17 de febreiro de 2026

O Don Tranquilo, vol. I


Mikhail Cholokhov
O Don Tranquilo, vol. I (1928)

O Don Tranquilo é a obra emblemática de Mikhail Cholokhov, escrita ao longo de catorze anos. Precedida por Contos do Don, uma colecção de histórias baseadas na sua experiência pessoal durante a Grande Guerra e a Guerra Civil, o autor regressou aos mesmos temas da sua região natal para este grandioso romance, que Máximo Gorki comparou a Guerra e Paz de Tolstói. Cholokhov começou a escrever O Don Tranquilo em 1925, e o primeiro tomo foi publicado na revista literária Oktyabr em 1928. Fiel à estética do realismo socialista, Mikhail Cholokhov foi, a partir dos anos 40, celebrado como o escritor soviético por excelência, e saudado como um mestre da literatura russa. Recebeu o prémio Estaline em 1941, o prémio Lenine em 1960 e, por fim, o prémio Nobel em 1965.
Neste primeiro volume acompanhamos a vida rural de uma aldeia de cossacos nas margens do Don, vivida aos ritmos naturais da sucessão das estações do ano, das ceifas e plantios, durante os anos que precedem a Grande Guerra. Destaca-se a personagem de Grigóri Melekhov, filho mais novo de Pantelei, que se envolve numa relação amorosa com Akcínia, casada com Stepane, para grande escândalo da família e da comunidade. Pantelei arranja-lhe rapidamente um casamento com Natália, filha de Mirone Korchunov, um homem abastado, mas o casamento falha e Grigóri acaba por fugir com Akcínia para outra aldeia, onde vai trabalhar como cocheiro para Nikolai Lisstnítzki, um general reformado.
Grigóri vai depois cumprir o serviço militar, como todos os cossacos, que, na época, formavam um corpo especial de militares ao serviço do czar. E a breve trecho, em 1914, com a notícia da morte do "filho do czar" austríaco, vê-se em combate, em terras fronteiriças da Áustria. Após algumas movimentações, é em Vilno que recebe a notícia da declaração de guerra da Alemanha à Rússia, e, em constantes deslocações vê-se a combater alemães, austríacos e húngaros em diversas localidades na frente da batalha. E assim, após os quadros campestres da primeira parte do livro, predominam aqui as cenas brutais dos combates, as cargas da cavalaria e, por vezes, a violência gratuita que grassa naturalmente neste meio propício.
Grigóri é ferido em combate e transferido para Moscovo para tratamento. Durante a convalescença conhece Andrei Garanja, um ucraniano em situação similar, cujas conversas colocam em causa tudo aquilo pelo qual Grigóri acreditava combater. De regresso à aldeia, no final do livro, descobre que Akcínia o tinha traído com Evguéni Lisstnítzki, oficial militar filho do patrão.

O subessaul desembainhou o sabre, cuja lâmina azul reluziu debilmente.
— Esquaaa-drão! — O sabre inclinou-se-lhe para a direita, depois para a esquerda, e baixou-se para a frente, até à altura exacta das orelhas do cavalo.
“Desdobramento para a esquerda, e em frente” traduziu mentalmente Grigóri.
— Lanças para a frente, sabres ao alto! Carregar! — terminou o oficial. E esporeou o cavalo.
A terra gemeu, pisada pela profusão dos cascos. Mal Grigóri havia tido tempo de baixar a lança (estava na primeira fila), já o cavalo dele, arrastado pela torrente dos outros, se lançava a toda a brida. À frente, o subessaul Polkóvnikov sobressaía vagamente do fundo cinzento de um campo. A uma velocidade irresistível, a fita escura de um terreno lavrado avançava ao encontro deles. O primeiro esquadrão ergueu um brado vibrante que se transmitiu ao quarto. Os cavalos flectiam e estendiam as patas, como se fossem molas, devorando a distância. Por entre o sibilar estridente do vento nos ouvidos, Grigóri ouviu o estalido de tiros, longínquos ainda. Uma primeira bala assobiou algures, muito alta; e o seu silvo prolongado sulcou o vidro despolido do céu. Grigóri apertava, até à dor, a haste ardente da lança contra a anca, e a palma suada da mão parecia-lhe untada por um líquido viscoso. O assomar das balas que voavam fazia-o curvar a cabeça contra o pescoço húmido do cavalo, cujo penetrante cheiro de suor lhe picava as narinas. Como nas lentes embaciadas de um binóculo, via a linha castanha das trincheiras e os homens de farda cinzenta correndo para a cidade. Uma metralhadora abria sem descanso por sobre as cabeças dos cossacos o seu leque estridente de balas esparsas, que erguiam flocos de poeira fofa à frente e próximo das patas dos cavalos.
Aquela coisa no meio da caixa torácica de Grigóri, que, até ao ataque, tão activamente lhe impulsionara o sangue, estava como que tolhida, e Grigóri já nada sentia, além de um zumbido nos ouvidos e uma dor nos dedos do pé esquerdo. A consciência, que o medo lhe castrara, enredava-lhe na cabeça um novelo a que não achava a ponta.
O primeiro a cair do cavalo foi o alferes Liakhóvsski. Prokhor acudiu-lhe logo, a galope.
Grigóri virou-se, e o que viu ficou-lhe gravado na memória: o cavalo de Prokhor saltou por cima do alferes estendido no solo, descobriu os dentes e tombou, torcendo o pescoço. Prokhor caiu também, desmontado pelo choque. Aberta a buril, traçada a diamante num vidro, Grigóri guardou por muito tempo a recordação das gengivas rosadas e das lâminas dos dentes a descoberto do cavalo de Prokhor, caído de chapa, e pisado pelos cascos do cavalo do cossaco que o seguia. Grigóri não o ouviu, mas percebeu, à vista da face de Prokhor esmagado contra o chão, da sua boca distendida, dos seus olhos de vitelo exorbitados, que ele soltara um grito selvático e inumano. Outros caíram. Caíam homens e cavalos. Através de um véu de lágrimas provocadas pelo vento, Grigóri via diante dele a espuma cinzenta dos austríacos que fugiam das trincheiras.
O esquadrão, que irrompera da aldeia em ordem regulamentar, espalhara-se, fragmentado, disperso. As primeiras fileiras, entre as quais ia Grigóri, alcançaram as trincheiras a galope, enquanto as outras trotavam algures, lá para trás.
Um austríaco alto, de sobrancelhas brancas e boné enfiado até às orelhas, atirou de joelhos, quase à queima-roupa, contra Grigóri. Este sentiu a face arder-lhe. Puxou as rédeas com toda a força e baixou a lança. Foi tão forte o embate, que esta penetrou até meio da haste no austríaco, que se pusera de pé. Grigóri não teve tempo de a retirar, e soltou-a da mão, ao peso do corpo que vergava, e cujos tremores espasmódicos sentiu através dela, até que caiu, dobrado para trás (do austríaco ele via apenas a ponta aguda do queixo por barbear), de dedos torcidos, crispados, agarrados à lança. Depois, abriu a mão dormente e empunhou o sabre.
Os austríacos fugiam pelas ruas da periferia. Os cavalos dos cossacos empinavam-se contra massas de uniformes cinzentos.
Logo após ter largado a lança, Grigóri, sem saber porquê, voltou as rédeas ao cavalo. Reparou no ajudante, que passava a galope, de dentes à mostra. Com a lâmina do sabre bateu no cavalo, que ergueu a cabeça e meteu por uma rua.
 

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