27 de xuño de 2024

Telebasura y Democracia


Gustavo Bueno
Telebasura y Democracia (2002)

Um ensaio interessante pelas questões que levanta, a começar pela semântica, tenta esclarecer o que é considerado “lixo”, as razões que sustentam essa qualificação, qual a sua origem e porque o conceito se apresenta tão difuso. Recusando a generalização, o autor parte para uma análise formal dos diversos tipos de emissão televisiva, o que evidencia diferentes formas de “lixo” (fabricado, segregado, revelado); quanto às razões para o qualificativo – obscenidade, sentimentalismo, exposição da intimidade, etc. – não existe um critério absoluto e a subjectividade da avaliação está ligada à inexistência de uma escala objectiva de medição.
Segundo o autor, a qualificação do “tele-lixo”, pelas comissões auto-arvoradas, pretende impor o gosto da elite, sujeito aos gostos e interesses particulares de quem emite a opinião. Mais ainda, essas comissões não têm qualquer justificação numa sociedade dita democrática, pois as pessoas já “votam” com a adesão ou não à audiência de um programa. Se a popularidade e o volume de audiência não atestam a qualidade televisiva, em último caso o “tele-lixo” acaba por ser aquilo que é desqualificado pelas elites, podendo resultar numa dogmática fundamentalista que atenta contra a liberdade de expressão. Em resumo, como diz uma frase transposta para a capa do livro, “cada povo tem a televisão que merece”.
Os exemplos apontados são, naturalmente, do caso particular de Espanha, embora aquele tipo de programas exista em todo o lado. Gustavo Bueno constata ser um paradoxo que a democracia não tenha melhorado o nível da televisão (também do cinema, ou do teatro) e, pelo contrário, com a abolição da censura (e posterior multiplicidade da oferta) não floresceu a alta cultura. Faz ainda uma ligação entre o espectador de uma sociedade democrática, com o eleitor e o consumidor que optam entre várias propostas disponíveis no mercado. Isto é uma autêntica necessidade existencial, e tudo quanto possa alienar o espectador / eleitor / consumidor tende a ser considerado “lixo”, dentro de uma certa e necessária ambiguidade. Na verdade, a explicação e aplicação do critério torná-lo-ia mais abrangente, e acabaria por comprometer todo o sistema de valores da própria sociedade.

Puede decirse que, en general, la televisión coopera continuamente con la sociedad democrática de mercado, y ello de muchas maneras. Por ejemplo, presentando concursos que disciernen premios proporcionales a la sabiduría o los méritos demostrados por los concursantes, o bien, televisando partidos de fútbol, cuya estructura técnica nada tiene que ver con el sistema democrático. Y sin embargo, una sociedad democrática laica, difícilmente podría «entretenerse» (pero tomando esta palabra no en el sentido lúdico psicológico, sino en el sentido político estricto) si no contase con las ligas de fútbol televisado, porque sólo a través la televisión los miles de ciudadanos que pueden ser acogidos en los estadios pueden transformarse en millones. Y el seguimiento de la liga no solamente organiza el curso anual del tiempo de los ciudadanos electores de la sociedad de mercado de un modo distinto, pero compatible con los ritmos democráticos; no sólo proporciona la posibilidad de mantener ocupados a millones de ciudadanos durante unas horas de «ocio» peligrosísimo (es decir, de millones de horas de vida transcurridas fuera de la fábrica o de la oficina, pero no fuera de la sociedad civil, ni indirectamente de la sociedad política). Durante esas horas de ocio social y político (homólogas a las que en las sociedades feudales ocupaban las ceremonias religiosas) la consistencia de la sociedad democrática se entretiene con el fútbol, como se entretenían en la sociedad feudal con el «ocio religioso». 

Cabría añadir —y esta hipótesis habría que confirmarla con investigaciones sociológicas— que el fútbol televisado contribuye más a la «democracia sostenible» que las horas dedicadas al trabajo asalariado. Porque las horas en las que se canaliza, a través del fútbol televisado, la energía social libre tras el trabajo asalariado de la fábrica o de la oficina evitan el «derramamiento» de esa energía social libre por canales peligrosos o insospechados. 

Sin embargo, el fútbol no contribuye a la estabilidad democrática únicamente por estos mecanismos de aliviadero que guardan un cierto paralelismo con los mecanismos conocidos a través de los cuales se administraba el «opio del pueblo». Sólo un cierto paralelismo, porque la contribución del fútbol a la sociedad democrática no tiene sólo ese sentido «desviatorio» de rumbos estimados como peligrosos: tiene también el sentido de una educación paralela y congruente con la sociedad democrática de mercado, en cuanto reorganización de unas relaciones sociales que la desbordan por todos los lados. El fútbol es un campo de batalla que ofrece situaciones de competición en las que la victoria no se obtiene directamente por sufragio universal de los espectadores, sino por la superior técnica de un equipo frente a otro (descontados los casos de suerte), independientemente de que las posibilidades económicas de cada club sean decisivas para lograr esa superioridad (como ocurre en toda empresa de mercado). 

El fútbol nos ofrece así la imagen de una sociedad competitiva en la que los contendientes son implacables, pero están sujetos sin embargo a unas estrictas reglas de juego. Con todo, lo democrático del fútbol habrá que ir a buscarlo no tanto en las reglas del juego (que son propiamente «aristocráticas», porque ellas están calculadas, para que «gane el mejor», es decir, para que el punto de llegada discrimine a los competidores a quienes se les concedió una teórica igualdad de oportunidades en el punto de salida) cuanto en el sometimiento a esas reglas del juego, al reglamento, bajo la atenta vigilancia del pueblo (que ejerce, junto con el árbitro, las funciones de un poder judicial, y muy especializado y competente, actuando en «sesión pública»). 

Y no acaban aquí las contribuciones del fútbol a la democracia televisada. Gracias a la liga de fútbol los ciudadanos (en el sentido estricto, los que viven en las ciudades de un Estado democrático) se sienten representados, a nivel municipal, por sus equipos de fútbol (los equipos de fútbol no representan a sindicatos ni a partidos políticos: no hay ningún equipo que se titule Comisiones Obreras FC, o Unión General de Trabajadores FC, o Partido Socialista FC). Los ciudadanos, gracias a la liga de fútbol, pueden conocerse mutuamente y relacionarse del modo más directo. Miles de ciudadanos viajan semanalmente de unas ciudades a otras y gracias a ello se contraen nuevas relaciones sociales, de simpatía o de aversión (relaciones rigurosamente estratificadas, por otra parte, según que las ciudades sean de primera división, de segunda, de tercera, etc.).

23 de xuño de 2024

O Monge de Cister



Alexandre Herculano
O Monge de Cister (1848)

Publicado quatro anos depois de Eurico, o Presbítero, este romance histórico, passado nos primeiros anos do reinado de D. João I, foi algumas vezes reeditado conjuntamente com aquele, sob o título O Monasticon. A personagem principal, Vasco da Silva, um jovem cavaleiro que combateu em Aljubarrota, ao regressar a casa depara-se com o funeral do pai, morto de desgosto pela fuga da sua irmã Beatriz, seduzida por um nobre de passagem, Vivaldo – cujo verdadeiro nome é Fernando Afonso, camareiro-menor na corte do rei D. João I. Vasco descobre também que a sua prometida, Leonor, se casou na sua ausência com outro cavaleiro, Lopo Mendes. Cego pela fúria, promete vingar-se dos que lhe arruinaram a vida e a família e, quando o livro começa, sabemos que entrou na ordem beneditina, depois de ter morto Lopo Mendes. O Monge de Cister é, também, o pretexto para revisitar a Lisboa medieval, em grande parte destruída pelo terramoto de 1755, tendo como pano de fundo a consolidação do poder real à custa dos privilégios feudais da nobreza. É nessa cidade que Vasco conhece João d'Ornellas, abade de Alcobaça, que também procura, por motivos pessoais, a vingança de Fernando Afonso, e entre os dois homens celebra-se um pacto para levar à morte o seu inimigo comum.
Esta reedição, de 1918, apresenta-se como a 13.ª edição, definitiva, feita segundo a 3.ª edição, de 1869, a última da vida do autor, e dirigida por David Lopes, com o bom gosto de preservar a ortografia original do séc. XIX.

O monge estava assentado num dos poiaes de pedra que ladeiavam o vão de uma janella, d'onde, por cima da casaria inferior da cidade e do arrabalde, se descortinava o magnificente panorama do Téjo, por cuja superficie espelhada deslisavam as vélas triangulares dos barcos, e em cuja margem opposta se alevantava o fumo das povoações ainda indistinctas na penumbra dos montes. Com o cotovello encostado ao peitoril e a face firmada na mão aberta, parecia embebido no respirar delicioso da fresquidão matutina e em contemplar o quadro tranquillo e grandioso que tinha ante si. O mesteiral, que, passando pela vizinhança, distinguisse o infeliz mancebo naquella postura repousada, emquanto elle ía começar mais um dos seus dias uniformes de trabalho e privações, exclamaria, por certo, com amargura: — «Oh, estes frades ! estes frades ! . . . Para elles o céu na vida e na morte: para nós o inferno na terra e talvez debaixo della !»
É, ao menos, assim que o homem costuma julgar a Providencia.
Apenas viu o abbade, Fr. Vasco ergueu-se. Reparou então o prelado, como Fr. Julião reparara na véspera, que os cabellos do monge se haviam tornado grisalhos. Parecia, comtudo, perfeitamente tranquillo.
Fr. Vasco fez a genuflexão do estylo e, sem dizer palavra, ficou de pé e com a cabeça baixa perante D. João d'Ornellas.
Silencioso como elle, este apertou-lhe o braço e obrigou-o a assentar-se de novo, emquanto também se assentava defronte, no outro poial.
Assim ficaram por algum tempo. Dir-se-hia que, á vista da scena solemne e socegada que d'alli se descubria, ambos elles se tinham engolfado numa especie de extasi mystico. Mas quem os observasse largo espaço depois, ver-lhes-hia as frontes quasi junctas, as faces incendidas, o mover rápido dos beiços, o diabolico sorrir. Era um quadro simples, mas terrivel, como o da primeira noite em que tinham conversado sósinhos. A luz do quadro é que era diversa: lá a das tochas; cá a do sol. As trevas dos seus corações eram, porém, identicas.
[…]
Apesar das suas distracções, Mem Bugalho era homem impagavel. Afóra não vulgar talento, possuia grandes dotes politicos. Sabía a proposito humilhar-se, arrastar-se. Tomara por divisa o sagrado texto: Deposuit potentes de sede et exaltavit humiles. Não era nenhum soberbão: por força havia de subir.
Tinha-se curado de certas fogagens de altiveza de animo e d'independencia desde a severa lição que recebera na tavolagem das Portas-do-mar. Agora limitava os seus affectos e ambições a que o deixassem comer. E deixavam; e elle comia, comia, comia.
João das Regras estimava-o muito e desprezava-o profundamente. Implica em termos? Pois deixem implicar. Arranjem isso como poderem. Esta é a verdade; verdade eterna em relação aos Regras e aos Bugalhos de qualquer epocha e de qualquer paiz.
Todo o Regras tem um Bugalho: alguns têem dous; outros têem trinta.
É conforme.


Li anteriormente:
Eurico, o Presbítero (1844)

11 de xuño de 2024

Más allá del Bien y del Mal


Friedrich Nietzsche
Más allá del Bien y del Mal (1886)

Para Além do Bem e do Mal, com o subtítulo Prelúdio a uma Filosofia do Futuro, surgiu paralelamente a Assim Falou Zaratustra, e é a sua outra face; onde aquele se mostrava afirmativo, este é negativo, uma “crítica da modernidade” nas palavras do autor, traduzida na refutação de Schopenhauer, Locke, Kant, Espinoza, Voltaire, etc. De resto, segundo o próprio Nietzsche escreveu numa carta, este livro diz as mesmas coisas que Zaratustra, embora de um modo muito diferente.

Acaso sean cinco o seis las cabezas en las cuales va abriéndose paso ahora la idea de que también la física no es más que una interpretación y un amaño del mundo (¡según nosotros!, dicho sea con permiso), y no una explicación del mundo: pero en la medida en que la física se apoya sobre la fe en los sentidos se la considera como algo más, y durante largo tiempo todavía tendrá que ser considerada como algo más, a saber, como explicación. Tiene a su favor los ojos y los dedos, tiene a su favor la apariencia visible y la palpable: esto ejerce un influjo fascinante, persuasivo, convincente sobre una época cuyo gusto básico es plebeyo, — semejante época se guía instintivamente, en efecto, por el canon de verdad del sensualismo eternamente popular. ¿Qué es claro, qué está «aclarado»? Sólo aquello que se deja ver y tocar, — hasta ese punto hay que llevar cualquier problema. A la inversa: justo en su oposición a la evidencia de los sentidos residía el encanto del modo platónico de pensar, que era un modo aristocrático de pensar, — acaso entre hombres que disfrutaban incluso de sentidos más fuertes y más exigentes que los que poseen nuestros contemporáneos, pero que sabían encontrar un triunfo más alto en permanecer dueños de esos sentidos: y esto, por medio de pálidas, frías, grises redes conceptuales que ellos lanzaban sobre el multicolor torbellino de los sentidos — la plebe de los sentidos, como decía Platón—. En esta victoria sobre el mundo y en esta interpretación del mundo a la manera de Platón había una especie de goce distinto del que nos ofrecen los físicos de hoy, y asimismo los darwinistas y antiteleólogos entre los trabajadores de la fisiología, con su principio de la «fuerza mínima» y de la estupidez máxima. «Allí donde el hombre no tiene ya nada que ver y agarrar, tampoco tiene nada que buscar» — éste es, desde luego, un imperativo distinto del platónico, un imperativo que, sin embargo, acaso sea cabalmente el apropiado para una estirpe ruda y trabajadora de maquinistas y de constructores de puentes del futuro, los cuales no tienen que realizar más que trabajos groseros.

Li anteriormente:
O Anticristo (1888)
Assim Falou Zaratustra (1883)

4 de xuño de 2024

El Mito del Siglo XX


Alfred Rosenberg
El Mito del Siglo XX (1930)

O Mito do Século XX é frequentemente considerado, ao lado de Mein Kampf, como um dos pilares da ideologia nacional-socialista – apesar de Rosenberg sublinhar, num dos prólogos, que o livro reflecte uma posição pessoal e não programática. Se Mein Kampf junta um pouco da história do movimento ao projecto do programa político, dentro do seu contexto histórico, O Mito do Século XX inscreve-se maioritariamente no campo da filosofia.
Alfred Rosenberg interessa-se, sobretudo, em analisar antropologicamente a passagem dos povos ários pela História, nos seus triunfos e nas suas derrotas, na arte, na estética e na religião, a partir de uma perspectiva racial, e projectar daí o seu futuro. Identifica um quadro de valores intrínseco e constante – honra, dever, justiça, liberdade – que tem moldado o período formativo e criativo das civilizações de origem indo-europeias, e como a sua decadência e ruína tem estado associada à miscigenação, à erosão das suas características como raça e povo, à infiltração de valores individualistas ou universalistas – como sucedeu na Índia, na Pérsia, na Grécia e em Roma. Naquele momento histórico do pós-guerra, Rosenberg vê a oportunidade para um novo renascimento germânico na Europa, com a tomada de consciência generalizada da importância do sangue e da sua preservação (em 1937 este livro já tinha atingido a tiragem de 500 mil exemplares). Esse era o mito fundacional para o novo século, aplicável tanto aos europeus como às outras raças: o que é estranho deve ser segregado e, se necessário, vencido – não porque seja seja “falso” ou “mau” em si, mas porque, sendo estranho, destrói a estrutura interna do próprio ser. O nacional-socialismo tem sido acusado de uma obsessão materialista com a raça, mas essa conclusão parece superficial, a avaliar pelo conteúdo deste livro. Em parte alguma se trata de fazer um “apuramento”, como na pecuária, mas a salvaguarda da identidade pelo único meio que lhe garante a continuidade histórica e a liberdade para existir como povo.

Y después de una retrospección desde el más lejano pasado hasta la mas reciente actualidad se extiende ante nuestra mirada la siguiente multiformidad de la fuerza creativa nórdica: la India aria brindó al mundo una metafísica que en cuanto a profundidad hoy aún no ha sido alcanzada; la Persia aria nos creó el mito religioso, de cuya fuerza nosotros todos todavía hoy nos nutrimos; la Hélade dórica imaginó soñando la belleza en este mundo, como nunca más fue realizada dentro de la perfección que descansa en sí misma, que tenemos ante nosotros; la Roma itálica nos mostró la disciplina estatal formal como ejemplo, de qué manera una colectividad humana amenazada debe estructurarse y defenderse. Y la Europa germánica obsequió al mundo con el más luminoso ideal de la humanidad: con el mensaje del valor del carácter como fundamento de toda cultura, con el cantar de los cantares a los más altos valores del ser nórdico, a la idea de la libertad de conciencia y del honor. Por ella se luchó en todas los campos de batalla, en todos los gabinetes de eruditos, y si esta idea no triunfa en la venidera gran lucha, el Poniente y su sangre sucumbirá así como la India y la Hélade desaparecieron antaño para siempre en el caos.
[...]
Cada raza tiene su alma, cada alma su raza, su propia arquitectónica interna y exterior, su forma aparente y el gesto de su estilo de vida característicos, una relación privativa de ella entre las fuerzas de la voluntad y de la razón. Cada raza desarrolla en último término solamente un ideal máximo. Si éste es transformado o hasta destronado por otros sistemas de selección (Zuchtsysteme), por infiltración preponderante de sangre extraña e ideas extrañas, la consecuencia de este cambio interior está caracterizada exteriormente por un caos, por épocas de catástrofes. Pues un valor máximo exige una agrupamiento determinado condicionado por él, de los otros mandamientos de la vida, es decir, él determina el estilo de la existencia de una raza, de un grupo de pueblos emparentados con esa nación. Su eliminación significa, por tanto, la disolución de la totalidad del estado de tensión interior orgánico-creativo.
Después de tales catástrofes puede suceder que las fuerzas del alma se agrupen de nuevo alrededor del viejo centro y den a luz, bajo nuevas condiciones, también una nueva forma de existencia. Ya sea después de una victoria definitiva sobre los valores extraños que por un tiempo habían irrumpido, ya sea después de tolerar un segundo centro de cristalización a su lado. Pero una yuxtaposición en el espacio y en el tiempo de dos o más concepciones del mundo referidas a distintos valores máximos, de las que han de participar los mismos seres humanos, significa una solución intermedia que augura infortunio, que lleva en sí el germen de un nuevo derrumbe. Si el sistema intruso logra debilitar la fe en las antiguas ideas y también corromper físicamente y subyugar al portador de estas ideas, es decir, a las razas y los pueblos, entonces esto significa la muerte de un alma cultural, que luego desaparece también en su encarnación exterior de la superficie de la tierra.

22 de maio de 2024

Andromeda Breakthrough



Fred Hoyle & John Elliot
Andromeda Breakthrough (1965)

Andromeda Breakthrough, a sequela de A For Andromeda, nasceu da série televisiva de 1962, com o argumento adaptado para novela, publicada em 1965 nos EUA e em 1966 no Reino Unido. Enquanto A For Andromeda é uma narração completa, apesar do final aberto, Andromeda Breakthrough é nitidamente um “volume II”, que se inicia praticamente no mesmo ponto em que tinha terminado o livro anterior – o incêndio da base de Thorness.
A história prossegue com as mesmas personagens e são inúmeras as referências aos factos passados no livro anterior. A trama de espionagem, que estava anteriormente em segundo plano, emerge neste livro. Uma poderosa multinacional, com métodos obscuros e o curioso nome de Intel, que tentava apropriar-se do segredo de Andrómeda, entra agora em força, e ficamos a saber que toda a informação que permitira construir o super-computador, e se acreditava estar irremediavelmente destruída, fora, afinal, clandestinamente duplicada. Um novo super-computador tinha sido construído secretamente em Azaran, um pequeno Estado do Golfo Pérsico, e algumas pessoas determinantes do projecto de Thorness foram levadas para lá, coagidas a finalizar o trabalho e pôr o super-computador em acção – entre elas John Fleming e Andre –, sob supervisão da Intel.
Daqui poder-se-ia supor que o pesadelo tecnológico entraria, uma vez mais, em marcha, mas Andromeda Breakthrough, não cai na armadilha de voltar à mesma história de A For Andromeda.
Os 12 capítulos deste livro têm terminologia meteorológica; ficamos a saber que em Thorness fora acidentalmente libertada uma bactéria, que, chegada aos oceanos, reproduzia-se prodigiosamente e retirava nitrogénio da atmosfera, provocando baixas pressões e tempestades, antes de acabar por tornar a atmosfera irrespirável. É contra esta ameaça que os protagonistas recorrem ao super-computador, para a síntese de um antídoto, antes que o tempo se esgote. E, deste modo, a tecnologia hostil que se vislumbrava no livro anterior, é aqui de certo modo dissipada e torna-se na aliada indispensável para a resolução do problema. Este livro foi publicado em tradução portuguesa, sob o título Nova Ameaça de Andrómeda, que li em 1982.

"Found anything?" Fleming asked.
"Not much. I now know what it does." She removed a test tube clamped vertically with its mouth over one of the tubes from the tank. "It absorbs nitrogen. You'd find less than 3 per cent in this sample from the air just above water surface. It also takes up some oxygen, not much—but see for yourself."
She turned to a filing cabinet and withdrew an untidy sheaf of papers. "Just glance over those formulae, will you, John? Tell me if you've seen anything like them before."
He studied the data in silence. "I said it looked familiar. It still does." He handed the papers back.
"It's another synthesis," she murmured.
He was really alarmed. "Not another one starting?" he exclaimed.
"No," she reassured him. "We worked back to this a long way. Yesterday evening I was on familiar stuff. It came out of the computer at Thorness—oh, it must have been more than a year ago, when I began the D.N.A. synthesis."
"It's part of that?" he asked in a low voice. "Part of the programme which constructed the girl?"
"No. It came up quite separately." Dawnay was firm about it. "I based an experiment on it; one had to at that stage when we were still groping in the dark, really." She moved to the tank and looked with despair down at the opaque, sullen fluid at the bottom. "I actually made some of these bacteria."
"What happened to them?"
She answered with an obvious effort. "They seemed harmless, pointless. Another failure. I kept them in a whole range of cultures for a week. They did not die, but they did not develop. Just multiplied. So the tubes were washed out and sterilised."
He started towards her. "Don't you realise...?"
"Of course I do," she said sharply. "The bacteria went down the sink, into the drain, from the drain to the sewer, and into the sea."
"Which is precisely what that bloody machine intended should happen! But an ounce or so is the most it can have been. It can't have spread the way it has."
"Not impossible," she said. "I've tried to fix the date more or less exactly when I abandoned that line of research. It's an academic point really. But I'm certain it is a year ago at least. With this tank fixed up I have been able to calculate the rate of growth. It's fantastic. No virus or bacteria so far known has a rate even comparable to it. And now the buildup's greater. You can envisage the sort of progression now that it's invaded all the main oceans."
"How long," he asked, "will it take...?"
She looked up at him. "Possibly another year. Probably less. All sea water will then reach maximum saturation."
Fleming studied the wall-graph which recorded hour by hour the nitrogen content in the air of the tank. "It does nothing but absorb nitrogen and some oxygen?" he asked.
"Not so far as I've discovered," she replied. "But the sea normally absorbs nitrogen very, very slowly. Plankton and so on. Any artificial fertiliser manufacturing plant takes out in a week as much as the sea absorbs in a year. It hasn't mattered. There's plenty. But this bacteria could easily absorb all the nitrogen in the world's atmosphere. That's what's happening now. It's bringing down air pressure. In the end there'll be no nitrogen and therefore no plants. When the pressure really drops off the scale there won't be any way for us to absorb oxygen, and then there'll be no more animals."
"Unless—" Fleming began.
"There's no unless."


Li anteriormente:
A For Andromeda (1962)
Nova Ameaça de Andrómeda (1966)

17 de maio de 2024

A For Andromeda


Fred Hoyle & John Elliot
A For Andromeda (1962)

Fred Hoyle foi um conceituado astrónomo inglês, com importante trabalho teórico publicado e a particularidade de rejeitar a comum visão cosmogónica do “big bang”. Escreveu uma dúzia de livros de FC em co-autoria com o seu filho, Geoffrey Hoyle, mas este A For Andromeda (que teve edição portuguesa sob o título Ameaça de Andrómeda) não é um deles; John Elliot foi também escritor e produtor de cinema e televisão e, com Fred Hoyle, tinha sido o autor, em 1961, do argumento para a série de TV com o mesmo nome – uma parceria que seria mantida na sequela de 1962.
A For Andromeda é a adaptação literária do argumento; passa-se nos finais dessa década, e narra a detecção de um sinal extraterrestre oriundo da constelação de Andrómeda, a 200 anos-luz, recebido por um radiotelescópio de alto desempenho, acabado de entrar ao serviço. A mensagem, depois de descodificada, permite a construção de um super-computador, cuja concepção e capacidade são de tal modo avançados que os cientistas dedicados à tarefa não conseguem compreender inteiramente o que têm entre mãos. Uma vez posto em funcionamento, leva ao fabrico de um ser vivo rudimentar, um ciclope, e, numa segunda experiência, de uma mulher de aparência humana, a quem chamam Andromeda ou Andre, que funciona como terminal e extensão da própria máquina. Quase toda e gente vê no computador uma benesse, pelos avanços tecnológicos que poderá permitir, e o projecto é capturado por interesses militares. Apenas um dos cientistas que ajudou na construção, John Fleming, céptico desde a primeira hora, percepciona o carácter malévolo do maquinismo.
O tema do livro é hoje, com a advento da AI, mais premente do que na altura da sua publicação. Cada um dos doze capítulos tem por título uma única palavra, começada por ‘A’, e aí reencontramos a velha questão da relação entre ciência e ética: se todos os progressos científicos serão admissíveis apenas por serem possíveis, sem tomar em conta as inevitáveis consequências que implicam.

Geers held the door open as Andromeda came in, escorted by Hunter who walked beside and slightly behind her as though they were characters out of Jane Austen. Andromeda moved stiffly, but was thoroughly wide awake, her face calm, her eyes taking in everything. It was all somehow formal and unreal, as if a minuet were about to begin.
"This is the control-room of the computer," said Geers as she stood looking around her. He sounded like a kind but firm parent. "You remember I told you about it?"
"Why should I forget?"
Although she spoke in a slow stilted way, her voice, like her face, was strong and attractive.
Geers led her across the room. "This is the input unit. The only way we can give information to the computer is by typing it in here. It takes a long time."
"It must do." She examined the keyboard with a sort of calm interest.
"If we want to hold a conversation with it," Geers went on, "the best we can do is select something from the output and feed it back in."
"That is very clumsy," she said slowly.
Dawnay came and stood by her other side. "Cyclops in the other room can input direct by that co-axial cable."
"Is that what you wish me to do?"
"We want to find out," said Geers.
The girl looked up and found Fleming staring at her. She had not taken him in before, and gazed back expressionlessly at him.
"Who is that?"
"Doctor Fleming," said Dawnay. "He designed the computer."
The girl walked stiffly across to him and held out her hand.
"How do you do?" She spoke as if repeating a lesson.
Fleming ignored her hand and continued staring at her. She looked unblinkingly back at him and, after a minute, dropped her arm.
"You must be a clever man," she said flatly. Fleming laughed. "Why do you do that?"
"What?"
"Laugh—that is the word?"
Fleming shrugged. "People laugh when they're happy and cry when they're sad. Sometimes we laugh when we're unhappy."
"Why?" She went on gazing at his face. "What is happy or sad?"
"They're feelings."
"I do not feel them."
"No. You wouldn't."
"Why do you have them?"
"Because we're imperfect." Fleming returned her stare as though it were a challenge.


Li anteriormente:
Nova Ameaça de Andrómeda (1966)

11 de maio de 2024

Mis Andanzas en México


Léon Degrelle
Mis Andanzas en México (1933)

O jovem Léon Degrelle trabalhava para uma pequena editorial católica denominada Christus Rex, na qual se publicava um jornal com o mesmo nome. Foi como correspondente desse jornal que se deslocou ao México, nos finais de 1929, para fazer a reportagem da Guerra Cristera, uma guerra civil que se tinha prolongado por três anos, travada entre as milícias católicas e o governo marxista mexicano, apoiado pelos Estados Unidos. Na raiz do conflito estava constituição de 1917, tingida de anticlericalismo revolucionário, agravada pela designada Lei Calles, de 1926, que havia imposto severas restrições ao culto católico, acabando por desembocar numa perseguição sem precedentes que fez entre 25 a 30 mil vítimas entre os ‘cristeros’. Da experiência mexicana fez Degrelle a rampa de lançamento do jornal Rex, em 1932, e logo do partido com o mesmo nome, corporativista e católico, que teve alguma projecção durante a década de 30.
Contudo, Mis Andanzas en México é, na sua brevidade, muito mais que a Guerra Cristera, à qual só dedica praticamente um capítulo. Descreve as três semanas da viagem marítima de Hamburgo a Veracruz, com escala em La Habana, a sua passagem pela Cidade do México e por outras localidades onde se deram episódios importantes da guerra civil; anota as impressões dos dias domingueiros e o colorido exótico de uma tourada, concluindo com a travessia ferroviária do deserto que o levaria à fronteira dos Estados Unidos, em Juárez, onde foi tomado por imigrante ilegal.

El gran deporte para mí consistía en introducirme en los salones donde festejaban a las mujeres y a las hijas de los jefes revolucionarios. Allí me las arreglaba para pisar el menor número posible de pies y para adular a los ceporros con cortesías maravillosas, o a la oreja de cada viejo general, ataviado como un caballo de labor apreciado, y también a la de alguna tórtola de nariz respingona murmurándole mientras la miraba fijamente: «Usted es adorable, vuestros brazos tienen la dulzura de la leche de burra, vuestra figura es flexible como una cola de leopardo (¿tiene cola el leopardo?)». Los cumplimientos, surten efecto con las mujeres. Ellas me encontraban inteligente, puesto que yo las encontraba hermosas. Y me invitaban entonces a almuerzos y recepciones, donde me eran presentados el marido o el padre. Llegué a recibir incluso de una pariente del Presidente de la República una foto dedicada que ¡haría derretirse en lágrimas a un prior o a un profesor universitario!
Se me dirá: esto no es muy elegante. Estoy de acuerdo. Pero lo tenía que hacer con esas bestias sin nombre, responsables de la matanza, en tan sólo dos años, de doce mil católicos que tenían mi Fe y cuya vida era para mí tan querida como la propia. Las mujeres y las hijas de sus verdugos tenían esta sangre manchando sus toallas y sobre sus dedos repletos de diamantes. Yo les engañe. De acuerdo. Pero era que los despreciaba. Y la mejor forma de desprecio es la de sacar partido de quienes se detesta. No tenía en realidad que andar con rodeos para aprovecharme de unos asesinos que no valían la soga con la cual, con gran alegría, yo les hubiese colgado... Era preciso contenerme, sufriendo con ello, para permanecer impasible frente a estos animales. Mirando la jeta de fiera del presidente Calles, o recorriendo las haciendas principescas de Morones, me acordaba de los millares de mártires asesinados con tormentos atroces, despellejados vivos, atados en la parte de atrás de camiones mientras eran arrastrados; rociados de gasolina, para después prenderles fuego; ahorcados en los caminos, o expuestos, acribillados de heridas, bajo las mordeduras del tórrido sol y de los mosquitos... Volvía a mi vista esta tragedia horrorosa, con esos muchachos asesinados, o esas mujeres ahorcadas, como si fueran tordos, en los árboles del Estado de Colima, o imaginando las líneas telefónicas con racimos de católicos balanceándose a diez metros de altura...Toda la epopeya de un pueblo mártir me acompañaba: treinta mil jóvenes, campesinos, obreros, estudiantes, resistiendo, con el fusil en sus manos, a los persecutores socialistas, después de haber agotado todos los medios legales de resistencia; cuatro mil muchachas aseguraban el abastecimiento de las municiones, con riesgo de sevicias abominables, seguidas de deportaciones a las «Islas Marías» al borde del Océano Pacífico. Estos eran los mártires y los héroes que yo veía cuando hablaba con los tiranos rojos de México.
Ellos estaban manchados por todos estos crímenes. Lo estaban también por sus robos, sus rapiñas, sus orgías.
En este país arruinado, en el que ya no había ni siquiera posibilidad de cobijar a seiscientos leprosos, en el que tres millones de habitantes habían huido para escapar de la hambruna, los jefes revolucionarios, que habían llegado al poder sin un solo «peso», ostentaban una riqueza escandalosa.
La hacienda del ministro Morones, en Talpam, tenía castillo, jardines, canales, teatro, cuadras repletas de caballos soberbios, sin contar las piscinas donde, durante las bacanales de los fines de semana, las mujeres reclutadas en los teatros de los suburbios realizaban sus abluciones bajo los focos convergentes de faros multicolores.
La hacienda del presidente Calles, donde fui en Navidad, situada entre la ciudad de México y Puebla, era, muy probablemente, la más bella del país. Una carretera magnífica, cuyo trazado fue estudiado por el propio Calles, la unía con la capital: fue el país, entiéndase bien, quien la financió. Todos estos gerifaltes poseían grandes fincas. Tenían joyas como viejas mujeres ligeras. Automóviles de lujo. Abultadas cuentas corrientes bancarias. Parecía que en esto consistía la revolución. En todo caso, fue así como en México los jefes rojos me la han mostrado...


Li anteriormente:
Mi Camino de Santiago (2002)

9 de maio de 2024

Los Demonios

Fiodor Dostoievski
Los Demonios (1873)

Esta obra de Dostoievski tem como pano de fundo a existência de um grupo secreto de conspiradores revolucionários, em redor do qual orbitam todas as personagens principais. A principal inspiração para a personagem manipuladora de Piotr Verhovenski, o líder deste grupo, terá sido o mentor da execução de um estudante acusado de delação, levada a cabo em Moscovo em 1869, no seio de um destes grupos revolucionários. Uma realidade que o escritor também conhecia por experiência própria, pois na juventude tinha pertencido a um grupo socialista que publicava um jornal clandestino, e por isso foi preso e condenado à morte, juntamente com 14 cúmplices. A pena foi comutada no último momento, mas esteve detido na Sibéria, de onde voltou profundamente modificado, rejeitando o radicalismo, defensor da Igreja ortodoxa e do czar.
Os Demonios, considerada entre as quatro principais obras de Dostoievski, é um retrato social e político da época, também um drama psicológico, e um prenúncio dos resultados catastróficos do niilismo político e moral que anos depois viriam a assolar a Rússia.

Stavrogin se detuvo y clavó sus ojos en los ojos vesánicos de su acompañante.
—Escuche. Para empezar provocamos una revuelta —Verhovenski siguió diciendo nerviosamente, agarrando continuamente a Stavrogin de la manga izquierda—. Ya se lo he dicho: llegaremos hasta la plebe. ¿Sabe que ya tenemos una fuerza enorme? Nuestra gente no es sólo la que mata e incendia, la que emplea armas de fuego al estilo clásico o muerde a sus superiores. Ésos sólo son un estorbo. Sin obediencia, las cosas no tienen sentido para mí. Ya ve que soy un pillo y no un socialista. ¡Ja, ja! Escuche, los tengo a todos ya contados: el maestro que se ríe con los niños del Dios de ellos y de su cuna es ya de los nuestros. El abogado que defiende a un asesino educado porque éste tiene más cultura que sus víctimas y tuvo necesariamente que asesinarlas para agenciarse dinero también es de los nuestros. Los escolares que matan a un campesino por el escalofrío de matar son nuestros. Los jurados que absuelven a todo delincuente, sin distinción, son nuestros. El fiscal que tiembla en la sala de juicio porque teme no ser bastante liberal es nuestro, nuestro. Los funcionarios, los literatos, ¡oh, muchos de ellos son nuestros, muchísimos, y ni siquiera lo saben! Además, la docilidad de los escolares y de los tontos ha llegado al más alto nivel; los maestros rezuman rencor y bilis. Por todas partes vemos que la vanidad alcanza dimensiones pasmosas, los apetitos son increíbles, bestiales... ¿Se da cuenta de la cantidad de gente que vamos a atrapar con unas cuantas ideíllas fabricadas al por mayor? Cuando me fui al extranjero hacía furor Littré con su teoría de que el crimen es demencia; cuando he vuelto ya no es demencia, sino sentido común, casi un deber y, cuando menos, una noble protesta. «¿Cómo no ha de matar un hombre educado si necesita dinero?». Pero esto no es más que el principio. El Dios ruso ya se ha vendido al vodka barato. El campesinado está borracho, las madres están borrachas, los hijos borrachos, las iglesias vacías, y en los tribunales lo que uno oye es: «O una garrafa de vodka o doscientos latigazos». ¡Oh, que crezca esta generación! ¡Lo malo es que no tenemos tiempo que perder; de lo contrario habría que permitirles emborracharse aún más! ¡Ay, qué lástima que no haya proletariado! Pero lo habrá, lo habrá. Todo apunta en esa dirección...
—Es lástima también que seamos más tontos de lo que éramos antes —murmuró Stavrogin prosiguiendo su camino.


Li anteriormente:
Os Irmãos Karamázovi (1880)
O Eterno Marido (1870)
O Idiota (1869)

20 de abril de 2024

O Calafrio


Henry James
O Calafrio (1898)

O Calafrio é o título português de The Turn of the Screw, também conhecido noutras traduções por A Volta do Parafuso. A novela foi publicada originalmente em 1898, acompanhada de Covering End, num livro intitulado The Two Magics. Qualificada como “novela gótica” tem, de facto, uma temática sobrenatural, desenvolvida de um modo não muito convencional, que narra a história de uma jovem preceptora, contratada por um cavalheiro londrino para acompanhar dois sobrinhos, Miles e Flora, durante as férias do Verão, em Bly, uma propriedade na província, com a indicação expressa de decidir todos os assuntos como bem entender e não recorrer, em caso algum, à sua pessoa. Chegada ao local, a preceptora vai-se apercebendo que os irmãos, de beleza angelical e comportamento exemplar, encontram-se sob o sortilégio de dois fantasmas: um antigo empregado da mansão e a preceptora que a antecedeu. Enfrentando uma cumplicidade de silêncios e horrores nunca verbalizados, a preceptora assume o desafio de romper a ligação maligna ali existente, ao mesmo tempo que a pressão da responsabilidade quase a conduz à quebra e à desistência.

Recordo-me de essa figura ter produzido em mim, ao revelar-se assim naquele crepúsculo luminoso, dois choques distintos de emoção: uma primeira e uma segunda surpresa. Esta última foi a constatação do erro que fora a primeira: o homem que eu tinha diante dos olhos não era aquele que eu, na minha precipitação, primeiramente imaginara. Isto causou-me uma tal confusão como nenhuma outra coisa me causou até hoje. Ver um desconhecido, num lugar isolado, causa medo a qualquer jovem educada e recatada; e a figura que eu via diante dos olhos, verifiquei-o em poucos segundos, não era de modo algum a imagem que tinha na minha mente. Não a vira em Harley Street, nunca a vira em parte alguma. Além disso, aquele local, só pelo facto desta presença, tornou-se, subitamente, sem que eu soubesse porquê, um local desolado. Pelo menos para mim, ainda hoje, no momento em que escrevo estas linhas, revivo essa sensação. Era como se o resto do cenário tivesse sido ferido de morte. Parece-me ainda que escuto o súbito silêncio que envolveu todos os ruídos da tarde. As gralhas pararam de crocitar no céu doirado, e aquela hora deliciosa perdeu instantaneamente toda a sua voz. Contudo, a natureza não sofrera nenhuma outra alteração a não ser aquela de que me apercebi com um espanto ainda maior. O céu continuava doirado, o ar transparente e o homem que me fitava do alto das muralhas era tão real como um quadro na sua moldura. Foi por isso que me recordei, com extraordinária rapidez, de todas as pessoas que ele poderia ser... mas não era. Contemplamo-nos à distância durante o tempo suficiente para eu perguntar a mim própria, com toda a intensidade, quem ele seria e de sentir, perante a minha incapacidade de o saber, um espanto cada vez maior.

Li anteriormente:
Daisy Miller (1878)

17 de abril de 2024

The British Barbarians


Grant Allen
The British Barbarians (1895)

Cheguei a este livro devido a numa nota de rodapé de A Máquina do Tempo de H.G. Wells, acerca da transcrição de uma citação de Grant Allen; a nota do tradutor apontava para a curiosidade de The British Barbarians ter sido editado no mesmo ano, tendo por tema uma situação inversa: um viajante do século XXV chegava à Inglaterra do século XIX. Na posse desta informação é fácil deduzir que Bertram Ingledew é o tal viajante (só no último capítulo o seu segredo é desvendado), apresentado como um estranho que chega a Brackenhurst, um arrabalde burguês ao sul de Londres, sem qualquer noção das normas sociais em vigor. Assim, após Philip Christy, um escriturário funcionário público, tê-lo apresentado a contragosto no seu meio familiar e comunitário, Bertram vai fazendo uma crítica modernista das convenções sociais victorianas, ridicularizando-as como “tabus” e “fetiches”, traçando paralelos com outros tabus existentes em sociedades primitivas de África ou das ilhas do Pacífico.
Grant Allen, nascido no Canadá mas educado em Inglaterra, começou por escrever trabalhos científicos mas em breve se voltou para a ficção, tendo publicado cerca de 30 novelas entre 1884 e 1899, ano da sua morte, das quais se destaca The Woman Who Did, também de 1895, cujo enredo sobre o casamento e o papel da mulher o envolveu em escândalo e se tornou num best-seller.
É demasiado fácil perceber onde Grant Allen quer chegar com The British Barbarians, apresentado ilusoriamente como um pioneiro da FC. Talvez não fosse de esperar outra coisa de um escritor ateu e socialista no final do séc. XIX; contudo, outros autores da mesma época, com convicções semelhantes, têm obras bem mais interessantes – H.G. Wells, por exemplo. O excerto pertence à Introdução, que contém as páginas mais significativas e elucidativas do livro.

Most novels nowadays have to run as serials through magazines or newspapers; and the editors of those periodicals are timid to a degree which outsiders would hardly believe, with regard to the fiction they admit into their pages. Endless spells surround them. This story or episode would annoy their Catholic readers; that one would repel their Wesleyan Methodist subscribers; such an incident is unfit for the perusal of the young person; such another would drive away the offended British matron. I do not myself believe there is any real ground for this excessive and, to be quite frank, somewhat ridiculous timidity. Incredible as it may seem to the ordinary editor, I am of opinion that it would be possible to tell the truth, and yet preserve the circulation. […] 

The romance that appeals to the average editor must say or hint at nothing at all that is not universally believed and received by everybody everywhere in this realm of Britain. But literature, as Thomas Hardy says with truth, is mainly the expression of souls in revolt. Hence the antagonism between literature and journalism. 

Why, then, publish one's novels serially at all? Why not appeal at once to the outside public, which has few such prejudices? Why not deliver one's message direct to those who are ready to consider it or at least to hear it? Because, unfortunately, the serial rights of a novel at the present day are three times as valuable, in money worth, as the final book rights. A man who elects to publish direct, instead of running his story through the columns of newspaper, is forfeiting, in other words, three quarters of his income. This loss the prophet who cares for his mission could cheerfully endure, of course, if only the diminished income were enough for him to live upon. But in order to write he must first eat. […] 

That, too, is the reason that impels me to embody such views as these in romantic fiction, not in deliberate treatises. “Why sow your ideas broadcast,” many honest critics say, “in novels where mere boys and girls can read them? Why not formulate them in serious and argumentative books, where wise men alone will come across them?” The answer is, because wise men are wise already; it is the boys and girls of a community who stand most in need of suggestion and instruction. Women, in particular, are the chief readers of fiction, and it is women whom one mainly desires to arouse to interest in profound problems by the aid of this vehicle. Especially should one arouse them to such living interest while they are still young and plastic, before they have crystallised and hardened into the conventional marionettes of polite society. Make them think while they are young; make them feel while they are sensitive: it is then alone that they will think and feel, if ever. I will venture, indeed, to enforce my views on this subject by a little apologue which I have somewhere read, or heard,—or invented. […] 

The business of the preacher is above all things to preach; but in order to preach, he must first reach his audience. The audience in this case consists in large part of women and girls, who are most simply and easily reached by fiction. Therefore, fiction is to-day the best medium for the preacher of righteousness who addresses humanity.

15 de abril de 2024

La Última Etapa de la Globalización


Federico Rivanera Carlés
La Última Etapa de la Globalización (2010)

O historiador argentino Federico Rivanera Carlés tem uma série de livros dedicados à análise do judaísmo (recomenda-se, de passagem, um vídeo no youtube, da TLV1, onde dá a sua opinião sobre o presidente Javier Milei). La Última Etapa de la Globalización: El Gobierno Mundial Judio faz a história da ascensão do poder judeu desde o séc. XVI e, mais abertamente, desde a Revolução Francesa, através de uma aliança entre o poder financeiro e a subversão. Um processo que seguiu várias fases históricas – a democracia capitalista, o bolchevismo, o sionismo – onde a preponderância e protagonismo dos judeus no desenrolar destes processos foi determinante, sem perder de vista o fim último da sua actuação: um destino messiânico de domínio global, que se lê claramente nas inúmeras citações e textos deixados por pensadores e políticos judeus desde o séc. XIX. Apoiados nos preceitos talmúdicos, exclusivistas e racistas – o autor nota que, mais que uma religião, é um programa político –, o judaísmo tem triunfado, ocultando sempre que necessário a sua verdadeira natureza, contando com a indispensável colaboração de uma imensa teia de influências. Dos instrumentos ao seu serviço merece destaque a judaização da Igreja pós-conciliar, ou a formação da União Europeia, entre os mais notáveis.
La Última Etapa de la Globalización é um livro no qual se desmonta a propaganda do globalismo e se expõem os objectivos finais da chamada Nova Ordem Mundial.

En sentido coincidente, a comienzos de la centuria pasada el anarquista judío Rudolf Kayser señaló que para llegar a la era mesiánica había que abolir el Estado, tarea en la cual los judíos cumplirían un papel esencial debido a que carecen del mismo, y porque "la idea de Estado es una noción no judía". El internacionalismo es connatural a los judíos porque son un pueblo nómada. "Goy, en cambio, observa Barylko, nace de una raíz que significa cuerpo, la gente constituida en cuerpo, en sociedad, en estado, en un orden fijo e inmutable". El internacionalismo de los judíos se complementa a la perfección con su objetivo mesiánico: para construir el "gran edificio" mesiánico –observa el afamado rabino Elías Benamozegh– Dios ha creado "un pueblo internacional, Israel". De ahí que los judíos sean los teóricos y propagandistas del mundialismo por antonomasia. Al respecto el prestigioso escritor judío Bergman observa que, "cuando se rompieron las barreras sociales y políticas en el siglo XIX, los pensadores judíos estuvieron entre los representantes más radicales del internacionalismo y de la idea de humanismo. Parece que después de dos mil años el universalismo y el humanismo de los profetas florecieron en las figuras de millares de filósofos judíos, socialistas e internacionalistas". Y estima también que "el estado soberano, la bandera, la raza" no son más que ídolos. 

El plan judío está en marcha acelerada a través de la Masonería –fundada y dirigida por los judíos–, y los propulsores del internacionalismo, a saber, el capitalismo demoliberal, el marxismo y el anarquismo, en sus diversas variantes. También existen poderosas organizaciones mundialistas donde los judíos y masones tienen relevante papel, como el Royal Institute of International Affairs (RIIA), fundado en Londres, en 1919; el Council of Foreign Relations (CFR), denominación adoptada por el anterior en los Estados Unidos, donde fue organizado el año 1921, en la ciudad de Nueva York; el Club Bilderberger, que nuclea a la alta finaliza, a grandes empresarios, políticos e intelectuales liberales y marxistas, se creó en 1954 en Holanda a instancias del CFR; la Trilateral Commission, formada en 1972, que agrupa igualmente a plutócratas, políticos e ideólogos demócratas y marxistas, etc., de EE. UU., Europa y Japón. Entre sus promotores se halla el influyente Consejero de Seguridad Nacional de James Carter y directivo del CFR, Zbigniew Brzezinki, judío polaco naturalizado estadounidense en 1958. 

El plan mundialista cuenta con un aliado importantísimo: la Iglesia neojudía surgida del infausto Concilio Vaticano II, el cual pudo realizarse, sin duda, por la victoria del judaísmo internacional en 1945 por medio de la alianza demoplutocrática-soviética. La concepción de la Iglesia Postconciliar sobre la irrevocabilidad de la elección de Israel y de las promesas inherentes, lleva inevitablemente –como en el dispensacionalismo y el protestantismo modernista– al reino mesiánico, i.e., al Estado mundial judío. La necesidad de un gobierno universal fue expuesta por primera vez en la encíclica Pacem in terris (11-IV-1963), y desde entonces es una de las metas oficiales de la Iglesia Católica Postconciliar.

[...]

El sionismo se halla ligado simultáneamente al movimiento subversivo mundial y al capitalismo demoliberal, el cual, dígase lo que se diga, pertenece también a dicho movimiento pues ha sido el primer estadio de la subversión del ordenamiento natural y cristiano de la sociedad. El capitalismo, dominado completamente por los hebreos, ha financiado, sostenido y respaldado al sionismo desde sus orígenes, y en el plano ideológico es notoria la identidad de éste con el marxismo y el anarquismo, en cualquiera de sus variantes. "Es obvio, señala, Wistrich, que para los padres fundadores de la moderna Israel la revolución sionista se extendía más allá del reino de la política y de la creación de un estado como fin en sí. El renacimiento nacional judío era concebido no sólo como un movimiento de vanguardia del pueblo judío, sino como un batallón integrado, aunque diferenciado, dentro de un ejército internacional [...] El renacimiento nacional judío era para Ben Gurión parte de un tremendo movimiento que envuelve a toda la humanidad: la revolución mundial". 

De esto se desprende que la concreción de los objetivos mesiánicos está supeditada al triunfo del ejército internacional de la Revolución Mundial, cuya dirección ejercen los judíos, ya que aparte del "batallón" sionista, sus hermanos de raza comandan los restantes que operan en el seno de las naciones gentiles. La caída de la URSS y sus satélites, así como la desaparición de los partidos bolcheviques en gran parte del mundo, no ha detenido la Revolución Mundial en razón de que el marxismo nutre la ideología de la socialdemocracia, una de las fuerzas dominantes en las democracias, a la que se han incorporado presurosos no pocos partidos bolcheviques. Por otra parte, la Revolución Mundial, repito, engloba a las naciones democapitalistas, tradicionales impulsoras del mundialismo, y a la Masonería –y sus colaterales el Rotary Club, el Club de Leones, etc.–, cuyo decisivo protagonismo respecto al gobierno mundial ya se ha visto, así corno al Club Bilderberger, la Trilateral Commission, el Council of Foreign Relations, el Royal Institute of International Affairs, etc. Va de suyo que el proceso mesiánico se definirá fuera del Estado de Israel, por medio de "el internacionalismo mesiánico de la Diáspora". 

El papel que desempeña el sionismo pone en evidencia el grueso equívoco en que incurren quienes lo diferencian del judaísmo, como si fuera posible concebir su existencia fuera de éste. Por otro lado, la minoría judía que se opone al sionismo lo hace por razones tácticas y no por disensiones en torno a los fines del judaísmo.

10 de abril de 2024

Death In June – Misery And Purity


Robert Forbes
Death In June – Misery And Purity (1995)

Death In June – Misery And Purity é um livro sobre a banda inglesa de industrial e neofolk Death In June, formada em 1981 por Douglas Pearce e Tony Wakeford, que tinham tocado anteriormente nos Crisis. O autor afirma ter baseado a escrita em artigos seus anteriormente publicados nos fanzines Fractured e Impulse, e pretende fazer a história e uma interpretação pessoal dos DIJ até à data, finais de 1994, quando a edição de “Rose Clouds Of Holocaust” estava agendada e o alinhamento dos temas era já conhecido. Contém ainda uma listagem completa da discografia e um capítulo final dedicado aos Crisis. O livro é, portanto, uma história pormenorizada da banda, desde os seus inícios, com excertos de entrevistas dadas pelos músicos ao longo dos anos, citações da imprensa musical, reproduções fac-símile de artigos, folhetos e outro material impresso, a perspectiva do autor sobre o significado e contextualização das letras/poemas, sempre ambíguos e complexos, as capas dos discos e outros motivos de interesse em redor da banda. No fundo, o livro de um fan dirigido aos outros fans, mas feito com profissionalismo e esmero.

‘Fields Of Rape’ lost its sinister air for me on listening to the original version of this song on Current 93’s excellent “Dogs Blood Rising” LP which makes it quite clear that the word rape refers to the yellow Eurasian plant cultivated for its seeds and not the unlawful act of sexual intercourse against that person’s will. It’s not recorded anywhere how this particular collaboration between Tibet and Death In June came about, but I can only guess that Douglas P. had been so impressed by some of the lyrics to this song that he wanted to use them set to his own music. And while the version that appears on “Nada!” is not my favourite one, it is preferable to the original long industrial sounding nightmare as performed by Current 93. I’m unsure where Tibet drew inspiration for these lyrics, but a certain Isidore Ducasse is said to appear in the line up of C93 on “Dogs Blood Rising”. This in fact was the real name of Comte de Lautreamont who wrote the book “Maldoror”. It’s a real shot in the dark, but is ‘Fields Of Rape’ inspired in part by this book? 

[…] 

“Brown Book” seems much more sinister and darker than “The World That Summer” which might reflect Douglas P’s growing resignation and a preoccupation with death I believe he had at that time. Douglas P. said in Attitude Incertaine #1 that he feels a real repugnance for death. (The fanzine I think came out in 1988 but most of the interview revolves around “Brown Book”.) And partly because of this he started to feel very uneasy about the name Death In June simply because death is mentioned in it. Possibly a picture is starting to form for us of Douglas P’s state of mind during the recording of this LP. This preoccupation is possibly continued in the statement scratched into the end grooves “A holy death for Douglas” and in the first track on this LP, ‘Heilige Tod’ (Holy Death), which is just those two words repeated by Rose McDowall and John Balance without the accompaniment (or hindrance) of musical instruments. 

The predominant instrument throughout this LP is the acoustic guitar and there was a reason behind this new musical angle as Douglas P. explained in Fear And Loathing #9:- “I think that way it approaches the purity of what we want to do in a much better way.” That attaining of purity is unmistakable. In a French interview, Douglas P. remarked:- “I like the sound of misery and purity.” Both are to be found on “Brown Book”.

6 de abril de 2024

Eurico, o Presbítero


Alexandre Herculano
Eurico, o Presbítero (1844)

Eurico o Presbytero é uma narrativa que decorre no século VIII, entre os últimos dias da Hispânia visigótica, caída aos pés dos sarracenos, e o seu renascimento, onze anos depois, com Pelágio, em Covadonga. Eurico, a personagem principal, entrou no clero depois de um amor impossível, e transforma-se no cavaleiro negro após a invasão árabe, um combatente temerário nos campos de batalha; no final, volta a ser confrontado com o seu amor, separado agora pelos seus votos religiosos. Um romance histórico de desenlace trágico, típico da literatura romântica, apesar da ressalva que o autor escreve nas notas finais, sobre a ausência de fontes históricas acerca da vida quotidiana dos visigodos.
O excerto escolhido pertence à descrição da batalha de Guadalete (Chryssus), mantendo a ortografia original da edição lida, de 1859.

Ao som, porém, das trombetas que annunciavam o renovar do combate, o cavalleiro negro não tardára a apparecer onde mais accesa andava a briga. Via-se, comtudo, que era principalmente nas fileiras dos arabes, onde as púas agudas e cortadoras da sua temerosa borda, ou maça d'armas, faziam maiores estragos. Mas quando algum dos godos transfugas ousava esperar-lhe os golpes, ou tentava ferí-lo, ouvia-se-lhe um rugido como o de maldicção preso na garganta por colera immensa, e o seu miseravel contrario não tardava a golfar o sangue na terra da patria que trahíra, e a entregar aos demonios a alma tisnada pela infamia da perfidia. Os arabes supersticiosos quasi criam ver nelle Eblis, o rei infernal do Gehenna, armado da espada percuciente, solto por Deus para os punir das offensas commettidas contra o divino koran. Diante delle recuavam os mais esforçados mosselemanos, e só de longe os frecheiros lhe disparavam alguns tiros, que se lhe empennavam no escudo, ou roçando por estes vinham bater-lhe na armadura, debaixo da qual manava já o sangue de algumas feridas, e os membros lassos começavam a desmentir a impetuosidade do espirito. 

Como na vespera, o sol inclinava-se das alturas do céu para o occaso, e ainda a batalha estava indecisa, se é que o terror que incutia o cavalleiro negro no logar onde pelejava, não fazia pender um pouco a balança do lado dos godos. De repente um grito agudo partiu do mais espesso revolver do combate; este grito gigante, indizivel, d'intima agonia, era o brado unisono de muitos homens; era o annuncio doloroso de um successo tremendo. O cavalleiro negro, que, impellido pela ebriedade do sangue, e semelhante a rochedo que se despenha pelo pendor da montanha, ia derramando a morte através dos esquadrões do Islam, volveu os olhos para o logar onde soára o bramido retumbante da multidão. Era no centro do exercito godo. As tiuphadias vergavam em semicirculos para a batida do Chryssus, como o açude minado pela torrente, a ponto de desprender-se das margens, oscilla e se curva bojando sobre a veia inferior das aguas. A muralha de ferro, que, posta entre o Islamismo e a Europa, dizia á religião do propheta d'Yatrib — não passarás d'aqui — vacilla como a quadrella de cidade fortificada batida muitos dias por vaivem d'inimigos. Por fim aquelles vastos massiços d'homens, ligados pela cadeia fortissima da disciplina, do pudor militar, e do esforço, derivam rotos ante os turbilhões dos arabes, ondeam, e derramam-se na campina. Pelo boqueirão enorme aberto no centro da hoste goda precipitam-se as ondas dos cavalleiros mohametanos, e após elles a turba dos bereberes com um bramido barbaro. Debalde as alas tentam ajunctar-se, travar-se uma com outra, soldar os membros despedaçados do leão iberico. Passa por lá a impetuosa corrente dos netos d'Agar, que envolve e arrasta os que pretendem vadea-la. Deus contára os dias do imperio de Leuwighild, e o sol do ultimo delles era o que descia já para o occidente!

2 de abril de 2024

S is for Space


Ray Bradbury
S is for Space (1966)

Muito do escrevi acerca de R is for Rocket aplica-se igualmente a S is for Space. E, pelo paralelismo dos títulos, não é de admirar a existência de edições que agregam os dois livros. S is for Space recolhe outros 16 contos, datados entre 1946 e 1962, narrativas insólitas tantas vezes de final aberto, onde a FC é, quando muito, uma pequena porção na temática fantástica da obra de Ray Bradbury, como bem sabem os seus leitores. Daí o título que o jornal Libération fez em 2012, num artigo dedicado ao escritor, após a sua morte: “Ray Bradbury, l'homme qui aimait la fiction, pas la science.” O trecho escolhido pertence a “Dark They Were, and Golden-Eyed”, publicado originalmente em 1949 sob o título “The Naming of Names”.

In the following days, Bittering wandered often through the garden to stand alone in his fear. As long as the rockets had spun a silver web across space, he had been able to accept Mars. For he had always told himself: Tomorrow, if I want, I can buy a ticket and go back to Earth.
But now: The web gone, the rockets lying in jigsaw heaps of molten girder and unsnaked wire. Earth people left to the strangeness of Mars, the cinnamon dusts and wine airs, to be baked like gingerbread shapes in Martian summers, put into harvested storage by Martian winters. What would happen to him, the others? This was the moment Mars had waited for. Now it would eat them.
He got down on his knees in the flower bed, a spade in his nervous hands. Work, he thought, work and forget.
He glanced up from the garden to the Martian mountains. He thought of the proud old Martian names that had once been on those peaks. Earthmen, dropping from the sky, had gazed upon hills, rivers, Martian seats left nameless in spite of names. Once Martians had built cities, named cities; climbed mountains, named mountains; sailed seas, named seas. Mountains melted, seas drained, cities tumbled. In spite of this, the Earthmen had felt a silent guilt at putting new names to these ancient hills and valleys.
Nevertheless, man lives by symbol and label. The names were given.
Mr. Bittering felt very alone in his garden under the Martian sun, anachronism bent here, planting Earth flowers in a wild soil.


Li anteriormente:
R is for Rocket (1962)
Crónicas Marcianas (1950)
O Homem Ilustrado (1951)

27 de marzo de 2024

R is for Rocket


Ray Bradbury
R is for Rocket (1962)

A bibliografia de Ray Bradbury é composta essencialmente de contos, pequenos textos publicados um pouco por todo o lado, em número superior a quatro centenas. Algumas das suas novelas, como The Martian Chronicles ou Dandelion Wine, são, elas próprias, a reutilização de textos previamente existentes, inseridos e adaptados a um formato mais longo. Assim, exceptuando as onze novelas, os restantes títulos da sua autoria são, na grande maioria, antologias de contos, incluindo por vezes um par de textos inéditos, pelo que é frequente encontrar nelas alguns contos já aparecidos em livros anteriores – como aqui acontece com “The Long Rain” ou “The Fog Horn”, por exemplo. R is for Rocket é uma dessas colectâneas e contém 17 contos datados entre 1943 e 1956. O excerto abaixo foi retirado de “The Strawberry Window”.

His wife moved, a slight turn of her head.
Bob," she said at last, "I want to go home!"
"Carrie!"
"This isn't home," she said. He saw that her eyes were wet and brimming. "Carrie, hold on awhile!"
"I've got no fingernails from holding on now!"
As if she still moved in her sleep, she opened her bureau drawers and took out layers of handkerchiefs, shirts, underclothing, and put it all on top of the bureau, not seeing it, letting her fingers touch and bring it out and put it down. The routine was long familiar now. She would talk and put things out and stand quietly awhile, and then later put all the things away and come, dry-faced, back to bed and dreams. He was afraid that some night she would empty every drawer and reach for the few ancient suitcases against the wall.
"Bob. . ." Her voice was not bitter, but soft, featureless, and as uncolored as the moonlight that showed what she was doing. "So many nights for six months I've talked this way, I'm ashamed. You work hard building houses in town. A man who works so hard shouldn't have to listen to a wife gone sad on him. But there's nothing to do but talk it out. It's the little things I miss most of all. I don't know—silly things. Our front-porch swing. The wicker rocking chair, summer nights. Looking at the people walk or ride by those evenings, back in Ohio. Our black upright piano, out of tune. My Swedish cut glass. Our parlor furniture—oh, it was like a herd of elephants, I know, and all of it old. And the Chinese hanging crystals that hit when the wind blew. And talking to neighbors there on the front porch, July nights. All those crazy, silly things . . . they're not important. But it seems those are things that come to mind around three in the morning. I'm sorry."
"Don't be," he said. "Mars is a far place. It smells funny, looks funny, and feels funny. I think to myself nights too. We came from a nice town."
"It was green," she said. "In the spring and summer. And yellow and red in the fall. And ours was a nice house; my, it was old, eighty-ninety years or so. Used to hear the house talking at night, whispering away. All the dry wood, the banisters, the front porch, the sills. Wherever you touched, it talked to you. Every room a different way. And when you had the whole house talking, it was a family around you in the dark, putting you to sleep. No other house, the kind they build nowadays, can be the same A lot of people have got to go through and live in a house to make it mellow down all over. This place here, now, this hut, it doesn't know I'm in it, doesn't care if I live or die. It makes a noise like tin, and tin's cold. It's got no pores for the years to sink in. It's got no cellar for you to put things away for next year and the year after that. It's got no attic where you keep things from last year and all the other years before you were born. If we only had a little bit up here that was familiar, Bob, then we could make room for all that's strange. But when everything, every single thing is strange, then it takes forever to make things familiar."
He nodded in the dark. "There's nothing you say that I haven't thought."


Li anteriormente:
Crónicas Marcianas (1950)
O Homem Ilustrado (1951)
Fahrenheit 451 (1953)

25 de febreiro de 2024

O Mistério das Catedrais



Fulcanelli
O Mistério das Catedrais (1926)

Ninguém sabe quem se ocultou sob o pseudónimo Fulcanelli, à excepção de Eugène Canseliet, autor dos prefácios desta obra e seu pretenso discípulo. Especula-se que Canseliet poderia ser o verdadeiro autor, tal como Jean-Julien Champagne – responsável pelas gravuras que acompanhavam a edição original, entretanto substituídas por fotografias em edições posteriores –, entre outras hipóteses aventadas. O livro conheceu algum interesse no período entre guerras, mas foi sobretudo a partir do aparecimento d’O Despertar dos Mágicos, de Pauwels e Bergier, onde é profusamente citado, que a sua projecção aumentou.

Segundo Fulcanelli, as catedrais góticas eram o repositório do conhecimento da alquimia medieval, esculpido na pedra, à vista de todos, mas acessível apenas aos iniciados, capazes de apreender o significado dos símbolos e da doutrina hermética. Descrevendo a alquimia como ciência exacta, mas esotérica, cujo saber é transmitido de mestre a discípulo, faz alusão a uma série de segredos que não podem ser revelados a profanos – é legítimo, então, perguntar qual o sentido de editar um livro como este, por certo dirigido aos profanos, dado que as “revelações” no campo da alquimia serão o bê-á-bá de qualquer praticante digno desse nome.
O Mistério das Catedrais faz um estudo hermético da catedral gótica, tomando Notre-Dame de Paris como maior exemplo, analisando esculturas e pormenores arquitectónicos, fazendo depois o paralelo com a Notre-Dame de Amiens, acrescentando ainda dois exemplos adicionais de arquitectura civil em Bourges, e um cruzeiro em Hendaia. Poder-se-ia ser tentado a reconhecer uma apropriação de temas sagrados e cenas bíblicas, existentes nas catedrais, a posteriori, para a interpretação alquímica e esotérica; no entanto, torna-se mais verosímil ter existido alguma influência da alquimia no alto clero, pois não parece credível que a Igreja não encontrasse no seu seio alguém capaz de identificar aquela simbologia, à época, e financiasse as construções sem a mínima noção do seu significado, como parece sugerir Fulcanelli. Fica também por perceber se Paris e Amiens são casos isolados, ou até que ponto as catedrais góticas francesas (e fora de França) estarão recobertas de simbologia alquímica.

O século XVIII, reino da aristocracia e do belo espírito, dos abades da corte, das marquesas empoadas, dos gentis-homens de peruca, tempo abençoado dos mestres de dança, dos madrigais e das pastoras de Watteau, o século brilhante e perverso, frívolo e amaneirado que deveria afogar-se em sangue, foi particularmente nefasto para as obras góticas. 
Arrastados pela grande corrente de decadência que tomou, sob Francisco I, o nome paradoxal de Renascimento, incapazes de um esforço equivalente ao dos seus antepassados, completamente ignorantes da simbólica medieval, os artistas aplicaram-se a reproduzir obras bastardas, sem gosto, sem carácter, sem pensamento esotérico, mais do que a prosseguir e a aperfeiçoar a admirável e sã criação francesa.
Arquitectos, pintores, escultores, preferindo a sua própria glória à da Arte, dedicaram-se aos modelos antigos imitados em Itália.
Os construtores da Idade Média tinham como apanágio a fé e a modéstia. Artesãos anónimos de puras obras-primas, construíram para a Verdade, para a afirmação do seu ideal, para a propagação e a nobreza da sua ciência. Os do Renascimento, preocupados sobretudo com a sua personalidade, ciosos do seu valor, construíram para a posteridade do seu nome. A Idade Média deveu o seu esplendor à originalidade das suas criações; o Renascimento deveu a sua fama à fidelidade servil das suas cópias. Aqui, um pensamento; ali, uma moda. De um lado, o génio; do outro, o talento. Na obra gótica, a construção permanece submetida à Ideia; na obra renascentista, domina-a e apaga-a. Uma fala ao coração, ao cérebro, à alma: é o triunfo do espírito; a outra dirige-se aos sentidos: é a glorificação da matéria. Do século XII ao século XV, pobreza de meios mas riqueza de expressão; a partir do século XVI, beleza plástica, mediocridade de invenção. Os mestres medievais souberam animar o calcário vulgar; os artistas do Renascimento deixaram o mármore inerte e frio.
É o antagonismo desses dois períodos, nascidos de conceitos opostos, que explica o desprezo do Renascimento e a sua profunda repugnância por tudo o que era gótico.
Tal estado de espírito devia ser fatal à obra da Idade Média; e é a ele que, efectivamente, devemos atribuir as inúmeras mutilações que hoje deploramos.

9 de febreiro de 2024

O que Há-de Ser o Mundo no Ano Três Mil


Pedro José Supico de Morais
O que Há-de Ser o Mundo no Ano Três Mil (1860)

Este livro tem uma história algo nebulosa. Foi publicado em Lisboa em 1860, sem nenhuma referência ao nome do autor na capa ou no frontispício, e era preciso ler a primeira página de texto, a "Protestação", para encontrar o nome de Pedro José Suppico de Moraes. E só na página 179 se revela ao leitor o nome do autor original da obra O que Ha de ser o Mundo no Anno Tres Mil: E. Souvestre. Na verdade, o francês Émile Souvestre escreveu Le Monde tel qu’il Sera em 1846, mas Supico de Morais (pseudónimo de Sebastião José Ribeiro de Sá) não se limitou a fazer a tradução, antes uma adaptação para o leitor português do século XIX, com alterações significativas ao texto original.
Assim, Marta e Maurício, jovem casal na contemplação da paisagem nocturna parisiense, expressam o desejo de poder ver o belo futuro longínquo, dormir durante séculos para acordar num mundo perfeito. De imediato aparece um ente demoníaco, Sir John Progresso, que se dispõe a fazer-lhes a vontade, e eis que Marta e Maurício acordam no ano 3000, numa sociedade distópica, cuja descrição fantasiosa e caricatural destina-se sobretudo a ridicularizar, pelo exagero, o materialismo da burguesia novecentista. Este admirável mundo novo, entre a sátira corrosiva e alguma nota sentimental, não se enquadra propriamente na ficção-científica, ao modo de Júlio Verne ou H.G. Wells, tem mais afinidades com as viagens fantásticas de Jonathan Swift ou Cyrano de Bergerac.

O observatorio da cidade Sem-Egual estava edificado no centro de um espaçoso jardim, e ficava em altura propria, a fim de, sem obstaculo, descobrir o horisonte.
Era nesse recinto consagrado ás lentes e ás tabellas, que o maior astronomo da capital mantinha em escrupulosa exactidão o registro civil dos corpos celestes, contendo com fabuloso escrupulo, em muitas casinholas riscadas, as allianças e a época da sua morte. A lua era ha muito tempo o particular objecto da attenção do sabio. De dia andava à procura della, e á noite ficava horas inteiras em contemplação ante o pallido astro, como dizem os poetas.
Quando Palafox, o doutor, e seus hospedes entraram, o sabio tinha a mão esquerda sobre o joelho, e a direita no movimento do telescopio pelo qual olhava em extasis com queixo caido e as farripas erguidas em volta da espaçosa calva.
— Ainda os estou vendo, dizia elle a Palafox sem se voltar; são os mesmos de hontem.
— Estaes a vêr quem? perguntou o academico aproximando-se.
— Quem? replicou Palafox, que tinha estado aopé do astrologo, o mesmo par de amantes lunaticos, que o nosso illustre amigo está observando ha oito dias, tendo sido testimunha de todos os preliminares da paixão : signaes telegraphicos pelas janellas, troca de cartas, e saltos pelos muros.
— Eil-os que se aproximam, interrompeu o astronomo. Distingo tudo perfeitamente, menos o rosto da mulher, porque está cuberto com um veu. A scena é n'um jardim. . . com um kiosque. . . Lá se assentam á sombra de uma figueira.
— Mau signal, resmungou o doutor ; é a arvore perto da qual nossa primeira mãe encontrou Satanaz!
— A mulher parece assustada. . . disse o astrólogo, sem deixar de olhar pelos vidros do telescopio, nem um momento. . . Olha em roda de si como quem desconfia.
— Dar-se-ha caso que na lua também haja maridos! observou o corretor de narizes e generos coloniaes; e voltando-se para o academico Universal, como quem se lembra de uma coisa a proposito de outra, disse-lhe : Meu doutor se me explicasseis a fórma symbolica do crescente da lua muito vos agradeceria. . .
— Silencio pelo amor de Deus, bradou o astronomo ; a lua póde ter ouvidos. . . a mulher está resolvida a sentar-se.
Neste ponto começou o seguinte dialogo entre os dois académicos :
— Muito bem! e depois. . .
— Elle pede-lhe a mão com um gesto. . .
— E ella?
— Resiste.
— É para que peça as duas. . .
— Elle da-lhe um abraço. . .
— Bom signal.
— Ajoelha a seus pés. . .
— Ora essa, exclamou Palafox, em tal caso a vida na lua não é muito differente da que passamos por este mundo.
— Parece-me que deve haver alguma identidade, interrompeu sorrindo Mauricio.
— Mas por que razão deve existir essa identidade? perguntou o dr. Universal.
Maurício respondeu, porque o telescopio retomara a sua posição horisontal, e em vez de estar voltado para a lua, está na direcção do jardim.
O astronomo recuou dando um salto de cabrito.
— O jardim! repetiu elle . . . os coqueiros! . . o kiosque! . . . a figueira! . . .
— Tudo isto está diante da nossa vista.
O astronomo correu novamente para o telescópio.
— É verdade! disse elle. . . nunca tinha reparado em similhante coisa. E pondo-se em pé, espantado como um touro saido do curro ao estacar com a praça povoada de milhares de espectadores, eis que brada :
— Mas quem será a mulher que ia deixar cair o veu? . . . Dá nova investida ao telescopio, e com um grito sáem-lhe dos labios estas palavras :
— É minha mulher!
O que o pobre homem julgava vêr na lua é o que se estava passando em sua casa.
Houve um momento de perturbação geral. Palafox e o dr. Universal olharam um para o outro, Mauricio affastou-se um pouco da scena, e o dr. Telescópio foi cair sobre uma cadeira pallido e estupefacto.
— Não era o nosso querido satellite, balbuciou elle a final com terror.
— Era o vosso jardim o campo das observações que me admiravam, redargiu Palafox.

5 de febreiro de 2024

Infiltración Mundial


Salvador Borrego
Infiltración Mundial (1968)  

Infiltração Mundial tem muitos pontos de contacto com Derrota Mundial, refazendo a mesma cronologia histórica, desta vez mais focado na infiltração marxista no coração do III Reich que, em última análise, o conduziu à derrota. Sabe-se que a doutrina de Marx não se destinava, originalmente, à Rússia (então um país quase medieval), mas aos países onde o capitalismo se encontrava mais desenvolvido, nomeadamente a Alemanha. A Revolução de Outubro foi uma oportunidade inesperada, consequência da 1GM, e o regime leninista passou a ser defendido com unhas e dentes, por políticos e banqueiros internacionais, com o fito de estender logo que possível a Revolução Mundial à Alemanha; a união do colosso industrial com o colosso de matérias-primas seria imparável. Durante a República de Weimar os dois países assinaram, em 1922, o Tratado de Rapallo, que teve como consequência a transferência massiva do avançado conhecimento técnico e industrial alemão para a URSS, permitindo aos soviéticos uma industrialização vertiginosa, sem que a Alemanha tenha tido contrapartidas visíveis. Com a chegada de Adolf Hitler ao poder o panorama mudou; no entanto, os dissimulados bolchevistas alemães conseguiram permanecer infiltrados no aparelho estatal, a todos os níveis, sem desistir do projecto revolucionário inicial. No desenrolar da 2GM essa teia de cumplicidades sabotou todo o esforço de guerra com o único fito de salvar o marxismo estalinista, procurando a derrota da Alemanha e a submissão a Moscovo. A infiltração estava colocada em postos cruciais: altas chefias do Estado Maior alemão, no Alto Comando, na Gestapo (surpreendentemente ingénua, apesar da imagem diabólica que dela se criou), até na própria SS. O Almirante Canaris, director do serviço de contra-espionagem e um dos traidores mais notórios, passou informação primordial ao inimigo durante cinco anos de guerra, ao mesmo tempo que ludibriava com informação falsa o lado alemão. Na verdade, o inimigo tinha todas as informações e todos os pormenores das movimentações militares seis a doze horas depois das decisões tomadas em Berlim, através de um contacto rádio via Suíça, o que lhe permitia anular o efeito surpresa e tomar as contra-medidas adequadas. Grande parte desta conspiração foi desmantelada após o atentado de 20 de Julho de 1944, demasiado tarde porém para mudar o curso da guerra. 

A infiltração estava também espalhada por todo o Ocidente, como se comprovou no pós-guerra, votada ao triunfo do marxismo (enquanto ele foi instrumento útil dos poderes nas sombras) e permite perceber, por exemplo, as razões profundas que levaram à designada "caça às bruxas" do senador McCarthy, que nada teve a ver com uma perseguição paranóica e injustificada, tal como tem sido apresentada ao grande público.

El Movimiento de Infiltración no tenía muchos miembros, pero se hallaban colocados en sitios importantísimos. Su meta esencial era salvar al marxismo. Primero quisieron enganchar a Alemania con la URSS, como había empezado a hacerlo el Tratado de Rapallo, y cuando vieron que esto no era posible empezaron a enviar secretos a Moscú para que derrotara a las tropas alemanas.
Dicho movimiento permaneció siempre con este claro propósito. Sus miembros no cambiaron jamás de actitud, ni en los años en que Alemania iba de triunfo en triunfo, ni cuando la victoria estaba cerca, ni cuando era factible lograr una paz ventajosa. Ellos luchaban por el marxismo, según lo reiteró después de la guerra Rudolf Roessler, el intermediario entre la Infiltración radicada en Alemania y el Alto Mando soviético.
Es importante distinguir que además de la Infiltración había un pequeño grupo cambiante de descontentos que no simpatizaban con Hitler, o que creían en otra línea política menos audaz, o que ante las grandes dificultades perdían la moral. Estos hombres no eran propiamente infiltrados, aunque el movimiento de infiltración los cultivó y los utilizó ocasionalmente para sus fines.
Estos últimos buscaban categóricamente la derrota de Alemania como un medio para erigir un nuevo Régimen que fuera adicto a Moscú. Eso mismo había ocurrido en Rusia en 1916-1917, cuando los comunistas encabezados por Lenin, Trotzki, Stalin, Kamenev, Zinoviev, querían la derrota de Rusia en la primero guerra mundial para que sobreviniera el caos y pudiera luego surgir un régimen marxista.
Por eso la Infiltración que operaba en Alemania maniobró para que Hitler no lograra la paz con occidente; saboteó el esfuerzo bélico; transmitió secretos a fin de hacer fracasar la lucha en diversos frentes occidentales y, finalmente, desde que se inició la invasión de la URSS, desplegó un esfuerzo supremo para ayudar de mil modos al Ejército Rojo.
Los generales Hammerstein, ex jefe del ejército y Ludwig Beck, ex jefe del Estado Mayor General, nunca aportaron una idea ni movieron un dedo a favor de la lucha que su país realizaba, pero sí estuvieron siempre conspirando para provocar un cataclismo interno. Canaris, Schacht, Hassell, Oster y otros más quizá cientos eran de la misma condición. 

[...] 

Heydrich desconfiaba, y más por intuición que por huellas concretas, pensaba que había una filtración en el Alto mando Alemán. Concretamente recelaba del almirante Canaris.
A principios de 1942 la Gestapo capturó a un tal Dr. Strassman, sospechoso, y se averiguó que tenía conexiones con dos empleados del general Oster, o sea el segundo de Canaris. Heydrich quiso continuar las investigaciones con sumo tacto, sin tocar por de pronto a Oster para no alertar a los posibles culpables y evitar que se "sumergieran".
También con sumo cuidado Heydrich estaba haciendo espiar a Canaris. ¿Desconfiar del almirante, que había realizado una carrera intachable y que había sido uno de los primeros partidarios de Hitler cuando este llegó al poder?... Parecía insensato, pero algo le decía a Heydrich que Canaris era falso, que realizaba un doble juego.
Canaris también hacia espiar a Heydrich. Por el general Nebe —infiltrado en la Gestapo— Canaris sabía que Heydrich recelaba de él.
En ese punto las huellas desaparecen (porque muchísimos de los pasos de los pasos de los conjurados no dejaron huellas), pero alguien pensó en un audaz golpe para matar a Heydrich, precisamente en esos días. ¿Fue Canaris? ¿Hizo saber a sus cómplices en el extranjero que estaba en gravísimo peligro y que él no podía liquidar a Heydrich porque enseñaría las manos?
Eso se ignora. Lo que sí se sabe a ciencia cierta es que el israelita J.E. Sireni, partidario de la URSS y radicado en Londres, aconsejó al "Inteligence Service" británico que arrojara un comando de paracaidistas judíos detrás de las líneas alemanas para matar a Heydrich. En efecto, a mediados de mayo un avión de la RAF arrojó en Checoslovaquia a Jan Kubis, Joseph Gabeik y otros varios.
Estos sabían que Heydrich se alojaba en una casa de campo cerca de Praga y que usaba un Mercedes descapotable para ir a su oficina de la capital checa. No llevaba escolta, iba uniformado y únicamente lo acompañaba su chofer. Lo acecharon en el camino y le arrojaron una bomba de manufactura inglesa.
Mortalmente herido, Heydrich sacó su pistola e hizo fuego, pero enseguida se desplomó moribundo y cinco días después falleció. [...] El asesinato de Heydrich fue, por dos años más, la salvación de los inminentes infiltrados.


Li anteriormente:
Derrota Mundial (1953)