17 de marzo de 2026

O Don Tranquilo, vol. III


Mikhail Cholokhov
O Don Tranquilo, vol. III (1933)

Tal como os dois volumes anteriores, também este fez a sua aparição na revista Oktyabr, em 1932. Algumas edições agregam a obra completa em dois tomos, como sucedeu com a tradução inglesa de Stephen Garry, cujo primeiro tomo surgiu logo em 1934, embora o segundo tivesse sido editado apenas em 1941, aguardando a conclusão da obra. É, contudo, uma versão condensada e seria preciso esperar até 1959, com a revisão de Robert Daglish, para ter uma tradução inglesa minimamente fiel ao original. O terceiro volume foi o que sofreu mais pressões para suprimir os trechos que descrevem a repressão soviética, no entanto o próprio Estaline defendeu o autor e a sua publicação.
O Livro III é passado durante a guerra civil que seguiu à revolução, e Grigóri Melekhov volta a ser a personagem central da narrativa. Apesar das suas simpatias bolcheviques acaba por combater do lado da sublevação independentista, ascendendo ao posto de general. Divido entre a lealdade às suas raízes e a sua consciência, o desenrolar da guerra amarra-o ao lado que acabou por escolher. Com os combates agora na região do Don e na sua própria aldeia, sucede-se um tipo de violência extrema, já não contra estrangeiros desconhecidos, mas contra vizinhos e conhecidos, com execuções de motivação política que levam a actos de vingança quando a onda muda, tornando a reconciliação impossível.

Pantelei Prokófievitch regressou de casa do compadre mais perturbado do que nunca, roído de inquietação e de angústia. Sentia claramente que a vida passara a ser dominada por forças estranhas e hostis. Outrora, governava a sua vida e a herdade como quem monta um cavalo bem ensinado numa corrida de obstáculos; hoje, era arrastado pela vida como por um cavalo que houvesse tomado o freio nos dentes; não era ele que o dirigia, limitava-se a andar aos baldões, na sela, fazendo esforços inúteis para não cair.
Via o futuro envolto em nevoeiro. Ainda não ia longe o tempo em que Mirone Grigórievitch era o proprietário mais rico da região. Os três últimos anos haviam-lhe dizimado a fortuna. Os serviçais tinham-no abandonado, semeava nove vezes menos do que dantes, os bois e os cavalos deixavam a herdade a troco de um dinheiro desvalorizado. Tudo se passara como num sonho. Tudo desaparecera como a bruma do Don.
Para recordar o passado, só restava a casa com figurinhas esculpidas na varanda e cornijas cinzeladas que haviam perdido a cor. A barba de Korchunov, ruiva como a pele da raposa, desbotara prematuramente, salpicada de pêlos brancos; seguiram-se os cabelos que embranqueceram em tufos como os arbustos das terras arenosas e agora toda a fronte apresentava uma brancura de sal; e a onda ia avançando, cabelo por cabelo, até cobrir todo o crânio. Também, no interior de Korchunov, havia duas forças que lutavam entre si furiosamente: o seu sangue vermelho revoltava-se, impelia-o para o trabalho, obrigava-o a semear, a construir telheiros, a reparar as alfaias, a enriquecer; porém a angústia que o assaltava cada vez com mais frequência («Nada vale a pena, é tempo perdido!») pincelava tudo com o branco mortal da indiferença. As suas mãos, que fazia impressão ver, já não empunhavam, como antigamente, o martelo e a serra: ficavam ociosas sobre os joelhos, deformadas pelo trabalho, numa constante agitação. Os tempos difíceis tinham-lhe apressado a velhice. E a terra tornara-se-lhe odiosa. Na Primavera dirigia-se à herdade como quem vai a uma propriedade de que se não gosta, apenas por hábito e por dever. Já lhe não interessava ganhar e custava-lhe menos perder... Quando os vermelhos lhe levaram os cavalos, não se manifestou, ao passo que dois anos antes, por uma coisa de nada, quando os bois lhe pisaram uma paveia de trigo, ia matando a mulher à pancada.


Li anteriormente:
O Don Tranquilo, vol. II (1929)
O Don Tranquilo, vol. I (1928) 

Ningún comentario:

Publicar un comentario