2 de marzo de 2026

O Don Tranquilo, vol. II


Mikhail Cholokhov
O Don Tranquilo, vol. II (1929)

O segundo volume continua com o cenário da Grande Guerra. Após a queda do czarismo, o cansaço de três anos de guerra começa a ter um efeito devastador sobre a moral dos soldados. A penetração da ideologia bolchevique entre as tropas, focando-se no caso particular dos cossacos, leva a profundas divisões, com os oficiais superiores alinhados por um regresso à monarquia e os restantes manifestando a vontade de derrubar o regime de Kerénsski em favor de uma ditadura operária.
O início do segundo volume está mais centrado na personagem de Evguéni Lisstnítzki, capitão cossaco, filho de Nikolai, para ilustrar as resistências que existiam ao avanço dos bolcheviques.
A revolução de Outubro não tem, surpreendentemente, grande destaque e a narrativa desloca-se para a guerra civil que se lhe seguiu. Grigóri cede o protagonismo a Podtiólkov, outro cossaco, inicialmente independentista, que acaba por se juntar aos guardas-vermelhos para comandar um destacamento de combate ao levantamento contra-revolucionário dos cossacos. E Buntchuk, que conhecíamos como um tenente voluntário do exército regular que tinha desertado, reaparece, após a revolução, ao serviço dos bolcheviques, em posição de destaque. Renovam-se as cenas de violência e crueldade, agora entre cossacos, com o ódio particular que caracteriza as guerras civis.

A meia versta da aldeia, na margem esquerda do Don, há um fundão; na Primavera, quando as águas baixam, parecem sorver-se por ali. Naquele ponto da margem arenosa, a água surde em vários sentidos, e o rio nunca ali gela. O fundão brilha como um largo crescente verde por entre o gelo, e o caminho através do Don faz um brusco desvio. Ali, ao regressar ao rio, a água trasbordante da Primavera revolteia e ruge, as torrentes juntam-se, e cavam mais o fundo, e, durante o Verão, as carpas se mantém, a algumas ságenas de profundidade, enredadas nos ramos de uma árvore morta.
Foi para este fundão, para a sua borda esquerda, que a égua do velho Melekhov dirigiu os seus passos cegos. Estava ela apenas a umas vinte ságenas, quando Pantelei Prokófievitch se virou e entreabriu um olho. As estrelas amarelas-esverdeadas como cerejas ainda não maduras, miravam-no do alto do céu negro. «É noite...» pensou ele, nebulosamente, e esticou com violência as rédeas.
— Eh, aí!... Eu já te digo, velha carcaça!
A égua retomou o trote. Aspirou o cheiro da água muito próxima, arrebitou as orelhas, e virou para o dono, indecisa, os olhos cegos. De repente, ouviu o barulho das vagas contra a margem. Emitindo um sopro selvático, atirou-se para um lado e recuou. Corroído por baixo, o gelo cedeu-lhe sob os cascos, e estalou como uma côdea crestada de pão. A égua relinchou sinistramente. Com toda a força que tinha, apoiou-se nas patas traseiras, mas sob o movimento agitado dos cascos o gelo estilhaçava-se, e já as patas dianteiras lhe mergulhavam na água. Houve um estalido, uma chapinhadela, o gelo abriu-se, sorveu a égua, que agitou as patas convulsivamente, escouceando contra os varais. Naquele instante, sentindo que qualquer coisa ruim se passava, Pantelei Prokófievitch saltou do trenó e atirou-se para trás. Viu o trenó empinar-se, arrastado pelo peso do animal, de patins cintilando à luz das estrelas, e depois sumir-se na profundeza verde-negra. Misturada a pedaços de gelo, a água silvou brandamente, e por pouco uma vaga o não atingiu a ele. Com uma incrível rapidez, recuou sobre o rabo, de um salto se pôs de pé e berrou:
— So-cor-ro, boa gente, que me afo-go!...
Como por encanto, a bebedeira dissipara-se-lhe. Voltou a correr em direcção ao fundão. O buraco aberto luzia vivamente.
O vento e a corrente arremessavam pedaços de gelo para o largo círculo escuro da água, e as vagas sacudiam as suas farripas verdes, e rumorejavam. À roda, havia um silêncio mortal. As luzes de uma aldeia longínqua punham uma mancha amarelada no negrume da noite. As estrelas ardiam, tremiam febrilmente no céu despelado, como sementes joeiradas. Um vento leve enfunava a neve, que assobiava, esvoaçava como uma poalha de farinha na bocarra escura do fundão, em que a água negra fumegava, tentadora e angustiante como antes.
Pantelei Prokófievitch percebeu que era estúpido e inútil gritar. Olhou em torno, e reparou no sítio a que tinha sido levado pela bebedeira, a vibrar de ira contra si mesmo e contra o que se havia passado. Ao saltar do trenó, não largara o chicote, que conservava em punho. Umas poucas de vezes chicoteou as próprias costas, a praguejar, sem nada, porém, sentir: a peliça de cabedal protegia-o, e despi-la para se castigar era absurdo. Arrancou um tufo de pêlos da barba; fez as contas de cabeça às compras perdidas, ao valor da égua, do trenó e dos arreios, largou uns poucos de palavrões furiosos, e de novo se acercou do fundão.
— Cega do diabo!... — articulou ele em voz trémula e chorosa, dirigindo-se à égua afogada. — Estupor! Afogaste-te e ias-me afogando! Onde a desgraça te havia de fazer vir parar! Agora, são os diabos que te hão-de atrelar; o que lhes falta é um chicote para tu andares!... Pois aí está o meu!
Ergueu o braço, tresloucado, e lançou o chicote de cerejeira para o meio do fundão.
O chicote enfiou a prumo na água e desapareceu.


Li anteriormente:
O Don Tranquilo, vol. I (1928)

17 de febreiro de 2026

O Don Tranquilo, vol. I


Mikhail Cholokhov
O Don Tranquilo, vol. I (1928)

O Don Tranquilo é a obra emblemática de Mikhail Cholokhov, escrita ao longo de catorze anos. Precedida por Contos do Don, uma colecção de histórias baseadas na sua experiência pessoal durante a Grande Guerra e a Guerra Civil, o autor regressou aos mesmos temas da sua região natal para este grandioso romance, que Máximo Gorki comparou a Guerra e Paz de Tolstói. Cholokhov começou a escrever O Don Tranquilo em 1925, e o primeiro tomo foi publicado na revista literária Oktyabr em 1928. Fiel à estética do realismo socialista, Mikhail Cholokhov foi, a partir dos anos 40, celebrado como o escritor soviético por excelência, e saudado como um mestre da literatura russa. Recebeu o prémio Estaline em 1941, o prémio Lenine em 1960 e, por fim, o prémio Nobel em 1965.
Neste primeiro volume acompanhamos a vida rural de uma aldeia de cossacos nas margens do Don, vivida aos ritmos naturais da sucessão das estações do ano, das ceifas e plantios, durante os anos que precedem a Grande Guerra. Destaca-se a personagem de Grigóri Melekhov, filho mais novo de Pantelei, que se envolve numa relação amorosa com Akcínia, casada com Stepane, para grande escândalo da família e da comunidade. Pantelei arranja-lhe rapidamente um casamento com Natália, filha de Mirone Korchunov, um homem abastado, mas o casamento falha e Grigóri acaba por fugir com Akcínia para outra aldeia, onde vai trabalhar como cocheiro para Nikolai Lisstnítzki, um general reformado.
Grigóri vai depois cumprir o serviço militar, como todos os cossacos, que, na época, formavam um corpo especial de militares ao serviço do czar. E a breve trecho, em 1914, com a notícia da morte do "filho do czar" austríaco, vê-se em combate, em terras fronteiriças da Áustria. Após algumas movimentações, é em Vilno que recebe a notícia da declaração de guerra da Alemanha à Rússia, e, em constantes deslocações vê-se a combater alemães, austríacos e húngaros em diversas localidades na frente da batalha. E assim, após os quadros campestres da primeira parte do livro, predominam aqui as cenas brutais dos combates, as cargas da cavalaria e, por vezes, a violência gratuita que grassa naturalmente neste meio propício.
Grigóri é ferido em combate e transferido para Moscovo para tratamento. Durante a convalescença conhece Andrei Garanja, um ucraniano em situação similar, cujas conversas colocam em causa tudo aquilo pelo qual Grigóri acreditava combater. De regresso à aldeia, no final do livro, descobre que Akcínia o tinha traído com Evguéni Lisstnítzki, oficial militar filho do patrão.

O subessaul desembainhou o sabre, cuja lâmina azul reluziu debilmente.
— Esquaaa-drão! — O sabre inclinou-se-lhe para a direita, depois para a esquerda, e baixou-se para a frente, até à altura exacta das orelhas do cavalo.
“Desdobramento para a esquerda, e em frente” traduziu mentalmente Grigóri.
— Lanças para a frente, sabres ao alto! Carregar! — terminou o oficial. E esporeou o cavalo.
A terra gemeu, pisada pela profusão dos cascos. Mal Grigóri havia tido tempo de baixar a lança (estava na primeira fila), já o cavalo dele, arrastado pela torrente dos outros, se lançava a toda a brida. À frente, o subessaul Polkóvnikov sobressaía vagamente do fundo cinzento de um campo. A uma velocidade irresistível, a fita escura de um terreno lavrado avançava ao encontro deles. O primeiro esquadrão ergueu um brado vibrante que se transmitiu ao quarto. Os cavalos flectiam e estendiam as patas, como se fossem molas, devorando a distância. Por entre o sibilar estridente do vento nos ouvidos, Grigóri ouviu o estalido de tiros, longínquos ainda. Uma primeira bala assobiou algures, muito alta; e o seu silvo prolongado sulcou o vidro despolido do céu. Grigóri apertava, até à dor, a haste ardente da lança contra a anca, e a palma suada da mão parecia-lhe untada por um líquido viscoso. O assomar das balas que voavam fazia-o curvar a cabeça contra o pescoço húmido do cavalo, cujo penetrante cheiro de suor lhe picava as narinas. Como nas lentes embaciadas de um binóculo, via a linha castanha das trincheiras e os homens de farda cinzenta correndo para a cidade. Uma metralhadora abria sem descanso por sobre as cabeças dos cossacos o seu leque estridente de balas esparsas, que erguiam flocos de poeira fofa à frente e próximo das patas dos cavalos.
Aquela coisa no meio da caixa torácica de Grigóri, que, até ao ataque, tão activamente lhe impulsionara o sangue, estava como que tolhida, e Grigóri já nada sentia, além de um zumbido nos ouvidos e uma dor nos dedos do pé esquerdo. A consciência, que o medo lhe castrara, enredava-lhe na cabeça um novelo a que não achava a ponta.
O primeiro a cair do cavalo foi o alferes Liakhóvsski. Prokhor acudiu-lhe logo, a galope.
Grigóri virou-se, e o que viu ficou-lhe gravado na memória: o cavalo de Prokhor saltou por cima do alferes estendido no solo, descobriu os dentes e tombou, torcendo o pescoço. Prokhor caiu também, desmontado pelo choque. Aberta a buril, traçada a diamante num vidro, Grigóri guardou por muito tempo a recordação das gengivas rosadas e das lâminas dos dentes a descoberto do cavalo de Prokhor, caído de chapa, e pisado pelos cascos do cavalo do cossaco que o seguia. Grigóri não o ouviu, mas percebeu, à vista da face de Prokhor esmagado contra o chão, da sua boca distendida, dos seus olhos de vitelo exorbitados, que ele soltara um grito selvático e inumano. Outros caíram. Caíam homens e cavalos. Através de um véu de lágrimas provocadas pelo vento, Grigóri via diante dele a espuma cinzenta dos austríacos que fugiam das trincheiras.
O esquadrão, que irrompera da aldeia em ordem regulamentar, espalhara-se, fragmentado, disperso. As primeiras fileiras, entre as quais ia Grigóri, alcançaram as trincheiras a galope, enquanto as outras trotavam algures, lá para trás.
Um austríaco alto, de sobrancelhas brancas e boné enfiado até às orelhas, atirou de joelhos, quase à queima-roupa, contra Grigóri. Este sentiu a face arder-lhe. Puxou as rédeas com toda a força e baixou a lança. Foi tão forte o embate, que esta penetrou até meio da haste no austríaco, que se pusera de pé. Grigóri não teve tempo de a retirar, e soltou-a da mão, ao peso do corpo que vergava, e cujos tremores espasmódicos sentiu através dela, até que caiu, dobrado para trás (do austríaco ele via apenas a ponta aguda do queixo por barbear), de dedos torcidos, crispados, agarrados à lança. Depois, abriu a mão dormente e empunhou o sabre.
Os austríacos fugiam pelas ruas da periferia. Os cavalos dos cossacos empinavam-se contra massas de uniformes cinzentos.
Logo após ter largado a lança, Grigóri, sem saber porquê, voltou as rédeas ao cavalo. Reparou no ajudante, que passava a galope, de dentes à mostra. Com a lâmina do sabre bateu no cavalo, que ergueu a cabeça e meteu por uma rua.
 

2 de febreiro de 2026

Slave Ship


Frederik Pohl
Slave Ship (1957)

Publicada pela primeira vez na revista Galaxy em 1956 e editada em livro no ano seguinte, Slave Ship está entre as primeiras obras escritas por Frederik Pohl em nome próprio.
Tendo por fundo um ambiente de guerra mundial não declarada contra os Caodais, um movimento religioso pós-islâmico que domina territorialmente a Ásia e a África (a Europa ficou em escombros), as escaramuças dão-se, naquele momento, fora dos territórios continentais. Logan Miller, tenente da Marinha norte-americana, especialista em computadores, é transferido para uma quinta agrícola no âmbito do Projecto Mako, envolvido em grande secretismo. Aí é feito o estudo da linguagem de diversos animais, com o objectivo de comunicar com eles para, posteriormente, integrá-los em operações militares. Entretanto sucede-se uma série de estranhas mortes, atribuídas a uma arma secreta dos Caodais, e o próprio Logan Miller escapa, por pouco, a um atentado.
É decidido um ataque a uma base caodai em Madagáscar, e o Projecto Mako envolver-se-á na primeira vaga do ataque, atravessando o Atlântico num submarino, rumo ao alvo. Mas, no Índico, as coisas não correm como planeado, e apenas os elementos do Mako conseguem aproximar-se do objectivo estabelecido, rumo a um desfecho algo imaginativo e inesperado que proporciona o fim da guerra.

The Passion Pit wasn't anything like a pit, really; it was on the beach, looking out over the ocean; it was only the size of it and the way the crowd acted on a busy night that gave it its name. I suppose seventy-five people could have fitted into it comfortably. On a dull Monday it usually held a hundred. The tables were more than merely close, they almost touched each other, and where you fitted in your chairs was your own problem.
Semyon nudged me and pointed. He had a thunderhead scowl, and I saw why. Over against the wall, decorously eating in the midst of the uproar, ignoring the band blaring in their ears and the chorus line kicking past their noses, sat Commander Lineback and a dowdy middle-aged WAVE j.g. "Even here he follows us!" hissed Semyon.
"Don't mind him," I said. "Who's the woman?"
Semyon pursed his lips. "You have never met the officer, his wife? A very charming lady—almost as charming as this who comes now!" He swiveled his chair around, eyes gleaming, completely forgetting about the commander and his lady. The feature stripper of the evening was making her appearance. She was new, but I had heard of her. She was actually a commissioned officer, which meant talent a good cut above the usual level of the Passion Pit, most of whose entertainers were lucky to hope to make CPO. I flagged a waiter and ordered beer—the best you could do in the Pit—and sat back to enjoy myself.
But it was not to be. The three-piece "orchestra" had just begun the slow, deep-beat number that the stripper worked to when fireworks began going off outside. Sirens blared and search beams lashed the sky, and shots and signal rockets and more commotion than New Year's Eve in a madhouse. Semyon said something startled and violent in Russian, and we craned our necks to see out the window.
Something was going on down at the beach, but we could not see precisely what. "Let us go look," Semyon proposed gleefully. "Perhaps they have caught a pacifist."
"Pacifist. But I just ordered a beer, and the show—"
"Logan, there is no show," he said severely. He was right; the stripper was standing at the window, staring out; the musicians were right behind her. It was more exciting outside the Passion Pit than in, at that. Half the population of the town seemed to be beating the waterfront. "Let us look!"
He wasn't the only one with that idea. We joined the throng beating its way down to the scene of the excitement. It was a fine, warm night, smelling of hibiscus and decaying palms, not fitting for so much turmoil. "Pacifist, pacifist!" Semyon was bawling; and whether he was the first to have the idea or not I cannot say, but in a moment it seemed that the whole town was screaming, "Lynch the dirty pacifists! String 'em up!"


Li anteriormente:
O Mundo de Midas (1983)
Os Anais dos Heechee (1987)
Encontro com os Heechee (1984)

26 de xaneiro de 2026

Regreso a Entia


Stanislaw Lem
Regreso a Entia (1982)

Regresso a Entia conta a história de Ijon Tichy, autor de um livro de viagens, Diários das Estrelas, que, de volta à Terra decide passar umas férias na Suíça. A estadia é atribulada, devido a inesperados imbróglios legais, mas leva-o a conhecer Roger Gnuss, director do Instituto de Máquinas da História. Aqui, através do processamento da informação, segundo determinados parâmetros afins à manipulação do tempo, os computadores conseguem gerar resultados objectivos acerca de mundos distantes e, deste modo, Tichy fica a saber que as suas descrições acerca de Entia, em Diários das Estrelas, estão erradas — tal como Cristóvão Colombo tirou conclusões erradas quando desembarcou no Novo Mundo — e que o seu livro foi classificado como "ficção-científica" na biblioteca municipal. Roger Gnuss afirma que, no Cosmos, as leis jurídicas são mais importantes que as leis da física, pois são elas que permitem a articulação entre as diversas civilizações, e as imprecisões dos relatos de Ijon Tichy poderiam até originar um conflito diplomático. Através do Instituto, é-lhe permitida a consulta dos livros disponíveis no Ministério de Assuntos Extraterrestres sobre Entia, e Tichy faz-nos acompanhá-lo na sua investigação pelos meandros de História Natural, Antropologia (desde que se substitua "antropo" por algo entiano equivalente), História, Filosofia, Religião, etc., com pontos de vista contraditórios, debitando reflexões e considerações, por vezes interessantes, mas, de modo geral, de leitura fastidiosa.
Na segunda metade do livro Tichy volta a Entia e, desta vez, experimenta um contacto mais aprofundado com os entianos e a complexidade da sua sociedade, através de uma especulação filosófica que espelhará, talvez, as preocupações do autor com questões académicas, ou, mais do que isso, possíveis realidades futuras, mais próximas, que, umas vezes, se seguem com interesse, outras, nem por isso.

Mis estudios me habían llevado ya cinco semanas. De mi estancia obligada en Suiza me quedaban apenas dos meses, pero esto parecía muy poco teniendo en cuenta las salas de la enorme biblioteca que todavía no había registrado. A pesar de ello, no perdí el valor, aunque me había convertido en un auténtico solitario. Durante el día dormía para despertarme justo cuando los suizos, con la satisfacción de haber acabado con los negocios del día, se calzaban su zapatillas o se deslizaban bajo las mantas. Yo, en cambio, llenaba la cartera de café, azúcar y bocadillos (para entonces, los picatostes y las galletas me daban náuseas sólo con ver la etiqueta) y marchaba por las desiertas calles hacia el MAE.
No había vuelto a saber nada de Strümpfli, de ahí que no tenía ni idea de que él y sus superiores seguían discretamente mi aplicada actividad y que ligaban mi persona a objetivos muy concretos, pero como astutos diplomáticos no querían decir nada antes de tiempo. Yo mismo no sé qué es lo que habría hecho si hubiera sido informado de sus planes. Probablemente lo mismo, ya que ardía en deseos de saber la verdad completa sobre nuestros lejanos hermanos en espíritu.
[...]
Del viaje al Instituto para la Mejora del Medio Ambiente me acuerdo sólo de mi asombro cuando el ascensor salió disparado hacia arriba y saltó, con el chasquido de un casquillo al girar dentro del tambor, sobre una trayectoria que recordaba un arco iris plano: sin soporte alguno se arqueaba sobre la ciudad y brillaba en los siete colores del espectro solar. Después se oscureció, el suelo cedió suavemente bajo mis pies, la cabina se detuvo, una de sus paredes se abrió por una junta invisible y vi a un alto lustrano con rostro humano ante un fondo de plantas con grandes flores de color blanco. Llevaba un traje abrochado en el centro y una camisa blanca como la nieve, igual que si acabara de salir de un sastre parisino. Incluso las solapas del traje y el cuello de la camisa estaban cortados a la última moda, ¡de hacía doscientos años! También eso formaba parte de la amabilidad de la que se me hacía objeto, ya que en el país no se viste de esta manera. El lustrano me esperaba con la mano extendida, como si temiera olvidar la forma de saludar a un hombre. Cuando le tendí la mano él me la estrechó de manera que sentí su pulgar en la palma de mi mano.


Li anteriormente:
Retorno de las Estrellas (1961)
Solaris (1961)
A Nave Invencível (1964) 

16 de xaneiro de 2026

Los Mitos de la Guerra Civil


Pío Moa
Los Mitos de la Guerra Civil (2003)

É sabido que são os vencedores quem escrevem a História. E, no entanto, no caso da Guerra Civil espanhola, os vencidos acabaram por impor a sua versão do conflito. Porquê? Decerto porque esta Guerra Civil foi uma batalha de um conflito mais vasto, que foi ganho por outras forças (apesar do autor não concordar com esta interpretação). E, como se costuma dizer, quem ganha uma batalha não ganha uma guerra.
Ao relembrar certos factos convenientemente esquecidos, com Los Mitos de la Guerra Civil causou um grande escândalo em Espanha, ao pôr em causa a narrativa oficial, e dez anos depois, aconteceu o mesmo em França, quando foi publicada a primeira tradução estrangeira; outras traduções, em inglês, alemão e italiano, têm sido, aparentemente, boicotadas. O principal ponto de Pío Moa é que a sublevação nacional não se deu contra um governo democrático, eleito e legítimo, como a narrativa oficial tenta fazer crer, mas que esse governo já não existia no momento da revolta, pois tinha sido deposto, após a revolução de 19 de Julho, por protagonistas que começavam a implementar uma ditadura segundo o modelo soviético, sem legitimação eleitoral. Além de relembrar o vandalismo, as perseguições e atrocidades cometidas pelo lado republicano, habitualmente varridas para baixo do tapete da História, o autor cita os escritos deixados por testemunhas e historiadores e rebate-os ponto por ponto quando é necessário fazer emergir a verdade. Aliás, nos prólogos, refere a desqualificação e ameaças que sofreu com a publicação deste livro, mas espera ainda a contestação dos factos aqui descritos, após o desafio a que lhe rebatam os argumentos.

Y así como los intereses populares no se identificaban con la izquierda, tampoco los millones de personas de ideas conservadoras se identificaban con la oligarquía. La inmensa mayoría de ellas era de condición modesta, incluyendo numerosos obreros, aunque en el medio obrero operase con especial ahínco la propaganda revolucionaria, y obtuviera en ella más prosélitos. Los conservadores no creían defender los intereses del «gran capital» o la «reacción», sino la religión, la propiedad privada, la familia, el estado, la unidad española. Los revolucionarios aspiraban a abolir esas instituciones, por considerarlas formas burguesas de dominación, cadenas que mantendrían al hombre alienado y explotado, romper las cuales permitiría forjar al «hombre nuevo», liberado de taras ancestrales. En cambio los conservadores veían en el estado un instrumento necesario y perfectible de ordenación colectiva, apto para dar salida no violenta a los conflictos propios de cualquier sociedad humana, y no un simple aparato de dominación de una clase social; en la unidad de España el fruto de un esfuerzo y tradición secular, cuya quiebra sería un insoportable retroceso histórico; y en la familia el núcleo básico de la sociabilidad, transmisora de una moral que, bajo formas variables, encerraría una ley fundamental para la vida humana; encontraban en la propiedad privada la base de la economía, y en su eliminación una vía segura hacia la barbarie y la miseria; y en la religión, no una fantasmagoría nacida de la ignorancia y el miedo, «opio del pueblo» para enturbiar la conciencia de las masas con una moral servil, sino la expresión de una verdad esencial: la impotencia humana sería, no una situación superable por la ciencia, sino una manifestación de la vida, a la que la religión aportaría un sentido y un consuelo veraz, no ilusorio.
Al objeto de este libro sólo es preciso señalar estas esenciales discrepancias de concepción y proyecto político entre revolucionarios y conservadores, sin entrar a debatir quiénes tenían razón. Baste con establecer, con muy pocas dudas, que fueron las izquierdas quienes, movidas por sus aspiraciones, rompieron las reglas del juego y empujaron al régimen a la guerra civil, que solían considerar empresa lamentable, pero necesaria para acceder al mundo nuevo y presuntamente luminoso; y que fueron los conservadores quienes, deseando evitar el choque, sostuvieron mayoritariamente una actitud moderada, próxima a veces a la cobardía, hasta que la amenaza se les hizo cuestión de vida o muerte.
Este proceso histórico puede entenderse igualmente a partir del problema planteado al comienzo de este libro: ¿tendría éxito la II República allí donde había fracasado la Restauración, es decir, conseguiría la integración y convivencia de aquellas fuerzas —anarquistas, socialistas, nacionalistas, jacobinos— que habían hecho quebrar al régimen anterior? La respuesta es no, cosa en verdad sorprendente por cuanto las reglas del juego republicanas fueron elaboradas por aquellas mismas fuerzas. La rebelión de ellas contra su propia Constitución, elaborada a su gusto y sin consenso con la derecha, la subversión continuada contra su propia legalidad, prestan a la Segunda República, como a la Primera, un peculiar aire de delirio, subrayado por diversos comentaristas, como el sagaz Josep Pla.
Resta saber por qué aquellos movimientos se revelaron tan ingobernables en ambos regímenes. Sus doctrinas en cierto modo mesiánicas, y las debilidades de la estructura económica del país, necesitada de más tiempo y calma para robustecerse, ayudan a explicarlo. También se ha especulado con el carácter anárquico y arbitrario achacado a los españoles, pero probablemente la mayoría de ellos deseaban precisamente orden y calma. Además las ideas revolucionarias eran todas de origen foráneo, sin que sus sostenedores en España hicieran mucho esfuerzo por adaptarlas o aportarles matices: una vasta carencia de esos movimientos fue su escasísima producción intelectual, en contraste con su exuberancia propagandística.
 

2 de xaneiro de 2026

The Andromeda Strain


Michael Crichton
The Andromeda Strain (1969)

Michael Crichton é o autor de Jurassic Park, a novela que esteve na origem do famoso filme de Steven Spielberg, e, curiosamente, foi através de outro filme, de Robert Wise, A Ameaça de Andromeda (The Andromeda Strain, 1971), baseado nesta novela com o mesmo nome, que, há muitos anos, entrevi pela primeira vez o seu universo literário. Foi há demasiado tempo para me recordar com pormenor e, apesar de ter ficado com boa impressão do filme, verifiquei agora que a adaptação teve algumas modificações profundas, nas personagens principais, embora a linha da história seja basicamente a mesma.
The Andromeda Strain foi a primeiro livro que assinou com o nome próprio, após cinco novelas publicadas sob o pseudónimo John Lange. É um livro de ficção científica, onde a parte "científica" é levada a sério, e trata de um tema algo inquietante: como o número de espécies de seres vivos é tanto maior quanto aumenta a sua simplicidade, é de esperar que o primeiro contacto com vida extraterrestre seja com microorganismos alienígenas. Nesta novela, um satélite militar contaminado, caído numa área remota do Arizona, espalha um organismo que provoca a coagulação instantânea do sangue, levando à morte todos os habitantes de uma aldeia, à excepção de um velho e de um bebé. Um projecto governamental secreto, Wildfire, criado para esta eventualidade, vai tentar perceber o funcionamento do organismo, e a razão que levou à sobrevivência daquelas duas pessoas. Os métodos e os pormenores da investigação são bastante plausíveis, as explicações elaboradas e convincentes (Michael Crichton era doutorado em medicina por Harvard, embora nunca tenha exercido), mas a questão acaba por se resolver por uma mutação benigna que, se não ameaça a vida humana, tem implicações gravosas sobre outros materiais.

They turned their attention to Benedict. Stone went over to him and shook him. The man fell rigidly from his chair onto the floor.
Burton noticed the elbows, and suddenly became excited. He leaned over the body. “Come on,” he said to Stone. “Help me.”
“Do what?”
“Strip him down.”
“Why?”
“I want to check the lividity.”
“But why?”
“Just wait,” Burton said. He began unbuttoning Benedict’s shirt and loosening his trousers. The two men worked silently for some moments, until the doctor’s body was naked on the floor.
“There,” Burton said, standing back.
“I’ll be damned,” Stone said.
There was no dependent lividity. Normally, after a person died, blood seeped to the lowest points, drawn down by gravity. A person who died in bed had a purple back from accumulated blood. But Benedict, who had died sitting up, had no blood in the tissue of his buttocks or thighs.
Or in his elbows, which had rested on the arms of the chair.
“Quite a peculiar finding,” Burton said. He glanced around the room and found a small autoclave for sterilizing instruments. Opening it, he removed a scalpel. He fitted it with a blade—carefully, so as not to puncture his airtight suit—and then turned back to the body.
“We’ll take the most superficial major artery and vein,” he said.
“Which is?”
“The radial. At the wrist.”
Holding the scalpel carefully, Burton drew the blade along the skin of the inner wrist, just behind the thumb. The skin pulled back from the wound, which was completely bloodless. He exposed fat and subcutaneous tissue. There was no bleeding.
“Amazing.”
He cut deeper. There was still no bleeding from the incision. Suddenly, abruptly, he struck a vessel. Crumbling red-black material fell out onto the floor.
“I’ll be damned,” Stone said again.
“Clotted solid,” Burton said.
“No wonder the people didn’t bleed.”
Burton said, ”Help me turn him over.” Together, they got the corpse onto its back, and Burton made a deep incision into the medial thigh, cutting down to the femoral artery and vein. Again there was no bleeding, and when they reached the artery, as thick as a man’s finger, it was clotted into a firm, reddish mass.
“Incredible.”
He began another incision, this time into the chest. He exposed the ribs, then searched Dr. Benedict’s office for a very sharp knife. He wanted an osteotome, but could find none. He settled for the chisel that had been used to open the capsule. Using this he broke away several ribs to expose the lungs and the heart. Again there was no bleeding.
Burton took a deep breath, then cut open the heart, slicing into the left ventricle.
The interior was filled with red, spongy material. There was no liquid blood at all.
“Clotted solid,” he said. “No question.”
“Any idea what can clot people this way?”
“The whole vascular system? Five quarts of blood? No.” Burton sat heavily in the doctor’s chair and stared at the body he had just cut open. “I’ve never heard of anything like it. There’s a thing called disseminated intravascular coagulation, but it’s rare and requires all sorts of special circumstances to initiate it.”
“Could a single toxin initiate it?”
“In theory, I suppose. But in fact, there isn’t a toxin in the world—”
He stopped.
“Yes,” Stone said. “I suppose that’s right.”