, apesar de ter caído. Olhe que não foi de susto, creia.
—Mas. . . senhores, isto não se faz mais depressa, nem melhor n’uma mutação de theatro! —exclamou o mancebo. — Não comprehendo nada. Que phenomeno! que phenomeno este! Ó Paulo, a tua terra é muito hospitaleira e amavel, mas a continuarmos assim, arripio carreira, e vou mandar ao diabo o teu Amazonas.
— Socega. A pororoca. . .
— O que?
— A pororoca é muito conhecida dos nossos maritimos; pouco ha a receiar.
— Mas. . . que demonio vem a ser isso?
— Um phenomeno, que. . . Ó capitão, faz-me o favor de explicar ao meu amigo o que acaba de passar-se?
Um criado apresentava calices de boa aguardente de canna, e o capitão instava pela mudança de roupa, offerecendo para isso o seu camarim.
Abertas as mallas, e uma vez alli entrados, começou elle:
— Todos os que navegámos por aqui conhecemos muito bem a pororoca, mas não sabemos explical-a. Sobre um phenomeno tão extraordinario correm diversas versões. Uns dizem que só se pode attribuir á influencia vulcanica, que põe momentaneamente em evolução enormes massas de agua; outros ao simples movimento da maré, que procura conter a corrente; uns dão a isto uma interpretação sobrenatural; outros finalmente, attribuindo ao leito dos rios certo declive, em lugares determinados, querem que duas correntes oppostas, onde tem entrada a influencia de certas marés, ao encontrar-se, estabeleçam entre si uma lucta, erguendo-se ambas, quebrando, e levando de vencida tudo quanto se collocar ao alcance da sua furia.
— O que sei — interrompeu o fazendeiro — é que é um perigo dos diabos. Já perdi um barco de gado com toda a gente, que o governava.

1 de xaneiro de 2019

La Crisis del Mundo Moderno

René Guénon
La Crisis del Mundo Moderno (1927)

Segunda obra publicada por René Guénon no ano de 1927, A Crise do Mundo Moderno tem, pelo menos, uma tradução em Portugal, pela Editorial Vega. Optei, no entanto por ler uma tradução espanhola, por Manuel García Viñó, publicada através das Ediciones Obelisco. Este foi um dos livros mais marcantes que li nos últimos anos: uma análise crítica da modernidade e das suas origens, numa obra sucinta, que Julius Evola deve ter lido com particular atenção. Num ataque impiedoso aos mitos e vacas sagradas dos tempos contemporâneos, René Guénon descreve como o Ocidente perdeu o contacto com a tradição e se deixou permear pelo que designa como “barbárie materialista”, demonstrando como o humanismo, o iluminismo, a filosofia, o racionalismo, a ciência (que qualifica de “profana”), o individualismo e, de um modo geral, todas as capelinhas da historiografia progressista (a única em vigor), foram pontos de ruptura que nos afastaram gradualmente de um mundo tradicional e espiritual para nos transportar a uma época de “democracia” e massificação que mais não são que a face visível da desordem reinante.

Dicho esto, tenemos que insistir aún sobre una consecuencia inmediata de la idea "democrática", que es la negación de la élite entendida en su sola acepción legítima; no en vano "democracia" se opone a "aristocracia", palabra que designa precisamente, al menos cuando es tomada en sentido etimológico, el poder de la élite. Esta, de alguna manera por definición, no puede ser más que un número pequeño, y su poder, su autoridad más bien, que procede de su superioridad intelectual, no tiene nada en común con la fuerza numérica sobre la que reposa la "democracia", cuyo carácter esencial es sacrificar la minoría a la mayoría, e igualmente y por esto mismo, como decíamos más arriba, la calidad a la cantidad, luego la élite a la masa. Así, el papel director de una verdadera élite y su existencia misma, porque ella representa forzosamente este papel desde el momento en que existe, son radicalmente incompatibles con la "democracia", que está íntimamente ligada a la concepción "igualitaria", es decir, a la negación de toda jerarquía: el fondo mismo de la idea "democrática" es que un individuo cualquiera vale igual que otro, porque ellos son iguales numéricamente, aunque no puedan serlo nunca más que numéricamente. Una élite verdadera, ya lo hemos dicho, no puede ser más que intelectual; es por esto por lo que la "democracia" no puede instaurarse más que allí donde la pura intelectualidad no existe ya, lo que es efectivamente el caso del mundo moderno. Sin embargo, como la igualdad es imposible de hecho, y como no se puede suprimir prácticamente toda diferencia entre los hombres, a despecho de todos los esfuerzos de nivelación, se llega, a través de un curioso ilogismo, a inventar falsas élites, por otra parte múltiples, que pretenden sustituir a la única élite real; y estas falsas élites están basadas sobre la consideración de superioridad cualquiera, eminentemente relativas y contingentes, y siempre de orden puramente material. Es fácil apercibirse de esto advirtiendo que la distinción social que cuenta más, en el presente estado de cosas, es la que se funda sobre la fortuna, es decir, sobre una superioridad completamente exterior y de orden exclusivamente cuantitativo, la única, en suma, que es conciliable con la "democracia", puesto que procede del mismo punto de vista. Añadiremos por lo demás que aquellos mismos que se sitúan actualmente como adversarios de este estado de cosas, pero no haciendo intervenir tampoco ningún principio de orden superior, son incapaces de remediar eficazmente un tal desorden, cuando no corren el riesgo de agravarlo aún más, yendo siempre más lejos en el mismo sentido; la lucha es solamente entre diversas variedades de "democracia", que acentúen más o menos la tendencia "igualitaria", como lo es también, según hemos dicho, entre diversas variedades del individualismo, lo que, por otra parte, viene exactamente a ser lo mismo.
[...]
Nos es preciso recordar aún, aunque ya lo hayamos indicado, que las ciencias modernas no tienen el carácter de un conocimiento desinteresado, y que, inclusive para los que creen en su valor especulativo, éste es apenas una máscara bajo la que se ocultan preocupaciones puramente prácticas, pero que permite conservar la ilusión de una falsa intelectualidad. El propio Descartes, al crear su física, soñaba sobre todo en sacar de ella una mecánica, una medicina y una moral; y, con la difusión del empirismo anglosajón, fue otra cosa aún; por lo demás, lo que constituye el prestigio de la ciencia a los ojos del gran público son casi únicamente los resultados prácticos que permite conseguir, porque aquí todavía se trata de cosas que pueden verse y tocarse. Decíamos que el "pragmatismo" representa la meta de toda la filosofía moderna y su último grado de decadencia; pero hay también, y desde hace ya mucho tiempo, fuera de la filosofía, un "pragmatismo" difuso y no sistematizado, que es al otro lo que el materialismo práctico es al materialismo teórico y que se confunde con lo que el vulgo llama el "buen sentido". Este utilitarismo casi instintivo es por otra parte inseparable de la tendencia materialista: el "buen sentido" consiste en no sobrepasar el horizonte terrestre tanto como en no ocuparse de lo que no tiene interés práctico inmediato; para él, sólo el mundo sensible es "real" y no hay conocimiento que no venga de los sentidos; también para él, este conocimiento restringido no vale sino en la medida en que permite dar satisfacción a necesidades materiales, y a veces a un cierto sentimentalismo, porque, hay que decirlo claramente, aun a riesgo de chocar con el "moralismo" contemporáneo, el sentimiento está en realidad muy cerca de la materia. En todo esto, no queda ningún lugar para la inteligencia, sino en la medida en que consienta en servir a la realización de fines prácticos, a no ser más que un simple instrumento sometido a las exigencias de la parte inferior y corporal del individuo humano, o, según una singular expresión de Bergson, "un útil para hacer útiles"; lo que tiene el "pragmatismo" bajo todas sus formas es una indiferencia total respecto a la verdad.

Li anteriormente:
El Rey del Mundo (1927)


22 de decembro de 2018

The Portugal of Salazar

Michael Derrick
The Portugal of Salazar (1938)

Não há muita informação disponível sobre Michael Derrick e não sei se este livro alguma vez foi publicado em Portugal — desde logo não aparece nas pesquisas da Biblioteca Nacional. Foi editado em Londres pela Paladin Press em 1938, pela Campion Books Ltd. em 1939, em Nova Iorque, e tem outras edições posteriores em língua inglesa. Em Portugal, onde polulam as publicações folhetinescas sobre os aspectos mais frívolos da vida de Oliveira Salazar, por regra fantasiosas e sem um mínimo de investigação credível, seria certamente bem-vinda uma tradução cuidada desta peça histórica. Mas os livros relevantes sobre o antigo estadista são extremamente raros, e até a sua obra escrita (fundamentalmente discursos) se encontra arredada dos escaparates, remetida a uma quase clandestinidade.
The Portugal of Salazar foi escrito por Michael Derrick aos 23 anos, durante um período de convalescença passado na Hungria. Depois de estudar em Oxford, e sempre ligado ao jornalismo católico, foi editor assistente do londrino The Tablet e, mais tarde, editor do Dublin Review, também de Londres. Poucos meses antes da sua morte, em 1961, tornara-se correspondente do L'Osservatore Romano.
Assumido simpatizante do Estado Novo, Michael Derrick propôs-se, neste livro, desmistificar a propaganda comunista hostil ao regime, que grassava internacionalmente na esteira da Guerra Civil Espanhola, nas vésperas de uma pressentida guerra mundial, tentando explicar o pensamento e a obra de Oliveira Salazar. É ao mesmo tempo a perspectiva de um estrangeiro, após o décimo aniversário da Revolução Nacional, impressionado pelo bom desempenho do regime e que se interessa sobretudo pela construção do Estado Corporativo, reconhecida peculiaridade entre os regimes da direita autoritária que então se tinham espalhado pela Europa. E é forçoso assinalar que um jovem, no início da sua carreira profissional, concluiu acertadamente o que muitos historiadores encartados, do alto das suas cátedras carunchosas, nunca conseguirão enxergar, por obtusidade manifesta — que o Estado Novo não era um regime “fascista”. As afinidades do regime português com o modelo posto em prática por Benito Mussolini são residuais; basta o lema do ducetudo no estado, nada fora do estado, nada contra o estado — para comprovar que o Estado Novo era uma coisa completamente diferente, pois propunha um estado mínimo e tinha horror à burocracia. As grandes influências de Oliveira Salazar residiam nas encíclicas papais (de Leão XIII e do seu sucessor, Pio X) e na doutrina social da Igreja; era crítico do liberalismo e do capitalismo, e o seu modelo económico voltava-se para a recuperação e actualização do corporativismo medieval — um corporativismo integral, de associação (e não exclusivamente económico, de estado, ao modo italiano), recusando a luta de classes, na procura do bem comum de empregadores e assalariados.
O excerto escolhido pertence ao capítulo em que o autor dá o contexto que gerou o 28 de Maio: a oligarquia liberal-maçónica que, durante o séc. XIX e o primeiro quarto do séc. XX, capturou o Estado para os seus próprios interesses, impôs ideais e condutas alheios à Nação e fez da República a poção salvadora, mesmo que imposta a balas e sangue; após 16 anos de violência extremista oferecida à sociedade em nome da “democracia”, o povo acolheu a “ditadura” com alívio, como um regresso à normalidade e à prosperidade... Mas, diz uma expressão inglesa, a ferrugem nunca dorme. Fica ainda uma última citação de Oliveira Salazar (a António Ferro): "You cannot imagine how difficult it is to wake up our sleepy and apathetic race". Ontem como hoje.

In Portugal, as in Spain, Parliamentary government on the English pattern has always meant a chaos of camarillas and caciquismo, corruption, rotativism and revolution; it has meant the creation of a class of professional politicians preying on the people: a travesty of democracy screening the machinations of profiteers. That will seem like a sentence of excited exaggeration until the political history of Portugal in the nineteenth century comes to be written in English. English electioneering methods of the eighteenth do not bear comparison with those of Portugal. The electorate in 1871 was less than seven per cent of the population, and was wholly controlled, not by bribes, as in the good old English fashion, but by local "bosses."
The Portuguese of the years before 1926 cared little and knew less about what went on at San Bento, where the Còrtes sat, and where (as he was always told) he was the ultimate controlling influence. "As disorder followed disorder, he turned himself always more deeply towards his wife and his children, his house, his daily work, the field, the garden, the forest. These things had been known to his parents, to his grandparents, and to his ancestors through the ages, who had successively dug the soil, cultivated the vine and the patch of maize, reared children, suffered . . ." What use was the "vote" to him? He was, and remains, an incorrigible illiterate, concerned only with the realities of life, with hardship and the soil, and with eternity.
"If Lisbon turns Turk to-morrow, all Portugal will wear the Fez," wrote the novelist Eça de Queiroz. Too often has the voice of the Lisbon mob been taken for the voice of Portugal. It was republican Lisbon that made Portugal a Republic in 1910; and the reasons why Lisbon was republican have been told in an earlier chapter. Only a few months previously King Manoel had made a journey through the country districts of Beira "which in some places became a triumphant progress, the peasants pressing eagerly to welcome their King." But Lisbon turned Turk, and Portugal accepted, unprotesting, unknowing. For the last Ministry of the Monarchy, the elections of August 28, 1910, returned 14 Republicans among 144 deputies. Of these 14, 10 came from Lisbon. And when the Republic was proclaimed, the millions of Portuguese knew nothing of the matter, had no more hand in it than they had ever had in the affairs of Portugal, and were concerned in it only in so far as the fantastic confusion into which Portuguese politics were immediately plunged had its effect upon their daily lives.
The constant succession of revolutions between 1910 and 1926 were exclusively political in character, and were unnoticed outside Lisbon: the general disappearance of administrative order and the general rise in the cost of living continued steadily and without interruption. In 1926 the country rose: we have told the story already.
The Government that then, in the name of the nation, took control of affairs was a dictatorship. It was a dictatorship in the Roman sense of the word: that is, a Government that had seized temporary absolutism to meet a national emergency. It was certainly not a dictatorship in the modern sense of a tyranny: it represented a release from tyranny, from the intolerable tyranny of the professional politicians and the local bosses.


9 de decembro de 2018

Os Protocolos dos Sábios de Sião


Gustavo Barroso / vários autores
Os Protocolos dos Sábios de Sião (1936)

Se alguém pensasse em eleger o livro mais escandaloso do séc. XX, os candidatos óbvios haviam de ser Lolita, O Amante de Lady Chatterley, ou um qualquer livro de Henry Miller. No entanto, Os Protocolos batem-nos a todos juntos, porque, mais do que uma ficção desbragada, trata de uma realidade incontestável que se pretende ocultar e desacreditar. Sobre Os Protocolos já se escreveram rios de tinta e é inútil chover no molhado. Àqueles que continuam a desvalorizá-los e a apodá-los de falsificação, basta relembrar que aqueles escritos com mais de um século (apareceram em 1898 na Rússia czarista e foram registados no British Museum em 1906) contêm uma agenda política que tem sido seguida ponto por ponto na sua concretização metódica, o que torna irrelevante a questão da sua origem, ou da alegada falsificação, levantadas como cortina de fumo.
Encontrei um comentário de Ramón Bau que sintetiza toda a questão: «Os Protocolos são uma leitura fundamental, não como um documento histórico, cujo valor pode ser mais ou menos discutido, e menos ainda no que toca à autenticidade da sua origem. O importante é analisar se as suas previsões e as suas recomendações são autênticas, se se cumprem, e se reflectem a estratégia do Inimigo do Mundo. Por isso nunca me preocupei em defender se estes documentos foram ou não escritos por sionistas ou pela polícia do Czar ou por quem quer que seja — essa é uma questão, por agora, irrelevante. O que realmente importa é que descrevem exactamente a estratégia do sionismo mundial.»
Gustavo Barroso foi um historiador, romancista e ensaísta brasileiro, fundador do Museu Histórico Nacional, reconhecido internacionalmente e condecorado em Portugal com a Comenda da Ordem Militar de Cristo e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. Foi membro da Academia Portuguesa da História, da Academia das Ciências de Lisboa, e da Academia de Belas Artes de Portugal, entre outras instituições portuguesas. Foi líder da fugaz Ação Integralista Brasileira e um dos seus principais ideólogos. Em 1936 publicou a tradução portuguesa de Os Protocolos dos Sábios de Sião, que a “mão invisível” rapidamente fez desaparecer de circulação, até que em 1991, por iniciativa de S.E. Castan e da Revisão Editora, voltou ao prelo. A edição original, da Agência Minerva, de São Paulo, inclui ainda o prefácio da versão francesa de 1912, “O Perigo Judaico” por Roger Lambelin, e um segundo texto, do alemão W. Creutz, sobre a autenticidade do documento. Nesta edição, os 24 Protocolos são anotados e comentados por Gustavo Barroso, reunindo citações de outros textos bem identificados, que complementam o objecto de análise. (Note-se que onde Barroso aplicou a palavra cristão/cristãos, poderia ter traduzido pelo conceito mais abrangente de gentio/gentios: os não-judeus).
Publicados desde o início do séc. XX, Os Protocolos popularizaram-se após o final da Grande Guerra, quando houve a percepção geral que determinado curso de eventos históricos já verificados e ali referidos, não eram previsíveis à data do seu aparecimento. A polémica agudizou-se e a comunidade judaica tentou por todos os meios à sua disposição impedir a circulação do texto que, recorde-se, clamava ser uma falsificação. Dos três excertos escolhidos, dois são comentários — o primeiro versa a admissão da veracidade do texto pelos próprios judeus; o segundo sobre o espírito dos Protocolos nos textos sagrados — e, o terceiro, uma citação dos próprios Protocolos (“a quinta-essência do pensamento judaico”) acerca da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.

Em 30 de novembro de 1934, à página 58 da revista "American-Hebrew", a mais importante publicação judaica dos Estados Unidos, vem um editorial sôbre o processo dos "Protocolos", então recentemente instaurado na Suíça.
Dêle extraímos e traduzimos o seguinte trecho : "A questão da autenticidade dos pretensos "Protocolos" é de importância absolutamente mínima. Só pode interessar aos historiadores. Por que, mesmo se a autenticidade dêsse documento fosse provada, que significaria isso? Simplesmente que um grupo de homens desejava conquistar o mundo. Mas qual o povo que não alimentou êsse sonho em certa época de sua história? Pois bem, admitamos que alguns chefes de Israel tenham tido essa idéia. Por que não?"
E' o cúmulo da impudência e da desfaçatez ! A importância do caso é mínima. Entretanto, na sala do tribunal, o grande rabino Ehrenpreiss, vindo de Estocolmo, declara com ênfase "Dezasseis milhões de judeus esperam ansiosamente o veredito !" E outra testemunha judaica exclama : "Trata-se da honra de Israel !"
Os judeus norte-americanos admitiram por êsse artigo a possibilidade da autenticidade dos "Protocolos". Até agora, todo o judaísmo a contestava. Agora, ela já é possível. E', diante de sua possível prova, a retirada garantida : todos os povos têm tido sonhos de domínio universal : por que os judeus não podem tê-lo ?
E' verdade, registra um comentador alemão, que todos os povos tentaram realizar seus sonhos de ambição ou gloria, mas nenhum pelos processos infames preconizados nos infames "Protocolos" . . .
[...]
O espírito dos "Protocolos" provém dos próprios livros sagrados dos hebreus, é fundamentalmente israelita. Encontraremos o resumo do plano do domínio mundial pelos judeus no livro do profeta conhecido dos exegetas como o Segundo Isaías, Deutero-Isaías :
"As nações se reünirão para prestar homenagem ao povo de Deus ; tôda a fortuna das nações passará para o povo judeu ; elas caminharão, agrilhoadas como cativas, atrás do povo judeu e se prosternarão diante dêle ; os reis serão aios dos filhos de Israel e as princesas amas de seus filhos. Os judeus governarão as nações ; chamarão a si os povos que nem mesmo conheçam, os quais correrão para êles. As riquezas do mar e a fortuna das nações virão elas próprias para os judeus. O povo e o reino que não servirem Israel serão destruídos. O Povo Eleito beberá o leite das nações e sugará o seio dos reis, devorará a fortuna das nações e se cobrirá de esplendor".
Será possível que, diante de documentos desta ordem, diante de provas tão concludentes do plano de domínio judaico, os cristãos continuem a não querer ver o perigo, a abandonar suas tradições e a seguir as novidades ilusórias criadas pela magia de Israel para os botar a perder e os escravizar ?
O' cristão, ao menos escolhe o môlho com que queres ser comido no banquete de Leviatan, a que alude Calixto de Wolski, no banquete do dia glorioso em que o judaísmo comemorará sua vitória sôbre as ruínas do mundo cristão !...
[...]
Fomos nós os primeiros que, já na antiguidade, lançámos ao povo as palavras "Liberdade, Igualdade, Fraternidade", palavras repetidas tantas vêzes pelos papagaios inconcientes, que, atraídos de tôda a parte por essa isca, dela sòmente têm usado para destruir a prosperidade do mundo, a verdadeira liberdade individual, outrora tão bem garantida dos constrangimentos da multidão. Homens que se julgavam inteligentes não souberam desvendar o sentido oculto dessas palavras, não viram que se contradizem, não repararam que não há igualdade na natureza, que nela não pode haver liberdade, que a própria natureza estabeleceu a desigualdade dos espíritos, dos caracteres e das inteligências, tão fortemente submetidos às suas leis ; êsses homens não sentiram que a multidão é uma fôrça cega ; que os ambiciosos que elege são tão cegos em política quanta ela ; que o iniciado, por mais tolo que seja, pode governar, enquanto que a multidão dos não iniciados, embora cheia de gênio, nada entende da política. Tôdas essas considerações não abrolharam no espírito dos cristãos ; entretanto, é nisso que repousa o princípio dinástico dos governos ; o pai transmite ao filho os segredos da política, desconhecidos fora dos membros da família reinante, a fim de que ninguém os possa trair. Mais tarde, o sentido da transmissão hereditária dos verdadeiros princípios da política se perdeu. O êxito de nossa obra aumentou.
Todavia, no mundo, as palavras Liberdade, Igualdade, Fraternidade puseram em nossas fileiras, por intermédio de nossos agentes cegos, legiões inteiras de homens que arvoraram com entusiasmo nossos estandartes. Contudo, tais palavras eram os vermes que roíam a prosperidade dos não-judeus, destruindo por tôda a parte a paz, a tranqüilidade, a solidariedade, minando todos os alicerces de seus Estados. Vereis pelo que se segue como isso serviu ao nosso triunfo ; isso nos deu, entre outras cousas, a possibilidade de obter o triunfo mais importante, isto é, a abolição dos privilégios, a própria essência da aristocracia dos cristãos, o único meio de defesa que tinham contra nós os povos e as nações. Sôbre as ruínas da aristocracia natural e hereditária, elevamos nossa aristocracia da inteligência e das finanças. Tomamos por critério dessa nova aristocracia a riqueza, que depende de nós, e a ciência, que é dirigida por nossos sábios.
Nosso triunfo foi ainda facilitado pelo fato de, nas nossas relações com os homens de quem precisamos, sabermos tocar as cordas mais sensíveis da alma humana : o cálculo, a avidez, a insaciabilidade dos bens materiais, tôdas essas fraquezas humanas, cada qual capaz de abafar o espírito de iniciativa, pondo a vontade dos homens à disposição de quem compra sua atividade.
A idéia abstrata da liberdade deu a possibilidade de persuadir às multidões que um govêrno não passa de gerente do proprietário do país, que é o povo, podendo-se mudá-lo como se muda de camisa.
A removibilidade dos representantes do povo coloca-os à nossa disposição ; êles dependem de nossa escolha.

30 de novembro de 2018

Imperium

Francis Parker Yockey
Imperium (1948)

Nascido em Chicago em 1917, Francis Parker Yockey licenciado em Belas Artes e em Direito, era economista, pianista e multilingue. Pelo seu currículo, em 1946 foi-lhe oferecido um lugar no tribunal de Wiesbaden, uma das ramificações dos Processos de Nuremberga, destinados a julgar os vultos de menor importância ligados ao Terceiro Reich. A sua natureza íntegra impediu-o de colaborar com a farsa jurídica ali encenada e, quando os seus relatórios foram recusados pelos superiores hierárquicos, Yockey demitiu-se do cargo e disse-lhes para escreverem a sua própria propaganda, pois estava ali como advogado e não como jornalista.
Esta atitude marcou-o como um proscrito no seu próprio país e regressou à Europa, onde escreveu Imperium, sob o pseudónimo Ulick Varange, enfrentando sérias dificuldades para conseguir a publicação dos dois volumes. Depois envolveu-se em actividades políticas e, em 1952, o seu passaporte não foi renovado pelo Departamento de Estado norte-americano. Durante os anos seguintes acompanhou algumas organizações neutralistas e terceiromundistas, o que irritou ainda mais o FBI, e acabou por ser detido nos EUA na posse de um passaporte falso. Em 17 de Junho de 1960 foi anunciado o seu “suicídio”, que não foi investigado nem motivou a autópsia obrigatória por lei.
Ando há algum tempo a adiar a leitura de A Decadência do Ocidente, de Oswald Spengler, e devia tê-lo feito antes de me dedicar a Imperium, não só porque as referências a Spengler são constantes, como me permitiria avaliar com maior rigor onde terminam as teses de um autor e começam as do outro. Aparentemente, Imperium toma alguns dos conceitos de Spengler, actualiza-os e introduz outros complementares, como Vitalismo Cultural, Distorção Cultural ou Patologia Cultural e é interessante analisar a União Europeia, ou determinadas agendas actuais, à luz destes conceitos.
Imperium é uma análise crua da modernidade, e do parasitismo cultural que contaminou a sua génese, desde o Racionalismo dos sécs. XVII e XVIII, no seu percurso, mitos e valores, num impiedoso desmascaramento do liberalismo, do materialismo, da democracia e seus sub-produtos, e das mentiras que os envolvem uma colecção de absurdos tão gritantes que Yockey acreditava (há quase 75 anos) estar a assistir ao fim de uma era. O tom geral deste livro é, por consequência, de uma grande confiança no futuro. Contudo, no tempo entretanto decorrido, constata-se que apenas se agravou a enfermidade instalada no Ocidente; e, segundo Yockey, uma Cultura ou cumpre o seu imperativo ou morre.
Destaca-se também uma boa parte do livro que se dedica à análise da América (EUA) e das suas idiossincrasias, desarmando uma a uma, com uma transparência e objectividade dignas de nota, todas as bases falsas e utópicas sobre as quais se fundou esse país, com as consequências que isso trouxe ao mundo actual. Imperium é uma obra essencial; para colocar ao lado de Revolta Contra o Mundo Moderno, de Julius Evola.

En condiciones "democráticas" —el origen y significación histórica de la "democracia" son abordados en otro lugar— ocurre el fenómeno político interno conocido como "elecciones". Fue la teoría de la "democracia", aparecida hacia 1750, según la cual, el poder "absoluto" del monarca, o de la aristocracia dependiente de las condiciones locales, debía ser roto, y ese poder transferido al "pueblo". Este uso de la palabra "pueblo" demuestra otra vez la naturaleza necesariamente polémica de todas las palabras usadas políticamente. Pueblo era, simplemente, una negativa; todo lo que deseaba era negar que la dinastía, o en su caso la aristocracia, pertenecía al "pueblo". Así pues, era un intento de negar la existencia política del monarca o la aristocracia. En otros términos: esa palabra implícitamente los definía como el enemigo, en el verdadero sentido político. Fue la primera vez en la historia Occidental que una teoría intelectualizada se convirtió en el foco del acontecer político. Allí donde el monarca o la aristocracia fueron estúpidos o incapaces, allí donde miraron hacia atrás en vez de adaptarse al nuevo siglo, fueron derrocados. Allí donde ellos mismos se adueñaron de las teorías y las interpretaron oficialmente, conservaron su poder y su mando.
La técnica de la transferencia de ese poder "absoluto" al "pueblo" consistió en plebiscitos, o "elecciones". La proposición teórica era dar el poder a millones de seres humanos, a cada uno su millonésima fracción del total del poder político existente. Esto era tan radicalmente imposible que hasta los intelectuales debieron verlo, de manera que la fórmula adoptada fueron las "elecciones" a través de las cuales todo individuo del organismo político pudiera "elegir" a su propio "representante". Si el representante hacía algo, se tomaba el acuerdo, mediante una satisfactoria ficción, de que cada pequeño individuo "representado" lo había hecho él mismo. En poco tiempo, resultó obvio para los hombres interesados en el poder —ya para sí personalmente, ya para realizar sus ideas— que si uno, antes de esas "elecciones" trabajaba para influenciar las mentes del populacho votante, resultaría "elegido". Cuanto más grandes fueran sus medios de persuasión de la masa de votantes, más cierta sería su subsiguiente "elección". Los medios de persuasión eran los que uno tenía a mano: retórica, dinero, imprenta. Como las elecciones eran algo grande, y de ellas dependía abundante cantidad de poder, sólo los que disponían de medios de persuasión correspondientes podrían controlarlas. La Oratoria entró en juego, la Prensa se adelantó como señora del país, y el poder del Dinero lo coronó todo. Un monarca no podía ser comprado; ¿qué clase de soborno podía tentarle? No podía ser colocado bajo la presión del usurero; no podía ser procesado. Pero los políticos de partido, que vivían en tiempos en que los valores se convirtieron paulatinamente en valores-dinero, podían ser comprados. Así la democracia representó la imagen del populacho bajo la coacción de las elecciones, los delegados bajo la coacción del Dinero, y el Dinero sentado en el trono del monarca.


11 de outubro de 2018

The Rolling Stones

Robert A. Heinlein
The Rolling Stones (1952)

Quando cheguei ao final de To Sail Beyond The Sunset, descobri que tinham ficado por ler algumas pontas soltas do universo Future History. Uma delas era The Rolling Stones, também conhecido pelo título Space Family Stone (a outra, para tentar encerrar este tema, seria a colecção de contos The Green Hills of Earth and Other Stories). No presente livro aparecem pela primeira vez as personagem dos gémeos Castor e Pollux Stone (que reaparecerão muitos anos depois em The Number of the Beast) e da avó Hazel Stone (que também figurará em The Moon Is a Harsh Mistress, em The Number of the Beast, e será um dos protagonistas de The Cat Who Walks Through Walls).
The Rolling Stones faz parte de um grupo de 12 novelas, editadas anualmente entre 1947 e 1958, destinadas a um público mais jovem. Casualmente, o primeiro livro de Heinlein que tive o prazer de ler foi Equipagem Espacial, a última destas novelas (Have Space Suit – Will Travel no título original). Os entendidos na obra do autor dizem que não há grandes diferenças entre estas novelas e as que são destinadas a um público mais adulto, a não ser pela ausência de cenas de sexo – e pela opção por protagonistas jovens, ao que me parece.
A narrativa inicia-se em Luna City, muitos anos depois dos factos narrados em The Moon Is a Harsh Mistress, quando já poucos dos pais-fundadores permanecem vivos. Os jovens Castor e Pollux querem comprar uma nave de carga em segunda-mão, para se dedicarem ao comércio, contra a vontade do pai, Roger Stone, um escritor de argumentos para TV, que pretende que eles continuem os estudos. Por fim chegam a acordo, e partem em direcção a Marte a bordo da Rolling Stone, acompanhados da restante família: a doutora Edith Stone, mulher de Roger, Meade e Buster Lowell, a irmã mais velha e o benjamim, e ainda a avó Hazel Stone, mãe de Roger, que acaba por lhe retirar a tarefa de argumentista quando ele assume a compra e o comando da nave.
Os gémeos Castor e Polux, negociantes natos, decidem embarcar um lote de bicicletas em segunda mão, para restaurá-las durante a viagem, e vendê-las em Marte com um bom lucro. O negócio não corre tão bem quanto eles esperavam e, após uma temporada em Marte um mundo de pioneiros, que começa a despontar para o turismo, onde tudo é extremamente caro e objecto de taxas e impostos –, a família decide apontar a Rolling Stone à cintura dos Asteróides, uma versão far-west do espaço, um verdadeiro território de fronteira onde a principal actividade é a extracção de minério. E, uma vez mais, os gémeos darão curso livre à sua veia comercial...
A história tem a preocupação da verosimilhança, ao contrário dos ridículos argumentos televisivos que as personagens discutem, e a actuação das forças da gravidade bem como o movimento das naves no espaço é explicado com algum pormenor. Para contrabalançar esta física rigorosa há um espírito irónico de observação, um grande sentido de humor e a vivacidade dos diálogos, como é habitual em Heinlein.

Their host was a skinny monkey of a man, covered with a single dark garment, save for head, hands, and bare feet. It had once been, Pollux decided, heated underwear for space-suit use far out starside, or in caves.
Old Charlie stared at them, then grinned, reached up and scratched his neck with his big toe. “Nice boys,” he said. “I knew you wouldn't hurt Charlie. I was just foolin'.”
“We wouldn't hurt anybody. We just wanted to get acquainted, and do a little business.”
“We want a—” Pollux started; Castor's elbow cut off the rest; Castor went on, “Nice place you've got here.”
“Comfortable. Practical. Just right for a man with no nonsense about him. Good place for a man who likes to be quiet and think. Good place to read a book. You boys like to read?”
“Sure. Love to.”
“You want to see my books?” Without waiting for an answer he dared like a bat into the gloom, came back in a few moments with books in both hands and a half dozen held by his feet. He bumped to a stop with his elbows and offered them.
There were old-style bound books, most of them, the twins saw, ships' manuals of ships long dead. Castor's eyes widened when he saw the dates on some of them, and wondered what the Astrogation Institute would pay for them. Among them was a dog-eared copy of Mark Twain's Life on the Mississippi.
“Look 'em over, boys. Make yourselves comfortable. Bet you didn't expect to find a literary man out here among these yokels. You boys can read, can't you?”
“Sure we can."
“Didn't know. They teach such funny things nowadays. Quote a bit of Latin to 'em and they look like you're crazy in the head. You boys hungry? You want something to eat?” He looked anxious.
They both assured him that they had fed well and recently; he looked relieved. “Old Charlie ain't one to let a man go hungry, even if he hasn't got enough for himself.” Castor had noted a net of sealed rations; there must have been a thousand of them by conservative estimate. But the old man continued, “Seen the time, right here in this node—no, it was the Emmy Lou—when a man didn't dare make breakfast without he barred his lock first and turned off his beacon. It was about that time that Lafe Dumont ate High-Grade Henderson. He was dead first, naturally—but it brought on a crisis in our community affairs. They formed up the vigilantes, what they call the Committee nowadays.”
“Why did he eat him?”
“Why, he was dead. I told you that. Just the same, I don't think a man ought to eat his own partner, do you?”
The boys agreed that it was a breech of etiquette.
“I think he ought to limit it to members of his own family, unless the two of them have got a signed and sealed contract. See any ghosts yet?”
The acceleration was so sharp that it left both the twins a bit confused. “Ghosts?”
“You will. Many's the time I've talked to High-Grade Henderson. Said he didn't blame Lafe a bit, would 'a' done the same thing in his place. Ghosts all around here. All the rockmen that have died out here, they can't get back to Earth. They're in a permanent orbit—see? And it stands to reason that you can't accelerate anything that doesn't have mass.” He leaned toward them confidentially. “Sometimes you see 'em, but mostly they whisper in your earphones. And when they do, listen—because that's the only way you'll ever find any of the big strikes that got found and then got lost again. I'm telling you this because I like you, see? So listen. If it's too faint, just close your chin valve and hold your breath; then it comes clearer.”
They agreed and thanked him. “Now tell me about yourselves, boys.” To their surprise he appeared to mean it; when they slowed down he taxed them for details, filling in only occasionally with his own disjointed anecdotes.

Li anteriormente:
To Sail Beyond The Sunset (1987)
The Cat Who Walks Through Walls (1985)
The Number of the Beast (1979)

22 de setembro de 2018

Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século

Italo Moriconi / vários autores
Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (2000)

Esta antologia partiu da iniciativa da Editora Objetiva, do Rio de Janeiro, que convidou Italo Moriconi para a selecção dos textos. Moriconi, poeta, crítico literário e professor universitário, explica na Introdução os critérios e os métodos utilizados, e esboça um percurso do formato conto na literatura brasileira do séc. XX. Depois, em cada uma das secções, faz uma brevíssima apresentação prévia; e assim, desde o início do século até aos anos 30 numa secção, anos 40 e 50 noutra, e, a partir dos anos 60 uma secção por década, Moriconi descreve o “espírito dos tempos” que presidiu a cada época, não ocultando o seu entusiasmo com o boom do conto brasileiro a partir dos anos 60 e 70, lamentando apenas não ter conseguido incluir Guimarães Rosa, devido a restrições de direitos de autor.
Não surpreende portanto que se encontrem aqui quase todos os nomes consagrados da literatura brasileira — Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Clarice Lispector e, certamente, outros que o meu desconhecimento não identifica — e aqueles que faltam, como Jorge Amado, deve-se ao facto de não terem cultivado o conto com a relevância que dedicaram ao romance ou à poesia. Entre os presentes, alguns atravessam várias secções e são reincidentes, por exemplo Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles ou Sérgio Sant'Anna, com três ou mais inclusões.
No entanto, pessoalmente, prefiro de longe os contos da primeira metade do século, onde mais facilmente encontro a literatura tal como eu a entendo. Não me convencem determinados conceitos de realismo e visceralidade que passam pelo recurso sistemático à linguagem rudimentar dos guetos (uma linguagem básica para um pensamento básico que, neste português do Brasil, se torna um idioma impenetrável), ao palavrão e às cenas escabrosas assumidas como táctica de choque. Um animal atropelado e esventrado pode ser muito “visceral” (literalmente), mas nunca será inspirador; o meu conceito de arte não passa por aí. Também não sou partidário de um tipo de literatura que anda às voltas sem chegar a lado nenhum e se faz “difícil”, para aparentar uma profundidade que, frequentemente, não passa de um logro. Sem generalizar, porque evidentemente nem todos os contos mais recentes enveredam por esses caminhos, é um pouco como, em termos cinematográficos, comparar o cinema de Carl Th. Dryer (a preto-e-branco, mudo) com o de Pedro Almodóvar (símbolo de uma certa modernidade): o dinamarquês é intemporal, já o espanhol, com o decorrer dos anos, não passará de uma nota de rodapé. Pelas mesmas razões, neste livro, prefiro os contos mais antigos. Para o excerto escolhi «O pirotécnico Zacarias», de Murilo Rubião.

Um dos moços, rapazola forte e imberbe — o único que se impressionara com o acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos —, propôs que se deixassem as garotas na estrada e me levassem para o cemitério. Os companheiros não deram importância à proposta. Limitaram-se a condenar o mau gosto de Jorginho — assim lhe chamavam — e a sua insensatez em interessar-se mais pelo destino do cadáver do que pelas lindas pequenas que os acompanhavam.
O rapazola notou a bobagem que acabara de proferir e, sem encarar de frente os componentes da roda, pôs-se a assoviar, visivelmente encabulado. Não pude evitar a minha imediata simpatia por ele, em virtude da sua razoável sugestão, debilmente formulada aos que decidiam a minha sorte. Afinal, as longas caminhadas cansam indistintamente defuntos e vivos. (Este argumento não me ocorreu no momento.)
Discutiram em seguida outras soluções e, por fim, consideraram que me lançar ao precipício, um fundo precipício, que margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue, lavar cuidadosamente o carro, quando chegassem a casa, seria o alvitre mais adequado ao caso e o que melhor conviria a possíveis complicações com a polícia, sempre ávida de achar mistério onde nada existe de misterioso.
Mas aquele seria um dos poucos desfechos que não me interessavam. Ficar jogado em um buraco, no meio de pedras e ervas, tornava-se para mim uma idéia insuportável. E ainda: o meu corpo poderia, ao rolar pelo barranco abaixo, ficar escondido entre a vegetação, terra e pedregulhos. Se tal acontecesse, jamais seria descoberto no seu improvisado túmulo e o meu nome não ocuparia as manchetes dos Jornais.
Não, eles não podiam roubar-me nem que fosse um pequeno necrológio no principal matutino da cidade. Precisava agir rápido e decidido:
— Alto lá! Também quero ser ouvido!
Jorginho empalideceu, soltou um grito surdo, tombando desmaiado, enquanto os seus amigos, algo admirados por verem um cadáver falar, se dispunham a ouvir-me.
Sempre tive confiança na minha faculdade de convencer os adversários, em meio às discussões. Não sei se pela força da lógica ou se por um dom natural, a verdade é que, em vida, eu vencia qualquer disputa dependente de argumentação segura e irretorquível.
A morte não extinguira essa faculdade. E a ela os meus matadores fizeram justiça. Após curto debate, no qual expus com clareza os meus argumentos, os rapazes ficaram indecisos, sem encontrar uma saída que atendesse, a contento, às minhas razões e ao programa da noite, a exigir prosseguimento. Para tornar mais confusa a situação, sentiam a impossibilidade de dar rumo a um defunto que não perdera nenhum dos predicados geralmente atribuídos aos vivos.
Se a um deles não ocorresse uma sugestão, imediatamente aprovada, teríamos permanecido no impasse. Propunha incluir-me no grupo e, juntos, terminarmos a farra, interrompida com o meu atropelamento.
Entretanto, outro obstáculo nos conteve: as moças eram somente três, isto é, em número igual ao de rapazes. Faltava uma para mim e eu não aceitava fazer parte da turma desacompanhado. O mesmo rapaz que aconselhara a minha inclusão no grupo encontrou a fórmula conciliatória, sugerindo que abandonassem o colega desmaiado na estrada. Para melhorar o meu aspecto, concluiu, bastaria trocar as minhas roupas pelas de Jorginho, que me prontifiquei a fazer rapidamente.
Depois de certa relutância em abandonar o companheiro, concordaram todos (homens e mulheres, estas já restabelecidas do primitivo desmaio) que ele fora fraco e não soubera enfrentar com dignidade a situação. Portanto, era pouco razoável que se perdesse tempo fazendo considerações sentimentais em torno da sua pessoa.

2 de setembro de 2018

Portugal Traído

Fernando Pacheco de Amorim
Portugal Traído (1975)

De Fernando Pacheco de Amorim tinha já lido 25 de Abril – Episódio do Projecto Global, que me impressionou vivamente. Tive agora a oportunidade de ler Portugal Traído, talvez ainda mais impressionante, pela quantidade de informação habitualmente suprimida pelos historiadores do regime, quando se trata da época à qual se refere: dos antecedentes do 25 de Abril ao PREC. Um dia, esperemos que não tarde muito, haverá uma História oficial a rever e corrigir...
Para não alongar esta entrada deixo dois trechos significativos, entre os muitos que poderia seleccionar – um mais analítico e outro mais factual, ambos impossíveis de ignorar.

Os Capitães não se aperceberam, ao tomarem conta do Poder, que não passavam de continuadores da situação anterior, no que ela tinha de negativo, como o revela com toda a evidência a pressa com que alijaram os territórios ultramarinos. No grande banquete dos interesses este era o prato de resistência. Os capitães não se aperceberam que ao servi-lo estavam a obedecer ao programa dos grandes interesses internacionais: o da Rússia Soviética, que, a coberto da sua ideologia, apenas cumpre o seu programa imperialista e o do clube euro-americano que, a coberto de outros mitos, cumpre igualmente o seu.
Temos de reconhecer que a força destes mitos é tão grande que as populações de pequenos países, como o português, acabam por perder o sentido dos seus legítimos interesses, bem como o equilíbrio mental, o sentido da justa medida e até a intuição no julgamento das situações e na avaliação do valor e da integridade dos que aparecem na cena política a falarem em seu nome. O 25 de Abril é, neste domínio, um exemplo pungente. A mediocridade, a ignorância e a imbecilidade mais chapada da nova classe dirigente parece não ter sido notada pelo homem da rua (entenda-se dos centros urbanos), antes parece por ele ter sido adoptado como expressão no poder da sua própria mediocridade e insuficiência. Nesta identificação, talvez se sinta como um verdadeiro detentor do Poder, sacrificando ao que se sabe ser um erro com dolorosas consequências, o momentâneo prazer de dar satisfação à sua tola vaidade. Ocupa, por isso, quando é porteiro, um lugar no Conselho de Administração; quando é enfermeiro, um lugar na direcção do Hospital; quando é aprendiz, o de dirigente da oficina; quando é servente, um lugar na direcção da Faculdade; quando é militar, um chorudo lugar, disputado a soco, num Conselho de Administração.
Como surpreender-nos? Ao mesmo título, o coronel Vasco Gonçalves, medíocre oficial de engenharia e desequilibrado mental, ocupa a Presidência do Conselho; o comandante Jesuíno, oficial de baixa patente na Marinha e inteiramente desconhecido mesmo nesta, agarra a pasta da Comunicação Social; o major Melo Antunes, oficial igual a tantos outros, que nem pelo saber nem pelo sabre jamais se distinguira, produz um plano económico de emergência que não chegou a emergir e, a seguir, sem mais aquelas, ocupa a pasta dos Estrangeiros; um tenente-coronel farmacêutico, de uma ignorância pasmante fora da botica do Regimento, senta-se na cadeira do Ministério da Educação e Cultura de maneira tão desastrada que logo é substituído por outro que apenas dele se distingue fisicamente; e por aí fora, de cima para baixo e para todos os lados, pois em todos os postos de importância na vida do País se encontram militares medíocres, porteiros, delinquentes, lésbicas agressivas e prostitutas diplomadas. É a versão pornográfica do negativo anterior. Nesta montureira da mediocridade até os cravos se desvalorizaram. Tal é a Revolução Portuguesa que a imprensa de trusts e os trusts de imprensa, por ordem do capital que a sustenta, tanto e tanto louvou enquanto julgava que ela servia os seus interesses. A mediocridade e a insuficiência dos novos dirigentes foi cuidadosamente escondida da opinião pública internacional, pois era nessa mediocridade e nessa insuficiência que jogavam os interesses, pois só através delas era possível trair de maneira tão clamorosa e indigna os legítimos interesses do aliado e amigo.
Os senhores do Clube de Bildelberg, o Prof. Marcello Caetano, e os seus amigos, os capitães do Movimento até 16 de Março, todos foram habilmente ultrapassados pelo PC.
Acabado o processo, só haverá uma vítima digna de lástima: o Povo Português!
[...]
Ora a revolta foi, de facto, uma manifestação espontânea – e por isso não teve êxito – uma inequívoca demonstração de repulsa contra a entrega de Moçambique a um movimento terrorista que não tinha qualquer expressão representativa no interior do território.
E precisamente pela sua total espontaneidade, não surpreende que o MFA a tenha dominado em poucos dias. Estão gravadas as ordens dadas através da rádio pelo Chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Costa Gomes, decretando o esmagamento de tão legítima sublevação popular por meio de bombardeamentos aéreos e massacres e, se necessário, com o concurso mesmo das forças militares da OUA, para as quais chegou a apelar. A tanto desceu a aberração do traidor! Sufocada a revolta, deram entrada em prisões de toda a Província milhares de pessoas, na sua maioria membros dos movimentos políticos representativos das etnias contrárias à Frelimo e numerosas personalidades. Foi grande o número de mortos, calculando-se que tenha ultrapassado os doze mil. A imprensa de Lisboa como aliás a internacional, minimizou o grave acontecimento, classificando-o de pequeno incidente provocado pelos fascistas, com a intenção de sabotarem o processo de descolonização.
A situação, embora dominada pela força implacável das fardas de traição estacionadas no território, continuou inquietante para o governo e para os dirigentes locais do MFA. O alto-comissário – que prudentemente se quedara em Luanda até ao completo esmagamento da heróica insurreição – não se atrevia a sair do palácio senão de helicóptero e, segundo se afirma, o seu estado normal era a embriaguez. A ideia dos massacres que lhe foi sugerida por Costa Gomes fica gravada na memória de Crespo. As autoridades tinham perfeita consciência de que a população, branca e preta, tinha sido dominada mas não vencida. Impunha-se, assim, quebrar de uma vez para sempre a sua resistência.
Sem que nada, na aparência, o fizesse esperar, no mês de Outubro, um banho de sangue selou o pacto diabólico logo após a instalação do governo provisório da Frelimo e da entrada no território dos 6.000 guerrilheiros que o acompanharam – de resto tão transidos de medo, pela consciência de não serem nada no imenso território e na multidão das cidades, que só se atreveram a aparecer nas ruas acompanhados pelas tropas traidoras do exército português. Surgiram, assim, em Lourenço Marques, bandos de pretos drogados e embriagados, munidos de armas de catanas e de latas de gasolina, que matavam e incendiavam, de maneira bárbara e indiscriminada. As tropas portuguesas assistiam impassíveis a estes crimes, afirmando os oficiais que as comandavam que tinham ordens rigorosas para não interferir, pois se tratava de ajustes de contas entre moçambicanos. Os dirigentes da Frelimo afirmaram que não lhes assistia a mais pequena responsabilidade nestes trágicos acontecimentos. Perante tão firme declaração só fica uma hipótese e, diga-se desde já, a mais plausível: a matança terá sido organizada pelas autoridades portuguesas locais. O alto-comissário, o pseudo-almirante Vítor Crespo, teria dado o seu aval ao plano de um grupo de oficiais esquerdistas do MFA, destinado a quebrar o moral dos seus compatriotas que segundo se afirmara, preparavam um ataque às Forças Armadas. Milhares de homens, mulheres e crianças, brancas e pretas, foram esquartejadas nas ruas de Lourenço Marques. Viram-se corpos humanos pendurados nos talhos da cidade e a avenida que conduz ao aeroporto, na extensão de alguns quilómetros, foi ornamentada com cabeças humanas espetadas em paus. Era tal o número de mutilados que chegava ao hospital Miguel Bombarda, que os depositavam nos corredores e nos pavimentos das salas, a esvairem-se, enquanto os médicos com as batas cheias de sangue e os olhos cheios de lágrimas, procuravam minorar os seus sofrimentos. Ante tão pavorosa hecatombe, o pessoal médico do hospital exigiu, sob pena de se refugiar nas representações diplomáticas acreditadas em Moçambique, que o chefe do governo provisório, Joaquim Chissano, comparecesse no hospital para se dar conta da extensão do crime e de tamanho horror. Perante o calvário que se lhe deparou, Chissano saiu a soluçar, salpicado pelo sangue dos que eram também suas vítimas.
A imprensa de Lisboa e a imprensa internacional limitaram-se a transmitir os comunicados oficiais, dando a entender que se tratara de um pequeno incidente, perfeitamente compreensível num quadro de passagem do colonialismo à liberdade. O número de mortos que, de forma comedida, lamentavam, afirmava-se ser de cerca de 80, a que juntavam alguns feridos, para dar, uma certa credibilidade à informação. Escondeu-se, assim, à opinião pública nacional e internacional que tinham sido barbaramente assassinadas mais de 2.500 pessoas, só em Lourenço Marques, ante a indiferença criminosa das Forças Armadas. Onde se terão escondido os bons sentimentos das comissões humanitárias, os zelos desinteressados dos correspondentes estrangeiros em Lourenço Marques, a piedade e o sentido de justiça dos padres Hastings, tão espontaneamente mobilizados à mais pequena calúnia, para agora se calarem ante a verdade?

Li anteriormente:
25 de Abril – Episódio do Projecto Global (1996)

1 de setembro de 2018

Nuevo descubrimiento del Gran Río de las Amazonas

Cristóbal de Acuña
Nuevo descubrimiento del Gran Río de las Amazonas (1641)

Nascido em Burgos, em 1597, Cristóbal de Acuña foi um missionário jesuíta que passou grande parte da sua vida nas Índias Ocidentais, onde morreu, em Lima, em 1675. Este livro, Nuevo descubrimiento del Gran Río de las Amazonas, relata a viagem cartográfica feita com a Armada Portuguesa, sob o comando de Pedro Teixeira.
Pedro Teixeira saiu do Pará a 28 de Outubro de 1637, com 47 grandes canoas, 70 soldados portugueses, 1200 índios guerreiros e remadores, acompanhados de mulheres e crianças ajudantes num total que ultrapassava as 2000 pessoas. À sua frente destacou um grupo batedor, comandado pelo coronel Benito Rodrigues de Oliveira, que chegou ao Puerto de Payamino, primeiro estabelecimento castelhano, na jurisdição de Quito, a 24 de Junho de 1638. Os dois acabaram por se reunir na cidade de Quito e foi a partir de Lima, onde se situava a capital do vice-reino do Peru, que receberam o encargo de fazer a viagem no sentido inverso, com todos os meios necessários, para o reconhecimento do território em favor da Coroa. Foi também nomeado para a expedição o padre Cristóbal de Acuña, então reitor do colégio da Companhia de Jesus em Cuenca, Quito, acompanhado do padre Andrés de Artieda, leitor de teologia no mesmo colégio. A viagem iniciou-se a 16 de Fevereiro de 1639, e a chegada ao Pará deu-se no dia 12 de Dezembro desse mesmo ano.
Cristóbal de Acuña levou o seu trabalho a sério e esmerou-se na objectividade e sistematização da informação recolhida. Quando, à entrada do Rio Negro, os principais oficiais da armada pensavam subir este rio para capturar escravos, e assim tornar rentável uma viagem que se lhes apresentava financeiramente desfavorável, Cristóbal de Acuña apresentou por escrito o seu protesto, reforçando a posição isolada em que se encontrava Pedro Teixeira, lembrando aos oficiais o dever de concluir a expedição o mais rapidamente possível, sem delongas, para que pudesse voltar a Espanha e apresentar o seu relatório ao rei Filipe IV.
Desde o Alto Amazonas, onde o rio se desfia numa série de afluentes vindos dos Andes, designados como entradas para as regiões onde os espanhóis se tinham já estabelecido, Cristóbal de Acuña fala da imensidão dessa bacia hidrográfica então ainda por explorar, enumerando muitos dos afluentes (alguns deles contam-se entre os maiores rios do mundo) e geografias incertas, apontando particularidades da fauna, da flora, do clima, das riquezas da terra e do rio – as madeiras, o cacau, o tabaco, o açúcar, etc. – e a enumeração interminável de tribos, num necessariamente breve apanhado das suas principais características e do território que ocupavam, bem como o que os índios lhe contaram de lugares e tribos mais distantes, relatos onde por vezes se descobre o exagero, ou a pura patranha.
Entre o término da viagem e a publicação do livro deu-se a Restauração, e por esse motivo Cristóbal de Acuña acrescentou um apêndice intitulado “Memorial apresentado no Real Conselho das Índias, sobre o dito descobrimento depois da rebelião de Portugal”, onde aconselha o rei a consolidar o seu domínio sobre este território a partir do Peru, referindo-se também ao perigo que representava a possibilidade dos holandeses conquistarem o curso inferior do rio.
Escrito num espanhol arcaico, mas que se lê sem dificuldades de maior, como se pode comprovar no trecho que se segue, esta edição do 250º aniversário foi publicada em Madrid em 1891, segundo a primeira edição.

Dizen que cercanos á su habitación, à la vanda del Sur en Tierra firme, viuen, entre otras, dos naciones, la vna de enanos, tan chicos como criaturas muy tiernas, que se llaman Guayazís, la otra de vna gente que todos ellos tienen los pies al reués, de suerte que quien no conociendo los quisiese seguir sus huellas, caminaría siempre al contrario que ellos. Llámanse Mutayus, y sónles tributarios á estos Tupiuambás, de hachas de piedra para el desmonte de los árboles, cuando quieren cultiuar la tierra, que las hazen muy curiosas, y de continuo se ocupan de labrarlas.
A la vanda de enfrente, que es la del Norte, dizen que están continuadas siete Prouincias bien pobladas, pero que por ser gente para poco, y que solo se sustentan con frutas, y animalillos siluestres, sin jamás sustentar guerras entre sí, ni con otros, no hazen dellos caso.
También afirman que con otra nación que confina con esta tubieron pazes mucho tiempo, auiendo comercio entre ellos de lo que cada una en su Prouincia abundaua, y lo principal de que los Tupinambás se proueían era de sal, que los amigos les traían por sus rescates, que afirmauan venirles de otras tierras vezinas á las suyas, cosa que si se descubriese sería de grande vtilidad para la conquista, y poblaciones deste Rio.
Y quanto aquí no se halle, se ha de descubrir en grande abundancia en un rio de los que baxan de ázia el Perú; de donde el año de treinta y siete, estando ya en la Ciudad de Lima, salieron dos hombres que de lance en lance, aportaron por aquellas partes, a cierto parage, donde baxando por vno de los ríos, que en este principal desaguan, dieron con vn gran cerro todo de sal, de que los moradores tenían el estanco, sustentándose ricos, y abundantes, con las pagas que por ella recibían, de los que de más lejos la venían á contratar.

28 de agosto de 2018

Crónicas Marcianas

Ray Bradbury
Crónicas Marcianas (1950)

Ray Bradbury publicou o seu primeiro conto em 1938 e, durante os anos 40, tornou-se colaborador regular de várias revistas e escritor a tempo inteiro, acabando por editar a sua primeira compilação de contos, Dark Carnival, em 1947, na Arkham House, então uma pequena editora pertencente ao escritor August Derleth, principal divulgador da obra de H.P. Lovecraft. Por essa época, Ray Bradbury escrevia alguns contos de temática marciana que teve a oportunidade de mostrar a Walter Bradbury, editor da Doubleday, o qual sugeriu agrupá-los de uma forma coerente num livro e ainda propôs o título.
Assim nasceu este The Martian Chronicles, onde os contos existentes e os que foram escritos propositadamente para o livro durante o Verão de 1949, integram uma cronologia mais ou menos livre da colonização de Marte, transformando o que podia ser uma antologia de contos em algo muito próximo a uma novela. Simultaneamente, apurou a sua personalidade literária, na originalidade que o celebrarizaria, e que levou Aldous Huxley a considerá-lo um poeta: a magia da palavra e a intemporalidade das ideias. Se a ciência e as máquinas acabam por envelhecer, escreveu Bradbury num breve prefácio, o mito, visto através de espelhos e inalcançável, permanece – e este é um livro de mitos.

Tomás miró hacia donde le indicaba el marciano y vio las ruinas.
—Pero cómo, esa ciudad está muerta desde hace miles de años.
El marciano se echó a reír.
—¡Muerta! dormí allí anoche.
—Y yo estuve allí la semana anterior y la otra, y hace un rato y es un montón de escombros. ¿No ves las columnas rotas?
—¿Rotas? Las veo perfectamente a la luz de la luna. Intactas.
—Hay polvo en las calles —dijo Tomás.
—¡Las calles están limpias!
—Los canales están vacíos.
—¡Los canales están llenos de vino de lavándula!
—Está muerta.
—¡Está viva! —protestó el marciano riéndose cada vez más—. Oh, estás muy equivocado ¿No ves las luces de la fiesta? Hay barcas hermosas esbeltas como mujeres, y mujeres hermosas esbeltas como barcas; mujeres del color de la arena, mujeres con flores de fuego en las manos. Las veo desde aquí, pequeñas, corriendo por las calles. Allá voy, a la fiesta. Flotaremos en las aguas toda la noche, cantaremos, beberemos, haremos el amor. ¿No las ves?
—Tu ciudad está muerta como un lagarto seco. Pregúntaselo a cualquiera de nuestro grupo. Voy a la Ciudad Verde. Es una colonia que hicimos hace poco cerca de la carretera de Illinois. No puedes ignorarlo. Trajimos trescientos mil metros cuadrados de madera de Oregon, y dos docenas de toneladas de buenos clavos de acero, y levantamos a martillazos los dos pueblos más bonitos que hayas podido ver. Esta noche festejaremos la inauguración de uno. Llegan de la Tierra un par de cohetes que traen a nuestras mujeres y a nuestras amigas. Habrá bailes y whisky...
El marciano estaba inquieto.
—¿Dónde está todo eso?
Tomás lo llevó hasta el borde de la colina y señaló a lo lejos.
—Allá están los cohetes. ¿Los ves?
—No.
—¡Maldita sea! ¡Ahí están! Esos aparatos largos y plateados.
—No.
Tomás se echó a reír.
—¡Estás ciego!
—Veo perfectamente. ¡Eres tú el que no ve!
—Pero ves la nueva ciudad, ¿no es cierto?
—Yo veo un océano, y la marea baja.
—Señor, esa agua se evaporó hace cuarenta siglos.
—¡Vamos, vamos! ¡Basta ya!
—Es cierto, te lo aseguro.
El marciano se puso muy serio.
—Dime otra vez. ¿No ves la ciudad que te describo? Las columnas muy blanca, las barcas muy finas, las luces de la fiesta... ¡Oh, lo veo todo tan claramente! Y escucha... Oigo los cantos. ¡No están tan lejos! Tomás escuchó y sacudió la cabeza.
—No.
—Y yo, en cambio, no puedo ver lo que tú me describes —dijo el marciano.
Volvieron a estremecerse. Sintieron frío.

Li anteriormente:
O Homem Ilustrado (1951)
Fahrenheit 451 (1953)
Muito Depois da Meia-Noite (1976)

22 de agosto de 2018

O Caso de Charles Dexter Ward

H. P. Lovecraft
O Caso de Charles Dexter Ward (1941)

A produção literária de H. P. Lovecraft, distribui-se maioritariamente por contos – a língua inglesa possui diferentes palavras para traduzir "conto", de acordo com a sua extensão, que aqui seriam bem empregadas –, e uma única novela: The Case of Charles Dexter Ward, escrita em 1927 mas publicada apenas em 1941.
Numa história que parte das causas para os motivos, sem uma única descrição gráfica dos horrores que a povoam, Lovecraft leva-nos até uma Providence da primeira metade do séc. XVIII, para nos apresentar o sinistro Joseph Curwen, o esquecido antepassado de Charles Ward, que, por se dedicar a artes demoníacas foi justiçado, uma noite, pelos seus conterrâneos e apagado da memória colectiva. Cento e cinquenta anos depois, o jovem Charles Ward tetraneto e sósia do velho Curwen, fascinado pelo esoterismo, desenrola o novelo que lhe permitirá reconstituir os acontecimentos e entrar na posse dos apontamentos do tetravô. Isto abrir-lhe-á a porta para retomar as experiências demoníacas do velho, libertando forças que estão para além do seu controle, numa voragem que acabará por o possuir, quando, aos olhos dos outros, a mudança do seu comportamento passará por loucura. Será o doutor Marinus Willett, amigo da família, que descobrirá as implicações sobrenaturais do caso e conseguirá uma forma de o remediar. São dele estas palavras significativas e sempre actuais: «um homem não pode interferir com a natureza além de certos limites [porque] todo horror que criou se erguerá para destruí-lo».

Por volta de setembro, o vampirismo declinou, mas, em janeiro do ano seguinte, Ward quase se envolveu em problemas sérios. Havia algum tempo as chegadas e partidas noturnas de caminhões no bangalô de Pawtuxet eram motivo de comentários e a essa altura um acontecimento imprevisto revelou a natureza de pelo menos uma das suas cargas. Num local solitário, perto de Hope Valley, ocorreu uma das frequentes e sórdidas emboscadas a caminhões por obra de assaltantes visando carregamentos de uísque, mas dessa vez os bandidos estavam destinados a levar um enorme choque. Pois, ao serem abertas, as longas caixas roubadas revelaram um conteúdo extremamente asqueroso, em realidade tão asqueroso que a coisa não pôde ser abafada entre os membros do submundo. Os ladrões enterraram precipitadamente o que haviam descoberto, mas, quando a polícia do estado foi informada do caso, empreendeu-se uma cuidadosa busca. Um vagabundo preso havia pouco tempo, em troca da garantia de isenção de acusações adicionais, consentiu por fim em conduzir um grupo de milicianos até o local e no esconderijo improvisado foi descoberta uma coisa absolutamente asquerosa e vergonhosa. Não ficaria bem para o senso de decoro nacional — ou mesmo internacional — se o público viesse a saber o que foi descoberto por aquele grupo horrorizado. Não havia dúvidas, mesmo para policiais sem muito preparo; vários telegramas foram enviados a Washington com febril rapidez.
As caixas eram endereçadas a Charles Ward em seu bangalô de Pawtuxet e agentes estaduais e federais imediatamente fizeram-lhe uma visita com propósitos enérgicos e sérios. Encontraram-no pálido e preocupado com seus dois estranhos companheiros e receberam dele o que lhes pareceu uma explicação válida e provas de inocência. Ele necessitara de certos espécimes anatômicos como parte de um programa de pesquisa cuja profundidade e autenticidade qualquer um que o conhecesse na última década poderia comprovar, e encomendara tipo e número exigidos a certas agências que ele julgara tão legítimas quanto este tipo de coisas poderia ser. Da identidade dos espécimes ele não sabia absolutamente nada e ficou muito chocado quando os inspetores aludiram às consequências monstruosas para o sentimento público e a dignidade nacional que o conhecimento do assunto produziria. Em sua declaração ele foi firmemente apoiado por seu colega barbudo, o doutor Allen, cuja estranha voz abafada tinha mais convicção mesmo do que o tom nervoso de Charles; de modo que no fim os agentes não adotaram nenhuma medida, mas cuidadosamente tomaram nota do nome e endereço de Nova Iorque que Ward lhes forneceu como base para uma averiguação que não resultou em nada. Apenas é justo acrescentar que os espécimes foram rápida e silenciosamente devolvidos aos seus devidos lugares e o grande público jamais saberá de sua sacrílega perturbação.

Li anteriormente:
Nas Montanhas da Loucura (1936)