10 de maio de 2026

A Conquista de Lisboa aos Mouros – Relato de um Cruzado


Aires A. Nascimento
A Conquista de Lisboa aos Mouros – Relato de um Cruzado (1147 e 2001)

Não é a primeira vez que o texto medieval serve de base à edição de um livro — já tinha acontecido em 1935, por exemplo, quando foi publicado Conquista de Lisboa aos Mouros (1147), narrada pelo Cruzado Osberno, testemunha presencial, com tradução de José Augusto Oliveira e prefácio de Augusto Vieira da Silva, como complemento a Lisboa Antiga, de Júlio de Castilho.
Mas esta é versão de Aires Augusto Nascimento, formado em Filologia Clássica e especializado em Estudos Medievais, com vasta e reconhecida obra publicada sobre os temas da sua especialidade. Na Introdução, de Maria João V. Branco, é explicado o contexto histórico e as diferentes interpretações relativas ao documento — a começar pela autoria e destinatário, relativamente à versão de 1935 — e a justificação do motivo porque foram incluídos outros dois textos, com ele relacionados, a Notícia da Fundação do Mosteiro de S. Vicente de Lisboa e o Documento de doação do cruzado Raul a Santa Cruz de Coimbra (1148).
A epístola, de 1147, conhecida por De Expugnatione, descreve a concentração dos cruzados, originários de vários reinos do Norte da Europa, em Dartmouth e a viagem marítima até Lisboa, escala de um percurso que os levaria até à Terra Santa. O cerco à cidade estava previamente tratado entre D. Afonso Henriques, os bispos portugueses e os líderes da cruzada. O desembarque no Tejo deu-se em finais de Junho e o cerco demorou quase quatro meses até à conquista, descrevendo as vicissitudes e as consequências do desfecho.

Assim, rogando em altas vozes o auxílio divino, aproximaram finalmente a máquina da frente da muralha, a uma distância de uns quinze côvados.
Aí morreu um dos nossos atingido por uma pedrada de funda atirada das muralhas. No dia seguinte, de novo, a máquina é deslocada para junto da torre que fica situada num recanto da cidade frente ao rio.
Os inimigos, porém, levaram igualmente para ali todos os seus aprestos de defesa. Logo que isso descobrimos, com facilidade fizemos fracassar os seus planos, pois os nossos desviaram a máquina para a direita frente ao rio e ultrapassaram a torre uns vinte côvados junto à muralha perto da Porta Férrea que está voltada para a torre. Aí os nossos besteiros e frecheiros repeliram da dita torre os inimigos que não conseguiam aguentar o ritmo das setas, pois a torre ficava a descoberto pela parte posterior que está voltada para a cidade.
Afugentados os inimigos da torre e da muralha, vizinha da nossa máquina, com a chegada da noite descansámos um pouco, tendo todos regressado ao acampamento, mas deixando de guarda cem cavaleiros dos nossos e cem dos franceses com frecheiros e besteiros e alguns jovens ligeiramente armados.
Ora, na primeira vigília da noite, a maré cheia envolveu a máquina e impedia que os nossos tivessem caminho para sair ou para entrar. Tendo os mouros descoberto que a maré nos isolava, a pé, atacaram a máquina com duas companhias de homens através da dita porta, enquanto outros, em multidão inacreditável, por cima das muralhas, tendo acarretado materiais de lenha com pez, estopa e azeite com substâncias incendiárias de toda a espécie, começam a atirá-los à nossa máquina. Outros ainda lançavam sobre nós uma chuva insuportável de pedras.
Havia, porém, debaixo das asas da máquina, entre ela e a muralha, um abrigo de vimes que em língua vulgar toma o nome de gato valisco, em que se mantinham sete mancebos da província de Ipswich que tinham trazido sempre esse abrigo atrás da máquina. Ali debaixo, juntamente com os que se encontravam em andares inferiores, alguns dos nossos procuravam, tanto quanto lhes era possível, desfazer os materiais inflamáveis, mas em vão. Outros, por seu lado, tendo aberto covas debaixo da máquina e aí permanecendo, dispersavam as bolas de fogo. Uns, nos andares cimeiros, através de postigos regavam de cima os couros que se retesavam; aí havia uns renques de vassouras de cauda, pendentes da parte de fora, que molhavam toda a máquina. Os restantes, porém, dispostos em linha de batalha, resistiam com ardor aos que tinham avançado desde a porta.
Foi assim a máquina defendida nessa noite em esforço digno de admiração, por um punhado dos nossos, sob a ajuda de Deus, sem grandes feridas, enquanto a maior parte dos mouros, pelo contrário, mais de perto ou mais de longe, tinham caído mortos. 

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