19 de xullo de 2026
A Dama das Camélias
Alexandre Dumas (Filho)
A Dama das Camélias (1848)
A literatura francesa do séc. XIX — e outras por ela influenciadas — tem uma certa fascinação por personagens "escandalosas". O realismo e o naturalismo alimentaram-se, em boa medida, deste material mas A Dama das Camélias, inscrevendo-se ainda no romantismo, contém uma perspectiva mais moralista e benévola ao mostrar-nos a história de Margarida Gautier, uma cortesã parisiense que encontra um amor redentor na pessoa de Armando Duval, filho de um pequeno burguês da província, que a transformará, mas apressará também a sua morte.
Escrito por Alexandre Dumas quando tinha apenas 24 anos, mas com larga experiência num certo submundo aqui retratado, o livro é vagamente autobiográfico e inspirado na vida de Marie Duplessis, com quem privou, e objecto do prefácio de Jules Janin. A Dama das Camélias começa com a morte de Margarida e o leilão dos seus bens, no qual o autor compra um livro com a dedicatória de Armando. Armando, ausente em viagem, motivo pelo qual não estivera presente no funeral, procura depois o autor para tentar reaver o referido livro e, a partir daí, prossegue a narração, revelando a sequência de acontecimentos que levaram ao desfecho já conhecido.
A primeira palavra que me veio aos lábios foi: «Engana-me!»
Senti na testa um suor frio, porque eu já amava tanto aquela mulher, que a desconfiança não podia deixar de transtornar-me doidamente.
Contudo, eu devia esperar quase todos os dias esse acontecimento com Margarida, e o mesmo me sucedera muitas vezes com as minhas outras amantes, sem que isso me desse grande cuidado. Donde vinha, pois, o domínio que aquela mulher tomava sobre a minha vida?
Lembrei-me, então, visto que tinha a chave da casa dela na minha algibeira, de ir vê-la como de costume. Desse modo, depressa saberia a verdade, e se encontrasse um homem na sua companhia, esbofeteava-o.
Entretanto fui aos Campos Elísios, onde me demorei quatro horas. Margarida não apareceu. À noite entrei em todos os teatros que ela costumava frequentar. Não estava em nenhum.
Às onze horas dirigi‑me à Rua d’Antin.
As janelas de Margarida não tinham luz. Ainda assim toquei à campainha.
O porteiro perguntou-me aonde ia.
— A casa de Margarida Gautier — disse-lhe.
— Ainda não veio.
— Eu espero-a lá em cima.
— Não está ninguém em casa.
Evidentemente, eram ordens que ele recebera e por cima das quais eu podia passar, pois tinha a chave; mas receei um escândalo ridículo, e saí.
Mas não fui para casa. Não era capaz de sair daquela rua e não podia perder de vista a casa de Margarida. Parecia-me que ainda tinha de saber algumas coisas de novo, ou, pelo menos, que se iam confirmar as minhas suspeitas.
Pela meia-noite, um coupé que eu conhecia perfeitamente parou diante do número 9.
O conde de G… apeou-se e entrou na casa, depois de mandar embora a carruagem.
Por um momento ainda esperei que, tal como a mim, lhe diriam que Margarida não estava em casa e que não tardaria a vê-lo sair; mas às quatro horas da manhã eu continuava ali à espera.
Tenho sofrido muito há três semanas, mas nada comparável, creio, ao que sofri naquela noite.
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