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6 de xuño de 2023

Burning Chrome



William Gibson
Burning Chrome (1986)

Burning Chrome, editado em 1986, é uma antologia de contos datados entre 1977 e 1986. Beneficiando do impacto de Neuromacer, estes textos partilham maioritariamente do mesmo universo da trilogia Sprawl e, até, personagens, como acontece em "Johnny Mnemonic". O excerto escolhido pertence a "Hinterlands".

If the first ones to come back had only returned with seashells, I doubt that Heaven would be out here. Heaven was built after a dead Frenchman returned with a twelve-centimeter ring of magnetically coded steel locked in his cold hand, black parody of the lucky kid who wins the free ride on the merry-go-round. We may never find out where or how he got it, but that ring was the Rosetta stone for cancer. So now it's cargo cult time for the human race. We can pick things up out there that we might not stumble across in research in a thousand years. Charmian says we're like those poor suckers on their island, who spend all their time building landing strips to make the big silver birds come back. Charmian says that contact with "superior" civilizations is something you don't wish on your worst enemy.
"Ever wonder how they thought this scam up, Toby?" She was squinting into the sunlight, east, down the length of our cylindrical country, horizonless and green. "They must've had all the heavies in, the shrink elite, scattered down a long slab of genuine imitation rosewood, standard Pentagon issue. Each one got a clean notepad and a brand-new pencil, specially sharpened for the occasion. Everybody was there: Freudians, Jungians, Adlerians, Skinner rat men, you name it. And every one of those bastards knew in his heart that it was time to play his best hand. As a profession, not just as representatives of a given faction. There they are, Western psychiatry incarnate. And nothing's happening! People are popping back off the Highway dead, or else they come back drooling, singing nursery rhymes. The live ones last about three days, won't say a goddamned thing, then shoot themselves or go catatonic."


Li anteriormente:
Mona Lisa Acelerada (1988)
Count Zero (1986)
Neuromancer (1984)

17 de xuño de 2017

Mona Lisa Acelerada

William Gibson
Mona Lisa Acelerada (1988)

Mona Lisa Overdrive no seu título original, é o último livro da trilogia Sprawl, o qual optei por ler na tradução espanhola depois das más experiências com as traduções em português do Brasil.
Uma vez mais o fio narrativo segue diferentes personagens em histórias simultâneas, mais ou menos convergentes, que têm por fundo a acção de AIs que se tornaram autónomas e conscientes.
Kumiko Yanaka, uma miúda de 13 anos de Tóquio, que vem para Londres para ficar a salvo de uma esperada guerra de gangs que envolvem o seu pai. É acompanhada inicialmente por uma enigmática Sally Shears, que acaba por se revelar a Molly de Neuromancer.
Slick Henry, um mecânico ex-presidiário que vive numas instalações arruinadas pertencentes a um sujeito chamado Gentry, que, para pagar uma antiga dívida, vê-se obrigado a albergar um indivíduo em estado inconsciente, ligado a um imenso bloco de dados de realidade virtual. Esse indivíduo, a quem ouviram chamar Conde, sabe-se mais tarde ser Bobby Newmark, o Conde Zero. Quanto a Gentry é igualmente um obcecado pelos segredos ciberespaço.
Angela Mitchell, uma superestrela do estim, que passa uns dias isolada numa casa de Malibú, no intervalo de uma cura de desintoxicação, rodeada de vigilância electrónica por todo o lado. Angela, é a filha de Christopher Mitchell, uma das personagens centrais de Count Zero; na infância, o pai operou sobre ela uma transformação neurológica que a põe no centro da trama deste livro, quando o seu caminho se cruza com o de Molly.
A jovem Mona Lisa, uma espécie de “dançarina exótica” de Cleveland, viciada em droga, que no início do livro se encontra na Florida com Eddy, o seu companheiro e “empresário”, sem quaisquer perspectivas de vida, o que muda rapidamente com uma viagem de avião ao Sprawl – essa imensa mancha urbana que agregou várias cidades da costa leste dos EUA. Aí, descartado Eddy, submetem-na uma operação plástica que a transforma numa sósia de Angela Mitchell, numa obscura jogada que pretende a troca de personalidades.
Apesar de funcionar como uma obra isolada, pelo cruzamento de personagens e situações é de toda a conveniência ter lido anteriormente os outros dois tomos da trilogia. Para quem os já leu, este é o complemento final que não deve ser perdido. Talvez não seja má ideia, como método, ler os três livros de seguida – coisa que eu não fiz...

Piper y Raebel se pusieron sendos jerseys y salieron a la terraza, donde se quedaron calentándose las manos al calor de las brasas, y Angie se encontró a solas con el director en la sala de estar.
—Estabas a punto de contarme, David, lo que hacías en el pozo...
—Buscaba solitarios de verdad. —Se pasó una mano por el enmarañado cabello.— Viene de una cosa que quise hacer el año pasado y que tenía que ver con las comunidades intencionales de África. El problema está en que, una vez que llegué allí arriba, me enteré de que todo aquel que va tan lejos, que realmente vive a solas en órbita, está por lo general decidido a quedarse así.
—¿Estuviste grabando? ¿Haciendo entrevistas?
—No. Quería encontrar personas así y convencerlas de que se grabaran ellas mismas sus propios segmentos.
—¿Lo hiciste?
—No, pero oí algunas historias. Unas historias estupendas. Un piloto de remolcador aseguraba que hay niños salvajes que viven en una fábrica de drogas japonesa aislada. Allí fuera hay toda una serie de mitos nuevos, de verdad: naves fantasmas, ciudades perdidas... La cosa tiene su pathos, si lo piensas. Quiero decir, todas esas cosas están bloqueadas en órbita. Todo ello ha sido hecho por el hombre, conocido, poseído, colocado en un mapa. Es como ver mitos que echan raíces en un aparcamiento. Aunque supongo que a la gente le hace falta ese tipo de cosas, ¿no?
—Sí —dijo Angie, pensando en Legba, en Mamman Brigitte, en las mil velas...
—Sin embargo —agregó Pope—, lamento no haber podido llegar hasta Lady Jane. ¡Qué historia tan increíble! Gótico puro.
—¿Lady Jane?
—Tessier-Ashpool. Su familia construyó el toro de Freeside. Pioneros de órbita alta. Plan de Rodaje tiene un vídeo que es una maravilla... Dicen que ella mató a su padre, y es la última del linaje. Se les acabó el dinero hace años. Lo vendió todo, hizo que separasen su casa de la punta del huso y se hizo remolcar a otra órbita...
Angie se incorporó en el diván, con las rodillas bien juntas, los dedos entrelazados. Le corrieron gotas de sudor por los costados.
—¿No sabes la historia?
—No —dijo ella.
—Eso ya es interesante de por sí, porque demuestra hasta qué punto eran adeptos a la oscuridad. Utilizaban su dinero para mantenerse a salvo de las noticias. La madre era Tessier, y el padre Ashpool. Construyeron Freeside cuando no existía nada que se le pareciera. Con eso se hicieron espectacularmente ricos. Quizá cuando murió Ashpool ocuparan un muy cercano segundo lugar después de Josef Virek. Y, por supuesto, con el tiempo se hicieron también fantásticamente raros: les había dado por clonar a sus hijos al por mayor...
—Eso suena... horrible. Y tú intentaste, ¿trataste de dar con ella?
—Vaya, hice algunas averiguaciones. Plan de Rodaje me había conseguido ese vídeo de Becker, y su órbita aparece en el libro, claro, pero no quedaba bien eso de dejarse caer sin haber sido invitado, ¿verdad? Y además Hilton me hizo llamar para volver al trabajo... ¿No te sientes bien?
—Sí, creo..., creo que voy a cambiarme de ropa, me pondré algo más abrigado.

Li anteriormente:
Count Zero (1986)
Neuromancer (1984)

3 de agosto de 2015

Count Zero


William Gibson
Count Zero (1986)

Quando o Neuromancer foi editado despoletou um imenso burburinho; William Gibson era anunciado como uma nova estrela da literatura, e passou-se por cima do preconceito de ter publicado um livro de FC. Não o li então; deixei assentar a poeira e li-o há cinco anos, quando o autor possuía já uma obra de certa dimensão e continuidade. Chegou agora a vez de Count Zero, cujas peripécias têm por fundo a violenta disputa industrial de uma nova tecnologia, o biochip, enquanto o multimilionário Virek parte em busca da imortalidade, por interposta pessoa. A narrativa desdobra-se em três vectores simultâneos, centrados nas personagens de Turner (um mercenário ao serviço de uma poderosa multinacional), Bobby Newmark (um hacker novato mas com sonhos ambiciosos, auto-denominado “Count Zero”) e Marly Krushkhova (uma parisiense, obscura negociante de arte, que ganha um contrato astronómico ao serviço de Virek), mas estas tramas mal chegam a se interceptar (aliás, Marly não converge de todo).
Criado numa época em que a internet mal dava os primeiros passos, reencontra-se aqui toda a ambiência do Neuromancer — passa-se uns anos depois, com algumas referências a um par de personagens desse romance — tal como o futuro era imaginado em meados da década de 80: o ciberespaço e a experiência de imersão numa realidade virtual; o Japão ascendido a uma posição dominante a nível mundial (o contemporâneo Blade Runner partilhava desta ideia), com as multinacionais da época tornadas em enormes potentados globais e o iene a fazer as vezes do dólar. Menciona-se também a Alemanha Ocidental (em 1986 o Muro de Berlim parecia que ia durar para sempre) e o fax é de uso óbvio — então em processo de massificação... quando hoje se tornou numa peça de museu!
A escrita de Gibson é um tanto angulosa e difusa, e tende a deixar o leitor para trás — nesse particular faz-me lembrar o Philip K. Dick mais tardio. Depois de ter lido o Neuromancer em pt-br, senti-me um tanto intimidado em abordar este Count Zero no original. Há uma catadupa de neologismos e palavras inventadas pelo autor que me dificultariam a leitura e optei, novamente, pela versão em português do Brasil. Infelizmente não foi a decisão correcta.
Costumo dizer, um pouco na brincadeira, que o “brasileiro” é a língua estrangeira que melhor entendo. Depois deste livro já não tenho a certeza. Para além de ter achado a tradução atabalhoada, com a manutenção desnecessária de demasiadas palavras em inglês (eu, que normalmente me queixo do contrário, porque gosto de perceber o texto original “atrás” da tradução), o recurso a um vocabulário coloquial (ou gíria, talvez), empobrece fortemente o texto, na minha opinião. Fora as frequentes vezes em que pura e simplesmente não consegui entender, e me vi obrigado a pesquisar o original para tirar dúvidas. Neste confronto, tornaram-se evidentes as más opções de tradução, não no fio narrativo, mas na escolha da sintaxe. Um nomeado para os prémios Hugo e Nebula merecia melhor; quando voltar a ler William Gibson vou ter isto em consideração...

Os sonhos de computador continham uma vertigem especial. Turner se deitou em uma placa virgem de espuma verde, no dormitório improvisado, e conectou o dossiê de Mitchell. Começou devagar: teve tempo de fechar os olhos.
Dez segundos depois, os olhos estavam abertos. Agarrou a espuma verde e lutou contra a náusea. Fechou os olhos de novo... Mais uma vez, começou aos poucos, um fluxo bruxuleante e não linear de fatos e dados sensoriais, um tipo de narrativa transmitida em planos interrompidos e justaposições surreais. Era um pouco como andar em uma montanha-russa que aleatoriamente entrasse e saísse da existência, em intervalos impossivelmente rápidos, mudando de altitude, ângulo e direção a cada pulso de inexistência. Exceto que os deslocamentos não tinham nada a ver com qualquer orientação física, mas sim com alternâncias instantâneas no sistema de símbolos e paradigmas. Aqueles dados nunca se destinaram a acesso humano.
Com os olhos abertos, tirou o objeto do soquete e segurou-o na mão, lisa de suor. Era como acordar de um pesadelo. Não um de horror, no qual os temores internos assumiam formas simples e terríveis, mas o tipo de sonho, infinitamente mais perturbador, em que tudo é perfeita e terrivelmente normal... e em que tudo está completamente errado.

Li anteriormente:
Neuromancer (1984)