22 de maio de 2026
A Família Artamonov
Máximo Gorki
A Família Artamonov (1925)
O sentido do título original russo talvez fosse melhor traduzido por «a casa Artamonov»; apesar do tema ser uma história familiar ao longo de três gerações, essa mesma história anda em redor de uma fábrica, o negócio da família. Essa narração inicia-se nos anos 60 do séc. XIX, quando Elias Artamonov, após a abolição da servidão, decide instalar-se em Driomov com os seus três filhos e construir ali uma fiação de linho. A sua determinação faz o negócio prosperar e casa o filho mais velho, Pedro, com Natália, a filha do governador. O segundo filho, o corcunda Nikita, entra num convento, enquanto o sobrinho adoptado, Alexis, é mais dado à diversão.
É pois Pedro Artamonov que acaba por herdar a direcção da fábrica e fazê-la crescer, vivendo a sua vida em função dela. Mas o seu filho preferido, Elias, recusa-se a continuar a sua obra e, após uma discussão, afasta-se para sempre. O outro filho, Tiago, tem uma personalidade mais fraca e é Miron, filho de Alexis, que assume maior peso directivo nessa terceira geração. No entanto os tempos mudaram e, quando chegamos ao fim do livro, com a ocupação da fábrica em plena revolução bolchevique, Pedro é já um velho desfasado da realidade, enquanto o filho e o sobrinho se haviam mostrado, por diferentes razões, incapazes de liderar a firma. Ao longo de quase todo o livro destaca-se ainda a personagem de Tikhon Vialov, o tecelão cujas palavras, nem sempre inteiramente compreendidas, soavam como uma espécie de má-consciência aos ouvidos dos Artamonov.
A Família Artamonov acaba por ser uma narrativa algo sombria sobre as relações difíceis e a decadência de uma família. (Decadence é, diga-se a propósito, o título de uma das traduções em inglês.) É um belo livro e Máximo Gorki um nome a acrescentar à minha lista de grandes autores na literatura russa.
As semanas, alegres e tumultuosas, passavam como uma roda; Miron, Tatiana, o médico, e toda a gente em geral tornaram-se amáveis uns para com os outros. Vieram desconhecidos da cidade e levaram com eles o serralheiro Minaev. Depois, a Primavera chegou, tépida e cheia de sol.
— Escuta, queridinho — dizia Paulina — eu não percebo nada do que se passa. O czar renunciou a reinar, estropiaram, mataram os soldados, correram com a polícia, em toda a parte são os civis que mandam, como é que vamos viver? Todos farão o que lhe apetecer e com certeza Jiteikine não me deixará descansar. Nem ele nem todos aqueles que me fazem a corte e que eu recusei. Hoje, que tudo é de cada um, já não posso mais, não quero viver mais aqui, quero ir viver onde ninguém me conheça! E, se se fez a revolução e todos são livres, foi naturalmente para que cada um vivesse como lhe apetecia.
Paulina estava cada vez mais apressada, mais faladora. Tiago via nas suas palavras algo de irrefutável, e procurava tranquilizá-la:
— Espera mais um pouco, isto vai arrumar-se, e então. . .
Mas já não acreditava que a agitação acalmasse; via que, diariamente, na fábrica, o ruído era maior, mais ameaçador. O homem que se habituou a ter medo encontra sempre um motivo de receio. Tiago começou a recear o crânio moreno de Zakhar Morozov. Este adquirira o aspecto de um pequeno czar, os operários seguiam-no como os carneiros seguem um cão. Mitia girava à sua volta como uma coruja presa. De facto, Morozov assemelhava-se agora a um cão enorme que aprendeu a andar nas patas traseiras. A pele queimada do seu crânio estalara nalguns sítios; por vezes, enrolava um turbante à volta da cabeça, uma toalha pertencente a Tatiana e que Mitia lhe dera. Esta cabeça desmedida esmagava Zakhar, diminuía-o; caminhava tão vagarosamente como o gordo chefe da polícia Ecke, os polegares enfiados debaixo do cinto de soldado gasto e, mexendo os outros dedos como barbatanas, clamava:
— Ordem, camaradas!
Mandou julgar três operários que tinham roubado linho; interrogava-os com voz forte para que se ouvisse em todo o pátio:
— Compreendem que roubaram?
E logo ele próprio respondia:
— São vocês mesmos e somos nós os roubados! Acham que se pode roubar agora, filhos de cães?
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