12 de xullo de 2018

The Garden of Rama


O Jardim de Rama começa no ponto em que terminou o livro precedente, O Enigma de Rama. O gigantesco cilindro estelar, depois de evitar a colisão com a Terra, prossegue a sua rota rumo ao espaço exterior, levando a bordo os três cosmonautas que, por diferentes razões, não conseguiram abandonar a nave: Nicole, Richard e Michael.
A primeira parte é escrita como o diário de Nicole, e começa com o nascimento da sua filha Simone – de um ponto de vista feminino, portanto, no que pretende ser normalmente uma mostra de versatilidade literária da parte de autores do sexo oposto. Este diário abarca um período de quase 14 anos, onde se descreve a viagem de Rama, inicialmente cheia de surpresas, com as descrições da aceleração do artefacto até atingir metade da velocidade da luz. Depois, também a história entra em velocidade de cruzeiro, dedicando-se aos meandros da vida familiar (nascem mais quatro crianças), em que o conhecimento sobre os desígnios de Rama e sobre as formas de vida que constituem os aparentes companheiros de viagem quase não avança. Por fim, atracam numa imensa base orbital, cerca de Sírio, onde outras naves se encontram ancoradas.
Nesse local, designado por Nodo, decorrem os 16 meses da segunda parte. Os viajantes são comodamente instalados e submetidos a variados testes; por fim são informados, em linhas gerais, do projecto de observação gizado pelas inteligências responsáveis por Rama, que passa por uma separação familiar e o regresso dos restantes ao Sistema Solar, novamente a bordo do remodelado Rama, mas em animação suspensa.
A viagem até ao encontro de Marte demora assim 19 anos de uma penada (sem contar com a dilatação temporal causada pela relatividade), dando início à terceira parte. O governo terrestre, cedendo a uma mensagem transmitida de Rama – por intermédio de Nicole – onde se pretende uma amostra de duas mil pessoas para estudo, selecciona e envia essa gente ao encontro da nave, sob o pretexto de reiniciar a colonização de Marte, informando-a depois da alteração de planos. Os colonos são levados para Rama e instalados no espaço que lhes fora reservado, e nisto decorre a terceira parte, dando o pretexto para a introdução de inúmeros personagens secundários na narrativa.
A quarta parte inicia-se na festa do terceiro aniversário da chegada dos colonos a Rama, e ficamos a saber que a nave se dirige agora a Tau Ceti. Esta fase do livro descreve a dinâmica social da colónia – um espaço fechado de 160 km2 no interior do cilindro, denominado Novo Eden, que recria um habitat terrestre – e observa-se que numa comunidade heterogénea basta muito pouco para a organização se fragilizar e gerar o desastre. No final deste trecho há um golpe sangrento para decapitar o governo da colónia e os seus mais notórios apoiantes, e, como consequência, a fuga de Richard Wakefield.
Uma grande porção da quinta parte descreve a permanência de Richard numa segunda colónia de Rama, habitada por uma forma de vida já encontrada em Rama II, os avians. O seu habitat fora já violado e acabará por ser invadido pelos humanos numa guerra de extermínio, levada a cabo pelo governo mafioso que tomou o poder em Novo Eden. Richard tornar-se-á a única esperança para evitar a destruição destes seres, e empreende uma segunda fuga, para New York. Enquanto isso, Nicole, acusada de sedição, enfrenta um julgamento fantoche que a condena à morte.

"How many spacefaring species are there in our galaxy?" Richard asked a little later.
"That's one of the objectives of our project—to answer that question exactly. Remember, there are more than a hundred billion stars in the Milky Way. Slightly more than a quarter of them have planetary systems surrounding them. If only one out of every million stars with planets was home to a spacefaring species, then there would still be twenty-five thousand spacefarers in our galaxy alone."
The Eagle turned around and looked at Richard and Nicole. "The estimated number of spacefarers in the galaxy, as well as the spacefarer density in any specified zone, is Level III information. But I can tell you one thing. There are Life Dense Zones in the galaxy where the average number of spacefarers is greater than one per thousand stars."
Richard whistled. "This is staggering stuff," he said to Nicole excitedly. "It means that the local evolutionary miracle that produced us is a common paradigm in the universe. We are unique, to be sure, for nowhere else would the process that produced us have been duplicated exactly. But the characteristic that is truly special about our species—namely our ability to model our world and understand both it and where we fit into its overall scheme—that capability must belong to thousands of creatures! For without that ability they could not have become spacefarers."
Nicole was overwhelmed. She recalled a similar moment, years before when she was with Richard in the photograph room of the octospider lair in Rama, when she had struggled to grasp the immensity of the universe in terms of total information content. Again now she realized that the entire set of knowledge in the human domain, everything that any member of the human species had ever learned or experienced, was no more than a single grain of sand on the great beach representing everything that had ever been known by all the sentient creatures of the universe.

Li anteriormente:
Rama II (1989)

17 de xuño de 2018

Rama II



Arthur C. Clarke & Gentry Lee
Rama II (1989)

No prólogo deste livro, escrito quando os quatro volumes da série Rama já estavam publicados, Arthur C. Clarke tece algumas considerações curiosas. Afirma, por exemplo, que as linhas finais de Rendezvous with Rama foram acrescentadas à última da hora, na revisão final, e nunca tivera a intenção de escrever uma sequela. Descreve também as circunstâncias em que Gentry Lee lhe foi apresentado e a renitência inicial em escrever ficção em parceria. Gentry Lee, do JPL da NASA, era então o engenheiro-chefe da missão Galileo que seria lançada à exploração das luas de Júpiter; antes disso tinha sido um dos responsáveis pelas sondas Viking, que fotografaram Marte, e, juntamente com Carl Sagan, fundou a empresa que produziu a série Cosmos. Arthur C. Clarke refere ainda a sua surpresa quando constatou que Gentry Lee possuía maior conhecimento das literaturas inglesa e francesa que ele próprio, e o esforço que fez no sentido de evitar impor o seu estilo à escrita de Lee. O resultado da colaboração foi Cradle e, apesar de considerar a experiência positiva, não havia planos para continuá-la. Entretanto surgiu a ideia de escrever uma trilogia de Rama, e Gentry Lee, com o contributo do seu conhecimento científico, parecia ser a pessoa certa para a tarefa. De facto, cabe a Lee a maior parte da escrita narrativa, tendo Clarke feito algumas sugestões e o trabalho de edição; por este motivo, não surpreende que o estilo seja muito diferente de Rendezvous with Rama, sobretudo no tratamento das personagens.
De Rama II pode dizer-se, sem rodeios, que tem o dobro do tamanho e metade do interesse do livro que lhe deu origem. A história desenrola-se 70 anos depois dos acontecimentos descritos em Rendezvous with Rama, quando uma nova nave, idêntica à primeira, se aproxima do Sistema Solar. A história tarda demasiado a arrancar e é preciso chegar ao capítulo 15 para, finalmente, ver a tripulação no espaço e a chegada a Rama II; contudo, os meandros narrativos e as ramificações inúteis não terminam aqui, e são uma constante ao longo do livro.
Dos doze membros da tripulação internacional do projecto Newton, a narrativa centra-se na personagem de Nicole des Jardins, uma cientista afro-francesa que tem a seu cargo a monitorização médica e o suporte de vida da expedição. Outras personagens em destaque: a italiana Francesca Sabatini, uma mulher ambiciosa e sem escrúpulos, jornalista, que acompanha a missão; o engenheiro inglês Richard Wakefield, construtor de micro-robots nos tempos livres; e, ainda o general norte-americano Michael Ryan O'Toole, cuja fé católica o coloca perante profundos dilemas quando lhe é exigida obediência militar.
A exploração de Rama será certamente o tema de maior interesse, para que chegou aqui depois de Rendezvous with Rama. E Rama II, geograficamente igual ao primeiro, tem diferenças cruciais e particularidades que adensam o mistério. Uma boa parte do livro – a mais interessante – decorre quando des Jardins e Wakefield ficam isolados em New York, a cidade-ilha no meio do Oceano Cilíndrico, com a descrição do que aí encontram. Desde cedo a missão é confrontada com uma mudança de rumo da nave, que se coloca em rota de colisão com a Terra, com todas as implicações que isso envolve.
Para além da exploração de Rama, o leitor é arrastado para uma trama vagamente policial, com várias personagens preocupadas com os mediáticos contratos milionários que as esperam no regresso, sob pressão dos directos noticiosos que acompanham constantemente a expedição, à mistura com feitiçaria africana, Shakespeare, e História Medieval, numa caldeirada que parece ter sido concebida a pensar numa futura adaptação televisiva ou cinematográfica.

Richard saw that Nicole was staring at him. "I have an idea," he said excitedly. "It may be completely far-fetched... Do you remember Dr. Bardolini and his progressive matrices? With the dolphins?... What if the Ramans also left a pattern here in New York of subtle differences that change from plaza to plaza and section to section?... Look, it's no crazier than your visions."
Already Richard was on his knees on the ground, working with his maps of New York, "Can I use your computer too?" he said to Nicole a few minutes later. "That will speed up the process."
For hours Richard Wakefield sat beside the two computers, mumbling to himself and trying to solve the puzzle of New York. He explained to Nicole, when he took a break for dinner at her insistence, that the location of the third underground hole could only be determined if he thoroughly understood the geometric relationships between the polyhedrons, the three plazas, and all the skyscrapers immediately opposite the principal faces of the polyhedrons in each of the nine sectors. Two hours before dark Richard dashed off hurriedly to an adjacent section to obtain extra data that had not yet been recorded on their computer maps.
Even after dark he did not rest. Nicole slept the first part of the fifteen-hour night. When she awoke after five hours, Richard was still working feverishly on his project. He didn't even hear Nicole clear her throat. She arose quietly and put her hands on his shoulders. "You must get some sleep, Richard," she said quietly.
"I'm almost there," he said. She saw the bags under his eyes when he turned around. "No more than another hour."
Nicole returned to her mat. When Richard awakened her later, he was full of enthusiasm. "Wouldn't you know it?" he said with a grin. "There are three possible solutions, each of which is consistent with all the patterns." He paced for almost a minute. "Could we go look now?" he then said pleadingly. "I don't think I can sleep until I find out."
None of Richard's three solutions for the location of the third lair was close to the plaza. The nearest one was over a kilometer away, at the edge of New York opposite the Northern Hemicylinder. He and Nicole found nothing there. They then marched another fifteen minutes in the dark to the second possible location, a spot very near the southeast corner of the city. Richard and Nicole walked down the indicated street and found the covering in the exact spot that Richard had predicted. "Hallelujah," he shouted, spreading out his sleeping mat beside the cover. "Hooray for mathematics."
Hooray for Omeh, Nicole thought. She was no longer sleepy but she wasn't anxious to explore any new territory in the dark. What comes first, she asked herself after they had returned to camp and she was lying awake on her mat, intuition or mathematics? Do we use models to help us find the truth? Or do we know the truth first, and then develop the mathematics to explain it?

12 de maio de 2018

Rendezvous with Rama



Arthur C. Clarke
Rendezvous with Rama (1973)

Li a tradução portuguesa deste livro em 1984, depois de ter sido editado na Colecção Argonauta com o título Rendez-vous com Rama. Mais tarde tive notícia da continuação da série e, como tinha gostado particularmente deste livro, fiquei com alguma curiosidade pelo seu desenvolvimento, à mistura com algum cepticismo – em primeiro lugar porque considerava a obra naturalmente fechada (apesar dos três parágrafos finais, que ganham hoje outro sentido); depois porque os livros seguintes eram escritos em parceria com Gentry Lee, um nome que não conhecia de lado nenhum. Tendo surgido a oportunidade de ler os volumes seguintes de Rama, decidi revisitar o volume inicial, desta vez no original inglês. Distinguido com os prémios Hugo e Nebula, Rendezvous with Rama conta-se certamente entre as melhores novelas de Arthur C. Clarke.
A obra tem como tema a passagem de um corpo pelo Sistema Solar, um gigantesco cilindro artificial que se revela um pequeno mundo oco (16 quilómetros de diâmetro, 50 de profundidade, com um mar central numa faixa cilíndrica de 10 quilómetros), habitável – e deserto. A expedição que o aborda, numa estreita janela temporal limitada pela passagem demasiado rasante ao Sol, explora este enigma vindo dos abismos do espaço e do tempo – pela análise da sua trajectória não terá passado nas proximidades de uma estrela nos últimos 200 mil anos, e o artefacto poderá ter milhões de anos. Durante a exploração, e com a aproximação ao Sol, Rama vai acordando lentamente. Se deixa de ser um mundo estático e, de certa forma, desabitado, dado que as surpresas se vão sucedendo numa escala cada vez maior, também é verdade que nunca é encontrado o menor traço de um ramano ou da existência comprovada de vida. Alheio a todo o reboliço causado nos Planetas Unidos (uma espécie de futura ONU que congrega representantes de sete povoamentos humanos do Sistema Solar), Rama segue imperturbável o seu curso rumo às estrelas, não sem antes ter dado uma demonstração cabal da sua capacidade, na passagem do periélio, adensando o enigma.

It was impossible to tell how far they had travelled, and Calvert guessed they had almost reached the fourth level when Mercer suddenly braked again. When they had bunched together, he whispered: "Listen! Don't you hear something?"
"Yes," said Myron, after a minute. "It sounds like the wind."
Calvert was not so sure. He turned his head back and forth, trying to locate the direction of the very faint murmur that had come to them through the fog, then abandoned the attempt as hopeless.
They continued the slide, reached the fourth level, and started on towards the fifth. All the while the sound grew louder—and more hauntingly familiar. They were halfway down the fourth stairway before Myron called out: "Now do you recognize it?"
They would have identified it long ago, but it was not a sound they would ever have associated with any world except Earth. Coming out of the fog, from a source whose distance could not be guessed, was the steady thunder of falling water.
A few minutes later, the cloud ceiling ended as abruptly as it had begun. They shot out into the blinding glare of the Raman day, made more brilliant by the light reflected from the low-hanging clouds. There was the familiar curving plain—now made more acceptable to mind and senses, because its full circle could no longer be seen. It was not too difficult to pretend that they were looking along a broad valley, and that the upward sweep of the Sea was really an outward one.
They halted at the fifth and penultimate platform, to report that they were through the cloud cover and to make a careful survey. As far as they could tell, nothing had changed down there on the plain; but up here on the Northern dome, Rama had brought forth another wonder.
So there was the origin of the sound they had heard. Descending from some hidden source in the clouds three or four kilometres away was a waterfall, and for long minutes they stared at it silently, almost unable to believe their eyes. Logic told them that on this spinning world no falling object could move in a straight line, but there was something horribly unnatural about a curving waterfall that curved sideways, to end many kilometres away from the point directly below its source...
"If Galileo had been born in this world," said Mercer at length, "he'd have gone crazy working out the laws of dynamics."
"I thought I knew them," Calvert replied, "and I'm going crazy anyway. Doesn't it upset you, Prof?"
"Why should it?" said Sergeant Myron. "It's a perfectly straightforward demonstration of the Coriolis Effect. I wish I could show it to some of my students."
Mercer was staring thoughtfully at the globe-circling band of the Cylindrical Sea.

Li anteriormente:
Os Náufragos do Selene (1961)
Luz da Terra (1955)
Expedição à Terra (1953)

30 de abril de 2018

Tempestades de Acero


Ernst Jünger alistou-se como voluntário no exército e foi já na frente que completou os vinte anos de idade. Tempestades de Aço, a primeira obra do escritor, conta a sua experiência pessoal na Grande Guerra, e foi uma trabalho em constante revisão ao longo da sua vida. Existem seis «versões» do livro: além da original, em 1920, Jünger fez alterações logo na segunda edição (1922), e também na quinta (1924), na décima-quarta (1934) que qualificou de «versão definitiva», na décima-sexta (1935) e, por fim, em 1961, na preparação da edição das Obras Completas (à qual corresponde esta versão em língua espanhola, prefaciada e traduzida por Andrés Sánchez Pascual) um esforço estilístico na correcção de certa imaturidade literária que praticamente não deixou uma única frase sem ser revista e melhorada. E no entanto, algures nos seus Diários, Jünger afirmou que «uma página de prosa revista uma e outra vez para ser melhorada, assemelha-se a uma ferida que não deixamos cicatrizar».
Tempestades de Aço é a crónica da vida quotidiana na frente ocidental durante a Grande Guerra, entre Dezembro de 1914 e Agosto de 1918, com tudo quanto a caracterizou: as trincheiras e a guerra de posições, os formidáveis bombardeamentos da artilharia e os ataques de gás, os pequenos avanços e recuos que cobraram milhares de vidas de soldados, as várias vezes que se cruzou ileso com a morte, bem como os ferimentos que sofreu. Foi na Grande Guerra onde, pela primeira vez, a máquina adquiriu um poder de dizimação nunca visto, delimitando um antes e um depois para a condição do guerreiro sobre o campo de batalha. E, quando seria fácil ceder ao sentimentalismo, Ernst Jünger dá a descrição objectiva de um combatente empenhado no cumprimento do seu dever, sem hesitações nem dilemas morais até ao final, quando transparece a causa perdida.
Esta edição espanhola de Tempestades de Acero, acrescenta ainda dois outros textos sobre o mesmo tema e com a mesma origem: El bosquecillo 125 e El estallido de la guerra de 1914. O primeiro, extenso e em tom mais reflexivo, analisa aprofundadamente a situação vivida nas proximidades de Puisieux em Junho de 1918, que já havia sido abordada em Tempestades de Aço; o segundo, de apenas algumas páginas, descreve as circunstâncias que o levaram a voluntariar-se e resume o que fez até ao momento em que partiu para a frente.

Y ocurrió, en efecto, que, cuando ya no me quedaban más que cincuenta metros para alcanzar el abrigo de mi compañía, me vi metido en un salvaje ataque artillero por sorpresa. Era tan intenso aquel fuego que parecía empresa completamente imposible salvar, sin ser herido, aquel pequeño tramo. Por suerte vi a mi lado una de aquellas cavidades en forma de nicho que habían sido construidas en los taludes de los ramales de aproximación para que las utilizasen los enlaces. Tres marcos de madera de los usados en las galerías formaban aquel nicho; no era mucho, pero, en cualquier caso, era mejor que nada. Me apretujé allí dentro y dejé pasar la tormenta por encima de mi cabeza.
Había elegido, al parecer, el peor lugar de todos. Minas esféricas, grandes y pequeñas, minas de botella, shrapnels, matracas, granadas de todo tipo — era incapaz de distinguir los artefactos que allí confusamente zumbaban, gruñían, crujían. No pude dejar de acordarme de mi buen sargento del bosque de Les Eparges y de su aterrorizado grito: «¿Pero qué clase de artefactos son éstos?».
A veces un único estampido infernal, que iba acompañado de llamaradas, dejaba completamente ensordecido el oído. Después, un siseo agudo, incesante, producía la impresión de que se acercasen uno tras otro, zumbando, a una velocidad increíble, centenares de fragmentos de metralla de una libra de peso. En ocasiones caía, con un golpe seco, pesado, un proyectil que no estallaba; a su alrededor la tierra temblaba. Por docenas reventaban los shrapnels, delicados como bombones fulminantes, y esparcían su densa nube de bolitas; después llegaban las vainas, con un resoplido. Cuando cerca de mí estallaba una granada, el barro caía al suelo con estruendo, como un goteo. Y en medio de todo aquello los fragmentos de metralla se clavaban en la tierra con un golpe seco.
Describir estos ruidos es más fácil que soportarlos, pues el sentimiento asocia cada uno de los sonidos del hierro chirriante con la idea de la muerte. Y así, yo estaba acurrucado en aquel agujero, con las manos delante de los ojos, mientras por mi mente desfilaban todas las posibilidades de que un proyectil me alcanzase. Creo haber encontrado un símil que expresa muy bien la sensación peculiar que se experimenta en una situación como ésa, una situación en la que yo, al igual que todos los soldados de esta guerra, me he encontrado a menudo. Imagínese uno a sí mismo bien atado a un poste y amenazado continuamente por un sujeto que blande un pesado martillo. Unas veces el martillo es lanzado hacia atrás para tomar impulso; otras avanza zumbando, hasta casi rozar el cráneo; luego chocó contra el poste, del que salen volando astillas — a una situación como ésa corresponde exactamente lo que se siente cuando se está al descubierto en medio de un bombardeo en serio. Yo tenía, por fortuna, un pequeño sentimiento subconsciente de confianza, ese sentimiento de que «todo saldrá bien», que se experimenta asimismo en el juego y que produce un efecto tranquilizante, aunque en modo alguno esté justificado. También aquel bombardeo llegó a su fin y pude proseguir mi camino, pero ahora más deprisa.

14 de abril de 2018

O Judeu Internacional

Henry Ford
O Judeu Internacional (1920)

Henry Ford nasceu em 1863, trabalhou como engenheiro para uma das empresas de Edison e fundou a Ford Motor Company em 1903. Lançou o famoso Ford T em 1908 e, sabendo que o capital humano é a base da produtividade, em 1914 pagava aos seus trabalhadores o dobro do salário corrente. Em 1918, quando metade dos automóveis em circulação nos Estados Unidos eram Ford T, candidatou-se ao senado pelo Partido Democrata, a pedido do presidente Wilson, que pouco depois contaria entre os seus inimigos.
Entre Maio e Outubro de 1920 publicou no jornal «The Dearborn Independent», pertencente a um dos seus colaboradores próximos, uma série de artigos nos quais analisava em profundidade a natureza do sionismo. Esses artigos deram origem ao primeiro volume do livro The International Jew: the World's Foremost Problem, editado em Novembro do mesmo ano. Até 1922 foram editados mais três extensos volumes, com a mesma origem, dedicados à «questão judaica», ou seja: a enorme predominância dos judeus na finança internacional e a forma como através do poder financeiro condicionam ou capturam discretamente os aparelhos governativos nacionais para colocá-los ao seu serviço na persecução de uma agenda própria – uma questão silenciada desde há algumas décadas, mas que nem por isso deixou de ser pertinente, bem pelo contrário. O livro, que também analisa pormenorizadamente Os Protocolos dos Sábios de Sião, foi desde então um êxito de vendas, mas não impediu que o autor fosse alvo de uma violenta campanha organizada pelos visados, que só terminou em 1927, quando Henry Ford escreveu uma carta em que se retractava. Curiosamente, fê-lo após enormes problemas financeiros e boicotes promovidos por organizações judaicas, aos quais se somou um grave e misterioso acidente de automóvel...
O Judeu Internacional, tal como outras edições similares em diversas línguas, não contém o texto integral; equivale a cerca de metade da obra, pois deixou de fora capítulos sobre os especificismos estado-unidenses que seriam de menor interesse para leitores de outras geografias, atendo-se aos capítulos de abrangência mais alargada.
Como a vingança é servida a frio, repare-se que é mais do que uma ironia do destino o facto de a Fundação Ford, fundada pelo filho Edson, ter patrocinado o primeiro curso de Women’s Studies (feminismo de género, ou feminismo de terceira vaga, com o apoio financeiro da Fundação Rockefeller), bem como a expansão do neoliberalismo da Escola de Chicago. A Fundação Ford é hoje uma das mais corrosivas ONGs ao serviço do totalitarismo globalista, financiando a vigilância persecutória dos meios de comunicação de opinião dissidente, subsidiando igualmente movimentos pro-LGTB e pro-aborto, colaborando activamente com os desígnios que Henry Ford denunciou e combateu.

Quem quer que, indistintamente, nos Estados Unidos ou em outra parte, pretenda tratar em público da questão judaica, pode contar como certo que, ou será acusado de anti-semita, ou o chamarão desdenhosamente de perseguidor dos judeus. Nem a massa do povo, nem a imprensa o ajudarão em nada. As poucas pessoas que prestarem atenção mesmo que superficial ao assunto preferem esperar para ver como se desenredará a meada. É provável que nem um só dos grandes diários americanos, e com toda certeza nenhuma dessas grandes revistas baseadas em anúncios ("magazines"), tenha o valor cívico de admitir que tal questão exista. A imprensa em geral está atualmente aberta de par em par para toda a sorte de vãs adulações a tudo o que seja judaico (acham-se exemplos em toda a parte), enquanto que a imprensa hebréia que se publica muito facilmente nos Estados Unidos se encarrega de criticar e rebater tudo o que não é judaico.
O simples fato de tratar alguém da questão judaica em público parece implicar hoje em dia a suposição de ódio mortal a todo o judeu; sem que se estabeleça diferença alguma entre o escritor, o editor ou o simples anunciante de um periódico. Este ódio parece ser uma idéia fixa, hereditária entre os judeus. Tal maneira de proceder tem o fim de levar ao ânimo dos não-judeus a convicção de que o mais leve comentário que não resume benevolência para com todos os judeus, é sempre preconceito e ódio, caracterizados por mentiras, injúrias e ofensas, e as instigações ao atentado pessoal. Estas palavras se encontram em qualquer artigo tomado ao acaso da imprensa judaica.
Pode-se distinguir perfeitamente entre os judeus quatro categorias diferentes. Em primeiro lugar, os que são guiados pela indomável vontade de conservar invariável tudo o que é genuinamente judaico em culto e costumes, ainda que seja à custa de qualquer sacrifício de suas simpatias ou de êxito pessoal.
Em segundo plano aparecem os que estariam dispostos a sacrificar qualquer coisa em holocausto da conservação intacta do culto religioso mosaico, mas não se incrustam nos costumes tradicionais da vida particular judaica. Em terceiro lugar, os que em geral carecem de convicções fixas, sendo em tudo oportunistas, e que se encontram sempre ao lado do êxito momentâneo. E há por fim um quarto grupo de judeus, que crêem e propagam a idéia de que a única solução do conflito existente entre judeus e o resto da humanidade consiste em ir a raça judaica perdendo sua personalidade, mesclando-se com as demais raças humanas. É esta última categoria a mais fraca, numericamente, assim como é a mais antipática entre seus compatriotas, e a mais desprezada.
Os não-judeus, no que toca a esta questão, dividem-se em dois grupos: uns que detestam o judeu sem poder dizer por que, e outros que desejam se faça a luz neste assunto, reconhecendo na questão judaica pelo menos um problema. Ambos os grupos, quando se manifestam, são tachados de anti-semitas.
Anti-semitismo é um conceito que se emprega com muita leviandade. Seria conveniente reservá-lo somente para aqueles que se deixam guiar por um preconceito infundado. Em troca, se se aplica a todas as pessoas que prudentemente querem discutir as singularidades judaicas e seu predomínio mundial, é denominação injusta, pois da mesma maneira que se aplica em sentido de censura, poderia muito facilmente converter-se em título de honra e de estima.

31 de marzo de 2018

La Guerra Gaucha

Leopoldo Lugones
La Guerra Gaucha (1905)

Muito diferente de Las Fuerzas Extrañas, que li recentemente, La Guerra Gaucha foi o primeiro livro de prosa de Leopoldo Lugones. Passado entre 1814 e 1818, nas regiões do Alto Peru e Salta, tem por tema a Guerra de Independência Hispano-americana, acompanhando as peripécias dos guerrilheiros gaúchos que combateram as tropas realistas. Sem datas, nomes ou lugares, que implicariam algum rigor factual, os contos versam situações ficcionadas e adaptações livres de relatos dispersos, como forma de homenagem a esses combatentes. Cada capítulo contém um conto completo, sem outra continuidade entre si além do tema geral, em que as descrições dos grandes espaços e da opulência da natureza têm uma importância capital. O último conto, Güemes – que remete para Martín Miguel de Güemes, um importante chefe militar argentino dessa guerra – fazendo o balanço agridoce no momento da vitória, passados já os arrebatamentos heróicos e prenunciando-se as cedências e as concessões aos pequenos interesses na nação recém-criada.
Assinale-se ainda a dificuldade do vocabulário, bem mais que “um ou outro nome indígena, ou neologismo crioulo, ou verbo formado por mim à falta de vocábulo específico”, pelos quais o autor pede a compreensão do leitor na introdução, e me obrigaram a uma constante consulta de dicionários.

El tercer día, al caer la tarde, las sospechas arreciaron. Ensotábanse con toda evidencia entre ensenadas inextricables, fuera de todo cauce ya, bajo el silencio casi fúnebre de la selva inundada. Solamente un pájaro de trino melancólico gorjeaba a intervalos irregulares, allá lejos en la fronda negra. El agua, al empuje de los remos, burbujeaba con murmullo triste; mangas de mosquitos acaloraban la sangre hasta el furor, y un vaho de ahilada tibieza, contaminando fiebres con su desabor de hongo, maceraba las carnes en una flaccidez de putrefacción. Así vino la noche y así fondearon, reprimiendo apenas torvas intenciones, como sepultados por la temerosa enormidad del bosque que la noche espesaba y la parálisis tórrida del ambiente; cuidadosos de no mostrarse miedo bajo la respectiva capa de impasibilidad salvaje y de castellana altivez, en una roedora tensión de nervios y de voluntades.
Mas, de allí a poco, el cacique, interpelado decididamente, condescendió por primera vez a una respuesta. Sí, desviaban un poco el rumbo, mas para vadear cuanto antes las aguas aprovechando su mismo desborde. Conservaban la buena dirección, y al otro día, temprano aún, tocarían cerca del real patriota. Dicho esto revistó con una mirada a sus hombres, acurrucose en el fondo de su canoa y se durmió.
Su ejemplo no influyó, a pesar de la seguridad relativa que dimanaba de su discurso; y pasaron la noche en vela, si bien forzados no poco por los vampiros cuyo vuelo rozaba sus cabezas desflocándose en espeluznante vellosidad.
El día amaneció serenísimo, coloreándose fogosamente de aurora. Puestos al remo los indios, el cacique reiteró sus seguridades con sonrisas de vaga ambigüedad, cuyo efecto retratábase instantáneamente en el rostro de sus compañeros que redoblaban el empuje. Semejantes signos auguraban al parecer el prometido fin, y una vislumbre de alegría flotó sobre la fosca lividez de los navegantes.
Reviviendo pesadamente el fresco del alba, sus ojos escaldados de insomnio contemplaron en silencioso estupor la imponente pompa del amanecer sobre las aguas.
Ensanchábase la selva hasta el horizonte en una especie de golfo salvajemente solitario, que confinaban arboledas lúgubres en su impenetrabilidad. Ni una arruga disgregaba su cristal sombrío, sobre el cual erguíase único, acentuando la tristeza del paisaje, el ampo de una garza. La superficie, en tersura de lastra especular, azogábase con una interna coloración de teja fundida, exaltada a púrpura de mortecina escoria, que luego se clarificaba en cárdeno gris. Culminó al oriente un banco de niebla lóbrega, franjeado por una orla rojiza que herrumbraba con su reflejo las aguas del confín. El cielo se inflamó hasta el cénit en una traslucidez de cereza. Sobre la estela de la almadía cabrillearon las aguas de un oleoso muaré; empañó un vago lila la transparencia oscura del pantano, y bruscamente el sol emergió entero, carminando la bruma en una humareda rosa de fuego de Bengala.
En ese momento, el pájaro de la tarde anterior gorjeó otra vez; pero no ya en el ramaje, sino en la canoa misma; y al trino semejante con que le respondieron de la arboleda, antes que la certeza de la traición se coordinase con acto alguno de los realistas, una nube de dardos partió del bosque. Y sobre los árboles unos, otros al pie con el agua a la cintura, brotaron guerreros en clamoroso enjambre. Pintarrajeados en guerra, enflechaban sus arcos o revoleaban sus cachiporras, pirueteando y riendo con carcajadas crueles que el cristal cuarzoso de los bezotes deformaba en brillos siniestros, mientras llovían sin tregua sobre las víctimas los casquillos emponzoñados.

Li anteriormente:
Las Fuerzas Extrañas (1906)

15 de marzo de 2018

Contos e Lendas


Rebelo da Silva
Contos e Lendas (1873)
Contos e Lendas, vol. II (1908)

Luís Augusto Rebelo da Silva é um nome importante na literatura portuguesa do séc. XIX; no entanto, não consegui assegurar-me do ano de publicação deste livro em concreto. A Introdução, onde se atribui a autoria deste livro a um humilde e erudito prior de província que fez questão de ficar no anonimato, está datada de Setembro de 1866. A edição mais antiga que encontrei é de 1873, dois anos após a morte do autor. Uma outra versão pertence às “Obras Completas”, reunidas em pelo menos 41 volumes, numa 2.ª edição datada de 1908, onde os Contos e Lendas ocupam os tomos 14 e 15; o tomo 14 corresponde à edição de 1873 e contém A Torre de Caim, O Castelo de Almourol, A Camisa do Noivado e Última Corrida de Touros em Salvaterra, enquanto o tomo 15 inclui os incompletos A Tomada de Ceuta e A Pena de Talião. Assim, é legítimo supor que a primeira edição deverá ter aparecido entre 1866 e 1873. Contudo, Última Corrida de Touros em Salvaterra, já se publicara em 1848.
Todas estas narrativas decorrem em contexto histórico e nelas se registam, como o título levaria a supor, acontecimentos prodigiosos e sobrenaturais – sobretudo em A Torre de Caim, passada no séc. XI, que trata de uma vingança entre famílias nobres, levada além da morte, e tem por fundo uma história de amor. O Castelo de Almourol, que, segundo uma nota do editor, ficou incompleto devido à morte prematura do escritor, decorre no séc. XVII em plena Guerra da Restauração, e conta uma divertida história de dois feitores desonestos que pretendem, por truques e mentiras, desenvencilhar-se dos legítimos proprietários – uma família da corte que decidiu mudar-se temporariamente para a sua propriedade (o primeiro excerto abaixo citado, na ortografia original, pertence a este conto). A Camisa do Noivado passa-se no séc. XIV, num povoado próximo de Miranda; um fidalgo malévolo e tirânico pretende arrebatar a bela noiva de um jovem arqueiro, e será o próprio rei D. Pedro I, O Justiceiro, a resolver providencialmente a contenda por suas mãos. Última Corrida de Touros em Salvaterra é certamente a obra mais conhecida de Rebelo da Silva; passada no reinado de D. José, descreve a festa brava transformada em tragédia, com a morte de um cavaleiro nobre na arena, e como o Marquês do Pombal influencia o soberano, para que ponha termo às corridas reais, pois a morte destes valorosos súbditos impede-os de dar o seu contributo às guerras que se avizinham.
A Tomada de Ceuta, foi parcialmente publicado em 1840 e, novamente, em 1856 em folhetins no jornal A Pátria; a suspensão do jornal interrompeu o prosseguimento da obra, que, nos cinco capítulos existentes, esboça um ambicioso romance histórico sobre o tema que lhe dá o título (é daqui o segundo trecho). A Pena de Talião, que ficou apenas pela Introdução, publicada no Panorama de 24 de Novembro de 1855, esclarece o método criativo e fundamenta as opções estéticas do escritor, além de apresentar um esboço da estrutura desta novela, destinada a ser o complemento moral do romance Ódio Velho não Cansa e, ao mesmo tempo, o retocar de outra novela, Rausso por Homizio, duas obras de juventude, consideradas imperfeitas pelo autor.

Ao mesmo tempo as hostilidades diabolicas não eram menos activas e violentas nas camaras dos outros hospedes. Romão Pires, apenas se deitára, e escondera a cabeça debaixo da roupa, com premeditação pouco em harmonia com os brios de suas falladas campanhas, sentio apagar-se-lhe a luz, e puxarem-lhe pelos pés o magro e aprumado corpo até o estatelarem de pancada e sem dó nas taboas do sobrado. O grito de mêdo e de dor, que soltára estremunhado, teve em resposta um côro de risadas em falsete. Brizida de Souza acordou espavorida ao frio gelado de um verdadeiro regador de agua que lhe entornavam sobre a cabeça, e saltando por a casa em roupas menores, e com a boca escancarada, para bradar, era comida no ar por mãos pouco caridosas e nada leves, que de empurrão em empurrão a levaram aos tombos até ao corredor, aonde veiu encontrar em anagua o honrado escudeiro, tiritando de susto e com uma das mãos em cada face esbofeteada pelos duendes, com vigor que bem accusava uma força sobrenatural. D. Maria, encolhida e semi-morta de pavor, não padecera senão o terror de ouvir estalar ao pé do leito gargalhadas dissonantes, e arrastar ferros.
No quarto de D. Pedro, os trasgos haviam sido menos felizes, porque tinham chegado mais atrazados. Dotado de animo varonil e reflectido, sereno em presença do perigo, e pouco disposto a acreditar na intervenção dos poderes infernaes, o mancebo, resolvera velar a noute sem se despir, e com a espada nua ao lado, tinha-se entregado á leitura de um livro novo, que em breve lhe absorveu a attenção. Feriu-lhe de repente o ouvido a matinada das investidas no corredor e nos aposentos proximos. Apagando a luz, e empunhando a espada, aguardou silencioso.
A sua porta abriu-se de feito, pouco depois, e pareceu-lhe aperceber dous vultos na escuridão. Deixou-os adiantar, seguiu-os, e quando um se debruçava sobre o leito vasio, e o outro, assoprando n'um buzio tirava d'elle sons roucos e medonhos, caiu ás pranchadas sobre o musico do Averno, ao qual o instrumento escapou dos dedos, e que, amedrontado, principiava a revolver-se pela casa, gritando como um simples mortal derreado por uma sova. O outro phantasma volveu logo em auxilio do agredido, mas uma cutilada de D. Pedro, aparada no braço ao que pareceu, deitou-o pela porta fóra como um vendaval, em quanto o companheiro tomava o mesmo caminho, mas de rastos e gemendo.
D. Pedro, decorridos instantes, feriu lume, accendeu a vela do castiçal e a candeia, e examinou attentamente o campo de batalha. Jaziam no chão um buzio dos usados pelos ranchos da apanha da azeitona, um lençol com lagrimas de tinta encarnada, e uma caveira de papelão pintada de amarello.
O mancebo sorriu-se. Aquelles despojos eram o corpo de delicto e ao mesmo tempo documento vivo da conspiração tramada. Algumas gôtas de sangue, caidas no pavimento desde metade da casa até á porta, provaram-lhe que um dos actores do drama nocturno retirara ferido e assignalado. D. Pedro pegou no castiçal, e seguindo o rasto de sangue pelo corredor, notou que parava no topo, aonde só existia uma parede grossa, sem nenhuma saida apparente. Informado do que desejava verificar, voltou atraz, e encaminhou-se ao camarim de Romão Pires. Á porta viu duas figuras brancas ajoelhadas. Deteve-se um pouco até se affirmar. A velha aia e o dorido escudeiro, ambos de joelhos, e ambos transidos de medo e de frio, esgotavam um defronte do outro todo o vocabulario de rezas e de interjeições atribuladas, sem se atreverem a volver aos aposentos. D. Pedro, não podendo suster o riso, fallou-lhes, animou-os, e, mandando-os acabar de vestir, passou a visitar a camara de Fr. João.
O frade ainda jazia na mesma posição. Conservava-se quasi exanime na ampla cadeira. Vendo entrar o sobrinho com o castiçal em uma das mãos e a espada nua debaixo do braço, estremeceu, e esbugalhou os olhos, mas não se moveu.
D. Pedro aproximou-se da mesa, accendeu a outra vela, e sem proferir palavra examinou cuidadosamente o aposento. Nenhum indicio! O inimigo triumphante não deixára despojos. Terminado o exame, poz o castiçal em cima do velador, collocou a espada ao pé do castiçal, e, volvendo para junto da cadeira, d'onde o tio, como paralysado, observava tudo silencioso, disse-lhe:
—Mas o que foi isto?!..
[...]
Franzindo o pesado reposteiro, que vedava a entrada, quem, penetrando, podesse ler n'aquelle momento o segredo, que assim fazia estremecer tantos peitos generosos, sairia convencido de que a occasião é tudo, quasi, nas acções humanas, ainda nas maiores; e que, uma palavra, ou um lance inopinado, bastam ás vezes para decidir da sorte dos grandes homens, e dos poderosos impérios.
Um só de menos, na sala do conselho da Batalha, e Salat Ben Salat não veria talvez a sua velhice affrontada, fechando tranquillamente os olhos no soberbo castello, d'onde contemplava as ondas, que se debruçavam como captivas, para banhar os pés á sua formosa cidade.
Uma voz de prudencia, que falasse, e no impeto do primeiro e cego arrojo, Portugal, abraçando-se além do estreito com a orgulhosa Amazona do Mahgreb, apercebida para a lucta, talvez desfallecesse no encontro, como seculo e meio depois se prostrou com o seu rei nos areaes de Alcácer!
A hora dos revezes não tinha soado ainda; Deus mandou os dias de esplendor adeante dos dias de lagrimas e de lucto!
Ceuta estava fadada para se dar começo n'ella aos bellos rasgos da mais pura e justa das nossas cruzadas; e rodeado de seus heróicos filhos, flor e esperança da coroa popular, cingida pela victoria, D. João I era o rei apontado pela Providencia para levantar nas praias d'Africa a luva, que Tarik arremessara contra as Hespanhas, quando ousou estampar o sello da servidão na formosura profanada das suas opulentas cidades.
Do alto dos montes africanos, subjugados, é que o Infante D. Henrique alongou depois a vista e a idéa pelas aguas tempestuosas e nunca navegadas; e foi alli, de certo, que a visão gloriosa do futuro imperio, promettido a seus netos pela constancia do descobridor, lhe appareceu no silencio profundo das horas de acceso imaginar.
O sangue espargido em Ceuta era a semente; o oriente devassado serviu de premio.
Depois, abertos os caminhos, e consummados os desígnios do Céu, anoiteceu para nós, e os annos de declinação precipitaram-se rápidos e successivos.
Quando o reino, com os prantos ainda por enxugar, viu alçar nas torres e galeões do Tejo os leões de Castella, havia muito que em Arzilla se haviam arreado as quinas levantadas por Affonso V!
A agonia principiou alli; Filippe II o que fez só foi tornal-a menos lenta, e mais dolorosa!

6 de marzo de 2018

Frankenstein: or, The Modern Prometheus



Mary W. Shelley
Frankenstein: or, The Modern Prometheus (1818)

Li há muitos anos um livro de Brian Aldiss intitulado Frankenstein Libertado, onde, por um desarranjo na estrutura temporal, o tempo presente (desse livro) se ligava à época e ao lugar, algures na Suíça, em que Mary Shelley escrevia este Frankenstein, e ainda fazia coexistir nessa realidade o produto da imaginação da escritora. Um livro um tanto estranho, mas que dava a entender, a quem o não soubesse, que todo o universo cinematográfico criado à volta deste tema tinha pouco a ver com a literatura de Mary Shelley. Poucos terão reparado, por exemplo, que Frankenstein não é o nome do monstro, mas sim o do seu criador.
Frankenstein: or, The Modern Prometheus, que celebra este ano o bicentenário da sua edição original, foi publicado quando Mary Shelley tinha cerca de 20 anos. O livro inicia-se com quatro cartas escritas por Robert Walton e dirigidas à sua irmã em Inglaterra; Walton está em viagem rumo ao Pólo Norte, à procura de uma passagem marítima que ligue o Atlântico ao Pacífico, descrevendo a exploração como o sonho de uma vida. Na última das cartas narra a visão de um avantajado vulto a trenó sobre os gelos ao que se seguiu o encontro com um desesperado viajante, salvo do deserto gelado; mais tarde esta estranha personagem, escutando o modo arrebatado como Robert Walton se pronuncia sobre os seus objectivos, decide contar a sua própria história, e o modo como uma obsessão semelhante pela descoberta lhe destruiu a vida. Segue-se o primeiro capítulo, tomando o fio narrativo, a partir de então, o próprio dr. Victor Frankenstein em relato autobiográfico.
Frankenstein, um estudante universitário apaixonado pelas ciências, descobre a forma de transmitir vida a um ser inanimado e constrói, no seu laboratório, um corpo humano em escala ampliada – por lhe facilitar o trabalho nos pormenores. No momento em que a criatura é trazida à vida, Frankenstein toma consciência da abominação que praticou e acaba por fugir, desorientado. Não volta a ver o resultado do seu trabalho e, após um período de doença nervosa, retoma a vida normal, depois de abandonar os estudos.
Porém a grotesca criatura procura o seu criador e acaba por encontrá-lo. Do Capítulo 11 ao 16 ela toma o discurso directo e descreve-lhe o que tem sido a sua vida, revelando-se um ser sensível e inteligente que deseja atenção e simpatia, mas cujo aspecto disforme repugna e afasta quantos o vêem, motivando agressões e perseguições. Considerando que Frankenstein tem, como seu criador, uma obrigação e uma dívida para consigo, a criatura apresenta-se para a cobrança...
Frankenstein: or, The Modern Prometheus, apresentado frequentemente como “leitura de terror” ou como um “romance gótico”, é desvalorizado por essas etiquetas redutoras. Trata-se, na verdade, de Romantismo literário em estado puro (no seu período final), onde o leitor, curioso e impaciente, aguarda que lhe sejam descritas as circunstâncias que levaram à cena descrita na quarta carta de Walton, o qual retoma a palavra no desfecho do livro.

I fear, my friend, that I shall render myself tedious by dwelling on these preliminary circumstances; but they were days of comparative happiness, and I think of them with pleasure. My country, my beloved country! who but a native can tell the delight I took in again beholding thy streams, thy mountains, and, more than all, thy lovely lake!
Yet, as I drew nearer home, grief and fear again overcame me. Night also closed around; and when I could hardly see the dark mountains, I felt still more gloomily. The picture appeared a vast and dim scene of evil, and I foresaw obscurely that I was destined to become the most wretched of human beings. Alas! I prophesied truly, and failed only in one single circumstance, that in all the misery I imagined and dreaded, I did not conceive the hundredth part of the anguish I was destined to endure.
It was completely dark when I arrived in the environs of Geneva; the gates of the town were already shut; and I was obliged to pass the night at Secheron, a village at the distance of half a league from the city. The sky was serene; and, as I was unable to rest, I resolved to visit the spot where my poor William had been murdered. As I could not pass through the town, I was obliged to cross the lake in a boat to arrive at Plainpalais. During this short voyage I saw the lightning playing on the summit of Mont Blanc in the most beautiful figures. The storm appeared to approach rapidly, and, on landing, I ascended a low hill, that I might observe its progress. It advanced; the heavens were clouded, and I soon felt the rain coming slowly in large drops, but its violence quickly increased.
I quitted my seat, and walked on, although the darkness and storm increased every minute, and the thunder burst with a terrific crash over my head. It was echoed from Saleve, the Juras, and the Alps of Savoy; vivid flashes of lightning dazzled my eyes, illuminating the lake, making it appear like a vast sheet of fire; then for an instant every thing seemed of a pitchy darkness, until the eye recovered itself from the preceding flash. The storm, as is often the case in Switzerland, appeared at once in various parts of the heavens. The most violent storm hung exactly north of the town, over the part of the lake which lies between the promontory of Belrive and the village of Copet. Another storm enlightened Jura with faint flashes; and another darkened and sometimes disclosed the Mole, a peaked mountain to the east of the lake.
While I watched the tempest, so beautiful yet terrific, I wandered on with a hasty step. This noble war in the sky elevated my spirits; I clasped my hands, and exclaimed aloud, ‘William, dear angel! this is thy funeral, this thy dirge!’

20 de febreiro de 2018

El Mito de los 6 Millones



Joaquín Bochaca
El Mito de los 6 Millones (1978)

Na nossa sociedade ocidental há poucos dogmas, hoje em dia. Quase todos são de extracção recente, nascidos por imposição do pensamento único e policiados por uma minoria ululante contra a maioria letárgica, acobardada no seu silêncio.
Tempos houve em que apenas existia um dogma: o Holocausto com agá maiúsculo, o facto histórico acima de qualquer escrutínio, plasmado na lei como verdade absoluta. Actualmente, muitos países que se consideram “democráticos” (este número tem vindo a aumentar), têm penas de prisão previstas para quem questionar a versão oficial da História, seja por dissidência, seja por fazer perguntas inconvenientes. Entre eles, recordemos: Alemanha, Áustria, Bélgica, Eslováquia, França, Hungria, Liechtenstein, Lituânia, Países Baixos, Polónia, Portugal, República Checa, Roménia, Suíça e, claro, Israel (a lista é incompleta, refere sobretudo os países europeus, não por acaso quase todos “sob ocupação” da União Europeia).
O dogma é um ponto basilar de uma religião. Com o Holocausto os paralelismos são evidentes: existem os mártires, os sacerdotes, os livros sagrados, as vias-sacras da peregrinação, as esmolas (neste caso verdadeiras fortunas, a pretexto de indemnizações), o templo onde arde a chama eterna, o dia santo de guarda, e a liturgia quotidiana sempre presente recordando-nos a nossa natureza pecadora. E, transformado em religião, o Holocausto é passível de uma de duas escolhas: ou se acredita, ou não.
O autor de El Mito de los 6 Millones está entre os não-crentes, como é óbvio; e, mais ainda, sustenta que o mito se baseia em alegações absurdas e mentiras grosseiras, que atentam contra a inteligência das pessoas normais. Como não quero correr o risco de transcrever aqui uma passagem negacionista (no fim de contas é crime), opto por citar um excerto onde se evidencia a natureza mitómana do “povo eleito”. Suponho que isto ainda não foi proibido...

Más irónico es todavía que los más absurdos relatos de exterminios masivos aparezcan en la literatura talmúdica judía y en el Antiguo Testamento. He aquí algunos ejemplos de ello: Adriano, cónsul romano en Egipto en el año 200, exterminó a la población judía de Alejandría, según el Talmud, o le causó importantes bajas según modernos historiadores. Ahora bien: el Talmud afirma que el número de judíos exterminados en Alejandría fue de 1.200.000, cuando según cualquier historiador solvente la población de aquella ciudad en tal época no pasaba de los 500.000, y en ella los judíos sólo eran una relativamente importante minoría.
Digna de mención es, también, la revuelta de Bar-Kochba, un judío que se declaró Mesías en el siglo II de la Era Cristiana, y se sublevó contra los romanos. Aún cuando la población judía de Palestina era, en aquél entonces, de unos 500.000 habitantes, el Talmud asegura que el ejército de Bar-Kochba se componía de 200.000 soldados. Esto es sencillamente imposible; pero sigamos. Bar-Kochba abandonó Jerusalén y se hizo fuerte en la ciudad amurallada de Bethar, pero la ciudad fue tomada por los romanos tras un asedio tremendo y toda la población de Bethar asesinada. Esta es al menos la versión oficial judía. En todas las historias de Roma que hemos podido consultar, desde la de Gibbon hasta la de Mommsen, el episodio de la toma de Bethar se le da una importancia mínima, y tengamos en cuenta que en la batalla de Cannas hubo unos setenta mil muertos y en la cuenta de Zama —tal vez la victoria más importante de Roma en su lucha con Cartago— setenta mil. Rarísimo, pues, que historiadores de la talla de los citados omitan mencionar la toma de Bethar como una gran victoria... pues gran victoria debía ser capturar una plaza defendida por 200.000 guerreros a los que hubo que exterminar en su totalidad. Esto parece casi milagroso que haya sido unánimemente omitido por la totalidad de los historiadores. Mas milagroso aún parece que en la pequeña plaza fuerte de Bethar pudieran cobijarse nada menos que 200.000 guerreros, si tenemos en cuenta que las dimensiones eran de 600 metros de profundidad por doscientos de anchura, según fuentes judaicas de indiscutible calidad. Si la aritmética, no miente, para albergar a 200.000 guerreros, con sus lanzas y corazas, y suponemos que sus escuadrones de caballería, en un rectángulo de 120.000 metros cuadrados, seria preciso distribuirlos de manera que tocaran a... 0,6 metros cuadrados por guerrero. Estamos por creer que la guarnición de Bethar no murió a causa del ardor bélico de los romanos sino de claustrofobia y asfixia. Y, no obstante, las citadas fuentes judías, insisten en que la lucha fue épica y la resistencia heroica. El mismo Bar-Kochba, era tan fuerte y tan ágil que cogía al vuelo las piedras arrojadas por las catapultas romanas y las devolvía de un sólo movimiento al campo de origen. Debieron transcurrir dieciocho siglos para que una tal proeza fuera repetida por Popeye tras ingurgitar apresuradamente una ración de espinacas.
Para terminar con el abracadabrante episodio de la toma de Bethar, muy seriamente relatado, con pelos y señales, por el Talmud, mencionaremos que el número de judíos exterminados por los romanos, queremos suponer que ya no en Bethar, sino en el resto de Palestina, fue de... ¡40 millones! Repetimos: Cuarenta millones. Y para ilustrarnos sobre la verosimilitud de la cifra, se asegura que la sangre de los judíos exterminados llegaba hasta los belfos de los caballos romanos y se perdía, como un río, en el mar, cuyas aguas teñía en una extensión de seis kilómetros.

Li anteriormente:
El Enigma Capitalista (1977)
Los Crímenes de los «Buenos» (1982)

15 de febreiro de 2018

El Año del Diluvio


Eduardo Mendoza
El Año del Diluvio (1992)

El Año del Diluvio conta uma história de amor impossível entre uma freira, sor Consuelo e um rico proprietário, don Augusto Aixelá. A freira, recém-nomeada Madre Superiora num hospital de província em vias de cerrar portas, pretende reconverter a instituição num asilo para velhos; quando os pedidos de financiamento da obra são recusados, decide dirigir-se à quinta de Augusto Aixelá em busca do donativo. O enredo dá algumas voltas, e sor Consuelo acabará por obter o financiamento, embora não do modo que esperava; também não verá a inauguração da obra, porque, como acontece frequentemente com os religiosos, será transferida para outro lugar. No final do livro, no final da sua vida, trinta anos volvidos, o destino voltará a levá-la a Bassora – a aldeia agora transformada em cidade – onde procura revisitar os lugares e as memórias do que aconteceu naquele ano de chuvas torrenciais. Por norma, este tipo de confrontos nunca é confortável: «os tempos mudam, as ilusões desvanecem-se, as pessoas morrem, só as montanhas permanecem», resume um dos seus pensamentos.

A escasos metros del refugio se veían hombres correr encogidos y ovillarse tras las peñas. Los pájaros habían interrumpido su festín mañanero y reinaba un silencio tenso y medroso en la montaña. Recostado contra el quicio de la puerta, el bandido empuñó el fusil ametrallador y gritó: ¡Dispare! Al mismo tiempo cargó el peso del cuerpo contra la hoja de la puerta y saltó fuera del refugio disparando ráfagas. Sor Consuelo se asomó a la ventana y también disparó; el retroceso del arma estuvo a punto de arrancársela de las manos; la asió con más fuerza e hizo otros dos disparos mientras pensaba: ¿Cómo voy a ser monja si hago todo lo que me dicen los hombres? Fuera volvió a tabletear la metralleta del bandido. La monja se echó al suelo y oyó una descarga cerrada; una nube de proyectiles pasó silbando sobre su cabeza y reventó la pared opuesta a la ventana. Cuando se restableció el silencio abrió los ojos y levantó la cabeza. A través de la espesa nube de polvo que invadía el refugio distinguió la silueta tambaleante del bandolero en el vano de la puerta. Soltó la pistola y acudió a sujetarlo, pero no pudo impedir que se desplomara. Se arrodilló a su lado y colocó la cabeza del herido sobre sus rodillas a modo de almohada. ¿Te han dado?, le preguntó, pero la respuesta era obvia, porque el bandolero yacía en un charco de sangre y su voz era casi inaudible. No ha servido de nada nuestra estratagema, siseó. Sor Consuelo buscaba un trapo con el que taponar las hemorragias. Déjelo, hermana, dijo el bandolero, y déme la mano: no quiero morir solo. No te morirás, hombre, dentro de nada traerán la penicilina, dijo ella; de todos modos, agregó, no estaría de más que hicieras un acto de contrición.
El bandido movió la cabeza y respondió: No, hermana, yo no me arrepiento de nada; a lo sumo, de no haber hecho más daño cuando tuve ocasión: odio a la sociedad y odio a los hombres; moriría contento si supiera que después de mi muerte vendrán más inundaciones y terremotos, incendios y epidemias; deseo que haya guerras, exterminios y matanzas, que imperen el crimen y la desolación; los hombres no merecen paz ni misericordia, y Dios tampoco. Maldito sea el mundo y quien lo creó. Retira ahora mismo esto que acabas de decir, dijo la monja, es absurdo irse al infierno por resentimiento. El bandolero clavó los ojos en sor Consuelo, su mirada era vidriosa, murmuró: Yo no creo en el infierno, ni tampoco en el cielo; y si existen, me da igual: no quiero saber nada de un sistema que premia a los hipócritas y condena a los desesperados. El refugio se había llenado de hombres que encañonaban a la pareja con sus mosquetones. Bajen las armas, les dijo sor Consuelo, este hombre está muerto y yo soy inofensiva.

Li anteriormente:
El Enredo de la Bolsa y la Vida (2012)
La Aventura del Tocador de Señoras (2001)
El Laberinto de las Aceitunas (1982)

12 de febreiro de 2018

A Terra Oca

Raymond Bernard
A Terra Oca (1964)

Não é à primeira tentativa que se encontra informação sobre Raymond Bernard; o mais provável é depararmo-nos com o cineasta judeu francês. Este Raymond Bernard – ou Raymond W. Bernard –, Walter Siegmeister de seu verdadeiro nome, é outro judeu, estado-unidense de origem russa, escritor esotérico, praticante de medicina alternativa (estes dois temas predominam na sua extensa bibliografia), que também editou sob o nome Uriel Adriana. Movido pelos seus interesses pessoais, terá percorrido uma boa parte dos países da Ibero-América. Quanto a este livro, The Hollow Earth, publicado no ano anterior ao da sua morte, é baseado num seu outro livro, Flying Saucers from the Earth's Interior, e regressa à teoria da Terra Oca, descartada pela ciência desde finais do séc. XVIII, que tem como maior óbice o modo como se verifica a propagação das ondas sísmicas.
O principal argumento, na defesa da teoria suportada por este livro, é o testemunho do contra-almirante Richard E. Byrd, da marinha dos EUA, que em 1947 e 1956 teria sobrevoado as regiões polares árcticas e antárcticas, e penetrado em vários milhares de quilómetros na extensão interior da Terra, através de aberturas que a ela conduzem, existentes nessas regiões – um testemunho que não foi obtido directamente, mas pela transcrição e interpretação de algumas frases a si atribuídas, transcritas dos jornais da época, por sua vez citadas das rádio-transmissões. Dos membros das expedições de Byrd, falecido em 1957, que poderiam confirmar o testemunho, apenas um é referido de passagem pelo seu nome. Entretanto, Raymond Bernard acrescenta à equação o avistamento de discos voadores, atribuindo a sua origem à civilização avançada que, supostamente, existirá no continente interior, e denuncia a supressão da informação, atribuída ao poder governamental, interessado em guardar para si o segredo, com o fito de afastar possíveis competidores à conquista deste novo mundo. Recorre igualmente a relatos, lendas, outros livros e documentos que defendem a existência dessa terra, muitos deles ultrapassados tanto pelo estado do conhecimento actual, como até pelo de 1964, quando o livro deu à estampa.
Algumas das referências contidas em Le Roi du Monde, de René Guénon, também aqui são nomeadas, como seria de esperar. Contudo, ao contrário do plano simbólico e espiritual onde se coloca esse livro, este The Hollow Earth, move-se no plano puramente material da realidade física, assente sobre conclusões apressadas e desejos tomados como factos comprovados. E, como a cereja no topo do bolo, veicula uma mensagem mais que subliminar em prol do pacifismo e de um governo mundial. A Terra Oca deve ser lido como uma obra de ficção; como tal, é possível extrair dela algum interesse.

Uma das provas principais de que a Terra é oca é que é mais quente perto dos pólos. Se pode ser mostrado, citando aqueles que mais longe se aventuraram em direção aos supostos pólos, que é mais quente, que a vegetação mostra mais a vida, que a caça é mais abundante do que mais longe para o sul, então temos um direito razoável de asseverar que o calor vem do interior da Terra, uma vez que este parece ser o único lugar de onde ele pode vir. Em A Última Viagem do Capitão Hall, lemos: “Achamos esta região bem mais quente do que esperávamos, livre de neve e gelo. Achamos uma região onde a vida é abundante, com focas, gansos, patos, bois almiscarados, coelhos, lobos, raposas, ursos, perdizes, roedores etc.” (Ele está falando do norte distante.)
Nansen chama atenção especial para o calor, e diz: “Devemos quase imaginar-nos em casa.” Este é um dos pontos mais ao norte já alcançado por alguém, e, todavia, o clima é ameno e agradável.
Será observado que estes ventos extremamente fortes do interior da Terra não somente elevam consideravelmente a temperatura na vizinhança do oceano Ártico, mas influenciam até à distância de seiscentos e cinqüenta quilômetros. Nada poderia elevar a temperatura de tal maneira exceto uma tempestade vinda do interior da Terra.
Greely diz: “Certamente esta presença de pássaros, flores e feras é uma saudação por parte da natureza ao nosso novo lar”. Será que isto soa como se ele tivesse esperado achar tais coisas lá, ou que a sua presença era uma ocorrência de todos os dias? Não. Foi escrito num tom de surpresa. De que lugar vieram estes pássaros e caças. Ao sul, por quilômetros, “a terra estava coberta de neve perpétua – em muitos lugares com milhares de metros de profundidade. Eles foram achados naquela localização no verão; e como era mais quente para o norte não é provável que fossem para um clima mais frio no inverno. Eles parecem passar para o interior da Terra. Certas aves da Austrália deixam aquele continente em setembro e ninguém foi jamais capaz de descobrir para onde vão. Minha teoria é de que passam para o interior da Terra, pelo Pólo Sul.

8 de febreiro de 2018

El Rey del Mundo

René Guénon
El Rey del Mundo (1927)

Não fossem as inúmeras referências de Julius Evola a René Guénon, dificilmente teria chegado à obra deste autor, com quem partilha uma visão profundamente crítica da modernidade. Os excertos já lidos deixavam adivinhar que Le Roi du Monde se posiciona como uma contribuição complementar ao pensamento tradicional defendido por Evola – ou talvez seja ao contrário porque, na verdade, Guénon nasceu uns anos antes do italiano, se bem que pertençam à mesma geração. René Guénon analisa neste livro o mito/lenda de Agartha e Shambala, acerca de um centro espiritual geograficamente oculto ou inacessível, presente em diferentes culturas como reflexo de uma grande tradição primitiva comum. Partindo, sobretudo, dos escritos de Ferdinand Ossendowski e Saint-Yves d’Alveydre publicados no início do séc. XX, na sequência de viagens à Ásia onde recolheram presencialmente esse tipo de testemunhos, René Guénon insere depois esses dados num quadro mais vasto, confrontando-os com outras variantes em diferentes culturas, anotando esses paralelismos e dando a sua própria interpretação.

En Europa, todo lazo instituido conscientemente con el centro por medio de organizaciones regulares está roto actualmente, y ello es así desde hace varios siglos; además, esta ruptura no se realizó de un solo golpe, sino en varias fases sucesivas. La primera de estas fases se remonta al comienzo del siglo XIV; lo que ya hemos dicho en otro lugar de las Órdenes de Caballería puede hacer comprender que uno de sus papeles principales era el de asegurar una comunicación entre Oriente y Occidente, comunicación de la que es posible comprender el verdadero alcance si se observa que el centro del que hablamos aquí siempre ha sido descrito, al menos en lo que concierne a los tiempos históricos, como situado del lado de Oriente. Sin embargo, tras la destrucción de la Orden del Temple, el Rosacrucianismo, o a lo que se debía dar este nombre por continuidad, siguió asegurando el mismo lazo, aunque de una manera más disimulada. El Renacimiento y la Reforma marcaron una nueva fase crítica y, por último, según lo que parece indicar Saint-Yves, la ruptura completa habría coincidido con los tratados de Westfalia, que en 1648 terminaron con la Guerra de los Treinta Años. Ahora bien, es digno de hacer notar que varios autores hayan afirmado precisamente que, poco después de la Guerra de los Treinta Años, los verdaderos Rosacruces hayan abandonado Europa para retirarse a Asia; y recordaremos, a propósito de esto, que los Adeptos Rosacruz eran doce, como los miembros del círculo más interno de Agarttha, y en conformidad con la constitución común a tantos centros espirituales formados a imagen de este centro supremo.
A partir de esta última época, el depósito del conocimiento iniciático efectivo no está guardado por ninguna organización occidental; también Swedenborg declara que es de ahora en adelante entre los sabios del Tíbet y de Tartaria donde hay que buscar la palabra perdida; y, por su parte, Anna Catherina Emmerich tiene la visión de un lugar misterioso que llama la «Montaña de los Profetas», y que la sitúa en las mismas regiones. Añadamos que fue de informaciones fragmentarias que Mme. Blavatsky pudo recoger sobre este tema, sin comprender, por otro lado, verdaderamente su significado, de donde nació en ella la idea de la Gran Logia Blanca, que nosotros podríamos llamar no ya una imagen, sino simplemente una caricatura o una parodia imaginaria de Agarttha.

30 de xaneiro de 2018

El Libro de Arena

Jorge Luis Borges
El Libro de Arena (1975)

El libro de arena é outra antologia de contos de Jorge Luis Borges. Integram-na 13 contos e um Epílogo no qual o autor diz, com alguma razão, que prologar contos ainda não lidos é uma tarefa impossível, porque leva à análise de enredos que não convém antecipar, e assim justifica a sua opção por este desfecho.
O imaginário destes contos não se afasta muito dos livros anteriores, dir-se-ia que há uma certa insistência em temas insólitos. Destacam-se talvez o primeiro conto, El otro, onde o autor se encontra consigo próprio quando jovem; El Congreso, a história de uma organização que pretende representar o mundo inteiro, e procura reunir a informação necessária a esse fim, mas sucumbe perante o gigantismo do propósito; There are more things, às voltas com uma casa estranha, entre o fantástico e o suspense, dedicada a H. P. Lovecraft; Utopía de un hombre que está cansado, a descrição de um futuro inesperado, e El libro de arena, acerca de um velho livro de qualidades mágicas, infinito, que o possuidor acaba por reconhecer como monstruoso e do qual se quer desfazer a todo o custo. O excerto que se segue é de There are more things.

Repetidas veces me dije que no hay otro enigma que el tiempo, esa infinita urdimbre del ayer, del hoy, del porvenir, del siempre y del nunca. Esas profundas reflexiones resultaron inútiles; tras de consagrar la tarde al estudio de Schopenhauer o de Royce, yo rondaba, noche tras noche, por los caminos de tierra que cercan la Casa Colorada. Algunas veces divisé arriba una luz muy blanca; otras creí oír un gemido. Así hasta el diecinueve de enero.
Fue uno de esos días de Buenos Aires en el que el hombre se siente no sólo maltratado y ultrajado por el verano, sino hasta envilecido. Serían las once de la noche cuando se desplomó la tormenta. Primero el viento sur y después el agua a raudales. Erré buscando un árbol. A la brusca luz de un relámpago me hallé a unos pasos de la verja. No sé si con temor o con esperanza probé el portón. Inesperadamente, cedió. Avancé empujado por la tormenta. El cielo y la tierra me conminaban. También la puerta de la casa estaba a medio abrir. Una racha de lluvia me azotó la cara y entré.
Adentro habían levantado las baldosas y pisé pasto desgreñado. Un olor dulce y nauseabundo penetraba la casa. A izquierda o a derecha, no sé muy bien, tropecé con una rampa de piedra. Apresuradamente subí. Casi sin proponérmelo hice girar la llave de la luz.
El comedor y la biblioteca de mis recuerdos eran ahora, derribada la pared medianera, una sola gran pieza desmantelada, con uno que otro mueble. No trataré de describirlos, porque no estoy seguro de haberlos visto, pese a la despiadada luz blanca. Me explicaré. Para ver una cosa hay que comprenderla. El sillón presupone el cuerpo humano, sus articulaciones y partes; las tijeras, el acto de cortar. ¿Qué decir de una lámpara o de un vehículo? El salvaje no puede percibir la biblia del misionero; el pasajero no ve el mismo cordaje que los hombres de a bordo. Si viéramos realmente el universo, tal vez lo entenderíamos.

Li anteriormente:
El Informe de Brodie (1970)
Ficciones (1944/1956)
El Aleph (1949/1952)