11 de xuño de 2026
Salammbô
Gustave Flaubert
Salammbô (1862)
Após Madame Bovary e toda a aura de escândalo que o rodeou, Gustave Flaubert escolheu um tema menos controverso e escreveu Salammbô, um romance histórico passado na Cartago do séc. III a.C., inspirado nas Histórias de Políbio e numa viagem feita à Tunísia, poucos anos antes, com o fim de sentir e respirar o enquadramento geográfico do livro.
O romance tem como enquadramento histórico a Guerra dos Mercenários, uma revolta de guerreiros a soldo que Cartago tinha utilizado na Primeira Guerra Púnica. Durante um festim comemorativo, um dos mercenários, Mâtho, apaixona-se por Salammbô, filha de Amílcar Barca, e sacerdotisa da deusa Tânita. A revolta estala, e Mâtho torna-se um dos líderes; instigado por Spendius, seu braço-direito, rouba o zaimph, o véu sagrado da deusa. Amílcar, que estava ausente, regressa a Cartago e inicia-se uma série de sangrentas batalhas contra os mercenários. Em determinado ponto, Salammbô vai ao acampamento inimigo encontrar-se pessoalmente com Mâtho, e recupera o zaimph. A sorte das armas passa então a pender para o lado cartaginês, e Amílcar promete a filha em casamento a Narr'Havas, outro mercenário, que se tinha passado para o lado de Cartago.
Salammbô é um livro violento e sensual, por vezes cansativo, que ilustra em cores fortes um mundo bárbaro e distante, raras vezes reimaginado na arte ocidental.
À notícia do desastre, Cartago vacilava de cólera e de ódio: teriam detestado menos o sufete, se, desde o princípio, ele se tivesse deixado vencer.
Contudo, para comprar outros mercenários, faltava o tempo e o dinheiro. Quanto a arranjar soldados na cidade, como é que haviam de ser equipados? Amílcar tinha levado todas as armas! E quem é que os comandaria? Os melhores comandantes estavam com ele! Os homens enviados pelo sufete chegavam às ruas, davam gritos. O Grande Conselho irritou-se e arranjou maneira de os fazer desaparecer.
Era uma medida inútil; todos acusavam Barca de se ter deixado levar pela incúria. Devia, depois da vitória, ter aniquilado os mercenários. Porque é que tinha enfurecido as tribos? Já se tinham imposto sacrifícios tão pesados! E os patrícios deploravam a sua contribuição de catorze shekels, os sissitas os seus duzentos e vinte e três mil kikar de ouro; os que não tinham dado nada lamentavam-se como os outros. A populaça tinha inveja dos cartagineses novos aos quais ele tinha prometido o direito de cidadania completo; e os ligúrios, que se tinham batido com tanta valentia, confundiam-nos com os bárbaros e amaldiçoavam-nos, como os amaldiçoavam a eles; a sua raça tornara‑se um crime, uma cumplicidade. Os comerciantes à porta das lojas, os operários que passavam com uma régua de chumbo na mão, os vendedores de salmoura que lavavam os cestos, os banheiros nos banhos públicos, e os vendedores de bebidas quentes, discutiam todos as operações da campanha. Traçavam no chão, com o dedo, os planos da batalha; até o operário mais humilde sabia corrigir os erros de Amílcar.
Li anteriormente:
Madame Bovary (1857)
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