21 de xuño de 2026
O Fio da Navalha
W. Somerset Maugham
O Fio da Navalha (1944)
Narrado na primeira pessoa, por um escritor chamado Maugham, O Fio da Navalha (The Razor's Edge no título original) é considerado como uma das melhores obras do autor. Trata-se de uma novela filosófica em que as principais personagens giram em redor de Elliott Templeton, um norte-americano que vive há muitos anos em Paris, depois de ter feito fortuna como negociante de arte, cujo objectivo último de existência é a vida social. O livro começa em 1919 e percorre os vinte anos seguintes, mas Elliott não é a personagem principal; esses papeis pertencem a Larry Darrell e Isabel Bradley. Larry foi aviador durante a guerra e viveu uma experiência traumática durante uma batalha, em que outro piloto que morreu para o salvar. A sua renitência em arranjar trabalho e vontade de viajar leva Isabel, uma mulher prática e materialista, a romper o noivado. Larry parte então numa busca pessoal do transcendente, terminando na Índia — o que motiva uma série de discussões filosófico-religiosas ao longo do livro. Isabel casa-se com Gray Maturin, filho de um milionário de Chicago que se arruinará no crash de 1929, mas fica com um sentimento mal resolvido em relação a Larry, que emerge cada vez que ele regressa a Paris (ou à Riviera, onde também residem parte do ano) após longas ausências. Elliott morre quase em solidão, no final do livro, a um passo de reconhecer a vacuidade da sua existência.
O Fio da Navalha é um livro de luzes e sombras, com personagens complexas e profundidade psicológica, que, nas últimas linhas, contém uma espécie de balanço: «verifiquei que, sem a menor intenção, não escrevera nada mais nada menos do que uma história de triunfos. Sim, pois todas as pessoas de quem me ocupei conseguiram o que almejaram: Elliott, prestígio social, Isabel, boa posição, garantida por sólida fortuna, numa comunidade activa e culta; Gray, um emprego certo e bem remunerado, com um escritório onde pode trabalhar das nove às seis, todos os dias; Suzanne Rouvier, segurança; Sophie, a morte; e Larry, a felicidade.»
Isabel tinha boa memória e ainda se lembrava das várias fases da longa discussão com Larry. Ouvi em silêncio, até ela terminar. Interrompeu-se apenas uma vez, para me fazer uma pergunta:
— Quem foi Ruysdael?
— Ruysdael? Era um paisagista holandês. Porquê?
Contou-me que Larry o mencionara. Dissera que pelo menos Ruysdael encontrara solução para o que desejara saber, e Isabel repetiu-me a petulante réplica de Larry, quando ela lhe perguntara quem era esse homem.
— Que quereria ele dizer?
Tive uma inspiração.
— Tem a certeza de que ele não disse Ruysbroek? — perguntei.
— É bem possível. Quem era ele?
— Um místico flamengo que viveu no século XIV.
— Oh! — exclamou Isabel, com ar de quem sofreu uma decepção.
Para ela aquilo nada significava. Mas significava alguma coisa para mim. Era a primeira indicação que tinha do rumo que tomavam as reflexões de Larry; e, enquanto Isabel continuava a narrativa, embora a ouvisse atentamente, com outra parte do pensamento preocupei-me com as possibilidades que aquela referência de Larry sugeria. Não quis dar muita importância ao facto, pois era bem possível que tivesse citado o nome do teólogo místico apenas como argumento; mas podia também ter uma significação que escapara a Isabel. Ao dizer-lhe que Ruysbroek era apenas uma pessoa que ele não conhecera no colégio, Larry procurara evidentemente despistá-la.
— Qual é a sua opinião sobretudo isso? — perguntou-me ao terminar.
Esperei uns instantes, antes de responder.
— Lembra-se de Larry ter dito que ia apenas vadiar? Se o que ele lhe contou é verdade, então a sua vagabundagem parece abranger um trabalho muito exaustivo.
— Tenho a certeza de que é verdade. Mas não acha que, se ele se tivesse igualmente esforçado num trabalho produtivo, poderia obter bom rendimento?
— Algumas pessoas têm um temperamento esquisito. Existem criminosos que trabalham como mouros, a organizar planos que os levam à prisão e que, nem bem recuperam a liberdade, reincidem e acabam por ser, novamente presos. Se empregassem a mesma perseverança, a mesma inteligência, a mesma paciência e os mesmos recursos nalgum projecto honesto, poderiam ter óptimos rendimentos e ocupar posições de relevo. Mas a questão é que são feitos daquela massa. Gostam do crime.
— Pobre Larry — disse ela, rindo baixinho. — O senhor não me dirá que ele está a aprender grego para assaltar um banco.
Também ri.
— Não, não. O que tento dizer-lhe é que há homens que sentem tão intenso desejo de fazer uma determinada coisa que não podem deixar de a fazer. Estão dispostos a sacrificar tudo para satisfazer esse anseio.
— Até mesmo as pessoas que gostam deles?
— Sim.
— Não acha que isso é puro egoísmo?
— Não sei dizer — respondi, sorrindo.
— Que utilidade prática pode ter para Larry o estudo de línguas mortas?
— Algumas pessoas têm um desejo desinteressado de adquirir cultura. Não se pode dizer que seja um desejo ignóbil.
— Mas de que vale a cultura, se a pessoa não a pretende utilizar?
— Talvez ele pretenda. Talvez só o facto de saber seja uma satisfação, como ao artista basta a satisfação de produzir uma obra de arte. E talvez seja apenas um passo para coisa mais avançada.
— Se ele tem tanta sede de saber, porque não foi então para a Universidade, quando voltou da guerra? Era o que o Dr. Nelson e minha mãe queriam que fizesse.
— Falei com Larry sobre isso, em Chicago. Um diploma de nada lhe serviria. Pareceu-me que ele tinha uma ideia exacta do que queria, mas sentia que não encontraria satisfação numa Universidade. Sabe, no estudo existe o lobo solitário, da mesma maneira que existe o lobo que se move com a alcateia. Creio que Larry é uma dessas pessoas que não podem tomar outro caminho a não ser, em exclusivo, o seu.
— Lembro-me de que, uma vez, lhe perguntei se não sentia vontade de escrever. Respondeu-me que não tinha sobre que escrever.
— É a razão menos concludente que conheço para uma pessoa não escrever — comentei, sorrindo.
Isabel fez um gesto de impaciência. Não se encontrava em estado de espírito para apreciar uma graça, por mais leve que fosse.
Li anteriormente:
O Véu Pintado (1925)
Um Gosto e Seis Vinténs (1919)
Servidão Humana (1915)
11 de xuño de 2026
Salammbô
Gustave Flaubert
Salammbô (1862)
Após Madame Bovary e toda a aura de escândalo que o rodeou, Gustave Flaubert escolheu um tema menos controverso e escreveu Salammbô, um romance histórico passado na Cartago do séc. III a.C., inspirado nas Histórias de Políbio e numa viagem feita à Tunísia, poucos anos antes, com o fim de sentir e respirar o enquadramento geográfico do livro.
O romance tem como enquadramento histórico a Guerra dos Mercenários, uma revolta de guerreiros a soldo que Cartago tinha utilizado na Primeira Guerra Púnica. Durante um festim comemorativo, um dos mercenários, Mâtho, apaixona-se por Salammbô, filha de Amílcar Barca, e sacerdotisa da deusa Tânita. A revolta estala, e Mâtho torna-se um dos líderes; instigado por Spendius, seu braço-direito, rouba o zaimph, o véu sagrado da deusa. Amílcar, que estava ausente, regressa a Cartago e inicia-se uma série de sangrentas batalhas contra os mercenários. Em determinado ponto, Salammbô vai ao acampamento inimigo encontrar-se pessoalmente com Mâtho, e recupera o zaimph. A sorte das armas passa então a pender para o lado cartaginês, e Amílcar promete a filha em casamento a Narr'Havas, outro mercenário, que se tinha passado para o lado de Cartago.
Salammbô é um livro violento e sensual, por vezes cansativo, que ilustra em cores fortes um mundo bárbaro e distante, raras vezes reimaginado na arte ocidental.
À notícia do desastre, Cartago vacilava de cólera e de ódio: teriam detestado menos o sufete, se, desde o princípio, ele se tivesse deixado vencer.
Contudo, para comprar outros mercenários, faltava o tempo e o dinheiro. Quanto a arranjar soldados na cidade, como é que haviam de ser equipados? Amílcar tinha levado todas as armas! E quem é que os comandaria? Os melhores comandantes estavam com ele! Os homens enviados pelo sufete chegavam às ruas, davam gritos. O Grande Conselho irritou-se e arranjou maneira de os fazer desaparecer.
Era uma medida inútil; todos acusavam Barca de se ter deixado levar pela incúria. Devia, depois da vitória, ter aniquilado os mercenários. Porque é que tinha enfurecido as tribos? Já se tinham imposto sacrifícios tão pesados! E os patrícios deploravam a sua contribuição de catorze shekels, os sissitas os seus duzentos e vinte e três mil kikar de ouro; os que não tinham dado nada lamentavam-se como os outros. A populaça tinha inveja dos cartagineses novos aos quais ele tinha prometido o direito de cidadania completo; e os ligúrios, que se tinham batido com tanta valentia, confundiam-nos com os bárbaros e amaldiçoavam-nos, como os amaldiçoavam a eles; a sua raça tornara‑se um crime, uma cumplicidade. Os comerciantes à porta das lojas, os operários que passavam com uma régua de chumbo na mão, os vendedores de salmoura que lavavam os cestos, os banheiros nos banhos públicos, e os vendedores de bebidas quentes, discutiam todos as operações da campanha. Traçavam no chão, com o dedo, os planos da batalha; até o operário mais humilde sabia corrigir os erros de Amílcar.
Li anteriormente:
Madame Bovary (1857)
3 de xuño de 2026
The End of Eternity
Isaac Asimov
The End of Eternity (1955)
A Eternidade é um instrumento tecnológico nascido da descoberta do Campo Temporal, no século 24, e posta em marcha a partir do século 27. Posicionando-se fora do Tempo comum, livre das limitações do mesmo, é dominada por uma tecnocracia recrutada em diferentes épocas que, em nome do aperfeiçoamento humano e social, intervém no passado, presente e futuro da Terra, moldando-a de acordo com a sua visão. Andrew Harlan é um Técnico da Eternidade, com interesse nos Tempos Primitivos (anteriores à Eternidade), que, aos poucos, se apercebe de que está a ser utilizado para levar B.S. Cooper, um aprendiz, ao século 24; e que esse aprendiz é o próprio Mallansohn, o cientista autor da descoberta do Campo Temporal. Tudo tem de ser feito de acordo com um livro de memórias que ele escreveu no passado, para que não exista uma alteração da Realidade, e os factos a acontecer sejam os mesmos que foram descritos. Entretanto, Harlan tinha-se apaixonado por Noÿs Lambent, uma mulher do século 482, que está na Eternidade provisoriamente, como secretária. Contudo, há uma Mudança de Realidade projectada para o 482, Harlan descobre que Noÿs será apagada nesse futuro e planeia uma operação altamente irregular para o evitar.
O tema das viagens no tempo é a base de The End of Eternity, mas o livro tem uma abordagem complexa, reflectindo sobre as realidades paralelas, os paradoxos do tempo, o uso da tecnologia e os seus limites éticos, mostrando a profundidade psicológica da personagem de Andrew Harlan na sua introspecção, nos seus diálogos e conflitos.
But then he stopped, wheeled, and looked at Harlan again, reaching back through all his own words to what Harlan had last said, as though until that moment he had not heard them properly.
He said, "What do you mean, you almost met yourself?"
Harlan told him briefly and went on, "You didn't know that?"
"No."
There was a few moments of silence that were as welcome to the feverish Harlan as water would have been.
Twissell said, "Is that it? What if you had met yourself?"
"I didn't."
Twissell ignored that. "There is always room for random variation. With an infinite number of Realities there can be no such thing as determinism. Suppose that in the Mallansohn Reality, in the previous turn of the cycle —"
"The circles go on forever?" asked Harlan with what wonder he could still find in himself.
"Do you think only twice? Do you think two is a magic number? It's a matter of infinite turns of the circle infinite a physiotime. Just as you can draw a pencil round and round the circumference of a circle infinitely yet enclose a finite area. In previous turns of the cycle, you had not met yourself. This one time, the statistical uncertainty of things made it possible for you to meet yourself. Reality had to change to prevent the meeting and in the new Reality, you did not send Cooper back to the 24th but —"
Harlan cried, "What's all this talk about? What are you getting at? It's all done. Everything. Let me alone now! Let me alone!"
"I want you to know you've done wrong. I want you to realize you did the wrong thing."
"I didn't. And even if I did, it's done."
"But it's not done. Listen just a little while longer." Twissell was wheedling, almost crooning with an agonized gentleness. "You will have your girl. I promised that. I still promise it. She will not be harmed. You will not be harmed. I promise you this. It is my personal guarantee."
Harlan stared at him wide-eyed. "But it's too late. What's the use?"
"It is not too late. Things are not irreparable. With your help, we can succeed yet. I must have your help. You must realize that you did wrong. I ant trying to explain this to you. You must want to undo what you have done."
Li anteriormente:
The Naked Sun (1957)
The Caves of Steel (1954)
I, Robot (1950)
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