25 de outubro de 2026
Decameron
Giovanni Boccaccio
Decameron (1353)
Boccaccio, Dante e Petrarca, todos toscanos (e florentinos os dois primeiros), estão na génese da moderna literatura italiana e do Renascimento, como cultura, sensibilidade e visão do mundo.
Com um expediente narrativo que se encontra, por exemplo, nas Mil e uma Noites ou nos Contos de Canterbury – a história dentro da história – o Decameron toma o seu título do grego "deca", dez e "emerai", dias. Tendo por pano de fundo a peste negra, dez jovens florentinos, sete mulheres e três homens, decidem fugir da pestilência citadina, e passar os dias entre festins, passeios, cantos e danças, e a contar histórias: as novelas. Dez pessoas, ao longo de dez dias, contam as cem novelas do Decameron, originalmente escritas em dialecto toscano, que reflectem todos os aspectos da vida humana em todos os níveis sociais. São histórias simples, em tons garridos, que trazem a unificação de géneros literários medievais, com uma estrutura que simboliza a restauração da ordem, uma resposta ao caos trazido pela peste.
O excerto abaixo citado pertence à oitava novela da quinta jornada, na qual Sandro Botticelli se inspirou para a pintura de quatro notáveis painéis.
Certa sexta-feira, porém, quase chegava maio e o tempo estava belíssimo, ele começou a pensar naquela mulher cruel e, ordenando a todos os criados que o deixassem só para poder meditar mais à vontade, foi dando um passo após outro, sempre a pensar, e acabou por se transportar ao pinhal. Havia já quase passado a quinta hora do dia, e ele, tendo penetrado cerca de meia milha pelo pinhal, sem se lembrar de comer nem de coisa nenhuma, de repente teve a impressão de ouvir choro e lamentos altos de mulher; assim se desfizeram seus doces pensamentos, e ele, erguendo a cabeça para ver o que era, admirou-se por estar no pinhal; além disso, olhando à frente, viu chegar correndo por um bosquezinho denso, cheio de arbustos e espinheiros, em direção ao lugar onde estava, uma belíssima jovem nua, desgrenhada e toda arranhada por ramos e espinhos, chorando e gritando por piedade; ao lado dela, viu dois grandes e ferozes mastins, que a perseguiam implacavelmente e, sempre que a alcançavam, a mordiam com crueldade; atrás, viu chegar, montado num ginete negro, um cavaleiro moreno, de semblante muito irado, que, com um estoque na mão, a ameaçava de morte com palavras assustadoras e vis. Diante daquilo, ele se encheu de admiração e espanto e, sentindo compaixão da desventurada mulher, teve desejo de libertá-la da angústia e da morte, caso pudesse. Mas, estando sem armas, recorreu a um galho de árvore à guisa de porrete e começou a investir contra os cães e a enfrentar o cavaleiro. Mas o cavaleiro, vendo isso, gritou-lhe de longe:
– Nastagio, não se meta, deixe que os cães e eu façamos o que essa mulher malvada mereceu.
E, enquanto dizia isso, os cães agarraram fortemente a jovem pelos flancos e a detiveram; o cavaleiro chegou e apeou. Nastagio, aproximando-se dele, disse:
– Não sei quem é você, que me conhece; mas digo-lhe que é muita covardia um cavaleiro armado querer matar uma mulher nua e pôr os cães no seu encalço como se ela fosse uma fera selvagem; e sem dúvida eu a defenderei o quanto puder.
O cavaleiro então disse:
– Nastagio, fui de sua cidade, e você ainda era pequeno quando eu, que me chamava messer Guido degli Anastagi, estava muito mais apaixonado por essa mulher do que você está agora pela filha dos Traversari, e, por causa da atrocidade e da crueldade dela, a minha desgraça chegou a tal ponto que um dia, desesperado, me matei com este estoque que está vendo em minha mão e estou condenado às penas eternas. Não muito tempo depois, ela, que ficou felicíssima com minha morte, morreu também e, não se arrependendo do pecado da crueldade e da alegria que sentiu com os meus tormentos, por achar que não tinha havido pecado, mas merecimento, também foi condenada às penas do inferno e assim está. Pois, tão logo ela desceu ao inferno, recebemos os dois uma pena: ela está condenada a fugir de mim, e eu, que já a amei tanto, estou condenado a segui-la como inimiga mortal, e não como mulher amada; e, sempre que a alcanço, devo matá-la com este estoque que usei para me matar, abri-la pelas costas, arrancar do corpo o coração duro e frio, no qual nunca puderam entrar amor nem piedade e, como você verá em breve, dá-lo junto com as outras vísceras de comer a estes cães. Depois, não demora muito para que ela – conforme querem a justiça e o poder de Deus – ressurja como se nunca tivesse estado morta e recomece a dolorosa fuga, enquanto os cães e eu a seguimos. E todas as sextas-feiras a esta hora eu a alcanço aqui e aqui faço a carnificina que verá; e nos outros dias não pense que descansamos, mas eu a alcanço em outros lugares nos quais ela pensou ou agiu contra mim com crueldade; e eu, que passei de amante a inimigo, como está vendo, preciso segui-la dessa maneira durante tantos anos quantos foram o meses em que ela usou de crueldade contra mim. Por isso, deixe que execute a justiça divina, não queira opor-se àquilo que você não poderia combater.
Nastagio, ao ouvir essas palavras, intimidou-se totalmente e quase não lhe sobrou pelo do corpo que não se arrepiasse; então recuou e começou a olhar a mísera moça e a esperar, temeroso, o que o cavaleiro ia fazer. Este, terminando de falar, de estoque em punho arremeteu como cão raivoso contra a moça que, ajoelhada e fortemente retida pelos dois mastins, gritava por piedade, e feriu-a com toda a força no meio do peito, varando-a até o outro lado. A jovem, ao receber esse golpe, caiu de bruços, sempre chorando e gritando; e o cavaleiro, pegando uma faca, abriu-a nas costas e, extraindo-lhe o coração e todas as outras coisas em torno dele, atirou-o aos dois mastins, que o comeram imediatamente com muita fome. Não demorou muito para que a jovem, como se nada daquilo tivesse acontecido, se pusesse em pé de repente e começasse a fugir em direção ao mar, com os cães atrás, sempre a mordê-la; e o cavaleiro, voltando a montar e a empunhar seu estoque, começou a segui-la, de modo que em pouco tempo se afastaram e Nastagio deixou de vê-los.
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