2 de marzo de 2026
O Don Tranquilo, vol. II
Mikhail Cholokhov
O Don Tranquilo, vol. II (1929)
O segundo volume continua com o cenário da Grande Guerra. Após a queda do czarismo, o cansaço de três anos de guerra começa a ter um efeito devastador sobre a moral dos soldados. A penetração da ideologia bolchevique entre as tropas, focando-se no caso particular dos cossacos, leva a profundas divisões, com os oficiais superiores alinhados por um regresso à monarquia e os restantes manifestando a vontade de derrubar o regime de Kerénsski em favor de uma ditadura operária.
O início do segundo volume está mais centrado na personagem de Evguéni Lisstnítzki, capitão cossaco, filho de Nikolai, para ilustrar as resistências que existiam ao avanço dos bolcheviques.
A revolução de Outubro não tem, surpreendentemente, grande destaque e a narrativa desloca-se para a guerra civil que se lhe seguiu. Grigóri cede o protagonismo a Podtiólkov, outro cossaco, inicialmente independentista, que acaba por se juntar aos guardas-vermelhos para comandar um destacamento de combate ao levantamento contra-revolucionário dos cossacos. E Buntchuk, que conhecíamos como um tenente voluntário do exército regular que tinha desertado, reaparece, após a revolução, ao serviço dos bolcheviques, em posição de destaque. Renovam-se as cenas de violência e crueldade, agora entre cossacos, com o ódio particular que caracteriza as guerras civis.
A meia versta da aldeia, na margem esquerda do Don, há um fundão; na Primavera, quando as águas baixam, parecem sorver-se por ali. Naquele ponto da margem arenosa, a água surde em vários sentidos, e o rio nunca ali gela. O fundão brilha como um largo crescente verde por entre o gelo, e o caminho através do Don faz um brusco desvio. Ali, ao regressar ao rio, a água trasbordante da Primavera revolteia e ruge, as torrentes juntam-se, e cavam mais o fundo, e, durante o Verão, as carpas se mantém, a algumas ságenas de profundidade, enredadas nos ramos de uma árvore morta.
Foi para este fundão, para a sua borda esquerda, que a égua do velho Melekhov dirigiu os seus passos cegos. Estava ela apenas a umas vinte ságenas, quando Pantelei Prokófievitch se virou e entreabriu um olho. As estrelas amarelas-esverdeadas como cerejas ainda não maduras, miravam-no do alto do céu negro. «É noite...» pensou ele, nebulosamente, e esticou com violência as rédeas.
— Eh, aí!... Eu já te digo, velha carcaça!
A égua retomou o trote. Aspirou o cheiro da água muito próxima, arrebitou as orelhas, e virou para o dono, indecisa, os olhos cegos. De repente, ouviu o barulho das vagas contra a margem. Emitindo um sopro selvático, atirou-se para um lado e recuou. Corroído por baixo, o gelo cedeu-lhe sob os cascos, e estalou como uma côdea crestada de pão. A égua relinchou sinistramente. Com toda a força que tinha, apoiou-se nas patas traseiras, mas sob o movimento agitado dos cascos o gelo estilhaçava-se, e já as patas dianteiras lhe mergulhavam na água. Houve um estalido, uma chapinhadela, o gelo abriu-se, sorveu a égua, que agitou as patas convulsivamente, escouceando contra os varais. Naquele instante, sentindo que qualquer coisa ruim se passava, Pantelei Prokófievitch saltou do trenó e atirou-se para trás. Viu o trenó empinar-se, arrastado pelo peso do animal, de patins cintilando à luz das estrelas, e depois sumir-se na profundeza verde-negra. Misturada a pedaços de gelo, a água silvou brandamente, e por pouco uma vaga o não atingiu a ele. Com uma incrível rapidez, recuou sobre o rabo, de um salto se pôs de pé e berrou:
— So-cor-ro, boa gente, que me afo-go!...
Como por encanto, a bebedeira dissipara-se-lhe. Voltou a correr em direcção ao fundão. O buraco aberto luzia vivamente.
O vento e a corrente arremessavam pedaços de gelo para o largo círculo escuro da água, e as vagas sacudiam as suas farripas verdes, e rumorejavam. À roda, havia um silêncio mortal. As luzes de uma aldeia longínqua punham uma mancha amarelada no negrume da noite. As estrelas ardiam, tremiam febrilmente no céu despelado, como sementes joeiradas. Um vento leve enfunava a neve, que assobiava, esvoaçava como uma poalha de farinha na bocarra escura do fundão, em que a água negra fumegava, tentadora e angustiante como antes.
Pantelei Prokófievitch percebeu que era estúpido e inútil gritar. Olhou em torno, e reparou no sítio a que tinha sido levado pela bebedeira, a vibrar de ira contra si mesmo e contra o que se havia passado. Ao saltar do trenó, não largara o chicote, que conservava em punho. Umas poucas de vezes chicoteou as próprias costas, a praguejar, sem nada, porém, sentir: a peliça de cabedal protegia-o, e despi-la para se castigar era absurdo. Arrancou um tufo de pêlos da barba; fez as contas de cabeça às compras perdidas, ao valor da égua, do trenó e dos arreios, largou uns poucos de palavrões furiosos, e de novo se acercou do fundão.
— Cega do diabo!... — articulou ele em voz trémula e chorosa, dirigindo-se à égua afogada. — Estupor! Afogaste-te e ias-me afogando! Onde a desgraça te havia de fazer vir parar! Agora, são os diabos que te hão-de atrelar; o que lhes falta é um chicote para tu andares!... Pois aí está o meu!
Ergueu o braço, tresloucado, e lançou o chicote de cerejeira para o meio do fundão.
O chicote enfiou a prumo na água e desapareceu.
Li anteriormente:
O Don Tranquilo, vol. I (1928)
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