30 de novembro de 2025
Tales and Stories
Mary W. Shelley
Tales and Stories (1891)
Publicado pela primeira vez em 1891, quarenta anos depois da morte de Mary Shelley, Tales and Stories reúne dezassete contos, a maior parte dos quais aparecidos em The Keepsake, um anuário publicado nas décadas de 20 e 30 daquele século. Apesar de Frankenstein ofuscar a restante obra da escritora, os seus trabalhos em pequeno formato foram particularmente ignorados, e só muito tempo depois ganharam o reconhecimento devido. Grande parte dos contos aqui reunidos têm por cenário a Itália ou a Grécia — inspiração por certo das viagens que fez com Percy Bysshe Shelley, Lord Byron e Claire Clairmont pelo continente europeu —, recorrendo também a ambientes medievais ou ao "gothic tale", tão ao gosto do romantismo, onde se inscreve a sua obra.
O excerto escolhido pertence a The Mortal Immortal, a história curiosa de um discípulo de Cornelius Agrippa que, bebendo impulsivamente aquilo que julgava ser um filtro de amor, que pusesse fim aos seus sofrimentos de apaixonado, ingere na realidade um elixir destinado a proporcionar a imortalidade.
Five years afterwards I was suddenly summoned to the bedside of the dying Cornelius. He had sent for me in haste, conjuring my instant presence. I found him stretched on his pallet, enfeebled even to death; all of life that yet remained animated his piercing eyes, and they were fixed on a glass vessel, full of a roseate liquid.
“Behold,” he said, in a broken and inward voice, “the vanity of human wishes! a second time my hopes are about to be crowned, a second time they are destroyed. Look at that liquor—you remember five years ago I had prepared the same, with the same success;—then, as now, my thirsting lips expected to taste the immortal elixir—you dashed it from me! and at present it is too late.”
He spoke with difficulty, and fell back on his pillow. I could not help saying,—
“How, revered master, can a cure for love restore you to life?”
A faint smile gleamed across his face as I listened earnestly to his scarcely intelligible answer.
“A cure for love and for all things—the Elixir of Immortality. Ah! if now I might drink, I should live for ever!”
As he spoke, a golden flash gleamed from the fluid; a well-remembered fragrance stole over the air; he raised himself, all weak as he was—strength seemed miraculously to re-enter his frame—he stretched forth his hand—a loud explosion startled me—a ray of fire shot up from the elixir, and the glass vessel which contained it was shivered to atoms! I turned my eyes towards the philosopher; he had fallen back—his eyes were glassy—his features rigid—he was dead!
Li anteriormente:
Frankenstein: or, The Modern Prometheus (1818)
16 de novembro de 2025
A Brasileira de Prazins
Camilo Castelo Branco
A Brasileira de Prazins (1882)
O enredo desta obra, considerada o último grande romance do autor, passa-se no Minho, a partir de 1845, mais de uma década volvida sobre a convenção de Évora Monte e o triunfo da monarquia constitucional. Quando, entre antigos combatentes da causa realista, personagens miguelistas que aguardam o regresso do rei, corre o boato que D. Miguel I está na Póvoa de Lanhoso, para encabeçar a revolta destinada a repor o antigo regime, estas pessoas tomam o desejo pela realidade. Alguns chegam à fala com o "rei", que distribui prodigamente títulos nobiliários, promoções e prebendas, para quando voltar a ocupar o trono, espoliando pelo caminho o ouro entregue pelos crentes para ajudar a causa, até que o equívoco se desfaz e o impostor é desmascarado.
É neste fundo de rebelião miguelista que se desenvolve a história principal; Marta, filha de Simeão de Prazins, é prometida em casamento, pelo pai, a Zeferino das Lamelas, abastado mestre pedreiro, disposto a dar um considerável dote ao futuro sogro. Entretanto, Marta enamora-se do estudante José Dias, da família Vilalva, grandes proprietários agrários, que a pretende desposar e Simeão rompe o acordo com Zeferino, vendo em José Dias um melhor partido. Mas a mãe deste está disposta a tudo para impedir o casamento, e enquanto a situação se arrasta, anuncia-se o regresso do Brasil de Feliciano, irmão de Simeão, na posse de uma grande fortuna. José Dias acaba por morrer tuberculoso. Simeão, que tentara inutilmente convencer Marta a casar com o tio, é alvo de uma emboscada e, no leito de morte, obtém da filha a promessa de se casar com Feliciano.
O sargento parou á porta a familiarisar-se com a escassa luz da adega : — O' padre! isto aqui é que é a sala do throno? ou é o subterraneo da inquisição? Mande lá acender uma candeia, se não tem um archote.
— Ó mulher, traz d'ahi uma placa accêsa — disse o abbade Marcos, contrafazendo o seu terror.
E o homem, lá dentro atraz das pipas, tiritava como Heliogabalo na latrina, seu derradeiro refugio.
A Senhorinha entrou adiante com a placa, um luzeiro mortiço de cêbo com murrão que parecia condensar mais as trevas da lobrega caverna.
— Arranja ahi um fachoqueiro de palha, ó 14! Que raio de placa você cá traz, mulher!
— E' emquanto não pega bem a torcida — explicou a creada caminhando atraz do padre para o lado opposto ao esconderijo. Com effeito, a claridade difundia-se, mas tão de vagar que ninguém diria a velocidade que os naturalistas marcam a um raio de luz. Os soldados batiam com os nós dos dedos nos tampos das pipas que toavam o som abafado de cheias.
E o 14: — ó meu sargento, o tanso do abbade casca-lhe rijo no verdasco! Estão cheiinhas! E apontando para as duas pipas vasias do canto, o sargento perguntava se o vinho d'aquellas já lhe tinha cahido na sachristia — e dava piparotes na barriga do padre.
O abbade tinha uns sorrisos pallidos, compromettedores como uma denuncia. O 24 escutava e dizia que a modos que ouvira mexer coisa atraz das pipas!
— Hade ser ratos — conjecturou o abbade, tremulo, engasgado.
— Palpa com a bayoneta por traz das pipas, ó 24! — disse o sargento.
Assim que o aço da bayoneta raspou na parede, a Senhorinha começou a dar gritos, sentou-se a espernear, e perdeu os sentidos.
— Que diabo tem a velha?! — perguntou o Pilula — Dão-lhe estupores, eim?
— É flato, costuma-lhe a dar — elucidou o abbade. — O 24 voltara-se a vêr a velha escabujar, e retirara a bayoneta de traz das pipas. O abbade teve um momento de esperança, cuidando que o exame estava feito:
— Tem visto, snr. sargento? Aqui não ha nada. Os senhores vieram enganados a minha caza. — E caminhou para a porta com a luz.
— Espere ahi, seu padre! Anda-me com a bayoneta, 24. Escarafuncha-me esses ratos.
O outro soldado entrou no mesmo exame; e, apenas as bayonetas resvalaram por corpo que lhes abafava os tinidos metalicos das pontuadas, ouviu-se um grande estrupido de coisa que trepava pelas pipas. E n'isto appareceu uma cabeça com enormes barbas sobre um dos tampos.
— Oh! — bradou o Pilula! — muito bem apparecido n'esta funcção, snr. D. Miguel I! Suba p'ra cima d'esse throno e dê lá de cima um bocado de cavaco ás tropas! Mas o melhor é descer cá p'ra baixo, real senhor!
O 24, muito espantado, a olhar para a cabeça do homem:
— Parece o padre eterno, ó meu sargento!
— Com quem elle se parece é com o Remexido do Algarve, — affirmava o 14.
— Desça d'ahi que ninguem lhe faz mal, homem. Está prezo á ordem do governador civil — concluiu o sargento com seriedade imponente.
— Este senhor?... não... — disse o abbade com as mãos postas.
— Não seja asno! — volveu o sargento. Este homem não é D. Miguel. É um faiante que o está aqui a comer a você e mais aos patólas da sua laia. Vá-lhe buscar a roupa, senão entra na escolta em mangas de camisa.
Li anteriormente:
Perfil do Marquês de Pombal (1882)
A Corja (1880)
Eusébio Macário (1879)
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