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30 de abril de 2026

O Conde de Monte-Cristo


Alexandre Dumas
O Conde de Monte-Cristo (1846)

Extremamente popular no seu tempo, dezenas de vezes adaptado ao cinema e à televisão, O Conde de Monte-Cristo tem todos os ingredientes para se tornar numa história inesquecível. Publicado inicialmente de 1844 a 1846 como folhetim no Journal des Débats, acabaria por aparecer em livro numa edição de seis volumes totalizando mais de 1800 páginas.
Trata da história de Edmond Dantés, um jovem marselhês de 19 anos recém-promovido a comandante de um navio mercante, que é preso na véspera do seu casamento devido a uma acusação falsa. Encarcerado sem julgamento e desaparecido aos olhos dos familiares e conhecidos, passa 14 anos de cativeiro. Ali conhece o padre Faria, outro preso, julgado louco por todos, que afirma conhecer a localização de um tesouro. A morte de Faria propicia a oportunidade de fuga e, na posse dos conhecimentos que o padre lhe tinha legado, Dantés entra na posse do referido tesouro, o que lhe permite ressurgir na pele do misterioso conde de Monte-Cristo — isto é, basicamente, o que se passa no primeiro volume.
Com a sua imensa fortuna e uma nova identidade, Monte-Cristo dedicar-se-á a recompensar os que o ajudaram e a vingar-se daqueles que o prejudicaram. Os 15 anos que ocupam os volumes seguintes, contêm longas digressões e ramificações com personagens secundárias (como o Carnaval romano no vol. II, de onde se retirou o trecho escolhido), evitando com mestria uma narrativa previsível, conduzindo o leitor num emaranhado de leitura que nunca se torna fastidiosa, mas, pelo contrário, viciante. Só a partir do vol. III, com a chegada de Monte-Cristo a Paris, onde tinham passado a residir os seus inimigos, agora pessoas notáveis da sociedade parisiense, se inicia o desenrolar da vingança, como uma longa partida de xadrez, onde o protagonista vai movimentando as suas peças, conjurando a ruína e a destruição sobre os seus alvos, até ao xeque-mate final.

— Na verdade, Sr. Conde — observou Franz —, dir-se-ia que fez um estudo comparado dos suplícios entre os diversos povos do mundo.
— Pelo menos há poucos que não tenha visto — respondeu friamente o conde.
— E encontrou prazer em assistir a esses horríveis espectáculos?
— A minha primeira sensação foi de repulsa, a segunda de indiferença e a terceira de curiosidade.
— Curiosidade! A palavra é terrível, não acha?
— Porquê? Na vida há apenas uma preocupação grave: a morte. Pois bem, não será curioso estudar de que formas diferentes a alma pode sair do corpo e como, segundo os caracteres, os temperamentos e até os costumes do país, os indivíduos suportam essa suprema passagem do ser para o nada? Quanto a mim, respondo-lhe uma coisa: quanto mais vemos morrer, mais fácil se torna morrer. Assim, na minha opinião, a morte é talvez um suplício, mas não é uma expiação.
— Não o compreendo bem — confessou Franz. — Explique-se, pois tenho dificuldade em dizer-lhe até que ponto as suas palavras espicaçaram a minha curiosidade.
— Escute — disse o conde, e o seu rosto encheu-se de rancor como o de qualquer outra pessoa se coloraria de sangue. — Se um homem tivesse feito perecer por meio de torturas inauditas, no meio de tormentos sem fim, o seu pai, a sua mãe, a sua noiva, um desses seres, enfim, que quando os desenraízam do nosso coração deixam nele um vazio eterno e uma chaga sempre sangrenta, consideraria a reparação que lhe concedesse a sociedade suficiente, só porque o cutelo da guilhotina passou entre a base occipital e os músculos trapézios do assassino e porque este, que o fez passar anos de sofrimentos morais, experimentou alguns segundos de dor física?
— Sim, bem sei que a justiça humana é insuficiente como confortadora — admitiu Franz. — Só pode verter o sangue em troca do sangue, e mais nada. Mas temos de nos contentar com o que ela pode e não com outra coisa.
— Vejamos um caso material — prosseguiu o conde —, aquele em que a sociedade, ferida pela morte de um indivíduo, na base em que assenta, vinga a morte com a morte. Mas não há milhões de dores em que as entranhas do homem podem ser dilaceradas sem que a sociedade se preocupe minimamente com isso, sem que lhe ofereça o meio insuficiente de vingança de que falámos há pouco? Não há crimes para os quais o empalamento dos Turcos, os alcatruzes dos Persas e os látegos dos Iroqueses seriam suplícios demasiado suaves e que no entanto a sociedade, indiferente, deixa sem castigo?... Responda, não há crimes assim?
— Há — concordou Franz —, e é para os punir que o duelo é tolerado.
— Ah, o duelo!... — exclamou o conde. — Curiosa maneira, palavra, de alcançar um fim, quando o fim é a vingança! Um homem rouba-lhe a amante seduz-lhe a mulher, desonra-lhe a filha. De uma vida inteira que tinha o direito de esperar de Deus a parte de felicidade por Ele prometida a todo o ser humano ao criá-lo, esse homem fez uma existência de dor, miséria ou infâmia, e o senhor considera-se vingado infligindo-lhe, a um homem que lhe introduziu o delírio no espírito e o desespero no coração, uma estocada no peito ou metendo-lhe uma bala na cabeça? Ora adeus! Sem contar que muitas vezes é ele que sai triunfante da luta, limpo aos olhos do mundo e de certo modo absolvido por Deus. Não, não — continuou o conde —, se alguma vez tivesse de me vingar, não seria assim que me vingaria.


Li anteriormente:
A Túlipa Negra (1850) 

8 de setembro de 2025

A Túlipa Negra


Alexandre Dumas
A Túlipa Negra (1850)

Passado na Holanda da segunda metade do século XVII, esta novela clássica de Alexandre Dumas parte de alguns factos históricos, como o assassínio e linchamento de Johan De Witt e do irmão Cornelis De Witt, resultado do confronto entre a facção republicana e o movimento orangista, que pretendia o restabelecimento do poder real. Para colocar a trama em movimento temos Cornélio Van Baerle, afilhado do segundo, a quem foram confiadas certas cartas comprometedoras da autoria do primeiro, das quais Von Baerle, um jovem na posse de uma herança muito confortável, não tem conhecimento do conteúdo, interessando-se apenas pelo cultivo das tulipas.
Nessa altura a sociedade tulipista de Harlém oferece um considerável prémio monetário a quem conseguir cultivar uma orquídea negra, tarefa à qual se dedica Cornélio, bem como o seu invejoso vizinho Isaac Boxtel. Este sem meios financeiros para competir com Cornelio, passa a observar todos os seus movimentos com um telescópio e arquitecta um plano para se apoderar do seu esforço. Como espiou a entrega do maço de cartas, delata Cornélio que é julgado e preso; mas, sem conseguir deitar a mão aos bolbos dos quais nascerão as tulipas negras, muda de identidade, passa a chamar-se Jacob Gisels e segue no encalço de Cornélio que, na prisão, e com a ajuda de Rosa, a bela filha do carcereiro, por quem se apaixona, vai tentar criar a tulipa negra e ganhar o prémio.
As peripécias que se seguem são divertidas e a leitura absorvente, com o inevitável desenlace feliz.
Apesar do livro referir o preço elevado a que se transaccionavam os bolbos das tulipas naquela época, não faz referência ao estouro da bolha especulativa da tulipa, em 1637, o primeiro crash financeiro documentado — isso é que dava uma história edificante...

Assim é que, para se fazer uma ideia de um condenado esquecido por Dante, cumpria ver Boxtel durante este tempo. Enquanto Van Baerle sachava, estrumava, humedecia os seus alegretes, enquanto ele, de joelhos em cima do declive de relva, analisava cada veia da túlipa sua florescência e meditava nas modificações que se lhe podiam fazer, nas combinações de cores que se podiam experimentar, Boxtel, escondido por detrás de um sicômoro pequeno que plantara ao pé do muro e que lhe servia como de leque, seguia, com os olhos entumecidos, a boca escumando, cada passo, cada atitude do seu vizinho; e quando julgava vê-lo alegre quando o apanhava a sorrir, quando lhe lobrigava um raio de felicidade nos olhos, enviava-lhe tantas pragas, tantas ameaças furibundas, que se não poderia imaginar como estes hálitos empestados de inveja e de cólera não iam infiltrando-se nas hastes das flores, levar-lhes princípios de decadência e germes de morte.
Em breve, porém, tão rápidos são os progressos que faz o mal quando se apodera da alma humana, Boxtel não se contentou com ver somente Van Baerle. Também quis ver as suas flores; porque como era um verdadeiro artista, a obra-prima de um rival não podia ser para ele coisa de pouca monta.
Comprou um telescópio, com o auxílio do qual, tão bem como o próprio proprietário pôde acompanhar todas as evoluções da flor, desde o momento em que lança, no primeiro ano, o seu pálido rebento fora da terra, até àquele em que, depois de ter completado o seu período de cinco anos, arredonda o nobre e gracioso cilindro, sobre o qual aparecem as incertas mostras da sua cor e se desenvolvem as pétalas da flor, que só então revela os tesouros mais secretos do seu cálix.
Oh! Quantas vezes o desgraçado invejoso, empoleirado na sua escada, lobrigou nos alegretes de Van Baerle umas túlipas que o cegavam com a sua beleza e o sufocavam com o seu delicioso perfume!
Nestas ocasiões, passado o período de admiração que não podia vencer, Boxtel sentia-se atacado pela febre da inveja, essa enfermidade que lacera o peito e que transforma o coração em miríades de pequenas serpentes, que se devoram umas às outras, origem infame das mais horríveis dores.
Quantas vezes, no meio dos seus tormentos, de que nenhuma descrição poderia dar uma cabal ideia, Boxtel teve a tentação de saltar de noite ao jardim do seu vizinho, destruir as plantas, devorar as cebolas com os dentes e sacrificar o próprio dono, se este ousasse defender as suas túlipas.
Mas matar uma túlipa é, aos olhos de um verdadeiro horticultor, um crime tão espantoso!
Matar um homem, ainda passava.