6 de abril de 2026
A Sereia
Tomasi di Lampedusa
A Sereia (1961)
A Sereia, também traduzida em português sob o título O Senador e a Sereia, é um dos quatro textos que compõem a antologia I Racconti, ou seja, Os Contos, publicada postumamente em 1961. Por vezes é difícil compreender os critérios editoriais que levam à segmentação de um livro e resultam aqui num opúsculo de 80 páginas incluindo um prefácio pelo tradutor, que se lêem de uma assentada, quando é sabido que o menor dos custos de produção é precisamente o papel.
Considerado o mais importante dos quatro contos, A Sereia descreve como o jovem jornalista Paolo Corbera conhece casualmente Rosario La Ciura, um catedrático de literatura grega cinquenta anos mais velho, e entre os dois nasce uma amizade na qual o último manifesta um aristocrático desprezo pela superficialidade quotidiana; a explicação para este procedimento dá-se na segunda parte do conto, quando Rosario La Ciura toma a palavra para descrever os acontecimentos num Verão cinquenta anos antes, quando, no litoral siciliano, estudava para um exame e se apaixonou profundamente por Lígia, uma sereia imortal, uma experiência sublime que empalidecia toda a vivência posterior. No final fica-se a saber que o senador desapareceu, tendo caído do navio em que seguia viagem, deixando-nos adivinhar a motivação.
Aquelas semanas do Verão decorreram rápidas como uma única manhã, e quando passaram verifiquei que na realidade tinha vivido séculos. Aquela rapariguinha lasciva, aquela ferazinha cruel também fora mãe sensatíssima que só com a sua presença tinha erradicado fés, dissipado metafísicas; com os dedos frágeis, muitas vezes a sangrar, mostrara-me o cantinho para os verdadeiros eternos repousos, e também para um ascetismo de vida derivado não da renúncia mas sim da impossibilidade de aceitar outros prazeres inferiores. Não serei eu certamente o segundo a não obedecer à sua chamada, não recusarei esta espécie de graça pagã que me foi concedida.
Em razão da sua própria violência aquele Verão foi muito breve. Logo a seguir ao vinte de Agosto juntaram-se as primeiras tímidas nuvens, choveram umas gotas isoladas tépidas como sangue. As noites foram todas um combinar-se no longínquo horizonte de lentos e mudos relampejares que se deduziam um do outro como as cogitações de um Deus. De manhã o mar cor de rola como uma rola magoava-se pelas suas arcanas e irrequitudes e à noite encrespava-se, sem que se sentisse brisa, num degradar de cinzentos-fumo, cinzentos-aço, cinzentos-pérola, suavíssimos todos e mais afectuosos que o esplendor de antes. Remotíssimos flocos de nevoeiro afloravam as águas: talvez nas costas gregas já estivesse a chover. Também o humor de Lígia passava do esplendor à afectuosidade do cinzento. Calava-se mais, passava horas deitada no rochedo a olhar o horizonte já não imóvel, afastava-se pouco. «Queria ficar mais tempo contigo; se fosse agora para o largo os meus companheiros do mar não me deixavam voltar. Ouve-los? Estão a chamar-me.» Por vezes parecia-me ouvir realmente uma nota diferente, mais baixa entre o piar agudo das gaivotas e entrever cabeleiras fulmíneas no meio de duas rochas. «Tocam as suas conchas, chamam Lígia para as festas da tempestade.»
Li anteriormente:
O Leopardo (1958)
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