30 de marzo de 2026
O Don Tranquilo, vol. IV
Mikhail Cholokhov
O Don Tranquilo, vol. IV (1940)
O Livro IV começou por ser publicado ao longo de 1937 e 1938 na revista Novy Mir e surgiu em livro pela primeira vez em 1940. A obra foi inicialmente recebida com alguma frieza na União Soviética, pelo seu enfoque no lado dos insurgentes cossacos ligados ao Exército Branco durante a guerra civil. E, logo a partir de 1928, Cholokhov foi acusado de plágio pelos seus detractores; como o seu arquivo foi destruído por um bombardeamento durante a Segunda Guerra Mundial, sem provas evidentes, as suspeitas reataram-se periodicamente ao longo dos anos apesar de, oficialmente, todas as investigações feitas sobre o assunto apontarem em sentido contrário. A partir de 1975 foram sendo encontrados alguns manuscritos de Cholokhov que permitiam comprovar a sua autoria, mas só em 1999, com o aparecimento de uma quantidade considerável de manuscritos dos anos 20, a questão foi definitivamente dirimida.
O Livro IV acompanha os últimos tempos da guerra civil, sem se centrar demasiadamente nas movimentações e nos combates, mas nos dramas pessoais: no cansaço, na desilusão e na sensação de inutilidade que a guerra trouxe, nas vidas ceifadas primeiro pelas balas e depois pelo tifo. Grigóri Melekhov apercebe-se que os cossacos estão a ser instrumentalizados por interesses alheios e, quer vençam os brancos ou os vermelhos, acabarão subjugados; a independência era uma miragem. Dissolvida a sua divisão, destituído do comando e afectado pela doença, durante a retirada Grigóri acaba por passar-se finalmente para o lado do Exército Vermelho.
Terminada a guerra, no regresso a casa, Grigóri enfrenta a hostilidade do seu cunhado, transformado em presidente do comité revolucionário local; obrigado a apresentar-se ao comissariado militar, percebe que a sua curta passagem pelo Exército Vermelho não apagou a memória do seu passado e que acabará por ser detido, julgado e condenado. Novamente em fuga, cai nas mãos de um bando rebelde liderado por Iakov Fómine, um comandante cossaco veterano e velho conhecido, ao qual se junta por necessidade e não por convicção. Os capítulos finais do livro descrevem as andanças destes pretensos rebeldes, quase malfeitores, pelas terras do Don, sem meios nem apoio popular, permanentemente perseguidos e dizimados, com um Fómine que, romanticamente, sonha iniciar uma grande sublevação. Grigóri acaba por abandoná-los, nas páginas finais, desejando voltar à aldeia e fugir com Akcínia, o seu amor de sempre, para terras distantes, e recomeçar uma nova vida. Mas aqui não há qualquer final feliz.
Tudo aquilo que há muito tempo se vinha acumulando no coração de Natália explodiu de súbito num acesso de soluços convulsivos. Arrancou o lenço da cabeça, a gemer, bateu com o rosto na terra dura e impiedosa, esmagou contra ela o peito e soluçou sem verter lágrimas.
Ilínitchna, que era uma mulher de idade, prudente e corajosa, não fez um gesto. Envolveu cuidadosamente na blusa a caneca com o resto de leite coalhado, colocou-a à sombra, depois despejou água na taça e veio sentar-se ao lado de Natália. Sabia que as palavras de nada servem em face de uma dor semelhante, sabia também que as lágrimas são preferíveis aos olhos secos, aos lábios cerrados. Depois de haver deixado chorar Natália, Ilínitchna poisou-lhe a mão sobre a cabeça, aquela mão que o trabalho endurecera, e disse severamente, enquanto acariciava os cabelos negros e brilhantes da nora:
— Pronto! Nunca chegarás a esgotar as lágrimas, guarda algumas para a outra vez. Olha, bebe um gole de água.
Natália acalmou-se. De tempos a tempos os seus ombros erguiam‑se e uma leve tremura percorria-lhe o corpo. De súbito, pôs‑se em pé de um salto, empurrou Ilínitchna que lhe oferecia a taça cheia de água e, voltada para o oriente, unindo as palmas húmidas de lágrimas como se estivesse a orar, exclamou muito depressa, numa voz entrecortada:
— Meu Deus! Ele despedaçou-me a alma. Já não tenho mais forças para viver assim. Meu Deus, castigai esse maldito! Dai-lhe a morte! Que ele não viva muito tempo! Que não me torture mais!
Uma nuvem negra e esfarrapada aproximava-se vinda de leste. A trovoada rugia surdamente. Um relâmpago branco, incandescente, ziguezagueou no céu, furando o cimo das nuvens. O vento inclinava para oeste as ervas murmurantes, trazia da estrada uma poeira amarga, dobrava quase até ao chão as cabeças dos girassóis, pejadas de sementes.
O vendaval despenteava os cabelos de Natália, secava-lhe o rosto molhado, enrolava-lhe em volta das pernas a saia de trabalho, cinzenta e rodada. Durante uns segundos Ilínitchna observou a nora com um terror supersticioso. Sobre o fundo escuro da nuvem de tempestade que cobria metade do céu, ela afigurava-se-lhe estranha e assustadora.
A chuva aproximava-se com rapidez. O silêncio precursor da borrasca durou pouco. Um falcão que descia obliquamente soltou um grasnido angustiado; um rato do trigo soprou pela última vez diante da toca; uma rajada de vento atirou à cara de Ilínitchna uma lufada de areia fina e seguiu estepe fora, a uivar. A velha ergueu-se a custo. Tinha o rosto de uma palidez mortal. E gritou numa voz rouca, através do rugido da tempestade em fúria:
— Acalma-te! Deus seja contigo! Para quem estás tu a pedir a morte?
— Meu Deus, castigai-o! Meu Deus, castigai-o! — gritava Natália revirando os olhos dementes, voltados para o sítio onde se amontoavam majestosa e ferozmente as nuvens revoltas da tempestade, iluminadas pelas cintilações deslumbrantes dos relâmpagos.
Um trovão reboou de súbito por cima da estepe com um estalido seco. Tomada de pânico, Ilínitchna persignou-se. Aproximando-se de Natália num passo vacilante, segurou-a pelos ombros:
— Ajoelha-te, ouves, Natachka?
A rapariga, a fitar a sogra com um olhar desvairado, deixou-se cair de joelhos contra vontade.
— Pede perdão a Deus! — Ordenou-lhe imperiosamente Ilínitchna. Pede-lhe que não oiça o teu pedido. A quem desejaste tu a morte? Ao pai dos teus filhos. Oh! Isso é um grande pecado! Benze-te, curva-te até ao chão: Diz: «Meu Deus, perdoai o meu pecado, que sou maldita.»
Natália benzeu-se, murmurou qualquer coisa com os lábios descorados e, cerrando os dentes, caiu desajeitadamente para o lado.
Li anteriormente:
O Don Tranquilo, vol. III (1933)
O Don Tranquilo, vol. II (1929)
O Don Tranquilo, vol. I (1928)
17 de marzo de 2026
O Don Tranquilo, vol. III
Mikhail Cholokhov
O Don Tranquilo, vol. III (1933)
Tal como os dois volumes anteriores, também este fez a sua aparição na revista Oktyabr, em 1932. Algumas edições agregam a obra completa em dois tomos, como sucedeu com a tradução inglesa de Stephen Garry, cujo primeiro tomo surgiu logo em 1934, embora o segundo tivesse sido editado apenas em 1941, aguardando a conclusão da obra. É, contudo, uma versão condensada e seria preciso esperar até 1959, com a revisão de Robert Daglish, para ter uma tradução inglesa minimamente fiel ao original. O terceiro volume foi o que sofreu mais pressões para suprimir os trechos que descrevem a repressão soviética, no entanto o próprio Estaline defendeu o autor e a sua publicação.
O Livro III é passado durante a guerra civil que seguiu à revolução, e Grigóri Melekhov volta a ser a personagem central da narrativa. Apesar das suas simpatias bolcheviques acaba por combater do lado da sublevação independentista, ascendendo ao posto de general. Divido entre a lealdade às suas raízes e a sua consciência, o desenrolar da guerra amarra-o ao lado que acabou por escolher. Com os combates agora na região do Don e na sua própria aldeia, sucede-se um tipo de violência extrema, já não contra estrangeiros desconhecidos, mas contra vizinhos e conhecidos, com execuções de motivação política que levam a actos de vingança quando a onda muda, tornando a reconciliação impossível.
Pantelei Prokófievitch regressou de casa do compadre mais perturbado do que nunca, roído de inquietação e de angústia. Sentia claramente que a vida passara a ser dominada por forças estranhas e hostis. Outrora, governava a sua vida e a herdade como quem monta um cavalo bem ensinado numa corrida de obstáculos; hoje, era arrastado pela vida como por um cavalo que houvesse tomado o freio nos dentes; não era ele que o dirigia, limitava-se a andar aos baldões, na sela, fazendo esforços inúteis para não cair.
Via o futuro envolto em nevoeiro. Ainda não ia longe o tempo em que Mirone Grigórievitch era o proprietário mais rico da região. Os três últimos anos haviam-lhe dizimado a fortuna. Os serviçais tinham-no abandonado, semeava nove vezes menos do que dantes, os bois e os cavalos deixavam a herdade a troco de um dinheiro desvalorizado. Tudo se passara como num sonho. Tudo desaparecera como a bruma do Don.
Para recordar o passado, só restava a casa com figurinhas esculpidas na varanda e cornijas cinzeladas que haviam perdido a cor. A barba de Korchunov, ruiva como a pele da raposa, desbotara prematuramente, salpicada de pêlos brancos; seguiram-se os cabelos que embranqueceram em tufos como os arbustos das terras arenosas e agora toda a fronte apresentava uma brancura de sal; e a onda ia avançando, cabelo por cabelo, até cobrir todo o crânio. Também, no interior de Korchunov, havia duas forças que lutavam entre si furiosamente: o seu sangue vermelho revoltava-se, impelia-o para o trabalho, obrigava-o a semear, a construir telheiros, a reparar as alfaias, a enriquecer; porém a angústia que o assaltava cada vez com mais frequência («Nada vale a pena, é tempo perdido!») pincelava tudo com o branco mortal da indiferença. As suas mãos, que fazia impressão ver, já não empunhavam, como antigamente, o martelo e a serra: ficavam ociosas sobre os joelhos, deformadas pelo trabalho, numa constante agitação. Os tempos difíceis tinham-lhe apressado a velhice. E a terra tornara-se-lhe odiosa. Na Primavera dirigia-se à herdade como quem vai a uma propriedade de que se não gosta, apenas por hábito e por dever. Já lhe não interessava ganhar e custava-lhe menos perder... Quando os vermelhos lhe levaram os cavalos, não se manifestou, ao passo que dois anos antes, por uma coisa de nada, quando os bois lhe pisaram uma paveia de trigo, ia matando a mulher à pancada.
Li anteriormente:
O Don Tranquilo, vol. II (1929)
O Don Tranquilo, vol. I (1928)
2 de marzo de 2026
O Don Tranquilo, vol. II
Mikhail Cholokhov
O Don Tranquilo, vol. II (1929)
O segundo volume continua com o cenário da Grande Guerra. Após a queda do czarismo, o cansaço de três anos de guerra começa a ter um efeito devastador sobre a moral dos soldados. A penetração da ideologia bolchevique entre as tropas, focando-se no caso particular dos cossacos, leva a profundas divisões, com os oficiais superiores alinhados por um regresso à monarquia e os restantes manifestando a vontade de derrubar o regime de Kerénsski em favor de uma ditadura operária.
O início do segundo volume está mais centrado na personagem de Evguéni Lisstnítzki, capitão cossaco, filho de Nikolai, para ilustrar as resistências que existiam ao avanço dos bolcheviques.
A revolução de Outubro não tem, surpreendentemente, grande destaque e a narrativa desloca-se para a guerra civil que se lhe seguiu. Grigóri cede o protagonismo a Podtiólkov, outro cossaco, inicialmente independentista, que acaba por se juntar aos guardas-vermelhos para comandar um destacamento de combate ao levantamento contra-revolucionário dos cossacos. E Buntchuk, que conhecíamos como um tenente voluntário do exército regular que tinha desertado, reaparece, após a revolução, ao serviço dos bolcheviques, em posição de destaque. Renovam-se as cenas de violência e crueldade, agora entre cossacos, com o ódio particular que caracteriza as guerras civis.
A meia versta da aldeia, na margem esquerda do Don, há um fundão; na Primavera, quando as águas baixam, parecem sorver-se por ali. Naquele ponto da margem arenosa, a água surde em vários sentidos, e o rio nunca ali gela. O fundão brilha como um largo crescente verde por entre o gelo, e o caminho através do Don faz um brusco desvio. Ali, ao regressar ao rio, a água trasbordante da Primavera revolteia e ruge, as torrentes juntam-se, e cavam mais o fundo, e, durante o Verão, as carpas se mantém, a algumas ságenas de profundidade, enredadas nos ramos de uma árvore morta.
Foi para este fundão, para a sua borda esquerda, que a égua do velho Melekhov dirigiu os seus passos cegos. Estava ela apenas a umas vinte ságenas, quando Pantelei Prokófievitch se virou e entreabriu um olho. As estrelas amarelas-esverdeadas como cerejas ainda não maduras, miravam-no do alto do céu negro. «É noite...» pensou ele, nebulosamente, e esticou com violência as rédeas.
— Eh, aí!... Eu já te digo, velha carcaça!
A égua retomou o trote. Aspirou o cheiro da água muito próxima, arrebitou as orelhas, e virou para o dono, indecisa, os olhos cegos. De repente, ouviu o barulho das vagas contra a margem. Emitindo um sopro selvático, atirou-se para um lado e recuou. Corroído por baixo, o gelo cedeu-lhe sob os cascos, e estalou como uma côdea crestada de pão. A égua relinchou sinistramente. Com toda a força que tinha, apoiou-se nas patas traseiras, mas sob o movimento agitado dos cascos o gelo estilhaçava-se, e já as patas dianteiras lhe mergulhavam na água. Houve um estalido, uma chapinhadela, o gelo abriu-se, sorveu a égua, que agitou as patas convulsivamente, escouceando contra os varais. Naquele instante, sentindo que qualquer coisa ruim se passava, Pantelei Prokófievitch saltou do trenó e atirou-se para trás. Viu o trenó empinar-se, arrastado pelo peso do animal, de patins cintilando à luz das estrelas, e depois sumir-se na profundeza verde-negra. Misturada a pedaços de gelo, a água silvou brandamente, e por pouco uma vaga o não atingiu a ele. Com uma incrível rapidez, recuou sobre o rabo, de um salto se pôs de pé e berrou:
— So-cor-ro, boa gente, que me afo-go!...
Como por encanto, a bebedeira dissipara-se-lhe. Voltou a correr em direcção ao fundão. O buraco aberto luzia vivamente.
O vento e a corrente arremessavam pedaços de gelo para o largo círculo escuro da água, e as vagas sacudiam as suas farripas verdes, e rumorejavam. À roda, havia um silêncio mortal. As luzes de uma aldeia longínqua punham uma mancha amarelada no negrume da noite. As estrelas ardiam, tremiam febrilmente no céu despelado, como sementes joeiradas. Um vento leve enfunava a neve, que assobiava, esvoaçava como uma poalha de farinha na bocarra escura do fundão, em que a água negra fumegava, tentadora e angustiante como antes.
Pantelei Prokófievitch percebeu que era estúpido e inútil gritar. Olhou em torno, e reparou no sítio a que tinha sido levado pela bebedeira, a vibrar de ira contra si mesmo e contra o que se havia passado. Ao saltar do trenó, não largara o chicote, que conservava em punho. Umas poucas de vezes chicoteou as próprias costas, a praguejar, sem nada, porém, sentir: a peliça de cabedal protegia-o, e despi-la para se castigar era absurdo. Arrancou um tufo de pêlos da barba; fez as contas de cabeça às compras perdidas, ao valor da égua, do trenó e dos arreios, largou uns poucos de palavrões furiosos, e de novo se acercou do fundão.
— Cega do diabo!... — articulou ele em voz trémula e chorosa, dirigindo-se à égua afogada. — Estupor! Afogaste-te e ias-me afogando! Onde a desgraça te havia de fazer vir parar! Agora, são os diabos que te hão-de atrelar; o que lhes falta é um chicote para tu andares!... Pois aí está o meu!
Ergueu o braço, tresloucado, e lançou o chicote de cerejeira para o meio do fundão.
O chicote enfiou a prumo na água e desapareceu.
Li anteriormente:
O Don Tranquilo, vol. I (1928)
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