Amosando publicacións coa etiqueta Olavo de Carvalho. Amosar todas as publicacións
Amosando publicacións coa etiqueta Olavo de Carvalho. Amosar todas as publicacións

23 de setembro de 2026

O Imbecil Coletivo


Olavo de Carvalho
O Imbecil Coletivo (1996)

A recente morte de Olavo de Carvalho, em 2022, quando noticiada, não mereceu mais do que curtas notas de rodapé na imprensa/media generalista portuguesa. Outras figuras, bem mais obscuras na nossa sociedade, têm obtido maior atenção na hora do seu passamento; as razões para esse procedimento estão explicadas neste livro, o mais notório entre a sua obra.
Sendo a conclusão da trilogia que inclui A Nova Era e a Revolução Cultural (1994) e O Jardim das Aflições (1995), pretende retratar a alienação da elite cultural brasileira na primeira metade dos anos 90 e diagnosticar os males que assolavam o Brasil – e, uma vez que a sua origem foi importada, espelham de certo modo a situação vivida nos EUA e na Europa.
O texto, frequentemente de tom jocoso, ridiculariza o caldo de cultura onde nasceu uma série de dogmas que floresceriam nas décadas seguintes, fundamentados naquilo que alguém descreveu como «a french theory segundo o enfoque da Disneylândia», uma aliança entre o capitalismo-liberal na economia com o dirigismo socialista nos costumes e na esfera da vida privada. O resultado foi a disseminação de uma grande quantidade de ideias falsas que criou uma atmosfera propícia à desagregação da sociedade; foi por isso natural que a maior resistência surgisse entre as camadas mais baixas, não só porque elas foram as suas primeiras vítimas, mas porque estavam fora do raio de influência da designada cultura, ou seja a adesão aos preconceitos consagrados dos bem-pensantes, naquilo que se pôde ver como a génese do que entre nós é designado por «populismo».
Composto maioritariamente por textos pré-existentes e crónicas de imprensa, ou reflexões sobre textos publicados, O Imbecil Coletivo – Atualidades Inculturais Brasileiras tem, no título, uma alusão ao «intelectual colectivo» de Antonio Gramsci e, mais genericamente, a todas as formas de discurso colectivo que dispensam o exercício penoso da inteligência individual. Melhor explicado, citando o autor: «O imbecil coletivo não é apenas a soma de um certo número de imbecis individuais. É, ao contrário, uma coletividade de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior, que se reúnem com a finalidade precípua de imbecilizar-se umas às outras e obtêm nisto um razoável sucesso.»

Em suma, a intelectualidade esquerdista do tempo de Vargas tinha ideais positivos, valores, normas e ética, dos quais a obra de Graciliano Ramos é o testemunho mais alto. Já os intelectuais da era Médici não tinham, a inspirá-los do Exterior, senão o apelo suicida do guevarismo, a codificação marcusiana do desespero, o anti-humanismo de Foucault e todo o deprimente cortejo de negativismos brotados daquilo que, nos EUA, um crítico acertadamente chamou de nietzscheização da esquerda.
Dessa diferença de ideologias nasceu a diferença das reações num tempo e noutro. Emergindo da ditadura Vargas, os escritores e artistas brasileiros deram um show de criatividade que marcou o período de 1945-1964 como um dos mais ricos da nossa história cultural. Inversamente, no fim da ditadura militar os intelectuais emergiram de igual isolamento com espírito diverso, nada tendo a oferecer ao país senão amargura, rancor estéril, ódio a todos os princípios e valores da civilização, desejo de vingança a qualquer preço, autocomiseração e arrogância cínica. Como, por outro lado, essa esquerda psicologicamente depravada teve, a partir da Nova República, acesso a meios de atuação superiores a tudo quanto seus antecessores da era Vargas poderiam sonhar, tomando de assalto ministérios, canais de TV oficiais e privados, cátedras universitárias, imprensa, mercado editorial, etc., não demorou a que a negação de todos os valores se espraiasse, como epidemia, por todas as faixas da população. Se, agora, os intelectuais ainda têm o descaramento de acusar a tudo e a todos pelo presente estado da alma brasileira, sem nem de longe pensar em assumir sua pesada quota de culpas na produção desse fenômeno, isto é somente uma prova a mais da sua falta de senso de responsabilidade.
[...]
Conforme bem viu Christopher Lasch, a nova classe dominante de burocratas e de intelectuais ativistas, que velozmente vai tomando o lugar da burguesia no império do mundo, não governa pela posse jurídica dos meios de produção, mas pelo jogo da informação; mais ambiciosa que sua antecessora, ela não se contenta em ter poder sobre a força de trabalho das pessoas, mas quer moldar sua mente, seus valores, sua vida e o sentido da sua vida; não quer só possuir o mundo, mas reinventá-lo à sua imagem e semelhança.
Infinitamente confiante no seu próprio poder de moldar a realidade, a nova classe não tem satisfações a prestar à lógica, à história ou à biologia: se para alcançar seus objetivos for preciso remexer todo o mapa do cérebro humano, desmontar a tapas a complexa rede de símbolos e sentimentos que constitui o legado cognitivo de uma evolução milenar e provocar um curto-circuito generalizado na inteligência de milhões de crianças, ela o fará sem o menor constrangimento. É uma classe destituída de toda autoconsciência moral e firmemente imbuída da convicção de que a ética consiste em cultivar nas pessoas um senso neuroticamente ampliado de suas próprias necessidades e frustrações, para mantê-las perpetuamente indignadas umas contra as outras. No fundo, trata-se do velho divide ut regnes, praticado sob falsos pretextos moralizantes que não enganam a ninguém. Exceto às crianças, naturalmente.
[...]
Falta de inteligência não significa ausência de malícia. Ao ver no episódio o sinal de uma inédita renovação intelectual das esquerdas, Sokal mostra ignorar a história do movimento a que pertence: pois a malícia mais tradicional da esquerda é precisamente alardear seus pecados para não ter de arcar com suas conseqüências políticas. A esquerda tem vivido de denunciar seus próprios erros desde o dia em que, na Revolução Francesa, reconheceu a conveniência política de guilhotinar o primeiro guilhotinador — um ato que elevou às nuvens o prestígio do movimento e lhe deu cacife para continuar guilhotinando a quem bem entendesse. Desde então, cada nova corrente esquerdista nasce da orgulhosa proclamação do descrédito da anterior. O próprio marxismo brota de uma crítica arrasadora dos erros da esquerda, e o mesmo se dá com o leninismo, o trotsquismo, o maoísmo, o gramscismo etc. De Robespierre a Alan Sokal, a história da esquerda é uma sucessão de ídolos decapitados no altar do renascimento da causa; é uma sucessão de anéis sacrificados em prol da multiplicação dos dedos. Pois o reconhecimento verbal dos erros — antigamente chamado “autocrítica” — tem sempre por finalidade explicar não só as inépcias e os ridículos, mas também os crimes e atrocidades, como desvios acidentais que em nada comprometem a essência pura da ideologia socialista, de modo que esta, quanto mais sangue se derrame em seu nome, saia cada vez mais dignificada. O ciclo é auto-renovável, porque o pecador arrependido não recebe por seus pecados nenhum castigo, mas sempre uma recompensa. De cada nova série de horrores e fracassos, a esquerda emerge revigorada e imbuída de uma nova fé na sua inquestionável honestidade de propósitos: de geração em geração, os esquerdistas se tornam cada vez menos responsáveis pelo que fizeram seus antecessores e cada vez mais confiantes de merecer novas oportunidade para tentar e errar indefinidamente: o esquerdismo é uma mentira que se alimenta, dialeticamente, de sua própria negação.